Capítulo IX - Sentenciador Extemporâneo ou Discursos Inoportunos

 

§1. — Falta de investimentos na educação — “Estamos investindo em segurança pública!”, “Mas, senhor, não seria melhor atacar as causas?”.

§2. — Deixem evoluir — Faz parte da essência do ser humano a natural evolução em si mesmo: professores, não sejam um obstáculo para as crianças, deixem-nas passar.

§3. — Perguntas inquietantes — Os alunos são o centro do sistema de ensino — Por que os professores agem em desacordo com isso? Por que os professores só conversam sobre as crianças quando elas fazem suas traquinagens?

§4. — Inteligência e percepção naturais — Teatralismo na frente dos alunos? Descortinamento iminente.

§5. — O Pink Floyd e a educação — Em certa aula na universidade, quando o professor deu um verdadeiro coice em um colega, lembrei-me do clipe do Pink Floyd, Another Brick In The Wall, onde é mostrado os maltratos sofridos pelos alunos na escola: com uma música de fundo que é um dos maiores clássicos do rock e uma crítica pesada à pedagogia, no fim do clipe, depois de todos as agressões sofridas pelos alunos, eles destroem e queimam a escola — cuidem, professores, para que, ao contrário de mim, seus alunos não tenham esse tipo de “lembrança” em suas aulas.

§6. — Os objetivos da educação e a reprovação — Sempre que realizamos uma pesquisa, um projeto, etc., um dos primeiros passos que damos se direciona para os objetivos da nossa pesquisa ou projeto. Seria isso diferente na educação? Não deveríamos ter claramente em mente quais os objetivos, os verdadeiros objetivos da educação antes de nos decidirmos por uma eventual crítica ou possíveis expressões positivas em relação à reprovação? Avancemos, então, inicialmente, rumo aos objetivos da educação. Para início de conversa, é bom que se diga que não existe uma opinião comum ou um consenso geral acerca dos objetivos da educação; mais: é impossível que exista, e basicamente por dois grandes motivos: o dinamismo da realidade e a individualidade de cada pessoa. O dinamismo da realidade, uma característica inerente à própria natureza, arrasa qualquer idéia de verdade extrínseca, isto é, adequação do pensamento ao objeto, enquanto considerada no tempo. Dessa forma, os objetivos da educação devem estar em constante mudança, ou melhor, devem se adequar a determinadas necessidades e esperanças de uma época. Por outro lado, a individualidade de cada pessoa, o mundo próprio de cada uma considerado em si mesmo, não permite o consenso acerca dos objetivos, sendo esta uma questão relativizada pela natureza de cada um. Chegamos agora à seguinte questão: a opinião comum atinente aos objetivos não existe simplesmente porque os objetivos não existem com bases próprias, sendo estas lhes dadas temporariamente; assim, o que deve nos guiar? Devemos seguir os objetivos, mesmo eles se nos apresentando como algo temporário e incerto? Sim, pois objetivos verdadeiros não existem e não há sequer opinião comum atinente a eles. Por exemplo, Bertrand Russell afirmou que o maior objetivo da educação deve ser “encorajar os jovens a duvidarem de tudo aquilo que se considera estabelecido”; já o psicólogo das inteligências, Howard Gardner, diz que o maior dos objetivos é o desenvolvimento da inteligência nos alunos: ambos os pontos de vista estão e não estão corretos e ambos excluem de suas considerações aspectos importantes da educação e que devem ser relevados. No nosso contexto, os objetivos guiadores devem destoar de afirmações concisas e precisas e de pouco alcance, sendo antes consideradas como parâmetros guiadores, os quais devem deixar margens para interpretações e refinamentos diversos. Mas, sendo isso assim, e já no tocante à questão da reprovação, seria justo e correto o sistema reprovar? Haveria resposta para tão simples e complexa pergunta? A partir da análise do contexto, sim, há uma resposta. O sistema educativo nunca está completamente desligado — nunca está desligado das necessidades de um país, de uma nação, e mesmo que tal ligação — o que não ocorre — não seja induzida pelo sistema político vigente. Nessa perspectiva, a reprovação não só é útil como até bem-vinda numa sociedade ou país que necessite formar pessoas adestradas para determinados fins, onde o costume e o “aprender” com punições e recompensas não sejam irrelevantes. Então, veja-se: a reprovação em si mesma e também um pouco além de seus próprios limites não é boa ou má. Agora, desmistificado este sofisma sentimental (1), perguntemos: no nosso atual contexto, existe espaço para a reprovação? Ou ainda melhor: existe lugar para a não-reprovação? (2). Os discursos dos “educadores-de-mesa” vêm afirmando que não existe espaço mais para a reprovação na nossa atual conjuntura; os “educadores-de-sala” ou não dispensaram suficiente atenção e pensamentos para tal questão ou não afirmam o mesmo do que aqueles outros, excetuando-se algumas muito poucas exceções. Os argumentos de ambos (3) são até conhecidos em muitos meios e poupo-me de pormenorizá-los aqui; tampouco tomarei partido por qualquer das duas posições antagônicas. Não obstante, examinarei os dois caminhos para vermos qual nos leva a melhores horizontes. Deixando de lado outros tempos, falemos do presente. Se adotarmos a não-reprovação como caminho, onde podemos chegar? Inicialmente, podemos dizer que os alunos passarão a estudar menos, a qualidade da escola cairá, a rebeldia nas escolas aumentará. Por outro lado, se continuarmos com o sistema de reprovação, a situação basicamente não se alterará muito: os alunos não terão muita criatividade, serão passivos, em certo sentido adestrados e de naturezas que pouco contribuem com a sociedade. Ambos os caminhos, são, portanto, ruins? Evidentemente que não. Antes, por exemplo, de se tomar a decisão de se acabar com a reprovação nas escolas, uma larga mudança deve ser feita no sistema educativo. A reprovação em si não pode ser ruim, mas um sistema que se utiliza dela pode ser considerado não muito bom. A mudança deve ocorrer no sistema. Antes mesmo de se pensar em reprovação ou não, deve-se pensar no que fazer para que os alunos não mais sejam reprovados (4). Chegamos, então, ao seguinte: para a situação se manter basicamente como está, deixa-se a reprovação na ativa — pois no nosso atual contexto ou muda-se o sistema educativo e excluí-se a reprovação ou não se muda nada. Por outro lado, se se quiser mudar o sistema avaliativo, o sistema educativo tem que mudar, isto é, não podemos colher e saber se um fruto é bom antes de plantarmos sua árvore.

§7. — A pouca mudança ocorrida na educação; o niilismo na educação — Nas últimas décadas, o mundo não foi privado de grandes mudanças e transformações que, acentuadamente, implicaram o surgimento de novos comportamentos, lugares, maneiras de ser. E a educação, mudou? Mudou, sim, mas insatisfatoriamente. O chamado ensino tradicional ainda dá o ar de sua graça em boa parte dos estabelecimentos de ensino. “Devemos destruir o ensino tradicional e implantar um novo, mais eficaz, no qual nossos alunos aprenderão de verdade”; “O ensino tradicional é completamente inerte e ultrapassado”; eis duas visões conceituais pobres e superficiais. Não devemos pensar no sistema educativo como se ele fosse um prédio velho e acabado que necessita da demolição, e devemos também manter o senso crítico atinente ao contexto histórico de certos acontecimentos. O ensino tradicional teve suas razões de ser e sua utilidade outrora; atualmente, as necessidades são outras e o ensino precisa a elas se adequar: nem por isso, no entanto, podemos afirmar que o ensino tradicional é ultrapassado, até porque muitas coisas caminham circularmente. No Brasil, existe um certo pessimismo em relação ao futuro da educação, e muitos mesmo dizem que não há muito o que fazer por ela. Estão enganados. O futuro da educação, e mais precisamente da educação matemática, ainda está por conhecermos, e o niilismo de alguns só nos mostram que já muitos desistiram de buscar algo um pouco melhor para seus filhos. Como todo sistema imensamente complexo, o sistema educativo do país precisa de um largo tempo para mudar, e, apesar disso, já estão existindo muitas mudanças conceituais e práticas. É preciso seguir em frente.

§8. — Uma aproximação: os nossos alunos mudaram — As nossas crianças, as crianças de hoje estão mais familiarizadas com os novos recursos oriundos do avanço tecnológico: o mundo é outro a cada dia que passa, imaginem então a cada década... A informática, os jogos eletrônicos, os celulares, tudo isso já está bem acessível para uma considerável parte de pessoas. Nesse contexto, a educação deve começar, cada vez mais, a utilizar tais recursos como instrumentos pedagógicos: trata-se de uma aproximação; precisamos aproximar da vida dos alunos os conteúdos teóricos que são ensinados nas escolas.

§9. — O papel educativo da matemática — A matemática é uma disciplina indispensável no currículo. Tem como papel principal auxiliar na formação educacional global das pessoas (5) em geral, e não formar matemáticos, como uns pretendem. Ela deve sempre manter uma ligação com a vida do aluno e com as outras disciplinas, pois o sistema educativo deve ser um só. Os alunos, por sua vez, devem ter o “privilégio” de conhecer a matemática em quase toda sua amplitude: desde os principais aspectos históricos que possibilitaram o desenvolvimento dessa ciência e o próprio desenvolvimento, até as atuais aplicações dela nas diversas áreas do conhecimento. Se isso for bem feito, é com naturalidade que os alunos reconhecerão a importância da matemática e sua utilidade para si mesmos.

§10. — Uma crítica aos conteúdos matemáticos — Muitos conteúdos matemáticos que são ensinados nas escolas são dispensáveis. Alguns poderiam até defendê-los alegando que, conquanto nunca utilizemos os mesmos nas nossas vidas, eles servem para desenvolver o pensamento abstrato ou a criatividade. São argumentos frágeis. A criatividade e o pensamento abstrato podem ser desenvolvidos a partir de uma exploração mais profunda de certos conteúdos que não são irrelevantes na matemática: gastar-se-ia um tempo maior com esses conteúdos; diminuir-se-ia o tempo ou acabar-se-ia com o tempo dispensado com alguns outros conteúdos.

§11. — Um caminho para os conteúdos — Alguns conteúdos matemáticos deveriam mesmo ser optativos: não podemos excluí-los, já que a superficialidade poderia ganhar demasiado espaço. Entretanto, quem gostasse de matemática e tivesse a pretensão de seguir uma carreira onde ela fosse importante, deveria ter o direito de se aprofundar um pouco mais nos estudos; da mesma forma, àqueles que não gostassem e que não fossem precisar muito da matemática seria dado o direito de não estudarem certos conteúdos mínimos. Todavia, como isso não vai acontecer, cabe a nós professores ensinar todos os conteúdos da grade curricular, mas priorizando alguns e dando-lhes a devida importância: por aqueles mais desnecessários, podemos passar mais ligeiramente.

§12. — Uma crítica aos utilitaristas — Alguns conteúdos são irrelevantes porque podem muito bem ser substituídos por outros, com uma pequena mudança na prática pedagógica, sem prejuízo para os alunos — na verdade, poderia existir muito ganho e benefício. Não se trata, todavia, de uma visão utilitarista. Ao olharmos os conteúdos matemáticos com os olhos de um utilitarista rasteiro, não veremos praticamente nada: uma aplicação “prática” (6) não existe para boa parte dos conteúdos, e não apenas para os matemáticos. Nada disso. O correto é mudarmos a nossa concepção de “útil”: uma coisa é boa quando nos é útil, e é útil quando nos ajuda de alguma forma. Assim, por exemplo, um poema pode ser útil a uma pessoa; isto é, mesmo que fôssemos utilitaristas profundos, nunca poderíamos privar dos alunos o conhecimento dos poemas; o mesmo pode-se dizer de muitos conteúdos matemáticos: eles não precisam ter uma aplicação prática na casa dos alunos ou na escola para que sejam ensinados, mas eles podem ser úteis de muitas outras formas para os alunos (7).

§13. — O esquecimento — Alguns professores, infelizmente, esqueceram de seus desejos, sonhos, receios, frustrações, alegrias que lhes acompanhavam quando na infância — esqueceram o que é ser criança, o que é ser aluno: se pudessem relembrar, mesmo que vagamente, seria ótimo para sua prática docente.

§14. — A música — Música nas escolas? Fazendo parte do currículo? Maravilhoso! Ótima idéia! — A música é um dos grandes bens que a humanidade possui: por meio dela, aceleramos os eclipses da alma, quando a tristeza nos aflige, e intensificamos o prazer, quando a alegria nos deleita.

§15. — O potencial de cada um — “Todas as pessoas têm a mesma capacidade de aprender, embora não aprendam no mesmo ritmo”, parece-me que isso foi dito por uma doutora em educação em algum lugar. Interpretando isso em termos da física, teremos: “As pessoas não têm a mesma energia cinética, muito embora tenham a mesma energia potencial”. Mas... Espere: falando de ideais, pode-se até admitir que duas coisas tenham a mesma energia potencial, mas noutro caso, em qualquer outro caso, tal admissão é absurda: os alunos não podem ter a mesma energia potencial, logo...

§16. — O livro didático — O livro didático de matemática pode ter os mais diversos e produtivos usos, dependendo dele em si mesmo e do seu manuseio. Digo dele em si mesmo justamente porque um livro não muito bom pode dificultar ou mesmo prejudicar todo um processo que deve desenvolver-se com um mínimo de harmonia; e digo que depende do seu manuseio porque o fator determinante para que um instrumento ganhe estimulantes e enaltecedores adjetivos é o uso que se faz dele: assim como um badame considerado não muito bom pode ser de maravilhosa utilidade nas mãos de um grande escultor, assim também um livro não muito bom pode ser muito frutífero nas mãos de educadores competentes; por outro lado, o uso inadequado de um bom livro pode tirar esta qualidade dele, e o uso inadequado de um mau livro pode ser desastroso. O livro didático, nas nossas numerosas salas de aula, faz-se um instrumento quase que indispensável para o sistema educativo brasileiro, porquanto permite, além de uma grande economia de tempo e de uma organização programática que em muito auxilia o professor, a nutrição de uma certa autonomia nos alunos, pois o livro serve-lhes como fonte de consulta e como instrumento para o desenvolvimento de estudos, em grupo ou individualmente, possibilitando o desenvolvimento intelectual dos alunos e do seu ser cidadão, com o primeiro sendo possibilitado pelos objetos cognoscíveis apresentados pelo livro e pelos respectivos caminhos, trilhados ou não, que o livro traz para o aluno visando fazer com que ele atinja tais conhecimentos, e o segundo, com informações úteis trazidas pelo livro e com o estudo em grupo que o mesmo pode suscitar com o auxílio do professor.

§17. — O esporte nas escolas — O esporte precisa estar mais presente nas escolas: mente e corpo são a mesma coisa: a saúde de um é a saúde do outro.

§18. — A afetividade na escola: o homem como animal racional — “O homem: o animal racional! O homem, o único animal guiado pela razão!”; sinceramente, não vejo muito sentido em tais afirmações, e principalmente e simplesmente porque pressupõem, em nós, uma entidade livre, espontânea, que seria causa de si mesma, e que seria, sobretudo, “causa”. Os nossos instintos, nossos sentimentos, nossas paixões, medos e frustrações, tudo isso está em contato direto com o intelecto, com a inteligência, com a capacidade de apreender e aprender, e não apenas como algo limitante, que reprime certas expressões, que impossibilita o desenvolvimento pleno de certas capacidades, mas também e primordialmente como coisa que determina, que carrega a responsabilidade pelos avanços e que em verdade são o próprio avanço — o intelecto ou “razão” não é livre, não determina: é determinado, é um reflexo, é o próprio sentimento. O aluno deve ser visto como um todo, como um organismo complexo onde todas as partes constituintes estão se relacionando a todo o momento: não só o corpo deve ser trabalhado nas escolas, mas o sentimento, as paixões, os medos, etc. Em virtude disso, o cuidado com o ambiente escolar, a afetividade e harmonia na escola, o relacionamento dos educadores entre si e com os alunos e destes com estes mesmos, ganham importância capital na educação. Os professores precisam conversar mais com seus alunos sobre o que estão sentindo, sobre seus problemas e temores; os instintos também não podem de forma alguma ser irrelevados. O sistema de ensino deve se organizar de tal forma que contemple cada aluno em sua totalidade.

§19. — O professor consciente (um caso real) — “Por que o senhor acha que se deve ensinar isso no Ensino Médio?”, “Porque tem na grade curricular”, respondeu o professor.

§20. — A motivação, parte 1 — Certa vez, chagamos na sala de aula para discutirmos um texto que havíamos lido na véspera, na qual também houve um debate presidencial; como ninguém demonstrasse o menor interesse para a discussão sobre o texto, o nosso professor mencionou o debate e perguntou o que tínhamos achado; a partir daí a discussão começou.

§21. — A motivação, parte 2 — Enquanto a meta a ser atingida pelos alunos for a boa nota, eles não terão motivação para aprender, e sim para tirar boas notas: para tanto, poderão, inclusive, fazer uso dos meios mais ilícitos, como a cola, a dissimulação, enganação.

§22. — A motivação, parte 3 — Os jovens vivem muito no presente; as metas a serem atingidas, por isso, têm que estar também no presente.

§23. — A motivação, parte 4 — O instinto de competição deve ser explorado de forma sadia: o altruísmo, a ajuda ao próximo, o “tentar erguer o outro”, são também formas de competição.

§24. — A motivação, parte 5 — A atividade, o ato de caminhar, de se mover, enfim, a ação física é um grande estimulante mental — corpo motivado, mente motivada.

§25. — A motivação, parte 6 — Algumas crianças não têm motivação alguma porque são doentes, embora possam não parecer; neste caso, o professor tem obrigação de pelo menos tentar ajudar.

§26. — A motivação, parte 7 — O medo de uma nota baixa, por exemplo, pode fazer com que certos alunos não se dediquem o suficiente e o que podem nos estudos, pois assim terão uma desculpa para um possível “fracasso”; neste caso, o professor precisa fazer com que tais alunos ganhem mais confiança e aprendam a dar importância a outras coisas, aumentando assim a sua motivação.

§27. — A motivação, parte 8 — Só podemos abraçar verdadeiramente uma pessoa se ela abrir os braços.

§28. — A nossa atual escola: a prisão com muros — A escola pode aprisionar o pensamento dos alunos ou fazê-lo saltar, criar, rodopiar — no entanto, atualmente, quando ela consegue realizar este último feito, é sempre “sem querer”.

§29. — O campo onde os pássaros voaram — As escolas não podem ser limitadas pelos seus muros, pois os alunos também precisam estudar ao ar livre, na cidade, no campo, no rio; eles precisam ver o mundo e deixar que ele penetre em seus pensamentos e doces corações.

§30. — Duros diálogos — Devem ser debatidos nas escolas todo tipo de assunto, incluindo drogas, violência, sexualidade... Mas é preciso que haja seriedade e abertura nas discussões, com os alunos não sendo tratados apenas como coisas delicadas, porém como seres humanos que, como nós, vivem neste mundo.

§31. — As cotas nas universidades — Ter uma facilidade maior de entrar numa universidade ou mesmo ganhar o direito de entrar nela apenas porque se é negro ou se estudou em escolas públicas, é mesmo muito perigoso. Ora, se tais alunos precisam ser ajudados dessa maneira para fazer uma faculdade, é óbvio que a maioria deles tomará o lugar de outros mais bem preparados; com isso, teoricamente também sairão de lá como profissionais pouco preparados. Não obstante, para aqueles que podem usufruir das cotas, a situação se apresenta com o seguinte teor: o sistema público de ensino é ruim; os negros são discriminados; como resultado, a competição no vestibular é completamente injusta, este servindo apenas como conservador das desigualdades. Com isso, o que se nos apresenta é o seguinte: a sociedade como um todo, incluindo o governo, tem dívidas profundas com tais pessoas; no entanto, o pagamento desta dívida traz prejuízo para o país e também mais discriminações, ou seja, resolve-se um problema e cria-se outros. Portanto, vejo apenas duas soluções para o problema: 1) acabar com as cotas e no mesmo instante investir-se pesado no sistema público de ensino e contra o preconceito; 2) manter as cotas, investir no ensino público e contra o preconceito, encontrar um modo para que os alunos que entrarem despreparados nas universidades não saiam de lá mais vazios do que entraram, e ainda cuidar para que haja sempre um equilíbrio no sistema, impedindo, entre outras coisas, que aqueles mais preparados não percam suas vagas para os menos preparados — a primeira solução é mais simples e possivelmente surtirá efeitos mais positivos a longo prazo, porém é injusta; a segunda, até por sua complexidade, terá uma chance maior de fracassar e de não resolver problema algum: que cada um faça sua escolha.

§32. — A fiscalização dos professores — Os professores têm e sempre tiveram uma liberdade muito extensa para trabalhar, e isso só é bom para os próprios professores que não precisam se aperfeiçoar e não trabalham sob pressão. A melhora do ensino também está ligada à fiscalização dos professores, que também precisam ser avaliados e continuamente aperfeiçoados.

§33. — Skinner e os robôs humanos — A teoria de Skinner é bem fundamentada, mas me causa um certo mal-estar, uma antipatia delicada e indiferente. Olhar para o ser humano como uma máquina que pode ser programada não é em absoluto um absurdo: a grande incoerência está em imaginar que essa programação pode ser realmente efetivada: é presunção demais imaginar que algo assim, mesmo existindo a possibilidade teórica, possa ser realizado algum dia. Algo parecido ocorre, por exemplo, com aquele que admite que qualquer pensamento é acompanhado de uma alteração física no corpo e daí conclui que futuramente, através de equipamentos moderníssimos, será possível saber exatamente o que uma pessoa está pensando por meio das análises do seu estado físico — neste caso, partindo das crenças em questão, isso seria até possível, porém com a possibilidade de realização aproximando-se infinitamente do impossível. E qual a grande identidade disso com o comportamento humano? É que, assim como no estado orgânico de um homem temos incontáveis ou até infinitos estados possíveis, o seu comportamento é determinado por um número infindável de variáveis originando um conjunto infinito de reações possíveis, dependendo da ocasião, do horário, do clima, da idade da pessoa, de suas características genéticas, ... A teoria de Skinner, portanto, só poderia ser aplicável satisfatoriamente se o homem fosse um animal supersimples, mais simples até do que o mais simples inseto.

§34. — Rogers e o deixa acontecer — Se a teoria de Skinner é rígida demais, desumanizadora demais, a de Rogers, falando especificamente no campo educacional, dá liberdade demais, é romântica e irrealista demais. Deixar que os alunos escolham o que devem estudar? Como devem? E se devem? Posso até estar exagerando e distorcendo as idéias dele, levando-as às últimas conseqüências, mas mesmo que tentemos encontrar um meio-termo para tais idéias, ou melhor, mesmo que as aproximemos um pouco mais da nossa realidade, ainda assim poderiam levar um sistema público de ensino à falência. É inegável a inexistência de uma liberdade maior e mais satisfatória para os alunos nas nossas escolas e universidades, bem como a existência de uma forte imposição e desrespeito aos interesses dos alunos, mas colocar toda a decisão, todo o destino dos alunos em suas próprias mãos é o mesmo que dar uma arma para que eles se destruam. Em certo sentido, o sistema de ensino tem que impor e não dar tanta liberdade: isso só não pode ser exagerado, o que (in)justamente ocorre.

§35. — As crianças e suas responsabilidades — Antigamente, em muitos momentos, meu pai me chamava para ajudá-lo com alguma coisa; todavia, ele sempre me dava um papel secundário na situação: minha função era sempre ser seu ajudante. Eu não gostava daquilo e em mim não era desperto muito interesse pela coisa mesma — por exemplo, se fosse o conserto de algo, não me importava se aquele algo era ou não consertado; e por que não gostava e tampouco tinha interesse? É porque eu não participava diretamente, eu não tinha responsabilidade ali, e se houvesse algum tipo de solução para o problema ou alguma construção, eu sabia que nenhum mérito ia ser creditado a mim. Entenderam, professores e diretores e educadores?

§36. — Apenas à distância — Existem muitos educadores com idéias extraordinárias por aí, mas que estão muito afastados da escola.

§37. — O ensino técnico nas escolas — O ensino técnico nas escolas deve estar absolutamente separado do sistema educativo, deve estar por fora, como um projeto onde a escola é apenas o local de sua realização. “Ensinar” uma profissão, como se faz no Brasil, não é de forma alguma educar para a vida: no máximo, é apenas preparar superficialmente o homem para ser servo, possibilitando que ele ganhe o seu salário “mínimo” — trata-se, portanto, essencialmente do combate ao desemprego, e não de educação.

§38. — A imposição mascarada — No curso de Filosofia, o professor chegou para o seu primeiro dia de aula; apresentou-se e começou a interagir com a turma fazendo-lhe perguntas; alguns alunos então responderam: “Eu acho que...”, “É porque eu gosto...”. O professor, que acabara de dizer que o principal objetivo do curso era fazer com que eles, os alunos, aprendessem a pensar, se irritou e pediu argumentos aos alunos: “Vocês precisam argumentar; ‘eu acho’, ‘eu gosto’, vocês precisam desaprender isso!”. Há imposição nisso? Sim, e uma forma de imposição que infringe alguns dos direitos básicos que cada um tem de pensar livremente, inclusive desrespeitando possíveis posturas filosóficas: um dos alunos, por exemplo, poderia muito bem acreditar que os argumentos conscientes não são confiáveis, ou ainda, são ilusões, apenas formas de justificação de uma idéia ou desejo muito mais profundo.

§39. — Paulo Freire — Os livros de Paulo Freire deveriam circular com maior intensidade nos nossos cursos de licenciatura e nas escolas, pois trata-se de um grande educador: nos seus textos encontramos, a despeito de uma certa repetitividade de idéias, muita inteligência e perspicácia, o que em alguns momentos faltam nos discursos de muitos educadores.

§40. — A aula expositiva — O que mais me chateia numa aula expositiva é o desprezo que ela manifesta pelo aluno: tudo se volta para quem expõe, incluindo aí o próprio expositor. Às vezes, quando acompanho uma aula essencialmente expositiva, daquelas que o professor chega, não dá sequer um “bom dia” ou uma “boa noite” e despeja um monte de palavras decoradas nos alunos, penso: “Esse professor pode muito bem, e com ganho para nós, ser substituído por um livro”.

§41. — O campo onde meus pais morreram — A nossa sociedade é excessivamente hedonista e devemos tomar cuidado, por isso mesmo, para que nossas crianças não sejam estragadas com cuidados e proteção exagerados. Realmente, as pessoas não gostam de conversar sobre a dor, sobre o sofrimento e sobre a morte, e, quando podem ou precisam, muitas tentam afastar as crianças de tais realidades, o que é absolutamente prejudicial para elas. O sistema educativo deve estar atento a isso.

§42. — A rebelião — O professor não deve incitar uma rebelião coletiva, porém tem que tentar se portar de uma maneira tal que, se acaso uma revolução for necessária, haja condições internas para a efetivação e posterior sucesso da mesma — aqui, faz-se importante o desenvolvimento da visão crítica dos alunos e do seu senso de responsabilidade para com o todo.

§43. — Para uma maior tolerância dos professores — Certos pensamentos que parecem-nos corretos e até lógicos podem não o ser para boa parte das pessoas, já que elas, nos seus julgamentos, utilizam-se de outros critérios e de outras estruturas que são distintas das nossas; ou ainda, cada ser humano tem uma interpretação única para cada idéia e conseqüentemente os efeitos dessa idéia ou até mesmo a interpretação que se é feito dela podem não ter a forma que nós desejávamos.

§44. — A cultura da nota e suas expressões, parte 1 — Eu estava dando aula e passei uma lista de problemas para os alunos resolverem em casa; no momento em que entregava, um aluno me perguntou: “Professor, isso vale o quê?”, e eu respondi: “Vale o seu aprendizado!”. Não satisfeito, ele olhou uma ou duas vezes para o lado e perguntou novamente: “Não, professor, sem brincadeira: isso vale o quê?”

§45. — A cultura da nota e suas expressões, parte 2 — Depois do fim de uma aula, fiquei conversando com uns sete alunos de uma turma; em um determinado momento, perguntei-lhes: “E se não existissem as provas, vocês estudariam mais?”; “A gente sequer viria para a escola, professor”, responderam-me.

§46. — Pequenas coisas que semeiam o livre pensar — Ao invés de meros resumos, solicitar aos alunos que façam um resumo crítico e com reflexões posteriores para serem debatidas em sala; ao invés de “Onde foi que paramos na aula anterior?”, propiciar aos alunos o conhecimento de uma reflexão qualquer; ao invés de “Eu não sei a resposta para essa pergunta; vou pesquisar”, dizer: “Eu não sei: vamos pesquisar?”; e, ao invés de falar tanto como se fosse uma velha fofoqueira, calar-se vez ou outra para que os alunos possam pensar em paz.

 

NOTAS

(1) O de que a reprovação é um ato criminoso.

(2) Porquanto a “ideologia reprovativa” é algo dominante.

(3) Vejam que estou sendo gentil: muitos defendem o construtivismo e não sabem por que o fazem.

(4) Nessa perspectiva, a reprovação pode ser considerada indiretamente cruel, a partir do momento em que ela está servindo um sistema inadequado. Porém, o grande problema reside no sistema e não na reprovação, ou seja, apenas “aparentemente” ela é inumana.

(5) Uso o termo ‘pessoas’ ao invés de ‘cidadãos’ porque este último é limitante: qualquer ser humano transcende em muito o cidadão.

(6) No sentido popular.

(7) O que é bom para mim pode não ser bom para vocês e vice-versa. É preciso ter cuidado nos julgamentos: o útil é relativo.