Capítulo VII - A Educação na Contemporaneidade: Os Novos Recursos

 

— I —

Os tempos mudaram e tal mudança trouxe uma gama de recursos bastante extensa para serem usados na educação. Os jogos, a Internet, a informática de um modo geral, os livros, as novas metodologias, tudo está aí e muitos educadores têm acesso a esses recursos. No entanto, cabe a pergunta: por que a educação ainda não usufrui intensamente desses recursos? Por que a informática está aí a todo vapor, mas não ultrapassa as fronteiras das escolas?

— II —

Percebe-se, com certa nitidez impertinente, que existe um esforço por parte do governo para inserir e tentar disseminar os computadores e outras tecnologias nas escolas. Portanto, podemos nos preservar e abster-nos de nos metermos em um caminho, um caminho parcialmente errado, que nos leva ao governo e nos diz que ele é o responsável pela falta de utilização das tecnologias nas escolas: tragamos a questão para mais perto.

Observa-se, apenas com uma rápida visita a algumas escolas, que muitas delas têm laboratórios de informática que não são usados. O problema maior, então, reside nos próprios professores e educadores. Que digo? O grande problema que emperra a mudança necessária na educação, nos dias de hoje, é a própria cultura dos educadores, pois as pressões estão existindo, tanto por parte da sociedade quanto por parte das indústrias e empresas, e o governo está tentando agir (1). Ademais, se a sociedade quiser, ela pode facilmente sufocar o governo.

Levando a problemática para o lado da informática, já que é uma área que tenho intimidade, o não desperdício de laboratórios nas escolas e o desenvolvimento de atividades que colocassem o computador como um importante instrumento pedagógico, aliado às pressões do mercado e da globalização de um modo geral, levariam fatalmente o governo a investir bem mais nessa área, estimulando o desenvolvimento de novas pesquisas e atividades, e criando um ciclo salutar para o país. Por que, então, os novos recursos quase estão sem uso nas escolas? Quais os fatores que contribuem com isso?

Os fatores são muitos: vão desde a formação educacional dos professores (cultura tecnicista) até a recusa em mudarem uma prática que já faz parte de suas vidas há anos (medo do novo, do fracasso; não querer reconhecer que sua prática pedagógica não está satisfatória). Limitar-me-ei, no entanto, a discorrer apenas sobre dois: a falta de conhecimento das novas tecnologias e o espírito profissional dos professores.

O conhecimento dos novos recursos permite uma peculiar aproximação, que se dá paulatinamente e que permite a vitória sobre conceitos preestabelecidos e que permeiam a mente de alguns professores, impedindo-os de mudarem suas práticas para uma melhor adequação ao mundo em que vivemos nos dias de hoje. É muito interessante notar que boa parte dos professores de matemática ainda não conhece os softwares que estão disponíveis no mercado e que podem auxiliá-lo enormemente em sua prática: não podemos culpá-los de não querer mudar, mas...

Podemos responsabilizá-los por não procurarem a atualização e os novos recursos que estão disponíveis. Neste caso, o problema é cultural e faz parte do espírito profissional dos professores: a maioria deles não cultiva o hábito da leitura, de buscar o novo e a melhora como profissional.

Por outro lado, é verdade, e não esqueci disso, que falta mais apreço, por parte dos governos e da própria sociedade, à profissão de professor: os salários são baixos e falta o apoio mais intenso das famílias aos professores. Estes, então, primeiro, têm que trabalhar mais para ganhar um salário melhor, faltando-lhes tempo e, segundo, têm que ou deveriam se envolver mais profundamente com os problemas dos seus alunos, estando só em tal função e acabando assim sobrecarregados (onde estão os psicólogos para as escolas? Os orientadores?...). Realmente, às vezes fica-se com a sensação de que as exigências que são impostas à profissão de professor são demasiadas duras e inviáveis, sendo o seu número demasiado grande: os professores precisam dominar o conteúdo que têm que ministrar, precisam saber se comunicar e se relacionar, precisam entender de psicologia, estar em constante atualização, dominar diversas metodologias de ensino e os diversos recursos que se apresentam, resolver os problemas dos alunos, procurar contextualizar sua disciplina com a vida dos alunos e ainda por cima buscar ligá-la a outras áreas do conhecimento; além disso, precisam ser exemplos de caráter, não podem ser preconceituosos, têm que ter a mente sempre aberta para novas idéias, têm que aprender a aprender com os alunos, ficar ouvindo críticas de um monte de paspalhos, os educadores-de-mesa, acerca de sua prática; e tudo isso ganhando um salário miserável. Olhando para tudo isso assim rapidamente, pode-se até afirmar: não é de se espantar que a educação esteja tão ruim no Brasil!

Entretanto, não olhemos as coisas assim tão rapidamente: não serei um niilista na questão educacional, e o pessimismo não é meu forte. Tenho a satisfação de dizer que vejo com muito bons olhos, não a situação da educação neste momento, mas o seu estado no porvir. Acredito seriamente que a educação vai melhorar no Brasil: a pressão faz-se cada vez maior e os professores vão evoluir cada vez mais (já percebo uma melhora em relação à minha época de estudante); os novos recursos passarão a ser usados com mais freqüências nas escolas e possivelmente até os salários fiquem mais atrativos. Quero lembrar ainda, aos professores, o seguinte: nenhuma outra profissão, pelo menos das tradicionais, tem tantas férias como a nossa e são poucas as que dão a oportunidade de trabalharmos com os jovens, com a alegria dos jovens. E quanto àquelas características que o bom professor deve ter, aquele tumulto de qualidades, são apenas características do professor ideal, e não do professor real: o papel deste é tentar se aproximar daquele, mas já sabendo que nunca chegará até ele.

Falemos, agora e no entanto, de alguns dos novos recursos em si mesmos.

— III —

A Internet.

O grande uso da Internet na educação está inerentemente ligado à pesquisa: é o que há de melhor nela, o que explora o seu potencial mais singular. As atividades que envolvem a Internet, no entanto, devem ser preparadas com cuidado, muito cuidado por parte dos professores, pois em caso contrário poderemos ter um efeito negativo, como em geral está ocorrendo nas escolas: passa-se pesquisas para os alunos fazerem na Internet, daí eles usam a Internet, mas não para pesquisar — apenas copiam e colam; sequer lêem o material. Tenho entrado em contato com alunos da rede estadual e da rede particular, isto é, ricos e pobres que estão fazendo o mesmo uso da Internet: não pesquisam, pegam pronto...

O que ocorre é que está existindo uma certa pressão para que os professores se utilizem da Internet como recurso para o ensino, porém a maioria deles não está sabendo como fazer isso, propondo aos alunos atividades estéreis. Nestes casos, quando o professor não domina os recursos da Internet e ainda não sabe elaborar uma atividade que propicie o crescimento dos alunos e o enriquecimento das aulas, o melhor é não usar a Internet e apelar para outros recursos.

Mas mudando um pouco o foco, além das pesquisas, outras atividades muito interessantes podem tornar-se possíveis devido aos imensos recursos da Internet. Algum professor mais ousado pode levar seus alunos, por exemplo, a uma aproximação com outras culturas, ou então levá-los a fazer pesquisas ou buscarem conhecimentos diversos diretamente com outra pessoa; e tudo isso através das comunidades, já que existem hoje no Brasil milhares de comunidades, onde são debatidos todos o tipos de tema e pensamentos, tais como: educação, ateísmo, teísmo, cristianismo, política, ética, direito, matemática, psicologia, filosofia, etc.

— IV —

A modelagem matemática.

Para aqueles professores que pretendem trabalhar naquela concepção do conhecimento como rede, a modelagem matemática é uma metodologia de extremo poder. Entrei em contato com ela pela primeira vez no segundo ano da licenciatura, mas só vim perceber o seu real alcance depois de um curso que fiz sobre a mesma.

Se bem desenvolvido todo o processo pelo professor, a modelagem matemática pode dar muito sentido a inúmeros conteúdos, permitindo um aprendizado mais eficaz e com a inter-relação de vários saberes, permitindo que o aluno construa o seu conhecimento e se desenvolva intelectualmente; e tudo isso sem ainda contar com outros benefícios que, por exemplo, uma atividade longa e em grupo traz para seus participantes.

É comum os alunos estudarem, no ensino tradicional, certos conteúdos, mas no instante em que precisam usar, de alguma maneira, o que foi estudado para resolverem problemas da vida diária, não conseguirem — é a velha distância entre o ensino formal das escolas e a vida dos alunos. Porém, por meio da modelagem isso ocorre diferente: nela, já tem-se um problema de antemão que precisa ser resolvido, ou seja, a busca pela teoria é apenas uma conseqüência das necessidades de uma determinada situação — temos então um “quase-inverso” do que o que ocorre no tradicionalismo, tornando os conteúdos mais vivos e imprimindo-lhes mais sentido, pois agora eles passam a ter uma função.

Importante lembrar que outros recursos metodológicos podem ser englobados pela modelagem, como a própria Internet, que pode ser usada como ferramenta auxiliadora no projeto; e que na modelagem o “diálogo entre as disciplinas” torna-se importante.

— V —

Os jogos.

O uso dos jogos nas escolas é interessante porque mistura divertimento e aprendizado. No caso da modelagem, por exemplo, a necessidade é que é o verdadeiro motor que vai possibilitar o aprendizado: o divertimento aparece depois. Já no caso dos jogos o grande estímulo é o próprio divertimento.

Para o meu caso, para o caso da matemática, existem diversos tipos de jogos, que podem auxiliar o professor no ensino de variados assuntos. Existem, inclusive, livros só com jogos matemáticos (recomendo o do meu ex-professor, Rômulo Marinho, cujo título é Matematicativa e que traz um número bastante elevado de jogos, de forma bastante direta e incisiva).

Mas não são apenas os professores de matemática que podem se beneficiar com os jogos, pois, acredito, para todas as disciplinas pode-se elaborar jogos muito interessantes. Cabe agora aos professores quererem mudar um pouco os seus métodos de ensino, priorizando mais os alunos.

— VI —

Os softwares educacionais.

Minha monografia foi na área da informática — dos softwares educacionais, para precisar melhor. Depois de muito vaguear atrás de um assunto que realmente me agradasse, escolhi tal área pela grande afinidade que tinha com a informática. Já o assunto escolhido para ser trabalhado foi a função quadrática, mais especificamente o estudo do seu gráfico. O software utilizado foi o Winplot, um plotador de gráficos muito eficaz, prático e com grande poder para plotar uma gama enorme de gráficos de diversas funções, podendo também animá-los.

Aplicamos a nova metodologia em um colégio estadual da cidade, durante algumas aulas e numa turma que conseguimos de um professor do colégio. A metodologia consistia em, através da exploração de diversos gráficos da função quadrática, realizarmos o estudo da mesma por meio do Winplot.

Muito embora a nossa proposta tenha sido bem recebida pelos alunos, os resultados finais não foram tão satisfatórios, e por vários motivos. O mais importante certamente foi o fato de que os alunos estão muito acostumados com os métodos de ensino tradicional; dessa forma, como a metodologia proposta carecia de exploração e iniciativa por parte dos alunos para ser proveitosa, tivemos um baixo rendimento. Mas tivemos também um outro fator de relevância que contribuiu e do qual só vim tomar plena consciência depois de concluída a monografia: relaciona-se com o sentido.

A exploração que era feita no laboratório de informática consistia no seguinte: era solicitado aos alunos que plotassem o gráfico de várias funções, muitas das quais já predefinidas por nós; daí os alunos tinham que fazer observações, conjecturas, tirar conclusões, etc. De antemão já tinha percebido que não havia muita contextualização tanto no estudo do gráfico no ensino tradicional como no estudo nessa nova metodologia, e não apenas isso: estava também ciente de que tais métodos de estudos distam consideravelmente o assunto em questão das necessidades dos alunos; para me expressar com clareza: faltava-lhes sentido.

Uma de nossas apostas, e realmente não somos bons de apostas, era a de que a atividade exploratória com o uso do computador traria muito interesse e compreensão, pois tínhamos ali um instrumento de ensino que não era utilizado e que, além disso, era muito atraente e eficiente, dando-nos rapidez, dinamismo, interação, recursos para animações, etc. Porém, tudo isso ainda não é suficiente. Faz-se necessário, principalmente quando se trabalha determinados assuntos, que o uso do computador em sala de aula faça parte de uma metodologia mais ampla e interessante, onde os recursos da informática passem a ser importantes. Portanto, não se trata de usar o computador por ser um computador, mas sim de elaborar uma metodologia que estimule o aluno e que ao mesmo tempo necessite dos recursos do computador, seja como um mero auxiliar seja como o centro dos instrumentos de ensino para uma determinada metodologia.

Evidentemente, para alguns assuntos isso fica até complicado. No caso do gráfico da função do 2º grau, por exemplo, que é um assunto que, tirando algumas poucas aplicações na física, é descontextualizado por natureza, é difícil fazer um estudo do mesmo com o uso do computador e que tenha significado e sentido para o aluno. Pensei até em modelagem depois, onde se poderia trabalhar alguma coisa que envolvesse o gráfico da função quadrática, todavia não encontrei tal coisa... Enfim, é uma questão ainda para se pensar.

Deixando de lado a minha monografia, gostaria de falar sobre alguns softwares educacionais em si mesmos, aproveitando também para divulgá-los.

Winplot

Foi o programa que usei em minha pesquisa. É freeware (2) e tem muitos recursos, trabalhando no plano 2D e 3D. Pode ser usado até em um curso de Cálculo, pois aceita funções mais avançadas, possuindo também alguns recursos para se trabalhar com derivadas e integrais.

Linguagem LOGO

Espécie de linguagem de programação para se trabalhar geometria. Baseia-se em comandos que são fornecidos pelo usuário e que fazem com que uma tartaruga desenhada na tela do computador se mova para frente e para trás, se vire, etc., ao mesmo tempo desenhando figuras. Por exemplo, quando você entra no programa, a tartaruga aparece centralizada no meio da área do desenho; então, se você quiser desenhar um triângulo, por exemplo, basta digitar os seguintes comandos na caixa de texto destinada aos mesmos:

Pf 100

Pd 120

Pf 100

Pd 120

Pf 100

Isto significa o seguinte: inicialmente a tartaruga vai andar cem passos para frente (Pf 100), depois vai virar-se 120 graus para a sua direita (Pd 120), depois andará mais cem passos para frente (Pf 100), virará novamente 120 graus para a direita (Pd 120) e por fim andará novamente cem passos para frente (Pf 100). Como a tartaruga sai riscando a tela quando anda, o resultado final disso vai ser um triângulo eqüilátero de cem passos de lado.

A linguagem LOGO é mais recomendada para ser usada entre a 1ª e a 4ª séries, mas pode ser usada também entre a 5ª e a 8ª aqui no Brasil, e isso principalmente devido às grandes falhas no ensino de geometria no país.

Cabri-géomètre

Programa muito famoso que trabalha com geometria e que vem sendo, já há algum tempo, o objeto de muitos estudos e pesquisas. Possui uma boa interface gráfica e muitos recursos de criação e manipulação, permitindo assim uma boa assimilação e satisfatório desenvolvimento dos diversos conceitos relacionados à geometria euclidiana. Infelizmente, trata-se de um programa pago e que portanto não pode ser obtido gratuitamente na Internet.

Geogebra

Excelente software para se trabalhar geometria: na minha concepção, é melhor do que o Cabri. Primeiramente, porque, além de trabalhar com geometria euclidiana, trabalha com geometria analítica; segundo, tem um poderio gráfico superior; terceiro, apresenta muitos recursos, possibilitando também que se crie situações exploratórias bem mais complexas do que as criadas pelo Cabri; e quarto, é gratuito. Por outro lado, e ainda em relação aos dois programas em questão, é sempre importante ter em mente as necessidades antes de optarmos por um ou pelo outro: o Cabri é pago, mas existem mais materiais de ajuda para ele do que para o Geogebra; ademais, como o Geogebra tem mais recursos e mais poder, o seu manuseio é mais complexo do que o do Cabri.

— VII —

Não pensem, no entanto, que os novos recursos para serem usados na educação se resumem apenas a isso: o leque de opções é enorme, inclusive na área da informática. Além disso, malgrado as pressões serem cada vez maiores para que haja a inserção dos computadores na educação, eles ainda são dispensáveis, principalmente quando contemplamos a situação crítica de algumas escolas. Porém, o uso de novas metodologias não é dispensável, e, no que diz respeito a elas, não serve como desculpa lamentar a deplorável situação de algumas escolas, pois certos métodos de ensino exigem poucos custos, não precisando mais de dinheiro do que de vontade para se tornarem reais.

 

NOTAS

(1) A situação é mesmo desanimadora em muitos setores da educação e em muitos lugares, mas a situação não é tão precária quanto aparenta ser: em muitos casos, o que falta é tão-somente vontade.

(2) Gratuito, que pode ser obtido gratuitamente pela Internet e que é de domínio público.