Artigo 02 - Um Olhar Diferente Sobre Nietzsche

Surgido de uma brincadeira em uma comunidade do Orkut, o texto que se segue foi escrito por mim em março de 2007. A finalidade era a de apenas dar "marteladas" em Nietzsche, ou seja, era uma comunidade destinada a fazer com Nietzsche aquilo que ele muito fez com os outros: criticar.

Em tom descontraído, pouco cético e até sarcástico, contendo algumas afirmações ingênuas e conclusões forçadas, tentei fazer uma análise psicológica de Nietzsche abordando três aspectos chaves de seu pensamento: sua crítica ao cristianismo e à religião de um modo geral, o amor fati e o eterno retorno. Boa leitura!

 

UM OLHAR DIFERENTE SOBRE NIETZSCHE

EXÓRDIO

§1. - A flacidez descolorida: o encontro com a filosofia

Quando entrei na universidade para cursar Matemática, alguns meses depois comecei a frequentar com frequência a biblioteca. Lá, ia e vinha folheando alguns livros, até que um dia fui parar na seção de Filosofia. Peguei cada um dos livros disponíveis e li suas respectivas orelhas ou resumos; resolvi levar um de história da Filosofia, de Will Durant. Pelo que lembro, não tive tempo de lê-lo em casa, de sequer folheá-lo; um ou dois dias depois, então, quando ia para a universidade, resolvi abrir o livro em qualquer página para dar uma olhada: foi na parte dedicada a Schopenhauer que primeiro coloquei os olhos dentro daquele livro, e tive uma bela satisfação: lendo algumas ideias dele, principalmente algumas atinentes ao sofrimento, ao conhecimento e à sensibilidade, pela primeira vez em minha vida senti... o que senti? senti uma alegre alegria por encontrar alguém que tivesse ideias parecidas com as minhas, por não parecer tão só neste mundo - é que naquela época, eu andava tendo umas ideias que considerava estranhas e começava a me ver como um alguém anormal demais: eu imaginava, por exemplo, que existia uma forte relação entre o conhecimento e o sofrimento, mas jamais, fosse em revistas, jornais, livros, na mídia de um modo geral, enfim, jamais encontrei algum pensamento ao menos parecido com aquele.

Percebi então que Schopenhauer discorria sobre muitas questões com as quais eu "perdia" o meu tempo com reflexões: a mitigação da solidão e o encontro com alguém assim, que também tinha algo de interessante a me dizer, foi o bastante para que eu dirigisse os meus olhares para a Filosofia e me aproximasse muito dela: portanto, não foi por influência dos meus pais, dos colegas, da mídia, da cultura; não foi para desenvolver o senso crítico, para aprender a pensar, para ser mais culto: foi por amizade que me aproximei da Filosofia.

A partir daí, o meu mundo deixou de ser tão exíguo e se tornou amplo, porém sem mudanças em sua essência, ou seja, na verdade, ele não era de forma alguma pequeno, mas a minha época e sua flacidez sem cor fez com que ele parecesse assim, e foi a Filosofia que fez com que eu descobrisse isso, impedindo-me de isolar-me mais ainda de mim mesmo para tentar uma aproximação com os outros, os quais, naquele momento de descoberta e de alinhamento do eixo, se tornaram apenas e tão-somente os "outros".

§2. - Minha relação com Nietzsche

Ainda nessa época, li algumas coisas acerca de Nietzsche e fiquei com uma péssima impressão dele: não me interessei por sua filosofia por um bom tempo. Passado alguns meses, porém, resolvi ler alguma coisa dele, escrito por sua própria pena, e então levei para casa um livro da coleção Os pensadores. Foi nesse momento, especificamente nesse momento, que "aprendi" a não mais acreditar em todos os intérpretes e comentaristas de quaisquer espécies: a impressão que tive de Nietzsche foi bastante diversa daquela que adquiri inicialmente lendo os distorciaristas de sua filosofia.

Numa lida rápida do livro, assim como com Schopenhauer, já encontrei muitas ideias minhas ali escritas ou pelo menos algo parecido com elas. Interessou-me bastante, e esta foi a porta que permitiu com que eu realmente me aproximasse de Nietzsche, vindo a comprar vários de seus livros numa época posterior, um aforismo de Aurora, cujo título era algo como "Do conhecimento daquele que sofre" e onde Nietzsche expunha e sustenta a sua tese, idêntica a de Schopenhauer, de que existe uma poderosa relação entre o conhecimento e o sofrimento (na época, como já havia dito, eu tinha esse mesmo pensamento, mas depois mudei). Desse momento em diante comecei a comprar os livros de Nietzsche: adquiri primeiro A Gaia Ciência, cujo método de exposição me incitou a escrever o meu primeiro livro; e depois, os últimos livros que adquiri foram O Crepúsculo dos Ídolos e a Genealogia da Moral.

Quando da leitura do Crepúsculo dos Ídolos, fiquei, inicialmente, alegre, e, depois, um pouco entristecido: em alguns trechos, como por exemplo no capítulo intitulado Os Quatro Grandes Erros, encontrei muitas ideias idênticas às minhas e que, inclusive, já havia exposto no meu livro - a confusão do efeito com a causa; a ilusão de certas causas que aparecem em nossa consciência, mas que realmente não são as verdadeiras causas (quanto a isso, enquanto Nietzsche escreveu de uma forma genérica, eu escrevi algo parecido - pois nossas ideias não são exatamente as mesmas acerca disso -, porém me referindo essencialmente ao estado de depressão). Enfim, fiquei alegre por não estar a defender tais ideias sozinho, e triste por ver que algumas de minhas ideias já tinham sido pensadas por outro pensador (eu era pretensioso demais: agia como se muitos dos meus pensamentos jamais tivessem estado na mente de outra pessoa; aliás, é bom que se diga: qualquer pensamento que temos, de alguma forma, já foi pensado por alguém em outra época ou mundo).

Minha relação com Nietzsche, portanto e conquanto discorde de inúmeras ideias dele, tornou-se bastante próxima, isto não impedindo, no entanto, que eu viesse a escrever algumas críticas dirigidas para o nosso alemão.

§3. - Minha autoridade como analista

Uma pergunta que poderia ser feita, agora, era a seguinte: partindo do princípio de que ideias idênticas são frutos de reações idênticas, e de que estas, por sua vez, são frutos de uma natureza, personalidade e de vivências idênticas, isso me daria mais autoridade para analisar Nietzsche psicologicamente? Mesmo admitindo serem verdadeiras as suposições iniciais, a resposta mais sensata a dar seria mesmo o não.

No momento em que eu quis me admitir parecido com Nietzsche, pensei logo, quase dormindo e sem muita consciência, em duas questões básicas: primeiro, que a sua filosofia é altamente interpretativa; e segundo, que sempre tendemos a interpretar aquilo que é interpretativo à nossa maneira, de uma forma que nos convenha. Em virtude disso, não posso afirmar, por exemplo, que a teoria de Nietzsche sobre a determinação da consciência, ou melhor, sobre sua relação com a atividade instintiva tenha tido sua origem em experiências de grande variação de humor e alternância entre estados depressivos e saudáveis, como foi o que aconteceu comigo: não posso afirmar porque, de certa forma, sempre temos um desejo profundo de encontrarmos alguém parecido conosco e que seja bem-sucedido (no caso de Nietzsche, ele é considerado um dos maiores pensadores da história), isso me levando a imaginar que talvez eu esteja interpretando as ideias de Nietzsche de uma forma bastante diversa da interpretação que ele queria que fosse dada a tais ideias e criando causas imaginárias e muito longe das reais para elas. E mesmo que isso não fosse assim e admitindo novamente a veracidade das suposições do parágrafo anterior, ainda eu poderia dizer que conheço muito pouco de mim mesmo e que esse pouco conhecimento que tenho, mesmo sendo pouco, é algo duvidoso e confuso: não conhecendo a mim, como poderei conhecer um outro que é parecido comigo? Ademais, e para quase finalizar a questão, já percebi que muitas pessoas que são muitíssimas diferentes de mim se consideram muitíssimo próximas de Nietzsche, o que em alguns casos é bastante ridículo - alguns odeiam um cristão ou vários cristãos, por isso mesmo não gostam do cristianismo e então se acham próximos de Nietzsche; outros são solitários e odeiam a sociedade, lêem as considerações de Nietzsche sobre o "animal de rebanho" e então acham que são iguais a ele; outros, enfim, confundem o sol com a lua só porque os dois emitem luz.

Por outro lado e a despeito de tudo, talvez tudo isso não seja outra coisa senão uma grande ilusão e talvez eu realmente tenha mais autoridade para analisar e criticar Nietzsche do que muitos. Não obstante, deixemos as dúvidas para trás, até porque não são essenciais aqui.
 

§4. - O que tenho contra Nietzsche; epílogo da introdução

Antes que queiram insinuar que sou religioso ou mesmo cristão, digo-vos logo que não tenho nada de especial contra Nietzsche e que na verdade gosto muito dele: nem por isso, todavia, esperem endeusamentos de minha parte, até porque ele, assim como todos nós, era humano, demasiado humano, e, como tal, suas ideias e sua personalidade são sempre passíveis de análise e críticas.


- I -
Para uma análise psicológica de Nietzsche, primeira martelada

E que tal fazermos com Nietzsche o que ele tanto fez com os outros: olhá-lo e lê-lo nas entrelinhas?

"'Deus', 'imortalidade da alma', 'redenção', 'além', todos esses são conceitos que nunca levei em conta; nunca com eles sacrifiquei meu tempo, nem mesmo em criança... Para mim, o ateísmo não é nem uma conseqüência nem mesmo um fato novo: existe comigo por instinto". (Ecce Homo, II, 1).

O nosso autor não parece ser muito mais sincero do que muitos daqueles que criticou. Vejamos:

Li, certa vez (Will Durant), que Nietzsche, de alguma forma, era religioso quando criança, chegando mesmo a andar com a Bíblia por debaixo do braço pregando. Tal fato pode parecer falácia, mas se analisarmos algumas questões, veremos que não. O pai de Nietzsche era pastor protestante e, como todo filho tende a seguir o pai, seria absolutamente natural que Nietzsche seguisse, neste campo, os passos do pai - o que ele fez, chegando a iniciar seus estudos em teologia, mas desistindo depois e optando por filologia.

Ademais, mesmo prescindindo de uma leitura mais atenta, podemos perceber com não pouca nitidez, em muitos escritos do nosso filósofo, que ele não era de forma alguma leigo em termos de conhecimento da Bíblia, e mais: para fazer análises sobre algo, sobre o cristianismo, por exemplo, faz-se necessário que se tenha um conhecimento profundo acerca desse algo - daqui percebemos que Nietzsche não só tinha um bom conhecimento da Bíblia, mas ponderou bastante sobre ela.

"'Deus', 'imortalidade da alma', 'redenção', 'além', todos esses são conceitos que nunca levei em conta; nunca com eles sacrifiquei meu tempo, nem mesmo em criança..." - tal afirmação não só perde o sentido como ganha tons imprecisos, com máculas: torna-se mesmo falsa e mentirosa.

Mas ainda não é o bastante: continuemos, pois. O que pode levar uma pessoa a estudar com profundidade algo (falo do caso em que não sofremos imposições externas)? Será que o conhecimento que Nietzsche tinha da Bíblia foi adquirido apenas em sua idade tenra? Isso é possível; mas eis que isto não: as análises que ele faz da Bíblia, da moral cristã, devido primordialmente ao seu aprofundamento e maturidade, não podem de forma alguma ter se concretizado na infância ou adolescência. Portanto, as pesadas críticas que Nietzsche faz ao cristianismo é algo posterior, de sua fase adulta, o que corrobora mais ainda com a minha tese de que Nietzsche foi religioso em algum momento de sua vida.

Porém, a fundamentação ainda está pouco firme: analisemos outros fatos. É sabido que, depois que o pai de Nietzsche morreu, certa vez, ainda na infância ou pouco depois, ele teve um sonho: o seu pai se levantou do túmulo, entrou numa igreja e saiu dela carregando uma criança, levando-a para o túmulo consigo; pouco tempo depois desse sonho, o irmão de Nietzsche morreu. Como é natural, evidentemente, isso deve ter deixado profundas impressões em Nietzsche, certamente fazendo-o ponderar sobre muitas questões, como "Deus", "Imortalidade da alma", "além", o que nos atesta muitos dos seus escritos:

"Nas épocas de cultura tosca e primordial, os homens acreditavam conhecer no sonho um segundo mundo real... Sem o sonho, não teríamos achado motivo para uma divisão do mundo. Também a decomposição em corpo e alma se relaciona à antiqüíssima concepção do sonho... Portanto, a origem de toda crença nos espíritos... 'Os mortos continuam vivendo, porque aparecem em sonhos aos vivos': assim se raciocinava outrora..." (Humano, Demasiado Humano, 5).

"Coisas que ocorrem simultaneamente têm ligação, acredita-se. Um parente morre longe de nós, e ao mesmo tempo sonhamos com ele - portanto...” (Humano, Demasiado Humano, 255).

Dessa forma, vemos que Nietzsche não apenas pensou sobre tais questões, mas esteve em constante conflito com elas. E por que um tal conflito? Por que Nietzsche procurou a todo o instante negar qualquer tipo de transcendência, de mundo mágico, de alma, de Deus? Suspeito fortemente que uma das principais razões foi esta: como Nietzsche teve uma premonição e previu que seu irmão ia morrer, talvez ele se sentisse culpado pela morte do irmão por não ter conseguido impedi-la: negando que aquele sonho tenha sido uma premonição, um aviso, isto é, afirmando, mesmo que por impulsos inconscientes, que aquilo não passou de um sonho e nada mais, ou ainda e para me fazer mais claro, destruindo a religião e a metafísica, ele se eximia da culpa e de alguma forma superava aquele trauma do passado.

Portanto, fica-nos assim mais do que claro que, além de Nietzsche ter sacrificado bastante tempo com tais questões, o seu "ateísmo" de forma alguma existe com ele por “instinto”. E para fechar a questão e não haver mais dúvidas, citarei e interpretarei mais um trecho:

"Seja você como for, seja sua própria fonte de experiência! Livre-se do desgosto com seu ser, perdoe a seu próprio Eu... Não menospreze ter sido religioso... É preciso ter amado a religião e a arte como a mãe e a nutriz..." (Humano, Demasiado Humano, 292).

Não é preciso ser psicólogo para perceber que, aqui, Nietzsche fala dele mesmo. Atente-se ao "... perdoe a seu próprio Eu" (ou seja, ele está dizendo: "Senti-me culpado, mas estou tentando superar isso") e também ao "Não menospreze ter sido religioso..." (ou seja, o que ele diz é: "Eu fui religioso, de forma alguma eu sou ateu por instinto, porém não quero carregar mais essa culpa, preciso de algo que me ajude").


- II -
Para uma análise psicológica de Nietzsche, segunda martelada

 O amor fati:

"Desejo aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que sempre serei daqueles que tornam as coisas belas. Amor Fati (amor ao destino): seja assim, de agora em diante, o meu amor..." (A Gaia Ciência, 276).

"A minha fórmula para a grandeza do homem é amor fati: não se deve procurar outra diversa, quer no futuro ou no passado, nem mesmo para toda a eternidade. Não basta 'suportar' o que é necessário, e muito menos desprezá-lo - todo idealismo é uma mentira diante da necessidade; deve-se amá-lo..." (Ecce Homo, II, 10).

Que dizer do "amor ao destino" nietzscheano? Será isso possível? Será possível, não apenas suportar, mas amar o necessário? E Nietzsche: será que amou o seu destino?

Nietzsche pode ser visto como uma espécie de discípulo de Schopenahuer: sofreu muita influência dele e muitos temas dos quais tratou são derivados de sua filosofia - em alguns campos, é mesmo possível perceber que Nietzsche reafirma muitas das ideias do seu "mestre". Mas Schopenhauer era sobremodo pessimista, era um negador, pessoa insocial e melancólica que nunca conseguiu ver sentido na existência. Sendo assim, como Nietzsche, um pensador que pregou o amor fati, pôde ter sofrido tanta influência de Schopenhauer, chegando a chamá-lo de seu mestre e o elogiando tanto em sua fase inicial como pensador e ainda, mesmo depois de negá-lo, perscrutando tanto a sua filosofia pelo resto da vida? Uma resposta aparente nos é dada pelo próprio Nietzsche, que, em um determinado escrito, afirmou que ali, no Mundo Como Vontade e Representação, de Schopenhauer, encontrara uma descrição de sua própria natureza, e de uma forma grandiosa e com estilo aterrador (presumo que Nietzsche estava a falar do "gênio" de Schopenhauer, o qual é descrito em sua principal obra: para ele, o sofrimento de um ser vivo é proporcional à sua complexidade, sensibilidade e evolução: nas plantas, observa-se um grau de sofrimento muito pequeno; nos insetos, como são seres mais desenvolvidos e com sensibilidade maior, o sofrimento aumenta; nos animais, como possuem um sistema mais desenvolvido que o dos insetos, o sofrimento se acentua ainda mais; seguindo o raciocínio, o homem, dentre todos os animais, é o que mais sofre em virtude do seu avançado sistema nervoso e exagerada sensibilidade; e, da mesma forma, o mais distinto de todos os homens, o mais sensível, o que possui maior percepção, em uma palavra, o "gênio", é de todos os seres humanos o que mais sofre).

Entretanto, tal motivo de encantamento constitui-se apenas como algo aparente, ou melhor, como um motivo secundário: o que realmente possibilitou a criação e a nutrição dos laços entre Nietzsche e Schopenhauer foi o sentimento de cada um em relação à vida - ambos não viam sentido na existência, na vida. Schopenhauer negava tudo, dizia que a vontade era a substância e que onde existia vontade estava presente também a dor, o sofrimento, pois "vontade" também significa "falta", "necessidade": sendo a vontade a substância, isto é, estando presente em todos os lugares, então seria o sofrimento aquele que domina, que está em toda parte - "viver é sofrer", dizia Schopenhauer. E Nietzsche, o pensador que defendia o amor fati e que desprezava com tanta força os decadentes pessimistas (eram decadentes por serem pessimistas), era também um pessimista? O próprio Nietzsche confessou que o era:

"(...) Porque, note-se bem: foi precisamente nos anos da minha mais débil vitalidade que eu cessei de ser pessimista; a necessidade instintiva de restabelecer-me afastou-me da filosofia da miséria e do desânimo..." (Ecce Homo, I, 2).

Mas assim como no caso de minha primeira análise, é interessante escrutarmos a validade e sinceridade da afirmação "eu cessei de ser pessimista". Supondo que Nietzsche tivesse realmente deixado de ser pessimista, isso não ocorreu na infância e muito menos na adolescência (ou seria o contrário?): alguns dos seus escritos, datados de sua idade adulta, deixam transparecer explicitamente o seu pessimismo e desencanto em relação à vida. Portanto, se Nietzsche realmente deixou de ser pessimista, isso ocorreu em sua fase adulta, ou seja, justamente naquela fase onde as mudanças consideráveis no íntimo do homem ocorrem em menor quantidade e intensidade, e quando ocorrem (eis que já algo pesa contra Nietzsche). No entanto, sem sombra de dúvidas, é possível, conquanto difícil, que um homem maduro e já vivido deixe de ser pessimista. A grande questão que se nos apresenta agora é: será que isso ocorreu com Nietzsche? Sinceramente, não acredito que tenha ocorrido.

A questão é em muito delicada: quem lê Nietzsche, principalmente seus escritos da fase mais madura, não consegue encará-lo como um pessimista: são explícitas suas idéias de superação, super-homem; vê-se críticas aos "ressentidos" com a vida, aos pessimistas etc. Mas eu o vejo como uma espécie de pessimista, e mostrarei como podemos chegar a uma tal conclusão.

Inicialmente, quero esclarecer um ponto: estou lendo Nietzsche nas entrelinhas e analisarei se ele era pessimista, e não se os seus escritos o eram. Penso ser importante o esclarecimento disso, pois ao afirmarmos que Nietzsche era pessimista para alguém que é, por exemplo, especialista em sua filosofia, é capaz dele rir de nós e não nos entender, justamente porque ele desconhece a nossa perspectiva, ele desconhece que estamos falando de Nietzsche e não dos seus escritos; aliás, podemos até acusá-lo de desconhecer as próprias palavras de Nietzsche:

"Eu sou uma coisa; outra é minha obra" (Ecce Homo, III, 1).

Pois bem! Vamos em frente!

Os impulsos derivados da tristeza, da solidão, da ausência de alegria, enfim, a vontade de chorar e de se comunicar pode fazer com que um homem escreva - é quase um axioma para mim: as expressões conscientes advindas da cólera, da decepção, da raiva e do desânimo são mais verdadeiras, em termos de concordância intrínseca com o sentimento daquele que se expressa, do que aquelas oriundas da alegria e satisfação: enquanto estes últimos têm o que conservar (sua felicidade e satisfação), os primeiros podem ser mais sinceros, pois não têm o que conservar, sua situação não está boa, eles não têm o que perder. Dessa forma, considero autêntica a afirmação de que, se alguns escritos de Nietzsche eram pessimistas, é porque, no momento em que ele escreveu, ele estava comunicando algo do seu íntimo, ou seja, existia uma identidade entre Nietzsche e seu escrito, ou ainda, podemos considerar aquele escrito como uma expressão do seu próprio Eu: o próprio Nietzsche, e não apenas o seu escrito, estava sendo pessimista.

Mas os escritos de Nietzsche foram mudando, foram ganhando novos contornos: iam deixando o desânimo de lado. Resta saber se tal mudança estava ocorrendo em Nietzsche e nos seus escritos ou apenas nestes últimos. Para respondermos a isso, devemos considerar duas coisas: primeiro, as concepções firmes que Nietzsche tinha acerca da força, da virilidade etc.; e segundo, em que se transformaram os escritos de Nietzsche.

As concepções de Nietzsche sobre força, sobre vontade de poder, possivelmente já o acompanhavam desde a infância (segundo Will Durant, que teorizou isso a partir de certos comportamentos de Nietzsche na infância), vindo a ganhar profundidade e fundamentos teóricos em sua idade adulta - e mesmo que Nietzsche não manifestasse uma certa fascinação pela força, pelos guerreiros já na infância, não seria difícil concluir que tal característica o acompanhava desde a idade mais tenra: em seus escritos, nota-se o quanto ele valorizava isso, o quanto isso estava arraigado nele.

E quanto aos seus escritos? Quanto mais o tempo passava, eles se tornavam mais secos e ríspidos, mais duros, mais críticos, vergonhosamente críticos: criticavam pessoas, ideias, os homens, as mulheres, os alemães, a religião, os filósofos, o mundo! E qual a causa disso: bom, alguém poderia dizer que Nietzsche, com a idade, foi ficando azedo, extremamente ressentido com a vida: era infeliz e carregado de ódio, passando por isso mesmo à posição de ataque. Esta seria uma boa explicação, mas, pelo que percebo, deixa de considerar um outro ponto sumamente importante: o pessimismo de Nietzsche.

A grande crítica, o ataque audaz e exagerado, longe de ser construtivo, trata-se de uma forma de negação - é uma maneira de se dizer que "nada presta", que na vida "nada vale a pena". A crítica densa, portanto, a crítica nietzscheana não é outra coisa senão uma espécie de pessimismo: em virtude de suas concepções de "força" e "fraqueza", que afloraram fortemente em determinada época de sua vida, Nietzsche tentou deixar o pessimismo para trás, mudando o teor de seus escritos e tornando-os aparentemente pouco pessimistas (apenas aparentemente); porém, ao os considerarmos dessa forma, isto é, como o frustrante resultado da inútil tentativa de um homem de se corrigir, de deixar de ser o que era por ter vergonha disso e por ter necessidade de se pôr em melhor conformidade com muitas de suas idEias que desde a infância o acompanhava, além, claro, como um resultado do seu ódio crescente contra si mesmo e contra a humanidade, podemos perceber que Nietzsche sempre foi pessimista, embora ele tenha conseguido mascarar os seus escritos, pintando-os de tal forma a esconder a sua decepção com a vida.

Agora, fixemos o nosso olhar com mais esmero no amor fati. É possível que consigamos amar o destino, qualquer destino que se nos apresente? Farei a pergunta novamente: é possível um ser vivo não só afirmar e admitir o necessário, mas, e sobretudo, amá-lo? É óbvio que isso não passa de uma aspiração infantil, um delírio, por assim dizer: só poderíamos conseguir isso se tivéssemos, além de outras coisas que não estão no nosso poder, a capacidade de amar, ao mesmo tempo, aquilo que temos ódio, e o ódio ainda precisaria ser extirpado imediatamente por esse amor. Todavia, quem sabe?, talvez Nietzsche fosse diferente, fosse um super-homem, um além-homem - pergunto novamente: será que Nietzsche amou o seu destino? A resposta já foi dada, até porque acabei de dar fortes indícios de que Nietzsche foi e sempre foi pessimista. Não obstante, só para confirmar, analisemos mais alguns escritos do nosso "super-homem":

"Deixando à parte as exigências da religião, é lícito perguntar: por que seria mais louvável para um homem envelhecido... Esperar seu lento esgotamento e dissolução, em vez de, em clara consciência, fixar um termo para si? Neste caso, o suicídio é uma ação perfeitamente natural e próxima, que, sendo uma vitória da razão, deveria suscitar respeito..." (Humano, Demasiado Humano, 80).

"O doente é um parasita da sociedade. Quando chega a certo estado, é inconveniente viver mais tempo. A obstinação em vegetar covardemente... Depois que já se perdeu o sentido da vida, o direito à vida, deveria inspirar à sociedade um desprezo profundo... Morrer altivamente quando já não é possível viver altivamente" (Crepúsculo dos Ídolos, Passatempos Inatuais, 36).

Seriam estas as palavras de alguém que ama o seu destino? Não fica bastante explícito que tais escritos nos dizem que Nietzsche contemplava com certa insistência o suicídio? (o fazia de forma disfarçada, falando sobre os doentes e sobre a morte voluntária: tinha vergonha de dizer "Eu penso em me matar", e então dizia: "Vejam: o suicídio não é tão vergonhoso assim"). E nem se poderia objetar a isso dizendo que na época de Humano, Demasiado Humano Nietzsche estava apenas passando por uma crise passageira, pois vemos o mesmo discurso no Crepúsculo dos Ídolos, ou seja, um escrito bem posterior.

Portanto, o amor fati não passa de um idealismo, de uma fuga da realidade - a própria exaltação do "super-homem", isto é, daquele que consegue transmutar todos os valores, não passa de uma atitude infantil: nenhum ser humano pode viver em total desacordo com os regimentos éticos de uma determinada sociedade sem se sentir culpado e fracassado, nem mesmo o sociopata.


- III -
Para uma análise psicológica de Nietzsche, terceira martelada

 O Eterno Retorno:

"A medida da força total é determinada, não é nada de 'infinito'... Por conseguinte, o número das situações, alterações, combinações e desenvolvimentos dessa força... também é determinado e não infinito. O tempo, sim, em que o todo exerce sua força, é infinito, isto é, a força é eternamente igual e eternamente ativa: até este instante já transcorreu uma infinidade, isto é, é necessário que todos os desenvolvimentos possíveis já tenham estado aí. Disso decorre que o desenvolvimento deste instante tem de ser uma repetição, e também o que o gerou e o que nasce dele, e assim por diante, para a frente e para trás!" (Texto de 1881).

Mas, então, vejam só: o grande crítico dos sistemas, da metafísica, o anunciador da "morte de deus", isto é, de todos os sistemas metafísicos, também tem o seu sistema! Que pensar disso? O martelo de Nietzsche está se movendo perigosamente por cima de sua cabeça!

Para entendermos o posicionamento de Nietzsche e a sua, por assim dizer e já com boa tolerância, incoerência, basta observarmos alguns dos seus escritos:

"Do mesmo modo que o ato de nascer não influi no conjunto do processo da hereditariedade, tampouco o fato da 'consciência' se opõe de qualquer modo decisivo ao instinto. Quase todo pensamento consciente num filósofo é dirigido secretamente pelos seus instintos e forçado a seguir determinado caminho" (Para Além do Bem e do Mal, Cap. I, 3).

Será que o nosso filósofo está a se justificar? Bom, isso não tem tanta importância assim: o que importa agora é a sentença, que será dada pelo próprio Nietzsche:

"O que provoca a se olhar metade dos filósofos com desconfiança e a outra metade com ironia, não é darmo-nos permanentemente conta de como são ingênuos, como erram e como se desnorteiam com facilidade. Diria que frequentemente não é, enfim, a sua infantilidade e ingenuidade em suma, mas a sua pouca honestidade... Todos fingem ter descoberto e alcançado as suas verdadeiras opiniões pelo desenvolvimento de uma dialética fria, pura e divinamente despreocupada - dessa forma se distinguindo dos místicos de toda espécie que, mais honestos... falam em 'inspiração'. No fundo, são eles quem defendem com argumentos posteriores uma tese pré-adotada..." (Para Além do Bem e do Mal, Cap. I, 5).

Portanto, Nietzsche acusa-se a si mesmo de desonestidade, embora, talvez, sem muita consciência disso. Mas em relação à psicologia dele, o que isso tudo tem a nos dizer? Diz simplesmente que ele era arrebatado constantemente por instintos e paixões, onde podemos incluir inclusive crises depressivas. Por exemplo, será que ele chegou à tese de que a atividade consciente não está separada da atividade instintiva apenas observando e lendo nas entrelinhas os outros pensadores? É evidente que não: para qualquer pensador, a medida de quase tudo e a grande fonte de conhecimentos é o seu próprio eu, a sua experiência interna. Dessa forma, devido à sua grande inconstância, às suas repentinas mudanças de humor e à própria necessidade que se lhe apresentou exigindo que ele fosse desonesto (defender uma tese metafísica para manter uma ideia brilhante que teve enquanto critica todas as outras teses metafísicas dos outros pensadores), foi que Nietzsche percebeu o quão frágil é a nossa consciência, desenvolvendo a sua teoria e se justificando, ou quase isso, ao mesmo tempo.

O martelo de Nietzsche incidiu sobre o próprio Nietzsche.

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