Capítulo II - Os Anos de Universidade

 

— I —

Depois que terminei o Ensino Médio, tentei o vestibular pela primeira vez para Informática — sem estudar, fracassei. Passei então um ano sem estudar e enfrentando graves problemas. No ano seguinte resolvi dar um rumo à minha vida: escrevi-me para dois vestibulares, o da Universidade Federal e o da Universidade Estadual. A escolha dos cursos é que foi difícil, pois se existia algum tipo de vocação em mim, ela permanecia absolutamente oculta, escondendo-se em profundos recantos do meu ser. Para Informática, conquanto tivesse muita afinidade com computadores desde a infância, não desejava mais fazer; cursos mais renomados como Medicina ou Direito, por exemplo, eram por mim vistos com indiferente indiferença (1); pensei então em Arquitetura, todavia o curso não existia em minha cidade e não tinha a menor disposição para estudar fora, até porque já trabalhava há muito tempo; fiquei, portanto, na dúvida, vindo a procurar um teste vocacional: fi-lo e deu Economia; não satisfeito, fiz de novo e deu Informática; insisti novamente e por fim deu Agronomia. Tive que escolher e optei por Economia na Universidade Federal. Quanto à escolha do curso para o vestibular da Universidade Estadual, resolvi deixar para o dia da inscrição (imaginava que até lá tinha resolvido). Meti-me então nos estudos, e no decorrer deles a disciplina que mais gostava de estudar, a que mais me fazia esquecer os meus problemas, era a Matemática — a escolha estava feita. Fiz os dois vestibulares, passei em ambos, abandonei Economia (pois meu tempo era curto) e entrei para fazer licenciatura em Matemática.

— II —

Adentrava eu no curso de Matemática, juntamente com mais setenta e nove alunos, em abril de 2003. Estudei pela manhã o curso inteiro e foi nessas horas matutinas que um novo mundo se abriu para mim.

As expectativas que reservara para a universidade não foram contrariadas, e ela era o que imaginava que ela fosse: algo parecido com uma escola, com muitas aulas expositivas e com os professores ostentando uma certa indiferença em relação aos alunos. A minha única decepção no início, quero dizer, o que não esperava era um nível baixo dos alunos, e alguns alunos tinham um nível de conhecimento tão baixo que nem sequer mereciam estar ali: faltava-lhes, claro, uma formação mais sólida, pois potencial todos tinham. Foi nesse estado que iniciei o primeiro ano.

Minha primeira turma era um pouco numerosa, possuía cerca de quarenta alunos. Terminado hoje o curso, fiquei com a impressão de que os nossos melhores professores foram aqueles do primeiro ano, aqueles que eram todos mestres; no decorrer do curso os “doutores” foram aparecendo, contudo apresentavam um desempenho senão medíocre mas pouco satisfatório. A turma em si mesma era razoavelmente boa, entretanto, a heterogeneidade dos alunos, a falta de conhecimentos entre os mesmos e as circunstâncias que nos cercavam fizeram-nos um pouco individualistas: a interação ocorria pouco e cada qual estudava no seu canto — isso, para mim, de maneira alguma constituía um grave prejuízo, pois aprendi desde cedo a estudar sozinho e a aprender sozinho, nunca prestando atenção nas aulas ou pedindo auxilio ao professor ou a colegas. Todavia, percebi muitas queixas de alguns alunos, alunos dos quais me aproximei, acerca desse individualismo e da muita ajuda que alguns alunos faziam questão de não dar: o egoísta era criticado pelo egoísta, e eu apenas observava.

Pagamos cerca de sete cadeiras neste primeiro ano: todas de cálculo, excetuando-se uma, que era pedagógica, a chamada Metodologia e Prática do Ensino da Matemática I. Esta última tinha por objetivo dar os fundamentos para uma boa prática da atividade docente; no entanto, o distanciamento da sala de aula e a forte priorização de conteúdos teóricos, longe da realidade dos colégios, fizeram-na ser, ao longo dos quatro anos (2), uma cadeira pouco eficaz e pouco produtiva (3). Já fazendo referência às cadeiras de cálculo, eram apenas para aprendizagem e aprofundamento da matemática pura mesmo ou de física, sem maiores preocupações com o ensino — inclusive, quero aproveitar o momento para agradecer a nossa professora de Física I, que foi a única, neste primeiro ano, que nos instigou a pesquisar; os outros davam aulas expositivas, as velhas aulas “chato-expositivas” e nada mais.

Uma de minhas maiores queixas deste primeiro ano, e que seria também de todos os outros anos, foi o sistema avaliativo dos professores. As velhas provas e o sistema de notas rígido pouco avaliam um aluno, principalmente em disciplinas de cálculo, onde um pequeno erro de sinal era punido, por boa parte dos professores, com o corte de toda a questão e posterior diminuição de vários pontos na nota, nota esta que servia como critério avaliador. Mas este é um assunto que contemplarei mais tarde com maior profundidade.

— III —

Com a passagem do primeiro ano, o segundo veio e trouxe consigo uma redução da turma e alteração de alguns alunos; os professores também mudaram quase que completamente; houve um pequeno aumento das cadeiras pedagógicas: com isso, a leitura passou a ser mais exigida, e que fracasso! Que ardente crepúsculo das mais doces esperanças nutridas por aqueles professores que desejavam veementemente que seus alunos fossem bons leitores, bons intérpretes! A turma era menos adoradora da Matemática do que inimiga da leitura! Faltava-lhe essa cultura, o costume, o hábito de ler: a sociedade como um todo é culpada nesse ponto (4). Quando era passada uma atividade para nós, um resumo, uma análise de um texto, primeiro que a turma não lia os textos em casa, segundo que sua capacidade “filológica” era manifestamente aquém do que se esperava; com um pouco mais de leitura por parte dos alunos, não obstante, o problema se resolveria, pois todos tinham um grande potencial ali, e conheci mesmo gente de grande talento nos anos de universidade, pessoas desvalorizadas pelos próprios professores, que não enxergavam... Grande parte dos professores de universidade são cegos! Eles deveriam compreender que o seu desenvolvimento e o dos alunos andam juntos, e não olhar e bajular suas próprias capacidades como algo separado dos alunos: sua capacidade deve ser medida e ter como parâmetro o desenvolvimento das capacidades dos alunos.

Naquele segundo ano, tive apenas uma cadeira e uma professora que me chamou a atenção: tratava-se de O.T.E.C. (5) Gostava da professora, pois, entre outras coisas, era muito inteligente e exigente; além disso, foi a primeira a nos fazer pesquisar nas escolas (6). Eu gostaria de ter participado mais daquelas aulas, arrependo-me disso (7).

Uma outra mudança um pouco significativa foi a entrada de um novo professor para ministrar Prática II — Pedro Lúcio —, que tinha sido secretário de educação da cidade, e que por isso mesmo discussões sobre educação com política tornaram-se menos esporádicas. No primeiro ano o nosso professor tinha promovido apenas algumas discussões superficiais; no segundo, a cadeira de prática melhorou, e, sobretudo, devido à maior aproximação com a sala de aula.

— IV —

O terceiro ano foi o ano das cadeiras pedagógicas. Tivemos tão-somente três cadeiras de cálculo; foi o ano também do chamado Laboratório de Matemática e de Computação.

Com poucas cadeiras de cálculo, o ano resumiu-se mais a debates em sala de aula, resumos e análises de textos. Saí-me bem, evidentemente, malgrado a maior parte dos meus colegas não ter gostado das cadeiras por exigirem leitura e reflexão; inclusive, as dificuldades da turma com a leitura ganharam uma maior notoriedade naquele ano. A turma também demonstrou pouco interesse, não lendo os textos em casa, aqueles que deveriam ser debatidos em sala; e nos trabalhos diversos, nas dissertações, resumos e outros, havia muita imitação e até reprodução: alguns alunos assemelhavam-se a um carro — precisavam de uma partida, de um “empurrãozinho” para funcionar.

Foi também no terceiro ano do curso que pagamos uma cadeira, a meu ver de extrema importância, mas que dela não tiramos muito proveito, ou pelo menos ela não foi o que poderia ter sido: Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem. Era uma cadeira anual e o primeiro semestre foi quase que desperdiçado. Começamos estudando algumas teorias gerais, como a de Freud sobre a personalidade, os mecanismos de defesa, etc. Se a memória não me falha, penso que estudamos também alguma teoria de Rogers — tudo muito sucinto e sem uma conexão objetiva com a educação. A professora então, depois desse brevíssimo passear por algumas teorias, encheu-nos de trabalhos. O meu grupo ficou responsável pela apresentação sobre o Comportamentalismo; ao todo, tínhamos cerca de seis grupos, com cada um apresentando uma teoria (a de Piaget, Vygotsky, etc.). Depois dessas apresentações, a minha impressão da cadeira e da professora até que melhorou alguma coisa, e isso porque nós tentamos aproximar tais teorias da realidade em sala de aula, emanando daquelas apresentações boas discussões entre nós alunos. Por esse tempo, entretanto, fui à biblioteca e peguei um livro de psicologia direcionado à educação; no final dele tinha alguns conselhos que todos os psicólogos davam (era uma espécie de consenso) para os educadores: li umas quatro páginas apenas e me foi mais útil do que tudo o que vimos naquele primeiro semestre na cadeira de Psicologia. Então, uma vaga e cambiante idéia veio até mim: a cadeira de Psicologia era muito importante, mas deveria ser dada em pelo menos dois anos. A professora não tinha culpa: aquelas teorias eram realmente para ser vistas, e inicialmente sem grande conexão com a educação mesmo, pois não é prescindível que um educador tenha um conhecimento sobre a natureza humana que transcenda os limites da sala de aula, um conhecimento puro, de antemão — os próprios limites da sala de aula, de um determinado prisma, perdem o sentido: é com a vida e com seres humanos em toda a sua amplitude que um professor trabalha.

No segundo semestre daquele ano, a nossa professora de Psicologia saiu dando lugar a uma outra. O contraste surgiu, o método mudou, e a cadeira tornou-se mais atraente e próxima de nós. Os discursos, agora revigorados por novos ornamentos, passaram a atingir diretamente a educação: as dicas eram importantes, simples, todos entendiam a mensagem; a professora era excelente e criamos até um certo vínculo com ela. Dessa forma, concluiu-se a segunda parte do curso de Psicologia, do qual só tirei alguma coisa de boa de sua segunda parte (eu já conhecia muitas daquelas teorias que estudamos naquele primeiro semestre).

E o que dizer agora da cadeira de informática? E da cadeira intitulada Laboratório de Matemática? A informática em um curso de Matemática que pretende formar licenciados para ensinar deve priorizar o ensino; isto é tão claro como o sol: deve ela nos ensinar a trabalhar com programas educativos; mas não foi isso que ocorreu... Não vimos um programa educativo sequer! Estudamos alguma coisa de sistemas de numeração, cálculo numérico e uma linguagem de programação (Pascal), nada mais! Quanto ao laboratório, o nosso professor era, como posso dizer?, carismático e com reputação, boa reputação. Tinha vasta experiência e muita inteligência, mas pouco preparava aulas. Foi um dos poucos doutores que vi com conteúdo e com opiniões sensatas, e embora não fosse entusiasmado para preparar aulas, as suas eram muito boas e com bastante conteúdo. Infelizmente, porém, o nosso primeiro contato não foi muito saudável, pelo menos para mim, e durante todo o curso uma certa antipatia por esse professor fazia-se presente em meu espírito, o que foi se exaurindo com o passar dos anos. Hoje, até tenho um livro seu, um livro de jogos matemáticos, um livro que ainda me será muito útil.

— V —

O quarto ano chegava e com ele os preparativos para o início da monografia. Tive que me preparar nas férias, pois estava atrasado — vim decidir pelo conteúdo a ser trabalhado muito tarde. No segundo ano tinha pensado em fazer uma monografia em cima da geometria analítica; depois quis fazer alguma coisa direcionada para os cegos; e depois ainda tive a idéia de desenvolver um programa educativo na linguagem de programação CA-Clipper para usá-lo na minha monografia; por fim, nas férias entre o terceiro e o quarto ano, resolvi trabalhar função quadrática com o auxílio do computador: foi esta última a linha que segui.

Mas o que mais nos deu dor de cabeça neste último ano foi a organização do currículo. No terceiro ano, tínhamos tanto tempo que podíamos desperdiçá-lo (e desperdiçávamos!) — as cadeiras eram leves e sobrou até horário livre. No quarto ano a situação mudou: além da monografia, colocaram para nós três das cadeiras mais pesadas do curso, com três dos professores mais exigentes; o resultado disso foi que durante o ano inteiro não tivemos descanso algum, e chegamos agora no final do ano exauridos e desfalecidos; ademais, como o tempo foi comprimido, algumas monografias foram feitas às pressas e sem o devido esmero.

A minha monografia foi terminada em agosto, pois minha orientadora teve que sair em setembro para fazer o doutorado; a da maior parte dos meus colegas, no entanto, só foi ser apresentada agora em dezembro. Todos já estamos de férias esperando a colação de grau, que será mês que vem, dia 20 de janeiro. Entrementes, espero ser chamado pelo estado para dar aulas, pois fiz o concurso para o magistério no ano passado e espero ser chamado agora em janeiro (eu e mais dois colegas).

Voltando agora ao quarto ano, às cadeiras de cálculo propriamente ditas, a turma teve muitas dificuldades em Geometria, Análise e Estatística e Probabilidade — as dificuldades na primeira cadeira foram causadas por falta de tempo (muitos conteúdos para serem estudados para a prova em um muito curto tempo); na segunda, foram devido ao professor e ao conteúdo (o professor promovia discriminação com a maior parte dos alunos, dava aula apenas para os bolsistas da turma; nós, os “outros”, éramos pedra no caminho); e a cadeira de Estatística e Probabilidade foi-nos pesada por causa do professor, que subiu o nível do curso deixando-o num patamar muito além do nosso nível e do nosso tempo: apenas eu e outros dois alunos conseguimos passar por média.

Quanto ao mais, nada de mais: quero mencionar apenas que tivemos uma cadeira de lógica e de história da Matemática, que nos foi muito útil, ou melhor, que eu gostei, e primordialmente porque as aulas eram permeadas por questões filosóficas (o nosso professor, apesar de já não ser nenhum adolescente, estava fazendo uma graduação em Filosofia, e parece que, depois de tanto tempo, descobriu-se: volta e meia, falava em Platão ou Kant).

— VI —

Terminado o curso, terminado as experiências! Terminado as experiências? Elas sobrevivem, formam um educador... Tudo conflui para a formação do educador, desde o afago da mãe em sua infância até os coices dados pelos professores universitários — a passagem pela universidade é apenas uma etapa, uma pequena etapa. Todas essas coisas fazem parte dos fundamentos da educação.

NOTAS:

(1) Certa vez, perguntei a um amigo da universidade: “O que você acha do curso de Direito?”; “Gostava de Direito até quando soube o que era”, respondeu-me. Daí vi que o meu “amor” tinha acabado assim também.

(2) No segundo ano tínhamos Prática II, no terceiro tínhamos Prática III...

(3) Esta cadeira deveria estar associada diretamente com o estágio: só o fizemos no último ano, no entanto.

(4) Importante notar que não faço apologia desvairada à leitura: ler em demasia é também prejudicial, principalmente porque passa-se a absorver pouco da leitura, pois nossa mente se equilibra com o tempo “desperdiçado”, com o “fazer nada”. Demais, a grande leitura enfraquece o pensamento genuíno inerente a cada indivíduo: enquanto lemos, os outros pensam por nós, ou seja, em geral, apenas acompanhamos um raciocínio, não raciocinamos.

(5) Organização do Trabalho na Escola e o Currículo.

(6) Tínhamos que passar um dia em algum colégio observando algumas aulas de matemática; depois, era nossa tarefa fazer um relatório e análises de “tudo” o que vimos: comportamento dos alunos, do professor; métodos de recompensa, de punição...

(7) Refiro-me à participação oral. Desde que alguns professores me marcaram na escola, passei a participar menos ainda das aulas. Aliás, tenho algo mais a dizer aqui: quando estudava no colégio religioso, havia uma professora que me perseguiu muito, dizia que “Pedro é muito inteligente, e por isso tenho que tirar a timidez dele”; essa professora foi um demônio para mim, e depois desses anos que estudei com ela abdiquei de participar quase que inteiramente das aulas. Porém, pretendo falar dela e de algo que está fortemente relacionado com os “métodos” dela mais adiante (o aluno visto como objeto).