Capítulo I - Da Imensidão do Universo

 

    Não acredito que nossa intuição falhe nesse ponto: o universo é ilimitado e infinito. São grandes os labirintos que emperram-nos o caminhar seguro quando avançamos pela metafísica: uma diversidade formidável de dificuldades surge à nossa frente sempre que pretendemos ir um pouco mais adiante, é como se alguém tentasse impedir o nosso prosseguimento, obstar-nos por receio de vermos algo que não nos pode ser mostrado: ficamos desalentados e pensamos cabisbaixos: "Já cheguei onde podia ter chego, a partir daqui falta-me faculdades para continuar caminhando". Muitos dizem que a partir de um certo momento é preciso ter fé, pois a razão não consegue penetrar em determinados mundos. Será isso mesmo verdade? Acredito que sim. Porém, não no que quero mostrar.

    É pouco sábio esperar que podemos conhecer a tudo através de meras deduções e raciocínios que, se despidos da experiência e da intuição, não são campos tão férteis como alguns costumam supor: se a razão não consegue nos dar uma determinada resposta, procuremos por ela utilizando-nos de outros instrumentos aliados à razão. Kant, em seus conflitos das ideias transcendentais, mostrou-nos, através de seus raciocínios a priori, que pode-se provar que o universo é e não é limitado no espaço e no tempo ao mesmo tempo, isto é, afirmou algo e provou, depois afirmou o contrário e provou novamente. Ele utilizou-se simplesmente da razão, e reconheço que se nós fizermos dela o nosso único meio de transporte, é provável que não atinjamos grandes distâncias. Recorramos, então, à experiência e à ciência. Esta primeira dá-nos a entender que nada surge do nada; olhemos para as plantas: estas não surgem simplesmente das sementes, mas existe todo um processo que proporciona o surgimento daquele vegetal: ele não aparece do nada, mas toda a sua constituição já existia antes, não daquela forma, e sim de uma outra; a experiência nos ensina também que nada pode ser aniquilado, eu pelo menos já mais vi alguma coisa desaparecer sem mais nem menos e sou portador de uma forte convicção de que o leitor também nunca presenciou tal acontecimento. No entanto, não passamos de besouros no meio de um grande jardim: existem lugares que jamais poderemos ir, existem coisas que jamais poderemos ver, ou seja, a nossa singela experiência diária não pode servir como base forte para sustentar a afirmação de que no universo nada se perde e nada se cria; seria preciso validar esta experiência, que dista do incomum, para transformá-la em um argumento mais contundente e convincente: a ciência passou a dizer o mesmo e corroborou com a nossa experiência (ou será o contrário?), dando-lhe alicerces fortes e resistentes, pois mostrou através de inúmeras experiências que tudo apenas se transforma.

            Ora, se tudo apenas se transforma, então nada é realmente criado ou destruído, ou, em outras palavras, o universo é atemporal, isto é, eterno: ele não foi criado e nem será destruído, ele simplesmente é. Concluímos ainda que ele deve ser ilimitado em todos os sentidos, pois algo que é limitado pode ser destruído, já que a limitação implica coisa externa e coisa externa implica risco ou possibilidade de destruição.