Capítulo III - Da Depressão

 

3.1. A doença em si

A depressão é vista como um distúrbio químico, um desequilíbrio na nossa parte química que nos causa a sensação de bem-estar. A sua expressão mais conhecida é a tristeza e a melancolia, expressões das quais tratarei no presente escrito: abandono outros efeitos da depressão, que, talvez, por uma falta de conhecimento e por causa do abuso de termos, nem sejam causados pela depressão, porém já se tratam de outras doenças.

3.2. A respeito da tristeza

A experiência nos diz que a tristeza humana se refere à alma (chamo de alma toda a parte imaterial do homem) e também ao corpo: no caso da alma, todos concordam comigo, pois sentimos quando estamos tristes; todavia, se se disser a alguém que o seu corpo está triste, não sei se ele perceberia algum sentido nessa afirmação, mas não por incapacidade e sim porque as pessoas possuem um conhecimento intuitivo acertado a respeito da relação corpo e alma: não é coerente separarmos ambos, já que ambos são idênticos (o que mostrarei com mais detalhes mais adiante). Entretanto, alterações do corpo podem causar medo, tristeza, etc. (a depressão é uma prova cabal disso), ou seja, quando nos sentimos tristes, o corpo também se altera: chamarei a tristeza que se refere à alma de tristeza sensível, e direi que as alterações que o corpo sofre quando um indivíduo entra em estado de tristeza caracterizam-se como a tristeza corporal, noutros termos, a tristeza corporal é o estado do corpo que propiciou a tristeza no indivíduo: chamarei a essa tristeza de tristeza extensiva, isto é, a tristeza quando se refere ao corpo.

3.3. Algumas palavras a respeito da solidão

A solidão é muito comum nos indivíduos deprimidos. Pode-se dizer que ela caracteriza-se como um sentimento vazio, que não é agradável, ou seja, a solidão é uma espécie de tristeza na qual não percebemos um sentido propriamente dito, ela nos é estranha, é como algo que não deveria ser, mas é. Mais adiante, entrarei mais intensamente na exploração da solidão, por enquanto, quero apenas dizer o que entendo por solidão: chamo de solidão a uma tristeza cujo sentido nos é desconhecido.

3.4. O sentido de viver

Sempre que falamos em sentido de viver, estamos, na verdade, falando da própria vida ter um significado positivo para nós: se a vida em toda a sua amplitude deixa de apresentar um significado positivo para nós, então deixamos de ver um sentido na vida. Esse significado positivo deve vir e vem da alegria: ela é o que há de mais positivo na nossa existência, procuramo-la por todas as partes, consciente e inconscientemente, e se por algum motivo passamos a não mais encontrá-la, a nossa vontade de viver vai abrandando, atenuando e enfraquecendo até quando não passamos mais a ver um sentido real nas coisas.

A despeito disso, causa estranhamento em muitos o fato de que, por exemplo, uma pessoa que é submetida a infindáveis suplícios demonstre uma vontade mais intensa de viver do que uma outra que, muitas vezes, aparentemente, possui uma vida satisfatória. Mas eis que não sem facilidade pode-se explicar isso: a alegria não vem das coisas exteriores e não depende diretamente destas: ela manifesta-se do interior para o exterior, ou seja, as coisas em si mesmas não são boas ou ruins, mas nós é que fazemos com que elas sejam. Quando uma pessoa passa por inúmeros suplícios e mesmo assim resiste firmemente, é porque possui uma grande alegria dentro de si, e é dessa alegria que emana a vontade de viver. Do outro lado, temos aqueles que vivem a maldizer a vida, e muitas vezes não conseguimos perceber um motivo clarividente que possa justificar tal comportamento: todavia, para tudo existe um motivo: tais pessoas podem estar contemplando o mundo e a si mesmas com muita tristeza, uma tristeza que instalou-se vagarosamente nelas e que, agora, imiscui-se em todo o seu sentir interior e exterior. Mas, replicam-me: e por que naquelas primeiras não existe uma tristeza assim, já que elas sofreram tanto? Respondo dizendo, primeiro, que cada pessoa nasce com características únicas e diferenciadas uma das outras: uma nasce e será mais alta do que outra, já outra terá os cabelos mais escuros, e da mesma forma, uma será mais alegre ou mais triste do que a outra: tais diferenças são coisas naturais que devem ser aceitas. Em segundo lugar, e é isso que quero que se note, um sentido na vida ou uma vontade de viver fraca vem do fato de contemplarmos tudo com tristeza, ou, como afirmei anteriormente, se a vida em toda a sua amplitude deixa de ter um significado positivo: compreendemos assim que, mesmo que uma pessoa sofra muito, a sua tristeza pode muito bem se manifestar apenas em determinados pontos de sua vida e não na sua totalidade, isto é, ela sempre irá encontrar um significado na vida, porquanto muitos pontos da sua vida ainda lhe trazem alegria. Por outro lado, o mesmo não ocorre com aquele cuja tristeza faz-se presente em todos os setores de sua vida: como nada lhe dá alegria, ele vai perdendo aos poucos a vontade de viver.