Capítulo V - Um Retorno à Universidade

 

— I —

Os professores universitários e os das escolas, portanto, mantêm entre si poucas diferenças. E isso porque o grande problema está na base: o aprofundamento de um professor em teorias que sempre foram ininteligíveis ou sem sentido para ele é perca de tempo — para se chegar ao fundo do mar, é preciso antes passar por sua superfície. Dessa forma, os professores universitários, em geral, têm mais informação, mas não conhecimento (1), o que também explica o porquê do ensino universitário não ser superior ao das escolas e também o porquê de se manter tão precário quanto.

Que caminho então as universidades poderiam seguir para melhorar o ensino dos cursos de licenciatura?

— II —

De início, queria analisar a seguinte questão, a qual pode-nos levar a um caminho: os professores universitários mantêm o tradicionalismo; os professores de escola idem; dessa forma, não teríamos um círculo vicioso? Pois, ora, nestas condições, como esperar que um professor da escola quebre o círculo, já que ele é formado pela universidade? E como esperar que os professores universitários, que vêm todos praticamente das escolas, quebrem também o mesmo círculo? Pode haver uma ruptura?

Antes que algum se apresse e diga que sim, por meio dos “educadores-de-mesa” (definição: já viram que muitos doutores em educação nunca entraram em sala de aula? E muitos destes que ficam inventando teorias e dando conselhos para os professores também não? É o que chamo de “educadores-de-mesa”), digo-lhes que não: tais “educadores” têm um papel muito secundário em todo o processo. Ademais, desse professor já falei antes: são aqueles que agem em desacordo com suas próprias teorias e concepções.

Qualquer círculo vicioso, pois temos aqui um círculo vicioso, só pode ser quebrado de fora: nenhum dos dois lados, seja o dos professores das escolas ou o dos universitários, pode quebrar o círculo, pois eles são o círculo. Todavia, como não queremos jogar inteiramente o problema no contexto em que vivemos, existe uma outra possibilidade: o círculo em si mesmo pode ser mudado, ou melhor, pode mudar-se e transformar-se.

Se quiséssemos quebrar o círculo, teríamos que apelar para uma mudança de cultura generalizada no país. Mas nenhum círculo vicioso precisa ser necessariamente quebrado: o que se tem de melhor para fazer é invertê-lo, transformando-o, convertendo-o de um círculo vicioso negativo para um positivo: a mudança deve ocorrer nas duas partes concomitantemente. E o cerne dessa mudança já foi visto: os professores devem exercer o seu papel primário, não enquanto profissionais e sim enquanto seres humanos — é preciso refletir, ou melhor, aprender a refletir, pois só assim será gerada força dentro do círculo que possibilite sua mudança.

É o retorno àquela questão de que já tratamos, a questão da consciência; e consciência aqui não significa seguir os outros ou aderir a suas idéias, não significa defender essa ou aquela metodologia porque estão dizendo que é a correta, não significa se tornar um escravo de um certo pensamento ou pensador (os, como chama?, “piagetianos” e os “paulofreireanos” que me perdoem, mas autodenominar-se uma coisa dessas implica incapacidade intelectual e até demência); enfim, consciência aqui tem um significado próprio, amplo: ter consciência é estar consciente, é ter a capacidade de ver por si mesmo, transcendendo o superficial e iluminando os mais profundos abismos com o olhar perscrutador; ter consciência é ser o que se é, é ter a coragem de negar aquilo que é estabelecido, ou de reafirmar também; é ter a capacidade de ter concepções particulares claras e distintas; ser consciente é ser um agente ativo, que critica, destrói, cria, reconstrói; é ter a capacidade de passear pela beira de um precipício ou de dormir em uma casa mal-assombrada sem deixar com que o medo lhe tire as percepções nítidas.

O círculo, portanto, só poderá adquirir consciência e se transformar por meio do pensamento — eis a solução: pensar, os professores precisam pensar, repensar, analisar a atual conjectura, ler, criticar, criar, insurgirem-se... Se isso for feito, não só mudanças nas metodologias serão vistas, mas nas condições de trabalho dos próprios professores.

— III —

No entanto, podem me acusar: não estais exigindo demais? Pois digo que aqueles que pedem mais investimentos em educação, que pedem mudanças no comportamento de todos os professores, etc., pedem muito mais do que eu: o que eu peço pode ser realizado individualmente, ou seja, trata-se de uma realização pessoal de cada indivíduo, e eis aqui uma enorme e poderosa diferença. Ademais, agindo ou não por instinto, a capacidade de pensar é inerente à estrutura de todo ser humano, de todo professor: é algo ao mesmo tempo distante, porém ao alcance de quase todos.

— IV —

Agora, depois de todas essas considerações, isto é, mostrado este “um caminho”, quero mudar de lugar e intrometer-me inoportunamente onde não fui chamado. Antes, porém, quero evidenciar algo que não sei se ficou muito claro. Apesar de ser tendencioso, não estive aqui defendendo com unhas e dentes este ou aquele método de ensino; ou ainda: quando proponho que se pense, não quero com isso dizer que, se os professores fizerem isso, eles vão aderir ao interacionismo ou outro sistema qualquer, embora acredite que boa parte o faria: estou propondo que cada um aja conscientemente, e se, por exemplo, um professor reflete seriamente sobre sua prática de ensino e chegue à conclusão de que esteja certa, independentemente de como é sua prática, ele já cumpriu o seu papel. E esta idéia baseia-se, além de outras coisas que já foram tangenciadas, nisto: não considero como verdadeira ou como “a melhor de todas” nenhuma prática de ensino, pelo menos não enquanto consideradas em si mesmas. Portanto, que isso fique claro doravante e que, com isso, se entenda porque falei em mudança de posição logo no início: adotarei agora e outra vez, a “minha” perspectiva, o “meu” modo de pensar para discorrer um pouco sobre que mudanças penso ser importantes no curso de licenciatura. Mais adiante, no próximo capítulo, falarei sobre as escolas.

— V —

O sistema de provas e de notas não pode acabar inteiramente, ao menos não em um curto prazo; e isso tem que ser assim por causa da cultura de notas: o castigo, a recompensa, a nota como objetivo — isto está tão imbuído no subconsciente dos alunos que eles só funcionam assim. Não existe outro remédio para essa situação a não ser este: mudar aos poucos essa cultura, fazendo com que os alunos da universidade pensem profundamente sobre isto e propondo, ao mesmo tempo, novos métodos de ensino. A avaliação contínua deve prevalecer sobre a prova e a consciência da importância da aprendizagem pela aprendizagem deve subjugar a concepção de que uma boa nota na prova é o grande objetivo do estudo.

A grande exigência e a grande obsessão para se seguir regras também devem diminuir, pois, de um modo geral, estreitam e põem limites na criatividade e no livre pensar dos alunos. Quero até mencionar aqui um caso que soube, algo ocorrido numa mesa-redonda se bem me lembro, onde um dos participantes quase agrediu um outro porque este outro afirmou que no final de um trabalho de pesquisa deve-se colocar “conclusão” ao invés de “considerações finais” — que coisa absurda! Só uma mente super legislada ou pobre (neste caso são sinônimos) para discutir por causa de uma bagatela dessas! E se eu quisesse colocar “últimas palavras”? E se eu quisesse concluir usando versos? Certamente que isso é inimaginável e absurdo para a grande maioria, por exemplo, dos orientadores; mas daí poderiam vir grandes obras de arte! No caso da minha monografia, por exemplo, certa vez apresentei parte dela para minha orientadora e fui criticado porque só tinha colocado uma única citação na mesma: seria preciso mais. O problema é que não gosto de citações, gosto de escrever meus pensamentos. Inclusive, vou aproveitar o ensejo para dizer algo a muita gente “boa” por aí, dentre os quais se incluem alguns mestres e doutores: como vocês não têm criatividade, não têm poder de reflexão e autonomia, em quatro palavras: como não têm argumentos, “transformam” citações em argumentos ou simplesmente se utilizam dos argumentos dos outros sem nem ao menos interpretá-los e analisá-los, como tenho visto por aí em certas teses e dissertações. Portanto, a questão é bem simples: se o objetivo é desenvolver a autonomia e o pensamento nos alunos universitários, as regras devem diminuir.

A avaliação. Creio que já tinha tocado neste ponto em outros momentos, mas é hora de um pequeno aprofundamento. Dar aulas expositivas durante algumas semanas, depois entregar um papel cheio de questões aos alunos para que eles resolvam em uma aula, no final corrigir aquilo e dar uma nota, e dizer que isso é um sistema de avaliação bom, eis aí uma incrível capacidade de devaneio. Nem elencarei os milhares de problemas que estão relacionados com este tipo de avaliação, mas proporei outra: a avaliação contínua. É interessante notar que a avaliação contínua não exclui, necessariamente, a prova, e eu a acho até necessária, desde que instiguem os alunos a pesquisarem e a pensarem e não sirvam como critério decisivo na avaliação. Porém, a avaliação contínua que realmente tenho em mente é aquela onde o professor faz um acompanhamento de perto dos alunos em todas as aulas, avaliando o envolvimento e desenvolvimento de cada aluno no decorrer do curso. A análise do desenvolvimento tem que ter como parâmetro a situação inicial do aluno: torna-se necessário, portanto, que o professor conheça seus alunos, e para isso é necessário ocorrer algo que geralmente não ocorre na universidade: os professores devem interagir com os alunos nas aulas (2). No final de tudo, os melhores resultados serão conseguidos não por aqueles que tiverem mais informações, mas por aqueles que, adotado um limite inferior de atual desenvolvimento ou situação, conseguirem se desenvolver mais e para além desse limite, e mesmo que seja por meio do erro, pois um dos principais objetivos do ensino universitário é desenvolver, preparar.

E para que haja uma avaliação desse tipo, as aulas devem fazer os alunos trabalharem. Passei pelo curso de Matemática e fiquei com a sensação de que estudei teorias demais, ou melhor, de que só estudei teorias e tive pouquíssimos incitamentos para colocar em prática tais teorias. Estudar o interacionismo como uma teoria é uma coisa; dar aulas, com o apoio dos professores da universidade, numa escola, estudando e aplicando tal teoria, é uma outra coisa e bem mais salutar: é a questão do sentido. Portanto, não tem outro modo: é preciso, primeiro, que nas próprias aulas os professores coloquem os futuros professores para realizarem, pesquisarem, resolverem problemas dos mais diversos tipos, desenvolvendo a autonomia, o livre pensar e muitas outras coisas; segundo, o estágio deve ser mais amplo, deve ter no mínimo um ano (3).

— VI —

Dito tudo isso, dou-me agora o direito de encerrar este capítulo, até porque, se eu quisesse e se qualquer um aluno universitário quisesse, poderia escrever um livro só sugerindo mudanças para a universidade, pois matéria-prima para isso existe. Penso, porém, que, se pelo menos a prática, a pesquisa e o pensamento se tornassem mais intensos na universidade e se a cultura das notas fosse sendo alterada, mesmo que paulatinamente, logo, logo teríamos excelentes melhoras na qualidade dos cursos.

 

NOTAS

(1) Informação: saber puro, solto, desconexo. Conhecimento: saber integrado, participativo, que tem significado para o ser que conhece e que constrói. Que cada um pense sobre isso e não decore definições.

(2) Interagir aqui tem o sentido de troca.

(3) O meu estágio resumiu-se a dar vinte aulas numa escola estadual.