Capítulo VI - Um Olhar Sobre a Escola

 

— I —

Há entre a escola e a universidade diferenças consideravelmente importantes, principalmente quanto a seus objetivos. A escola é o principal representante do sistema educacional formal e tem como um dos principais objetivos a formação do cidadão. Já a universidade tem como prioridade a formação de um determinado profissional, que para o nosso caso é o professor. Apesar dessa notável diferença, contudo, já perceberam como se parecem a escola e a universidade? Muitas das nossas universidades podem ser vistas como uma espécie de escola, ou pelo menos como uma minúscula extensão da escola — de onde se segue imediatamente, como uma espécie de corolário, que uma das duas instituições (ou as duas) está equivocada em sua estrutura.

Como já foi visto, as duas estão equivocadas, na verdade. Mas vejam que esse paradoxo, isto é, duas instituições com objetivos diferentes tendo a mesma estrutura, só confirma o que já dissemos: que os professores não pensam adequadamente sobre sua posição no mundo e sobre o seu papel como agente transformador ou perpetuador de determinadas estruturas. Eles passam da escola para a universidade e da universidade para a escola e simplesmente não mudam seu comportamento, sua prática de ensino, seus métodos: não vêem que estão pisando em solos diferentes e que exigem precaução e reflexão próprias no caminhar.

— II —

Malgrado as diferenças, no entanto, algumas identidades fazem-se presentes entre ambas as instituições. As duas, por exemplo, trabalham inegavelmente com concepções ou conceitos de aprendizagem: os professores escolares precisam fazer com que os seus alunos aprendam; os professores universitários das licenciaturas precisam fazer com que seus alunos aprendam a fazer aprender; ou seja, são concepções de aprendizagem direcionadas para objetivos distintos, mas que em si mesmas são iguais. Além dessa, existem outras poucas identidades entre as duas, que, claro, não podem de maneira alguma justificar a estreita semelhança entre ambas; mas não estou disposto a tratar mais disso aqui. Quero, agora, e depois dessa pequena comparação entre a universidade e a escola, abandonar a primeira e me concentrar na segunda.

— III —

A cultura das notas também deve se transformar nas escolas, e principalmente nelas: emanam dela vários problemas para o desenvolvimento dos alunos, muitos dos quais estão iniciando no sistema formal de ensino, e que por isso partirão para a universidade e para a própria vida carregando muitas das marcas indeléveis que o sistema, devido a suas deficiências, produz — só funcionarão através da ameaça, etc.

Chegou o momento, no entanto e antes de continuarmos, de entendermos melhor qual a razão de ser do sistema de notas. Todo conhecimento ou saber é relativo e depende das necessidades do ser que conhece. O ser humano é um ser orgânico que possui, assim como todos os animais, uma propensão instintiva para a vida: o corpo possui uma grande inteligência e trabalha ininterruptamente para sustentar e possibilitar a nossa vida. Por outro lado, acredito que inexista uma separação entre corpo e espírito (as próprias pesquisas científicas mais recentes estão chegando a essa conclusão — a tese de Spinoza sobre a inseparabilidade dos dois, isto é, sobre os dois constituírem um mesmo ser está sendo confirmada), ou ainda, entre intelecto e corpo (1). Dessa maneira, a nossa capacidade de aprender não pode e não é desvinculada de nossas necessidades enquanto seres vivos que estão buscando a sobrevivência em um mundo competitivo e cheio de obstáculos. Evitar o sofrimento é uma necessidade dos seres vivos; entretanto, a alegria é o que dá sentido à vida e, portanto, é também uma necessidade. Concluímos, então, que um determinado conhecimento só despertará o interesse do aluno se tal saber estiver, de alguma forma, relacionado diretamente com a sobrevivência desse aluno. De onde então veio o nosso atual sistema de notas? Bom, como o ensino não era muito animador, nunca conseguindo (será que tentou?) relacionar aqueles conteúdos chatos com a vida dos alunos, teve-se a necessidade de fazer com que os alunos estudassem à força, por meio do sistema de castigo e recompensa — eis a principal causa, junto com a necessidade de avaliar, do advento das notas.

Mas a situação é outra e não devemos pensar mais em usar tais “recursos”, porquanto eles incutem sofrimento e já temos novas possibilidades. Olhemos para a outra extremidade: como a alegria é também uma necessidade orgânica e espiritual, pode-se apelar para ela: aproximemos os saberes das necessidades positivas dos alunos e preparemos atividades onde seu potencial positivo seja explorado — iluminemos as coisas dessa forma e um interesse crescente por parte dos alunos virá naturalmente. E temos hoje muitas ferramentas que podem nos ajudar a fazermos essa transformação: modelagem, informática, jogos, etc. (encará-los-ei de frente no próximo capítulo). Todavia, que não se pense que se trata de um caminho perfumado, cheio de rosas e com um belo crepúsculo deleitando o nosso olhar enquanto caminhamos: é um caminho pedregoso, que gera suor, e que também possui suas deficiências e contradições (2).

— IV —

Além da necessidade de dar sentido aos conteúdos, que outra necessidade, por estar intrinsecamente ligada a esta e até por buscá-la, logo vemos? É a necessidade de dar sentido à escola enquanto uma instituição social grandiosa. E por que a escola em si mesma, e não apenas os conteúdos ministrados por ela, precisa ter sentido para os alunos? Devo-lhes ser sincero: certamente que não estaria fazendo esta pergunta se porventura não tivesse lido a revista Nova Escola de uns meses atrás. Uma reportagem me chamou a atenção e um pequeno trecho contido nela marcou-me profundamente: vou, por isso e para o agrado dos escritores tradicionais, contrariando, inclusive, a mim mesmo, transcrevê-lo aqui. Diz assim:

“É comum as escolas reproduzirem os estigmas e as discriminações sofridos pelos alunos fora delas. Pior ainda, ao falhar na função de ensinar, elas afastam as crianças e cometem uma das mais nocivas formas de violência. ‘Trabalhamos com um aluno idealizado e abstrato’, afirma Flávia Schilling, autora de um livro sobre o tema. ‘Na sala de aula, conhecemos seus nomes e rostos, mas não sabemos de onde vieram seus pais, como vivem, com quem se relacionam. O espaço escolar acaba habitado por pessoas que se desconhecem e, portanto, se temem’. Nas regiões com histórico de violência, principalmente, esses julgamentos encontram um campo fértil. ‘É comum tratar todo mundo como um criminoso em potencial’, diz o educador Jailson...

Quando as crianças não dispõem de um ensino eficiente, sentem-se sem valor e não enxergam por que continuar ali. ‘O desgarramento dos que não aprendem começa muito antes do boletim de fim de ano’... ‘São esses alunos que terminam por se evadir. Achar que eles não condizem com o perfil esperado é uma modalidade criminosa de exclusão social’...

Não é por acaso que depredações, arrombamentos e furtos respondem pela maior parte dos atos de violência na escola. Os estudantes não vêem sentido na instituição...” (3)

Antes de mais nada, quero, primeiro, dizer que os professores, assim como os alunos, não são os vilões dessa história, e isso por motivos diversos; e, segundo, responder a questão levantada: a escola precisa ter algum sentido porque em caso contrário não funciona.

Quanto ao texto citado. O texto, na verdade, como todo escrito de educador, é carregado de falhas e discriminações, e nem mesmo sei se quem o escreveu pisa na escola para ensinar. A sua grande importância, e foi onde ele tocou em mim, reside no “fato” de ter levantado seriamente a questão do sentido da escola. Praticamente nenhum texto consegue me tocar profundamente, mas quando li este, pensei algo assim: “É verdade: quando eu estudava, antigamente, a escola não fazia sentido para mim... Eu vivia querendo sair dali”; depois eu lembrei, de forma vaga, de todos os problemas que adquiri na escola, as frustrações, decepções, toda a perseguição dos professores e sua falta de proximidade (é por isso que ainda me lembro com carinho de Solange: era um anjo no inferno); lembrei-me também, e isso é para se ver como realmente a escola tem “sentido”, da minha maior motivação para o estudo nos anos colegiais: a auto-estima baixa — tirava notas boas para tentar me elevar.

Sabem, já escutei por aí algumas críticas àquela atitude de algumas crianças de chamarem suas professoras de tias: parece que algumas pessoas defendem que isso desvaloriza a profissão: a profissão de professor, dizem elas, é como qualquer outra, e portanto... Mas permitam-me discordar, senhores (4), até porque essa questão tem muito parentesco com o sentido da escola: a profissão de professor não é como qualquer outra simplesmente porque o professor tem o poder de construir ou destruir caminhos, construir ou destruir sonhos, e para aqueles seres onde tal destruição ou tal construção pode ter importância vital: as crianças e os jovens. E sabem qual é a relação disso com o sentido da escola? É esta: acima de conteúdos bem trabalhados, dos “diálogos” entre as disciplinas, da modelagem, da informática, existe, sobretudo, a questão afetiva: é ela quem vai dar sentido à escola — o professor precisa se aproximar mais do seu aluno e olhá-lo, mas não de cima, nem de baixo e nem tampouco de lado, e sim de frente e com o coração nos olhos. A questão, portanto, pelo menos enquanto se refere aos professores (pois o meu negócio é apenas com eles e não com as famílias ou com a cultura), se resume nisso e esse é o único conselho que tenho a dar.

É necessário, no entanto, muito cuidado e esmero nessa aproximação. A melhor forma de um professor ganhar a confiança dos seus alunos é sendo autêntico e trabalhando digna e responsavelmente: qualquer tentativa de aproximação que não observe esses dois preceitos é propensa ao fracasso — possivelmente o professor perderá o controle da turma, ou melhor, perderá a turma, e o ensino não logrará êxito. Lembro-me bem que os professores mais queridos por nós na época colegial eram aqueles mais honestos e que conversavam conosco como se nós fôssemos adultos, sem enganação, sem falsos sorrisos, sem piadinhas, sem cinismo: a receita era simples, bastava ser verdadeiro e dar aula satisfatoriamente bem e vez ou outra perguntar como estávamos, se estava tudo bem conosco, se estávamos querendo mudar alguma coisa...

E os professores que mais odiávamos e que tiravam o sentido da escola, fazendo-nos querer explodir aquele lugar? Quais suas características mais marcantes? Sempre observei que eles mantinham entre si um ponto em comum: eram falsos. Uns eram visivelmente cínicos, outros faziam daquele lugar perto do quadro um palco para suas encenações dissimuladas; até do “bom dia” deles eu desconfiava. Como resultado, não acreditávamos que aquele professor quisesse nos ajudar, quisesse ser nosso amigo, e então não nos entregávamos a ele, a suas atividades e propostas. O mais interessante, e quero que se note isso, é que aquela falsidade era gerada principalmente pelo jogo comercial: comecei a percebê-la fortemente quando fui para a rede particular de ensino — no estado, como as dificuldades eram maiores e os professores não tinham a “obrigação” de agradar aos alunos, eles eram mais humanos e naturais. Uma outra característica importante deles era a sua repulsa em relação aos alunos; como dizia um professor nosso da universidade, para ser professor “é preciso gostar de gente”, e muitos professores não gostam de alunos, de jovens, não sorriem quando eles sorriem, não querem que eles prosperem, parece não se sentirem bem naquele ambiente (5). Com tais professores circulando por aí, a escola só poderá ser vista como um lugar iníquo mesmo, um presídio...

— V —

Nas escolas, os alunos também devem ser postos para pensar: é através da exigência da atividade intelectual que virá o desenvolvimento nesse campo. Os nossos alunos de hoje são preguiçosos porque acostumou-se a dar tudo a eles, e daí ficaram mal-acostumados. Até nas provas, em geral, e eis aí um grande problema, as questões dadas aos alunos para resolverem são idênticas àquelas resolvidas em sala de aula pelo professor: basta decorar um modelo de resolução para se tirar uma nota boa na prova; para o caso de outras disciplinas que não a matemática, apela-se muito para a memorização e estudos genuinamente teóricos acerca de assuntos que não encontram sentido no mundo dos jovens e no nosso próprio mundo.

Uma das formas mais eficazes de contornar tais problemas, fazendo com que os alunos pensem e, ao mesmo tempo, passando os conteúdos que fazem-se presentes na grade curricular, é aproximando os conteúdos dos atuais interesses dos alunos. Darei uma ilustração simples: recentemente, os deputados e senadores quiseram aumentar seus próprios salários em quase 91%; houve revolta popular, protestos, os jornais falaram, enfim, foi um assunto muito discutido e que despertou o interesse da massa. Certamente, e infelizmente não estive em escola alguma para observar, que para os jovens e até para as crianças tal assunto se tornou muito interessante, e duvido muito que não tenha sido discutido pelos alunos, apenas entre eles, nas escolas. Pois bem: o professor de matemática, o de história e o de geografia poderiam muito bem ter aproveitado tal situação em benefício próprio e dos alunos — o professor de matemática poderia aproveitar a situação para ensinar, entre outras coisas, porcentagem (e se esses 91% de aumento fosse dado ao salário mínimo? Etc., etc.); o de geografia poderia discutir com os alunos acerca da nossa atual conjuntura política, acerca das conseqüências do aumento se acaso ele viesse, das desigualdades sociais existentes no país, da própria estrutura política, etc., etc.; já o de história poderia invocar outras situações históricas idênticas, dando ênfase às suas conseqüências, causas, etc., etc., etc. Diga-se ainda que outros professores de outras disciplinas poderiam fazer o mesmo. E como resultado o que teríamos? Certamente um maior interesse e conseqüente participação dos alunos: eles iam pensar, criar, evoluir, usufruir de sua criatividade, exercer papel de cidadão ativo, interagir entre si, enfim, seriam aulas bem mais proveitosas — haveria participação espiritual e prática.

Vê-se, pois, que, para se fazer os alunos pensarem, o mecanicismo, ou ainda, o ensino linear, com conteúdos sem ligação entre si e com o mundo em que pisamos, deve ser atenuado, pois, se continuar dessa forma, não teremos um estímulo ao pensamento, mas um mandado de prisão ao que resta dele.

Observem que o pensamento virá acompanhando o sentido: coloca-se os alunos para pensarem dando sentido a todo aquele amontoado de saberes. Dessa forma, a existência do “pensar” é condicionada à existência do sentido, com aquele aparecendo como uma conseqüência deste.

— VI —

Antes de fechar este capítulo, dirigirei ainda algumas palavras aos professores sobre um determinado tema. Estou escrevendo aqui no final, à parte, muito embora já pudesse ter escrito antes (no ponto IV). Trata-se do seguinte: uma certa professora que tive, uma tal de Ana Catarina, foi para mim um demônio — parecia aquelas bruxas dos desenhos animados: era azeda, dissimulada e perseguia-me. Dizia ela, para toda a turma, ou melhor, para todo o colégio, que queria que eu participasse mais das aulas (fazia-me entre quatro e seis perguntas por aula, e só perguntava aquelas besteiras chatas de gramática, exigindo respostas). Mas o que realmente incomodava era a sua forma impessoal de agir: não se via preocupação ou carinho ali, mas uma espécie de frieza quente, oriunda da infelicidade: via-me como objeto e não queria me ajudar, preocupava-se apenas com o meu suposto potencial, com a minha suposta inteligência.

Enfim, professores! Notem isto: se quiserem ser bons professores ao invés de causadores de infelicidades, observem as coisas que ocorrem na sala de aula, desde as mais pequenas e sutis até as maiores: o brilho ou escuridão no olhar das crianças, o tom de voz, a agressividade ou passividade, a dor ou a alegria, o sorriso ou as lágrimas... Observe e reaja a isso, e se possível com serenidade (ponha-se no lugar deles e lembre-se que você também já foi aluno). Lá na sala de aula, é você, professor, que deve harmonizar as coisas: no lugar de perseguir ou ignorar um aluno, pergunte se ele está precisando de alguma coisa e ponha-se a escutá-lo.

 

NOTAS

(1) Psicologicamente, fala-se em paralelismo, isto é: as alterações no corpo e no espírito ocorrem ao mesmo tempo.

(2) Vejam que, por exemplo, certos assuntos são tão obsoletos, que nem em sonho é possível fazer aquilo ter algum sentido para nossos alunos.

(3) Nova Escola, novembro de 2006.

(4) Realmente, em certo sentido, isso desvaloriza a profissão: “Uma das formas de luta contra o desrespeito dos poderes públicos pela educação, de um lado, é a nossa recusa a transformar nossa atividade docente em puro bico, e de outro, a nossa rejeição a entendê-la como prática afetiva de ‘tias e tios’” (Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia). Entretanto, não é disso que discordo e nem é a Paulo Freire que me refiro — a profissão de professor é especial. Quanto ao problema da desvalorização, atente-se ao “(...) entendê-la como prática afetiva...”: é isso que desvaloriza, e não o fato das crianças tratarem de forma menos fria os seus professores.

(5) Efeito disso: certa vez, na universidade, estava um professor a explicar um determinado assunto; um colega então solicitou que ele explicasse novamente uma determinada passagem, pois ele não tinha entendido; mas o professor se recusou a explicar, e automaticamente este pensamento veio até mim: “Não quer explicar por quê? Por que se não a gente tira nota boa na prova? Exato!”.