Capítulo 01 - Apenas uma história: a infância na escola

— I —

Minha história como ser humano realmente se inicia em 1982, quando do meu nascimento. De lá para cá infinitas coisas aconteceram, e pretendo contar algumas delas.

Sou o mais novo de três homens. Meus pais vieram do interior: um do Piauí e o outro do Ceará. Meu pai era comerciante e trabalhava com venda ambulante de cidade em cidade. Dependendo das necessidades, poderia sair de um estado para outro em busca de melhores condições. Já morou e trabalhou em diversos lugares, vindo a ser vendedor, dentre outros lugares, no Rio Grande do Sul e em Natal. Desta última cidade, saiu e veio para cá, para a Paraíba, onde eu nasci e vivo ainda hoje.

Minha infância foi razoavelmente boa. Em termos materiais nunca me faltou nada, e jamais passei qualquer tipo de necessidade nesse campo. Quanto ao outro lado, meus pais quase sempre me tratavam bem. Minha mãe sempre foi mais próxima, e meu pai bem mais afastado, como se não soubesse o que é ser pai — típico de quem nunca teve pai —. Porém, malgrado esse distanciamento, aprendi muitas coisas com meu pai, como a ter caráter, por exemplo, e isso sem praticamente ensinamento explícito algum por parte dele. De certa forma, por isso, sou grato a ele. Já de minha mãe, não apenas na infância, mas ainda hoje sou bastante próximo.

Já em referência aos meus irmãos, coisa estranha! Nunca mantive relações profundas com eles. Do meu irmão do meio disto consideravelmente no que se refere a características da personalidade. Vivíamos brigando e tendo desentendimentos incessantes. Apanhava bastante dele, embora fossem mais surras de brincadeira e coisa leve. Fisicamente, ele sempre foi mais forte que eu, e isso, claro, fez com que eu procurasse outros meios de superá-lo, embora não mantivesse constante preocupação com ele. Do meu irmão mais velho, por outro lado, era bem mais próximo, mas devido a alguns desentendimentos nos afastamos, por fim.

— II —

Fui para a escola pela primeira vez com seis anos. Era uma escolinha particular pertinho de minha casa. Iniciei no que se chamava alfabetização — naquela época não existia os “jardins”.

Tínhamos uma professora apenas, que sempre chamávamos de tia. Lembro de muita pouca coisa dessa época: apenas que brincávamos muito e que tinha muitas atividades em grupo e outras cuja interatividade era sempre presente. Pelo que percebo e pelo que sinto hoje, a minha alfabetização e primeira série (que também fiz com a mesma professora e no mesmo lugar) foram muito bem feitas, e digo isso primordialmente pelo seguinte: as primeiras séries, acima de tudo, devem estar organizadas de maneira tal que as crianças se sintam acolhidas naquele novo mundo que se lhes apresenta, e para isso não deixa de ser prescindível uma forte instigação à interação entre as crianças e atos de solidariedade e carinho dos professores para com as mesmas. Lembro até de uma época em que quebrei o braço direito; minha professora então, sempre que eu tinha que escrever, vinha até meu canto e segurava na minha mão esquerda para escrevermos juntos: jamais me esqueci disso! Ainda hoje, quando vejo essa professora na rua, uma doce alegria se insinua...

Terminada a primeira série, mudei de colégio. Desta nova etapa, contudo, as lembranças fazem-se escassas, e apenas tenho algumas reminiscências um pouco vagas de minha passagem pela segunda, terceira e quarta séries. Os professores eram outros, aliás, tínhamos “professoras” ao invés de uma professora apenas — uma nova metodologia nos era imposta. Nela, as atividades individuais passaram a ganhar mais relevância em relação às séries anteriores, e tentava-se desfazer sempre os grupinhos de conversa; havia também entre as professoras uma partição maior das disciplinas, não ficando a cargo de uma apenas dar todo o conteúdo. No que diz respeito ao lado humano das professoras, também aqui carrego boas lembranças delas: algumas eram mesmo como mães... O grande ponto negativo dessa época, pelo que lembro, era o ambiente escolar desenvolvido pelos alunos: essa escola se chamava Heleno Henrique, ficava perto de minha casa, porém um outro bairro, que também era vizinho seu, era muito pobre e violento, e existia muitas, como direi?, crianças-delinqüentes estudando lá. Dessa maneira, a escola era dividida em grupos e muitas vezes havia choques e embates entre esses grupos. Em certos dias, eu mesmo ficava ávido para sair logo dali.

— III —

Vivida essas primeiras séries sem grandes dificuldades, mudei de colégio novamente e fui para a quinta série, agora na rede estadual de ensino. Era um colégio de dimensões maiores do que outros em que estudei: tinha mais alunos, mais professores, mais bagunça, mais desorganização, enfim, o mundo crescia. Nele, desenvolvi alguns laços de amizades fortes com um ou dois alunos e andava sempre com um grupinho (nas séries anteriores, eu era um pouco solitário). Havendo raras atividades em grupo e com muitas aulas expositivas, o método de ensino tornou-se mais “tradicional”. Lembro-me com muito bom sentimento de apenas dois professores: o professor de português e a professora de ciências. O primeiro fazia uma aula diferente, com muita participação da turma e descontração em sala de aula; seu único problema é que às vezes perdia a paciência; todavia, foi ele quem primeiro, na escola, incentivou-me a escrever: passava muitas redações para fazermos em casa e nas aulas comentava cada uma delas, dizendo os pontos positivos e negativos (ah! Se os professores universitários pelo menos lessem o que seus alunos escrevem!); por várias vezes a minha redação foi escolhida a melhor, e o professor fazia sempre questão, se o aluno premiado permitisse, de ler a melhor para a turma inteira. A segunda professora, a de ciências, era odiada por muitos. Acho que estudei com ela na sexta série, pois quando o fiz já sabia de antemão de sua fama: “A professora de ciências se chama Solange, é aquela que ‘anda sem pisar no chão e com o nariz apontado para o céu’”. Era extrema e absurdamente bonita, encantadora. Na primeira aula que tive com ela, sem muita perca de tempo, já começou a pegar no meu pé; apesar disso e de ter sofrido muito depois por causa de professores que não me deixavam em paz, eu gostei de Solange: ela sempre me desafiava, dizia-me: “Essa atividade que passei para casa é difícil; quero ver se você consegue fazê-la”; nas aulas posteriores, como muitas vezes não conseguia mesmo fazer a atividade, ela vinha até a minha carteira, agachava-se e me ensinava, sempre com muita delicadeza e carinho, como nenhum outro professor teve e teria comigo. O mais interessante em Solange é que ela sempre me desafiava com um tom arrogante e até indiferente, mas depois, quando vinha para me ensinar, trazia um carinho e um olhar tão especiais que eu tinha vontade de me jogar nos seus braços e beijá-la, ou talvez até mesmo chorar quando eu estava triste.

Além desses dois professores, lembro-me de uma professora de matemática, da qual não sei se trago boas lembranças, mas que foi importante em certo sentido. Assim como Solange, marcava-me, mas de uma forma diferente: dava aulas sem retirar os olhos de mim e assim excluía o restante da turma. Porém sua verdadeira importância para mim está aqui: ela me mostrou, pela primeira vez, que você pode ser um professor de matemática e não ser triste e nem ter o semblante carregado; ela era muito diferente, era alegre, jovial, andava numa moto grande e preta, parecia uma roqueira sempre falando com gírias e trajando roupas escuras e tal; tinha um espírito jovem.

— IV —

Se bem me lembro, estudei até a sétima série no colégio da rede estadual do meu bairro. Terminado esse período, parti para uma escola particular religiosa, onde concluí o restante do Ensino Fundamental e o Ensino Médio.

Aquela foi uma nova e importante etapa da minha formação escolar, pois firmava-se o restante do desenvolvimento da educação formal a qual tinha sido submetido. Na minha vida, também foi um período importante, muito importante, e por várias razões. Mas falemos primeiro dos métodos de ensino.

Em relação à rede estadual, não notei senão diferenças sutis naquele novo ambiente e nos próprios professores. A principal diferença era que os professores eram mais “preocupados” com os alunos, ou seja, tínhamos mais voz na escola e passávamos com mais facilidade. As atividades em grupo também não eram bem vistas pelo colégio, e as aulas expositivas eram tantas que a muitos enfastiava. Basicamente, pode-se dizer que era um colégio da linha tradicional, e muitos fatores confluíam para isso, desde as características dos professores até o sistema de idéias arcaicas do diretor, que era um frei. Assim, percebia-se nitidamente que o colégio era tradicionalista não porque ele tinha ficado no atraso ou porque faltaram investimentos mas porque ele queria ser assim, a sua concepção era aquela mesma, ele tinha que ser daquela forma, pois, em caso contrário, estaria contrariando muitos dos seus próprios pressupostos básicos.

Tratava-se de uma escola religiosa onde a disciplina era priorizada; além desta, discursos religiosos também figuravam entre as propostas básicas da escola. Estudava pela manhã e tínhamos que chegar quinze para as sete na escola (a maioria chegava às sete), com a tolerância indo até sete e quinze; na segunda-feira íamos para o pátio escutar alguns discursos do frei para depois cantar o hino nacional; da terça até a sexta tínhamos apenas discursos de cunho religioso e moralista. Namoro era proibido e o cristianismo era dominante — o frei era um ex-padre que tinha sido expulso da igreja católica por não concordar com as novas mudanças na igreja, ou seja, na verdade, o frei era um padre das antigas, um que seguia o catolicismo tradicional. Apesar da rigidez, gostava do frei e não me sentia pressionado pelo clima religioso predominante, até porque, é bom que se lembre, tratava-se de uma escola particular...

A grande contribuição que esse período deu para minha formação foi indubitavelmente o desenvolvimento do meu “criticismo”, e a principal escada que me levou a tal evolução, se me permitem falar assim, foi justamente os discursos religiosos: foi para onde primeiramente dirigi o meu pensamento crítico.

Inicialmente, no primeiro ano por lá, não pensava seriamente (maduramente) em muitas coisas que o frei dizia. Algumas coisas, principalmente as de cunho moral, afetavam-me, e acredito que até positivamente; outras coisas de cunho religioso, apenas religioso, eu não dava importância, pelo menos não conscientemente; já questões morais-religiosas (pecado, culpa, etc.) me afetavam sensivelmente, e me afetaram de forma muito negativa, principalmente aquelas atinentes à sexualidade (pregava-se que a sexualidade era algo maligno, pernicioso, pecaminoso). Em síntese e mudando a perspectiva, eu não colocaria um filho meu para estudar numa escola religiosa, antes preferiria dar-lhe a educação moral de que necessitasse e colocá-lo numa escola mais flexível e humana.

Portanto, a “religiosidade” do lugar me fez sofrer; porém, eu a ataquei, inicialmente com um pensamento crítico infantil, mas posteriormente com um rigor crítico apurado e agudo... Tornei-me então ateu — ah! Que belas palavras para um frei ouvir: ateu, ateísmo, descrença, ceticismo. Talvez essa tenha sido a minha vingança, o modo que encontrei para incendiar o Ateneu...