Capítulo VIII - O Tribunal

 

— I —

Fui criado numa família, como direi? Católica. Fiz logo cedo a tal da primeira comunhão, estudando dois anos para isso. Nestes dois anos, além de pregações morais rasteiras, estudávamos incansavelmente certas partes da Bíblia. A história de Adão e Eva, para mim, era algo sem sentido e com sentido ao mesmo tempo: em certos instantes, via ali uma espécie de mito, uma história como a de Chapeuzinho Vermelho ou algo do tipo; já em outros momentos, aquela historinha bíblica perdia o sentido e simplesmente esquecia daquilo — mas de uma coisa lembro-me bem distintamente: eu não julgava conscientemente se aquilo era ou não verdadeiro: fui posto naquela situação e não me ensinaram a pensar (se ensina a pensar? Com a necessidade, aprende-se...).

Mais na frente, no Ensino Médio, quando, em Biologia, estudávamos os dinossauros, foi que pensei seriamente sobre o criacionismo: se acreditava, deixei de acreditar na Bíblia. Atualmente, vários anos depois, olho sempre para os cristãos e vejo pequenas crianças, que ainda não aprenderam a se livrar da grande influência dos pais e da sociedade, que ainda não desenvolveram autonomia e identidade própria, que ainda, em três palavras, não sabem pensar. Por outro lado, e observem que não estou a criticar diretamente a religião, olho para aqueles aficcionados pela ciência e por seus métodos e teorias e também vejo as mesmas crianças: põem-se a repetir o que os outros dizem, sustentam que certas teorias são apoiadas em supostas “provas” irrefutáveis etc., etc.

Em certo dia, estava eu a conversar com uma psicóloga. Repentinamente, com visível orgulho e satisfação, ela me disse que discordava da teoria de Freud sobre a angústia — naquele momento, captei no ar o efeito da cultura, daquela cultura da aceitação: os psicólogos, em geral, também não pensam: eles aceitam as teorias dos outros; por conseguinte, quando um discorda de alguma dessas teorias, passa a ter motivos para se orgulhar. Preste-se atenção também que os psicólogos sempre vão com a massa: se, de um modo geral, a crítica não aceita alguma teoria de um grande psicólogo, praticamente todos os psicólogos preferem acreditar na crítica, justamente porque eles não têm grande capacidade de análise, de autoconhecimento: eles então partem para o mais provável, e, nesta situação, o mais provável é o que foi dito pela maioria, pela crítica. Porém, os críticos podem estar errados...

Vê-se, portanto, que falta insatisfação interna, conflitos internos, informação, poder crítico, independência intelectual: o indivíduo é facilmente controlado. Imaginem só: se com a Psicologia, que é uma pseudo-ciência e aberta a várias interpretações, acontece isso, com o resto deve ser pior.

Em vista disso, é chegada a hora de olharmos com mais ousadia para certos aspectos da educação: pô-los-ei no tribunal para julgamento e análise.

— II —

Primeira análise: a liberdade.

§ 1 §

Que tipo de homem pretende criar o nosso sistema educativo? Certamente que não é o homem livre e autônomo. O homem livre, que se faz livre, é indesejado tanto pelo governo quanto pela própria sociedade, e existem obstáculos dos mais diversos que pretendem impedir um tal homem de caminhar passo a passo para frente, de progredir: o progresso neste caso é muito perigoso, pois a liberdade não respeita a cultura e as leis dominantes: homens livres e cultos costumeiramente se opõem ao estado e muitas vezes à própria sociedade, aos seus costumes, vícios e desvirtudes.

§ 2 §

Todo o sistema de ensino, todos os discursos que são proferidos, todos os objetivos que se almeja conseguir com a educação são firmados em cima de interesses senão particulares porém de uma sociedade degenerada, que perdeu a noção de posição e a visão, ou melhor, que nunca os teve. Todas as leis e regras que regem o sistema não advém apenas dos poderosos (mídia, globalização, o próprio governo), como é evidente, contudo tiram deles sua própria raiz, sua essência: o povo tem culpa, aqui, por se deixar persuadir e convencer de que o que estão fazendo é o melhor para todos.

§ 3 §

Sempre me indigna a visão que se tem dos nossos alunos: são vistos sempre como objetos, algo que deve ser talhado e transformado nisso ou naquilo, dependendo dos interesses maiores. O indivíduo enquanto indivíduo só aparece depois, lá no final, bem no finalzinho de tudo, e mesmo assim só aparece por uma questão de pudor e de ética, como aquele homem que discursa para uma platéia que odeia e que mesmo assim tem que dar bom dia e agradecer a todos por terem ido. E o pior de tudo é que muitos acreditam que é a felicidade dos indivíduos que está em jogo, que se está discutindo e que se tem em vista quando se faz esta ou aquela alteração no sistema — muitos educadores-de-mesa que me perdoem, mas defender isso ou falar em “felicidadania” nas nossas atuais condições é uma tremenda brincadeira de mau gosto: felicidade? Vida coletiva e em rebanho, sem autonomia individual e com exuberantes e pérfidos preconceitos contra todos aqueles que não se encaixam no sistema? Tudo isso tem uma ligação? Mesmo que esses idealizadores, esses cujas cabeças estão “além-do-Brasil” tivessem todos os desejos realizados, ainda assim não haveria ligação direta alguma. É dez mil vezes mais salutar, ao invés de falar em “felicidadania”, falar sobre o romantismo de Rubem Alves ou sobre a “pedagogia da revolta” de Paulo Freire.

§ 4 §

A liberdade é algo individual; ser livre não é seguir com determinação as leis que regem a vida em grupo de um determinado lugar: o indivíduo livre é aquele que é o que é, que segue as leis de sua própria natureza. Assim, quando se fala em cidadania, em moral, em ética, em produtividade social etc., não se fala de modo algum em liberdade, e se se fala em felicidade, pode-se dizer, de modo forçoso, que estão a falar da felicidade do grupo, e não do indivíduo — ora: mas a felicidade, a verdadeira felicidade, se é que isso existe, é também algo individual, portanto...

§ 5 §

O sistema de ensino, qualquer sistema de ensino é altamente punitivo, e esse “qualquer” é sobremodo importante. As relações de poder e de valores estão sempre presentes na escola, entre todos aqueles que a formam, desfalecendo alguns e promovendo sua decadência individual e social, enquanto que outros ascendem e se elevam no fracasso alheio. Já perceberam como a auto-estima dos alunos é baixa? Isso ocorre porque a escola machuca e violenta os seus valores, suas crenças, sua dignidade, o seu “eu”. Os professores, por exemplo, deixam transparecer nitidamente suas preferências e gostos, “ensinando” apenas àqueles que sentam na frente e estudam mais; os alunos, por sua vez, já formam ali uma pequena sociedade e como tal já promovem discriminações e humilhações, sendo muitas vezes influenciados pela sociedade maior neste ponto; em outros momentos, no entanto, tudo parte da própria natureza das crianças (o homem é naturalmente um animal discriminador e competitivo). Muitos então se sentem “por baixo” ou mesmo “por fora” daquele mundo, um mundo que fechado em si já é um lugar de grande competição, e que cresce mais ainda com as influências externas.

§ 6 §

A liberdade, portanto, não só não existe como é repisada. Na escola, no terceiro ano, começou a surgir umas brechas: em certos horários e por certos lugares dava para nós sairmos dali antes do término das aulas; agíamos como detetives: observávamos todo o movimento, os lugares, fazíamos nossos cálculos e concluíamos nossos planos; depois, agíamos como fugitivos: sem levantar suspeitas e com muito cuidado e silêncio no caminhar, ludibriávamos o porteiro e saíamos daquele lugar. Lá fora, já na rua, pensávamos: “Pronto! Estamos livres!”.

— III —

Segunda análise: o preconceito e a discriminação.

§ 1 §

Em um sistema qualquer, em uma comunidade, o preconceito e a discriminação não podem conviver inteiramente com a liberdade: são praticamente antagônicos e enfraquecem um ao outro.

§ 2 §

Entendo por preconceito uma determinada opinião, crença ou idéia que uma determinada pessoa toma para si sem as devidas considerações e análises adequadas. O preconceito, portanto, não é caracterizado como uma distorção conceitual dos objetos do conhecimento, do que é real, enfim, dos fatos, mas é tão-só um ponto de vista, algo variável e que ganha novas formas dependendo da perspectiva adotada. Existem preconceitos que podem causar danos a outrem ou a quem o possui e existem os preconceitos sadios: as ações que derivam dos primeiros são denominadas por mim de ações ou atitudes preconceituosas.

Feitas estas devidas considerações de cunho mais geral, penso já ter ficado claro que o preconceito com que estou mexendo não é o mesmo preconceito da grande massa, que para mim não passa de um outro preconceito, principalmente porque só ganhou conotação negativa, deixando de lado o outro lado, e também porque ele parte do princípio de que existem conceitos puros, de que sempre se pode ter um conhecimento adequado e verdadeiro sobre o que está fora ou dentro de nós. Por exemplo, quando uma pessoa qualquer ajuda uma outra porque pensa que assim será, digamos, ajudada por Deus, para mim, se esta pessoa não ponderou seriamente sobre esta questão, sobre a questão “Deus”, esta atitude é originada de um preconceito (o conceito de Deus que ela tem é um preconceito): essa ação, que é uma “boa ação”, tem sua razão de ser em um preconceito — trata-se, ampliando um pouco o campo de visão, de uma atitude preconceituosa. No entanto, se uma outra pessoa tem pensamentos idênticos a esta outra, isto é, acredita que Deus ajuda mesmo, então uma para a outra não é preconceituosa. Por outro lado, se elas ponderaram seriamente sobre suas crenças, então nenhuma das duas é preconceituosa e sua ação altruísta também não o é. Ademais, ninguém pode refletir maduramente sobre todas as suas crenças e idéias (seria preciso uma eternidade para isso), ou seja, todos nós somos preconceituosos, inclusive eu. Logo, o preconceito é apenas um ponto de vista, algo sutil e maleável, que varia com o ângulo de visão: em certo sentido, chega a ser mesmo um conceito vazio, pois os conceitos puramente verdadeiros não existem para os homens.

Quanto à discriminação: a toda atitude que se baseia em conceitos ou preconceitos de diferenciações e que traz dano para o sujeito que discrimina ou para outrem chamo de ação discriminatória ou simplesmente discriminação.

Por fim e para finalizar estas considerações preliminares, quero que se note três coisas: ambos os conceitos aqui tratados, em certo sentido, são absolutamente vazios e sem significação alguma se fizermos uma análise detalhada e profunda; assumo um tal relativismo por uma questão de honestidade intelectual: não poderia jamais escrever pensamentos alheios, mesmo que fosse para o bem da compreensão, se estes não fossem os meus também — penso diferente, escrevo diferente; por último, denominações do tipo que fiz logo acima (“as ações que derivam dos primeiros são denominadas por mim de ações ou atitudes preconceituosas” etc.) poderiam ter sido feitas com maior precisão e amplidão (por exemplo: atitudes preconceituosas são todas aquelas que emanam de preconceitos, e não apenas dos preconceitos negativos): mas não o fiz para facilitar a comunicação, já que assim passo a fazer uso da linguagem corrente.

§ 3 §

De tudo o que ficou entendido e que decorre do que foi supradito, temos:

Tese: onde existem pessoas existem também preconceitos e discriminações. Conseqüência: em nenhum ambiente social o homem é plenamente livre, ou ainda, a liberdade plena não existe, pois o homem sozinho também não é livre.

Quanto a esta afirmação, já está mais que fundamentada, excetuando-se a sua última parte. O homem sozinho não é livre, ou pelo menos plenamente livre, porque os seus instintos mais primitivos envolvem quase sempre o outro: sozinho, ele nunca conseguirá seguir a sua própria natureza.

§ 4 §

Com essa tese, quero despertar muitos do seu agradável sonho e desmistificar certas ideologias: aquelas que pregam, por exemplo, que o mundo de hoje é menos preconceituoso do que em épocas passadas... Mas, com isso em mente, olhemos para as escolas novamente.

A cultura escolar discrimina aqueles que são diferentes, incomuns: sejam crianças muito especiais e superiores as outras ou sejam crianças com problemas físicos ou mentais — não importa: ser diferente da grande maioria quase sempre implica discriminação. Já presenciei, inclusive na universidade, alunos sendo discriminados por serem bons alunos, acima dos outros; o caso inverso também é muito (mais) comum e mais danoso: alguns alunos que são vistos como inferiores recebem um tratamento injusto e pérfido: são amarrados, postos na lama e pisoteados.

Esses tipos de discriminações, pelo que percebo, sofreram poucas alterações no decorrer do tempo: intensificadas ou atenuadas? Mudanças sutis se deram. E a minha explicação para elas é a seguinte: os bons alunos são discriminados, evidentemente, por causa da inveja. Os outros alunos, os deficientes etc., são discriminados devido primordialmente ao sentimento de segurança e poder dos seus “colegas” e “amigos”: segurança oriunda do sentimento de se perceber idêntico aos outros, de se perceber nos outros, de pertencer à grande massa e por isso mesmo saber que estará mais protegido, mais acolhido do que se fosse uma criança especial; e poder porque, através desse tipo de atitude discriminatória, as crianças, de um modo geral, podem exercer seu poder com mais plenitude, pois estão lidando com alguém suscetível e enfraquecido (isolado): sua autoconfiança e sua auto-estima aumentam; o vazio que sentem passa a ter um preenchimento mais considerável (1). Logo, temos aí explicado outrossim o porquê das poucas mudanças ocorridas no campo da discriminação.

§ 5 §

As atitudes preconceituosas, por outro lado, não estão tão intrinsecamente ligadas à natureza humana quanto a discriminação, ao menos em certo sentido: o que as causa mesmo é a falta de poder reflexivo e a conseqüente ou concomitante falta de autonomia e domínio próprio — estou a falar das atitudes preconceituosas rasteiras, aquelas visivelmente causadas pela ignorância, isto é, não pela falta de informação e sim de percepção e poder sobre si. Que digo?

Exploremos a seguinte situação: uma pessoa age preconceituosamente em relação a um negro; pergunto: ela age assim porque imagina ser o negro um ser inferior a ela por ser negro ou age assim porque está sendo influenciada por fatores externos? A atitude preconceituosa só muito raramente surge no interior do indivíduo: ela vem de fora e se instala nele (2) — em relação aos negros, a maior parte dos preconceituosos o são e não sabem a razão. E dessa forma caminhei até as crianças...

As crianças agem de forma preconceituosa mais por influência dos adultos do que propriamente por concepções conscientes delas mesmas: a atitude preconceituosa é ensinada, ou melhor, imitada. “Faço isso porque vi papai e mamãe fazendo, porque eles ‘insinuaram’ que fizesse”; “Faço isso porque eles são inferiores — e por que eles são inferiores? Hum... Hum...” — duas respostas dadas por preconceituosos, uma criança e um adolescente ou adulto; e no que as respostas diferem? Na idade...

§ 6 §

Mostrarei agora, a partir da mudança de perspectiva, como as ações preconceituosas e a discriminação estão manifestos mesmo nos ambientes mais “esclarecidos”, mesmo nas escolas onde trabalham os “melhores” educadores e psicólogos. Ver-se-á, também, como alguns discursos são contraditórios e chegam até a serem absurdos, tendo uma determinada intenção na superfície, mas escondendo outra em seu âmago, que é contrária àquela primeira.

Tomemos inicialmente uma declaração que comumente é proferida pelos educadores e por quase todos do meio: “O ambiente escolar deve procurar enfraquecer e até acabar com a discriminação e com o preconceito”. Agora, imaginemos que numa determinada escola exista um esforço bastante elevado por parte de pessoas esclarecidas e dos alunos para que a discriminação e o preconceito realmente sejam suprimidos. Contemplando essa escola com tais características, notaremos que certas atitudes serão condenadas, principalmente aquelas que destoam da ideologia dominante: as ações preconceituosas e discriminatórias serão reprovadas, e mesmo que muito sutilmente, porém serão reprovadas. Disso decorre, necessariamente, que o preconceituoso e aquele que discrimina sofrerão discriminação e até preconceito (3). Fica-nos claro também que uma declaração tal como essa que iniciei este parágrafo incita indiretamente o preconceito e a discriminação, pois sempre ocorre isto: ou se interpreta equivocadamente tais afirmações, ou elas encerram em si mesmas contradições — consideremos este imperativo: “A discriminação tem que acabar!”, ele em si não é contraditório, no entanto, no mais das vezes, passa a ser interpretado incorretamente: ações oriundas do esforço para satisfazê-lo estimulam e criam uma cultura, mesmo que fechada em um determinado ambiente, que condena aquele que discrimina; detenhamos nossa vista agora nesta afirmação: “Um dos objetivos da educação é possibilitar a todos aqueles que dela participam o desenvolvimento do altruísmo e o fim de todo e qualquer tipo de discriminação”, esta frase se contradiz a si mesma, visto que, quando se indica um caminho a ser seguido, por exemplo, desenvolver o altruísmo, já se está discriminando. Em todos esses casos, vê-se também a presença do preconceito e das atitudes preconceituosas: o preconceituoso, por exemplo, será discriminado por aqueles que querem “acabar” com o preconceito — será ferido, portanto, por atitudes oriundas de preconceitos.

Consideremos agora outra situação onde o discurso ou a proposta se contradiz a si mesma. O sistema educativo tem como uma das metas formar o cidadão, o homem com senso crítico e participativo, que ajuda aos outros e que sabe respeitar as diferenças éticas, de opiniões etc. Existe uma contradição forte aqui nos seguintes pontos: “cidadão com senso crítico” e “cidadão que ajuda aos outros”; “cidadão com senso crítico” e “cidadão que sabe respeitar as diferenças éticas etc.” — a percepção e inteligência apurados, ou seja, o senso crítico não é irmão de atitudes comportamentais preestabelecidas: ele não leva até elas, inexiste uma linha que una os dois, e, em muitos casos, há um enfraquecimento mútuo. O simples fato de se querer que alguém aja dessa ou daquela forma já tira mais da metade da existência de uma suposta autonomia individual que tem como um dos alicerces um senso crítico que deveria ser desenvolvido ou estar presente nesse alguém: neste caso, o senso crítico é suprimido e sufocado em favor de algumas normas. Em síntese: o florescimento do senso crítico e da autonomia só pode ser possível através da liberdade, que de modo algum está presente em um sistema que pretende talhar seres humanos, podando-os, transformando-os em determinados equipamentos ou objetos. Sendo isso assim, doravante, quem for discursar superficialmente como muitos o fazem, tem que tomar alguns cuidados para não cair em contradições: tem que definir de antemão o que entendem por liberdade (agir assim e assado, em acordância com que o sistema quer), o que entendem por senso crítico (capacidade de analisar apenas certas coisas e apenas dentro de certos limites e ainda seguindo certos parâmetros), o que entendem por autonomia (dentre outras coisas, aprender a melhorar o próprio comportamento e a própria cognição dentro de um limite de variância estreito e antecipadamente definido por terceiros; ou ainda: capacidade de se aperfeiçoar mais ainda naquilo que foi obrigado a fazer).

§ 7 §

O que atualmente se prega na educação em referência às ações preconceituosas e à discriminação, no meu entendimento, tem pouco efeito. Além disso, tenho percebido que, em muitos casos, o que realmente ocorre é que, quando se consegue “vencer” um preconceito ou uma ação discriminatória, no rastro da vitória surge um outro preconceito ou uma outra discriminação: vejam, por exemplo, os gays, que vêm ganhando um espaço razoavelmente satisfatório, principalmente em certas mídias; como resultado, os próprios gays se tornam preconceituosos e discriminam aqueles que não partilham de suas “idéias” ou simplesmente não concordam com o seu jeito de ser; o mesmo ocorre com aqueles que, mesmo não sendo gays, estão com eles — os gays, portanto, não são muito diferentes daqueles que os discriminam. Para este caso, especificamente, vale a máxima: “O ódio só poderá ser vencido pelo amor” — enquanto se combater o preconceito com o preconceito e a discriminação com a discriminação, ou seja, enquanto não se mudar as armas, a questão nunca será melhorada: apenas os dominantes e os dominados mudarão de lugar.

O que se prega no meio educativo também, a meu ver, pouco êxito tem logrado: querem acabar com a discriminação e com o preconceito utilizando-se apenas de certos discursos informativos e vazios, muitos dos quais contraditórios e que não levam em consideração as condições específicas de cada aluno, de cada local e cultura; e não apenas isso: deixam de considerar a própria natureza psíquica dos alunos e professores — querem acabar através do estímulo-resposta.

Em vista da natureza do preconceito e da discriminação, alguns caminhos mais eficazes, embora talvez mais difíceis, podem ser seguidos. Eis alguns deles:

I — Ao invés de discursos vazios e melodramáticos ou de simples afirmações do tipo “todos são iguais” (4), boas atitudes por parte dos professores em sala de aula podem ser de uma eficácia tremendamente superior, pois é da natureza das crianças se espelharem nos adultos;

II — A convivência com a diferença desde cedo, isto é, os alunos especiais, a não ser nos casos mais graves, têm que estudar normalmente em qualquer escola, possibilitando assim uma alteração nos conceitos de diferenças dos alunos e a sobrelevação de certos sentimentos que podem ser causadores de discriminações e preconceitos;

III — Em certas situações, os professores têm que ter a sensibilidade para perceber que, não obstante uma grande discriminação em certo local, nem todos que discriminam são realmente preconceituosos e discriminadores: boa parte, talvez a maioria, são influenciados pelo grupo, muitas vezes por um pequeno grupo (quando estamos em grupo, geralmente “esquecemos” de nossos próprios preceitos e concepções e passamos a adotar os do grupo). O grupo, neste caso, é que é a causa: o professor deve dispensar maior atenção a ele;

IV — As discussões em grupo sobre o tema ajudarão bastante, pois, se bem realizados pelo professor, possibilitarão a exteriorização de determinados sentimentos que, se reprimidos, poderão causar ódio, ressentimento ou mesmo medo nos alunos, acentuando dessa forma as atitudes preconceituosas e as discriminações. As discussões servem também para promover a reflexão, que é de essencial importância na resolução do problema.

V — Trabalhos constantes em grupo e com constantes alterações nos grupos, possibilitando a interação entre todos os alunos, podem colocar um ponto final em certas rixas de sala de aula. São muito bons também para acabarem com aquelas discriminações que sofrem os alunos muito bons ou os alunos muito ruins;

VI — O professor tem que sutilmente tentar melhorar a auto-estima dos alunos, ou seja, uma das principais causas da discriminação. Para tanto, muitas coisas podem ser feitas, dentre as quais: evitar reprimendas públicas aos alunos, não humilhar, ter a capacidade de enxergar as qualidades dos alunos e falar-lhes delas, variar atividades para que o talento de todos possa aparecer razoavelmente, conversar com seus alunos acerca dos problemas deles, dar “bom dia” e dizer “tchau” aos alunos e sorrir para eles vez ou outra (muitos professores não fazem isso!).

— IV —

Terceira análise: O caminho para a verdade — a verdade dos fatos: os fatos não existem.

§ 1 §

Em alguns colegas de universidade, e até em professores de lá, percebi uma certa “matematização” do mundo: alguns pensavam que os objetos matemáticos existiam no mundo real, e não só aqueles mais simples, porém até fractais diziam existir na natureza. Eu mesmo nunca tinha refletido seriamente sobre isso até que estava lendo um livro no qual o autor dizia que não existem linhas retas na natureza: foi o bastante para desencadear em mim um conjunto de reflexões sobre tal tema e sobre as coisas abarcadas por ele. Realmente, as linhas retas não existem, bem como os cubos, as esferas, os ângulos retos, o quadrado, o círculo, o plano, etc.; disso decorre também que qualquer cálculo de área é inexato: para se calcular a área de um retângulo, por exemplo, multiplica-se o comprimento da base pelo comprimento da altura; o problema é que tal fórmula, para ser aplicável, pressupõe uma superfície inteiramente lisa, quatro ângulos retos, lados formados por linhas retas, etc., o que simplesmente não existe na natureza.

Para se chegar a tais conclusões, não é preciso muito esforço: imaginem, por exemplo, uma suposta linha reta na natureza; com o pensamento, ampliem tal linha indefinidamente; ver-se-á que a linha reta não passa de uma aproximação: a idéia de linha reta na matemática surgiu da prática diária, da própria experiência; porém, tal idéia capturou a realidade de uma forma, como direi?, mais perfeita, extraindo dela algo que ela mesmo não tinha. Assim, temos um conceito do que seja linha reta (apenas um conceito, pois não se define reta: é um elemento primitivo) e na natureza temos aproximações desse conceito, linhas “quase retas”, se me permitem. Disso tudo concluímos que os objetos matemáticos existem apenas na mente humana, que o mundo matemático se mantém próximo da natureza, do mundo “real”, e por mais próximo que ele se mantenha, mesmo que ele pudesse estar infinitamente próximo, eles nunca se tocariam.

Na matemática, uma esfera de raio 1 e uma esfera de raio 1 são a mesma coisa: trata-se de um mesmo objeto; já na natureza, este “mesmo” não tem sentido — eis aqui um derivado importante das considerações precedentes. Que digo? Estou a dizer apenas que no mundo físico não existem coisas iguais, nem em termos de matéria, nem em termos de temperatura, nem em termos de área ou volume, nem em termos de comprimento, nem em qualquer outro “em termos”.

Com efeito, foi aproximadamente assim que raciocinei e que concluí tais coisas. No entanto, na época em que comecei a pensar cuidadosamente assim, outras questões me atormentavam. Uma delas era a seguinte: por que as pessoas têm opiniões ou concepções distintas acerca de um mesmo assunto no qual o contraste é tão pouco aceitável? Nessa época também estava promovendo uma verdadeira guerra para tentar me explicar certas coisas, principalmente algumas atinentes às relações do corpo com o espírito. De todos os conflitos e raciocínios advindos dessa última questão, passei a admitir o seguinte, em grosso modo: o corpo e o espírito constituem um único ser, isto é, estão completamente interligados, ou ainda, são a mesma coisa. Como conseqüência disso o estado espiritual é um reflexo do estado fisiológico e vice-versa. Daí, encontrei a resposta para o primeiro questionamento: como o pensamento e o corpo mantêm, de alguma forma, uma relação de identidade e não existem corpos iguais na natureza, então também não existirão pensamentos iguais na natureza: cada opinião, cada idéia, cada certeza são únicos. Por conseguinte, como a percepção humana é um atributo do espírito e do corpo, ou seja, como a percepção humana tem uma existência própria e única em cada indivíduo, não existindo percepções iguais sobre o que quer que seja, então na verdade tudo o que existe são apenas interpretações — morrem aqui os fatos e a própria realidade.

§ 2 §

Agora, já estou suficientemente armado para minha empreitada. E qual a primeira ilustre que se me aparece no alvo implorando para ser atingida? A verdade.

Todos aqueles que constituem o sistema de ensino têm que agir com cautela quando o assunto em questão é a “verdade”. Voltando a um tema que tratamos anteriormente, por exemplo, as chamadas teorias do conhecimento, muitos defendem essa ou aquela como se fossem a última palavra, a batida do martelo, e se esquecem ou simplesmente não percebem que tais teorias ainda sofrerão muitas alterações, que nunca chegarão a um fim, que dependem em muito das necessidades da época, que nenhuma delas representa a verdade ou as coisas como elas são — não são coisas definitivas, estando, assim como toda a realidade, em constante transformação.

§ 3 §

Um outro tema não menos importante diz respeito à ligação entre religião e ensino formal. Recentemente, inclusive, houve uma grande polêmica em torno disso quando o MEC manifestou o desejo de discutir qual o conteúdo que deveria ser ensinado em Religião na escola — pensava-se que o MEC iria escolher uma religião para ser ensinada nas escolas, o que seria um grande absurdo, pois nem todos partilham da mesma crença. Quanto a isso, a primeira coisa que os educadores devem considerar é que nenhuma religião é a expressão da verdade, e que portanto nenhuma pode ser ensinada como tal, pelo menos não nas escolas e de maneira formal (por outro lado, não vejo problema algum em os professores dialogarem de forma aberta com os alunos acerca de tais questões e de outras semelhantes, como o sentido da vida, etc.); e a segunda é a seguinte: é muito importante os alunos conhecerem a história dos povos e de suas culturas, a história das diferentes religiões, dos diferentes costumes e cultos, etc. Logo, uma disciplina ou parte de uma que trate das religiões é de essencial importância, e em muitos aspectos; ademais, questões religiosas estão muito presentes em nossa sociedade: devem, portanto, ser debatidas.

§ 4 §

E o que dizer da nossa tão aclamada ciência? Ela é mais verdadeira do que tudo mais? Não: como tudo o que existe, não passa de uma interpretação das coisas, de uma explicação superficial, e aqueles que acreditam que nossa época é mais guiada pela verdade do que épocas passadas, não estão tão distantes assim dos tolos.

O método científico, por exemplo, o método experimental, pode ser posto em xeque. “O método empírico é o melhor!”, eis aí uma afirmação que se baseia em pressupostos filosóficos e que não pode ser comprovada cientificamente (e a ciência que despreza tanto a filosofia!). Mas ora, se o principal alicerce da ciência pode balançar frente ao nosso olhar inquiridor, que dizer do resto? Poderá cair a qualquer momento, assim como todo prédio ou monumento que atualmente existem cairão um dia.

O cientificismo não passa de uma idéia infantil; aliás, qualquer um que queira encontrar todo um tesouro diverso em um só lugar perderá sua vida inteira procurando: nem a ciência resolverá todos os nossos problemas, nem a religião resolverá e nem tampouco a filosofia o fará — na verdade, nem todas essas “criações” juntas conseguirão. E como se ainda não fosse suficiente, muitos homens de “ciência” vêm até nós dizendo que o sistema de ensino deve dar alta prioridade aos métodos científicos, passando para as nossas crianças que a ciência é o que há de mais verdadeiro, ou melhor, que conduz à própria verdade (como se tivesse sentido falar em “atingir a verdade”).

Para finalizar este pequeno trecho dedicado à ciência, gostaria de deixar claro, antes que algum “cientista” com sua visão “nítida” venha me acusar de ser contra a ciência, que o que estou a criticar são as formas de absolutismo, seja religioso, filosófico, ético, científico, etc. A ciência não pode ser vista senão como uma criação humana, uma ferramenta que tenciona melhorar as nossas vidas em alguns aspectos, como realmente tem melhorado. E quem sabe? Quem sabe se uma visão dessas não é muito mais salutar para ela do que o endeusamento que alguns fazem dela? Sem contar que tal endeusamento torna a ciência uma seita, uma religião — Como? A religião se baseia em opiniões e a ciência em fatos? Mas os fatos não existem...

§ 5 §

“Devemos ajudar o próximo!”, “Não devemos mentir!”, “Devemos ser honestos!”, “Devemos respeitar isso e aquilo!”, “Devemos ser tolerantes!”, “Não podemos ser preconceituosos!”, “Não podemos discriminar!”, “Devemos respeitar o outro!”, “Temos que saber perdoar!” — eis aí um conjunto de ordens que os nossos alunos devem seguir, ou melhor, que temos que fazer com que eles sigam. Não obstante, é válida a pergunta: para quê? Por que devemos ajudar as outras pessoas, etc.? A pergunta é válida pelo simples motivo de que já está mais do que demonstrado que nenhum desses imperativos podem ser considerados como “verdades”, mas são apenas acordos tácitos surgidos ao longo dos tempos.

Serei mais ousado: por que não devemos matar? Será que os educadores já se fizeram esta pergunta seriamente? E eles não deveriam descer até esse ponto, até a raiz, se quisessem realmente formar cidadãos pensantes, autônomos, profundos, que não se deixassem persuadir por palavreados vazios, fúteis e sem sentido, capazes de resolverem problemas dos mais diversos possíveis, sejam no campo profissional, pessoal, ético e outros? E então? Por que não matar? Porque Deus não quer? Porque não haveria sociedade se o homicídio fosse permitido? Porque um dano que é infligido a outro volta contra aquele que o infligiu? E se um aluno disser ao professor que acha correto matar, que argumentos este professor poderia usar para dissuadir este aluno (não vale usar, claro, aquelas afirmações que aprendemos na infância, do tipo: “é porque papai do céu não quer...”)?

Mas a pergunta que realmente deve estar pairando no ar agora é esta: onde quero chegar com isso? Pois bem, além da necessidade de se formar um homem mais profundo e dos próprios professores se tornarem mais profundos e críticos, além, também, da necessidade de se mostrar o quanto de preconceito está impregnado o ambiente escolar e a própria sociedade e o quanto certos discursos não têm base sólida, tenho em mente outra questão: estive pensando nesses dias na violência que se alastra pelo nosso país: crimes extremamente hediondos e assustadoramente violentos são relatados todos os dias na mídia; até aqui, nesta cidade não muito grande em que vivo, os assassinatos são cada vez mais comuns e o requinte de crueldade dos crimes vai sempre crescendo. O sistema educativo não pode de maneira alguma tratar com indiferença tais questões: elas precisam ser seriamente debatidas nas escolas com profundidade, e, para tanto, os professores devem estar preparados para isso. Dessa forma, como foi nesta parte do livro que mostrei que, na realidade, tudo é subjetivo e questionável, resolvi abrir um pequeno espaço para tratarmos da questão da ética.

Nenhuma imposição de cunho ético, nenhuma sentença ética é coerentemente aplicável em quaisquer situações: aquelas sentenças com as quais iniciei, por exemplo, não são completamente sustentáveis, e esse é o primeiro ponto importante que se deve notar antes de iniciarmos uma discussão ética com os nossos alunos. Ponham-se no lugar daquele professor cujo aluno disse que achava correto matar: este aluno pode estar querendo conversar a respeito disso, pode estar se sentindo oprimido ou mesmo excluído da sociedade, pode estar sendo violentado em casa por seus pais, enfim, existem muitos “podes” nessa situação; o que você diria a ele? “Matar é errado, meu querido, o que dizes é absurdo!”, “Matar é crime, dá cadeia: você quer ser preso?”, vejam aí alguns exemplos de respostas que não terão efeito positivo algum; e a pior delas é esta: o silêncio. Antes de mais nada, para enfrentar uma situação dessas, o professor deve analisar dentro de si mesmo alguns dos principais fundamentos éticos, porém, não pensando exclusivamente em si mesmo, mas sobretudo e principalmente nos alunos. Tal análise deverá ser alicerçada na sentença: não existem verdades éticas. Procedendo assim, o professor já vai ter ampla vantagem sobre o professor comum, pois, primeiro, terá maior possibilidade de ser mais tolerante, segundo, terá uma mente mais aberta para novas possibilidades, terceiro, evitará de dar aquelas respostas aprendidas na infância e que não surtem efeito algum, quarto, compreenderá melhor o aluno e perceberá outros pontos importantes que estão diretamente ligados a tal problemática ou ao problema do próprio aluno.

Portanto, o que estou a propor, e este é um dos caminhos que indico para se enfrentar a violência e para formar um cidadão mais consciente, é o seguinte: baseado na tese de que tudo o que é reprimido causa dano, e partindo do pressuposto de que não podemos falar ou mesmo exteriorizar nossos sentimentos e opiniões acerca de algo se não consideramos esse algo como uma coisa questionável, passível de discussão, e, ainda, reconhecendo a importância da escola na sociedade e não admitindo que ela possa estar ausente do mundo que nos rodeia, primeiro coloco em xeque a validade dos discursos éticos mais tradicionais para que, com isso, entre outras coisas, os educadores possam ficar mais abertos, menos austeros, e depois afirmo que os assuntos éticos e todo o problema da violência devem ser debatidos na escola com mais profundidade — trata-se de abrir as portas para o diálogo, no qual os seus participantes devem estar abertos para trocas ao invés de estarem ávidos para imporem seu modo de ver aos outros.

— V —

O impasse. Últimas considerações.

§ 1 §

Já tinha lançado tal problemática no capítulo III, mas é hora de tentar dar uma solução para a mesma: como o sistema de ensino pode formar cidadãos conscientes e críticos se trabalha com propostas e discursos tão frívolos e fúteis? Ele, devido a interesses sociais e outros ainda, toma como verdade ou ponto de partida algo que, primeiro, não poderia ser tomado como verdade e, segundo, é tão superficial que não poderia ser tomado como ponto de partida.

§ 2 §

Já mostrei suficientemente bem que o nosso atual sistema de ensino não vai formar, e está longe disso, o cidadão livre, pensante, crítico, que cria, questiona, transforma, participa inteligentemente das decisões sociais, que sabe do seu valor, reto, honesto, que sabe meditar sobre as questões fundamentais da vida. O próprio estado e os cidadãos desse tipo entram em contradição, são coisas antagônicas: o fortalecimento de um implica o enfraquecimento do outro; como esperar, então, que o governo queira realmente formar um cidadão desses? — Amigos, o povo deve tomar o destino em suas mãos se quiser melhoras; aliás, os maiores culpados pela situação, muitas vezes caótica, pela qual passamos somos nós mesmos, e não o governo. É a gente que tem que fazer alguma coisa.

§ 3 §

Para essa nossa situação específica, para a resolução do nosso impasse, acredito que devemos partir de duas perguntas básicas: é possível formar um cidadão consciente? Em sendo possível, é desejável fazê-lo? Analisemos a primeira questão.

Pode-se dizer que um cidadão consciente, sem exigir ou sonhar demais, é aquele que, em boa parte das situações, sabe ver, pensar e agir de forma apenas satisfatória: é com a formação deste cidadão que o sistema de ensino deve se preocupar, e não com aquele outro, o cidadão ideal, aquele que sabe ler, escrever, pensar, criticar, propor, analisar, participar, resolver todo tipo de problema, ser altruísta, etc. — quem de nós é assim? Perto de um “ideal” desses, eu não sou nada...

Com algumas alterações no sistema, com a inserção de novas disciplinas, com a mudança nos métodos de ensino, com a exposição dos alunos à diversidade, à textos críticos, à professores críticos e mais profundos, é possível formar um cidadão consciente! Para tanto, no entanto, algumas bases sólidas, que muitas vezes sustentam a própria sociedade, terão que tremer, e é daí justamente que surge o segundo questionamento: é desejável a formação de um tal cidadão?

§ 4 §

Talvez eu não esteja sendo tão claro, todavia, tentarei sê-lo agora. O aumento da consciência nas pessoas implica o aumento da força do seu eu individual: é perfeitamente possível medir o quanto de consciência tem uma pessoa pela observação do quanto ela segue as concepções e os comportamentos alheios. Assim, o homem consciente poderá agir em desacordo com a sociedade ou mesmo contra ela, pois “sociedade”, aqui especificamente, quer dizer “vontade geral”. Ora, o sistema de ensino é uma criação social, que visa atender aos anseios sociais e melhorar as condições para a sociedade; seria então aconselhável criar um cidadão que fosse predisposto à subversão? Pela ótica da própria sociedade e do governo, portanto, tal cidadão é indesejado.

Logo, já temos as respostas para os questionamentos: é possível, com muito esforço e mudanças, formar o cidadão consciente de si mesmo e do mundo; no entanto, sua formação não é desejada, pois as escolas devem preparar o homem para a vivência em sociedade, ou melhor, para ser servo da sociedade, e não para a vivência no mundo.

§ 5 §

A grande questão que surge agora, devido a essas respostas, é justamente o problema que temos que resolver: a nossa atual conjuntura exige a formação de pessoas que pensem com maior profundidade, que não sejam completamente guiadas pela mídia, pelos governos e pelos outros; mas como fazer isso preservando os preceitos básicos da nossa atual sociedade, isto é, continuando com os discursos e propostas fúteis, frívolos e pouco verdadeiros cuja principal utilidade é a perpetuação de uma determinada situação?

Infelizmente, ou talvez felizmente, existe uma grande incompatibilidade nisso tudo: o ser humano verdadeiramente autônomo, que sabe ver, pensar e agir, não pode ser conciliado com todas as normas preexistentes que são necessárias para a manutenção da nossa atual sociedade. Por conseguinte, só temos duas saídas: ou se tenta formar o cidadão profundo e isso em detrimento da nossa atual sociedade e a favor do surgimento de uma outra, ou se tenta formar um cidadão apenas um pouco mais consciente e inserido dentro de um contexto limitado, que participa, critica, vê, enfim, age e propõe mudanças em acordância com certas possibilidades ou parâmetros, não podendo os criar ou promover revoluções. Eu fico com o primeiro caminho, até porque a nossa situação como país subdesenvolvido e como sociedade decadente e inculta é bastante precária, dessa forma o segundo caminho não nos levando muito longe. Porém, já aviso que ambos têm muitas vantagens e desvantagens, e que o caminho escolhido pela esmagadora maioria é o segundo. Isso, no entanto, não tratarei aqui: já seria um assunto para um outro livro.

 

NOTAS

(1) Já perceberam que pessoas que dão demasiada importância ao poder encontram-se em um estado se insatisfação com a vida? É que, como as coisas da vida não lhes traz mais alegria e preenchimento, pois muitas vezes são pessoas egocêntricas, melancólicas e que se odeiam, elas transferem suas expectativas e seus desejos para a dominação — dessa forma, também, elas podem se vingar por não serem felizes.

(2) Vem de dentro precisamente quando o preconceito é a expressão de um sentimento, de um sentimento de ódio por exemplo.

(3) Foi nesse sentido que afirmei, no capítulo VI, que aquele texto que citei da revista Nova Escola era carregado de discriminações.

(4) A igualdade na natureza, na verdade, não existe.