Artigo 04 - Para Uma Contribuição ao Ceticismo

Pequeno ensaio escrito em novembro de 2007.

 

PARA UMA CONTRIBUIÇÃO AO CETICISMO

Algumas respostas, mesmo já sendo procuradas há centenas de anos, ainda não foram encontradas. As perguntas: "existe a liberdade? Em um dado momento do tempo, houve o nada, ou a natureza é eterna, ou é alguma outra coisa? Existe um deus que é distinto do universo? O universo é infinito?" continuam sem resposta. Uma maneira de justificar isso é afirmando que a compreensão humana é limitada, ou ainda, de forma mais elaborada e não admitindo a possibilidade de êxito, afirmando que, como apenas faço parte da natureza, então nunca poderei realmente saber o que ela é (de forma idêntica, poderei sustentar que nunca saberei o que venha a ser a minha consciência, pois tal resposta deveria ser dada pela própria consciência). No entanto, esta última reflexão abre o caminho para uma outra reflexão e a deixa em plena evidência: se é impossível darmos uma resposta a essas perguntas, isto significa que, na verdade, elas não são perguntas, mas um caminho inadequado pelo qual adentramos.

O grande problema que se coloca agora é: o que significa esse caminho? Que caminho foi esse? Por que ele teve que existir? Poderia ter sido de outra forma? E se o ser humano foi alguma coisa que não deu certo? Um erro? Um efeito colateral? Um bug?

Mesmo admitindo a possibilidade de que poderá ter havido um erro considerável na construção do nosso mundo interior, construção esta realizada por nós mesmos e pela natureza, existe uma outra explicação para isso, uma outra forma de tentar elucidar o que tenha sido (ou o que é) este caminho: não foi um desvio, nem uma ilusão, tampouco uma construção equivocada - foi uma, como direi? "escolha" arquitetural, e todos os supostos problemas que emanam desse modelo têm sua razão de ser em uma espécie de incompatibilidade, ou em algo que poderia denominar de "fora de posição". Assim, por exemplo, o questionamento "O universo é infinito e é tudo o que há?" é incompatível com o mundo humano, está fora de posição, pois o nosso mundo, isto é, a nossa linguagem, a forma como pensamos, a nossa lógica, o nosso jeito epistêmico de ser, o nosso estado orgânico etc., não admite tais questionamentos: trata-se de um mundo fechado tentando encontrar respostas para questões que, talvez, só podem ser encontradas por um mundo aberto (supondo que este último possa existir) ou mesmo por um outro mundo fechado no qual tais questionamentos se encaixem (o mundo criado por uma nação de alienígenas, por exemplo, que pense de forma diferente, que tenha outros valores, e no qual é manifesto uma forma de percepção completamente distinta da nossa). Os únicos problemas que podemos responder são aqueles que estão encaixados no nosso mundo: pois só assim podemos dar uma resposta, e à nossa maneira, ou seja, de acordo com a nossa interpretação de tudo o que é. Evidentemente, em alguma época, ainda é possível que se consiga responder, também à nossa maneira, todos esses questionamentos - eu só espero que, se acaso isso ocorra, as pessoas da época não se encham de orgulho e digam: "Finalmente, encontramos a verdade!", pois aí também teríamos uma outra incompatibilidade.

Finalmente: por que tudo tem que ser assim? Ao sermos obrigados a viver a nossa vida inteira em uma casa no interior de um país (modelo arquitetural), não podemos responder a pergunta: "Qual a sensação de se caminhar na areia da praia em uma bela tarde na qual o pôr-do-sol se mostra exuberante e encantador?" (pergunta fora de posição e incompatível com o modelo): qual o porquê da existência de uma estrutura dessas? Chegando aqui, eu paro a minha caminhada: a minha "fé" não permite que eu continue caminhando para mais adiante.