Capítulo II - A Divisão do Imenso

 

    Pelo que foi dito no capítulo anterior, não podemos negar a infinidade do universo, isto é, o universo é formado por uma infinidade de corpos que se expandem infinitamente através do espaço.

    Os corpos comumente são tidos como coisas extensas: a extensão é uma de suas propriedades fundamentais, por isso é percebida por todos, sem o menor grau de dificuldade. Como o universo é infinito no espaço e todos os corpos que o constituem são extensos, então a extensão referente ao universo não pode ser considerada senão como algo infinito. Doravante, chamarei essa extensão infinita concernente ao universo de propriedade extensiva, ou seja, propriedade extensiva é o conceito de extensão sendo aplicado ao todo, isto é, ao universo.

    Além da extensão, alguns corpos apresentam uma outra propriedade que dista da irrelevância: o sentir. O corpo humano é um belo exemplo disso e é desnecessário apresentar argumentos para sustentar tal afirmação. Porém, o corpo humano não surgiu do nada: ele é fruto de uma transformação ampla e complexa pela qual foi submetida um outro tipo de entidade substancial, ou melhor, várias entidades substanciais transformaram-se ao longo de um determinado tempo até apresentarem-se como um determinado corpo humano; não obstante, comumente, tais entidades substanciais não são vistas como um algo que sente e, malgrado as pessoas saberem que a matéria orgânica advém da inorgânica, elas não atribuem a estas segundas a propriedade do sentir, mas às primeiras, sim, principalmente quando inquirimo-las a respeito de seres vivos mais idênticos ao homem: um cão, por exemplo, é tido como um ser que sente, e assim ocorre porque um cão manifesta profundas identidades com o homem, e o homem só sabe que existe o sentir porque é homem, ou, em outras palavras, o homem percebe o sentir em si mesmo e com isso, facilmente, pode atribuí-lo a seres que se assemelhem a ele: mate-se um cão e muitos seres humanos ficarão tristes, pois sentirão a perca de um ser que sente, um ser parecido com ele; mate-se uma barata: não haverá a menor comoção entre os homens, porquanto estes julgam que uma barata sente em bem menor grau ou simplesmente não sentem: a dessemelhança entre a barata e o homem faz com que ele tenha tal impressão. Mas uma barata ainda é um ser vivo que ostenta algumas características não muito distintas das humanas: come, movimenta-se, etc., e é precisamente por isso que muitos ainda conseguem enxergar uma barata como um ser sensitivo, isto é, um ser que sente. Agora, pergunte-se aos homens se uma planta sente: raros serão os que dirão que sim, e o motivo é o exposto acima; da mesma forma, uma pedra ou um pedaço de pau são vistos pelo homem como seres que apresentam apenas a extensão: a visível diferença entre eles e o próprio homem suscita neste último uma falsa ideia e uma sincera impressão de que aquela pedra ou aquele pedaço de madeira não apresentam o menor grau de sensibilidade.

    Digo que se trata de uma falsa ideia ou de uma percepção equivocada porque, como disse acima, o corpo humano tem como origem a matéria inorgânica, mas penso ser muito pouco plausível e até absurdo sustentar que o sentir humano é oriundo de meras combinações químicas entre as substâncias que formam o nosso corpo, antes é preferível e até correto sustentar que o sentir também é uma propriedade da matéria inorgânica, assim como o é a extensão. Como poderia algo imaterial se originar de coisas físicas? O bom-senso insiste conosco e nos diz que para essa pergunta inexiste uma resposta afirmativa. Sendo assim, não vejo o que possa obstar a afirmação de que a sensibilidade seja uma das propriedades da matéria, ou seja, qualquer corpo sente à sua maneira e toda e qualquer substância corporal também é uma substância imaterial.

    Se o universo possui uma infinidade de corpos extensos, e estes, além da extensão, apresentam como propriedade a imaterialidade ou o sentir, então, analogamente ao caso da extensão, o sentir referente ao universo deve ser considerado como algo infinito: chamarei a esse sentir infinito de propriedade sensitiva.