Capítulo X - A Visão do Horizonte: Como Pretendo Trilhar o Novo Caminho e o Que Espero Dele

 

— I —

Não existem professores em minha família: meu pai é comerciante e minha mãe é dona de casa; meus irmãos, um também é comerciante e o outro é metido com informática — que opulência de exemplos, ironizar-me-ão! Não obstante, minha mãe já tinha sido professora amadora, em sua mocidade, no sítio em que vivia; e eu, antes de entrar na universidade, já havia dado aulas de informática na escola de meu irmão, onde ele também ensinava (1). Evidentemente, são coisas até irrisórias quando contemplo alguns outros colegas de faculdade, que, mesmo quando lá entraram, já davam aulas e tinham vastos exemplos dentro de suas próprias casas, como a mãe ou o pai ensinando desde antes deles nascerem. Portanto, enfim, de certa forma sou como um boi que se perdeu da boiada, ou quase isso.

Contudo, esse “desgarrar” também tem muitos aspectos positivos: faltando um exemplo a seguir (imitar), tenho a possibilidade de ser bem mais original, criando e trilhando o meu próprio caminho e fazendo com que boa parte de minhas atitudes como professor não sejam apenas meros reflexos, resultando daí que posso ter mais consciência de mim mesmo no contexto em que estou inserido, pois ainda preciso encontrar um caminho, preciso, sobretudo, encontrar-me e decidir que tipo de professor eu pretendo ser.

E quanto às possibilidades existentes no referente a isso, temos uma variedade bastante considerável: ao professor, em sala de aula, é dada uma liberdade única, como não se vê em praticamente nenhuma outra profissão, e essa liberdade pode vir a trazer vastos benefícios ao professor e aos alunos, como também, infelizmente, pode trazer danos para os alunos sem o mesmo suceder com o professor. E é dessa grande liberdade, em grande parte, que surgem os diferentes tipos de professores, que vão desde o “Bom dia! Como vão vocês?” até o “Sentem-se e calem-se!” — que cada um faça a sua escolha e que decida como vai querer ser lembrado pelos alunos.

— II —

Que tipo de professor eu pretendo ser.

§ 1 §

No que a isso concerne, a primeira consideração que faço é a seguinte: de forma alguma pretendo ser um professor essencialmente tradicional. O “professor orador”, para mim, é uma coisa que já causa desgosto, é algo que debilita a força e o brilho dos meus olhos: atualmente não consigo assistir a uma aula de um professor desses sem dar uns dez bocejos e sem deixar de dirigir o meu pensamento para outra coisa que não seja aquilo de que trata a fala do nosso orador. As aulas profundamente tradicionais se tornaram coisas chatas para boa parte dos alunos, os mais autônomos e que não baixam a cabeça facilmente, porquanto trata-se sempre de uma aula impositiva e na qual sempre prevalece um único ponto de vista que deve ser engolido pelos alunos, ou que pelo menos deveria ser: nesse sentido, só aqueles alunos que não mais acreditam em si mesmos (ou que nunca acreditaram), que vêem o professor como um “mestre” que tudo sabe e que tudo detém, que não desenvolveram ainda a capacidade crítica e o pensamento próprio, enfim, só o nosso aluno atual, infelizmente, consegue perceber ainda sentido no professor tradicional.

Pelo contrário, pretendo ser um professor que estimula o pensamento do aluno, que não apenas fala para ser ouvido, mas que ouve para ensinar a falar (2). Esta é mesmo uma questão que prezo muito e não duvidem que não é à-toa que escrevo isso: quando estou em sala de aula, encaro os alunos de frente e não só sei que eles têm muito a me dar como recebo os seus presentes com alegria e satisfação — na verdade, eis aqui uma questão interessante: às vezes, o simples fato de interagir com os alunos me arranca da taciturnidade e incute em mim uma grande satisfação em estar vivo, e isso, em mim, não ocorreria se não houvesse troca e compartilhamento e ainda ausência de desprezo, este último sendo tão manifesto nas atitudes de muitos tradicionalista, que entram na sala desanimados e saem com raiva.

§ 2 §

No meu estágio, percebi que o nível dos alunos não está de forma alguma satisfatório, o que foi mostrado, inclusive, pela Prova Brasil o ano passado, com os alunos do nosso Nordeste tendo um péssimo rendimento. Nem por isso, todavia, devemos deixar de ser exigentes: com efeito, esta é uma das características que vou querer nutrir e manter em minha prática docente. No entanto, faz-se necessário um profundo cuidado ao falarmos em exigência: não pretendo, por exemplo, ser um carrasco para os alunos, colocando provas e testes dificílimos e bem acima do seu nível cognitivo ou simplesmente reprovar 70% da turma; não, a exigência da qual falo é coisa bem distinta dessa: ela significa acompanhar mais de perto os alunos e cobrar deles o seu desenvolvimento. Essa exigência, portanto, é uma espécie de responsabilidade: ensinar com responsabilidade e, por conseguinte, ter o direito de cobrar que os alunos sejam responsáveis, propiciando assim tanto o meu desenvolvimento quanto o deles.

§ 3 §

As provas, pretendo utilizá-las apenas como um instrumento, senão secundário, mas sem uma importância demasiada grande para a avaliação, que por sua vez, em minha concepção, é um dos pontos centrais na metodologia de um determinado professor, sendo responsável, muitas vezes de forma direta, pelo sucesso ou insucesso de um determinado sistema de ensino. Quero dar valiosa prioridade à avaliação contínua, feita no dia-a-dia, com o auxílio da observação direta e indireta e fazendo discreto uso das palavras dos alunos e de seus diferentes modos de expressão, bem como do seu comportamento e assiduidade, engajamento nos trabalhos em grupo, dedicação nas atividades individuais e, no fim, valendo-me também da evolução dos alunos em determinados aspectos. A avaliação, portanto, e farei questão de deixar isso claro para os alunos, será constante e realizada todos os dias de aula, dessa forma fazendo-se necessário um constante esforço por parte dos alunos para que possam ter um bom desempenho.

§ 4 §

O desenvolvimento dos trabalhos em grupo em sala de aula é também uma de minhas metas.

As atividades individuais, indubitavelmente, têm uma importância capital para o desenvolvimento dos alunos em vários aspectos, e propiciam aos alunos, em muitos momentos de uma forma sobremaneira eficaz, uma segura e larga escada para sua elevação, principalmente no âmbito intelectual. Ainda assim, contudo, a consideração das atividades individuais como sendo algo absolutamente salutar é um equívoco, um grande equívoco, diga-se: elas não dão o tratamento adequado a uma montanha de outros aspectos sumamente importantes e que estão inseridos nos objetivos do sistema educativo, como por exemplo a capacidade de aceitar as diferenças, a tolerância, o companheirismo, a solidariedade, o respeito por si mesmo e pelos outros, a própria capacidade de aprender com os outros, o diálogo, etc. Já a atividade em grupo, por outro lado, além de trabalhar tudo isso, seja de forma negativa ou positiva (e o professor que cuide para que seja positiva de um modo geral), invade também e engloba a questão puramente intelectual, pois um aluno ajuda o outro, o outro ajuda o um, e assim o aprendizado tende a ser bem maior.

Ademais, aquela competição desumana e nociva que muitas vezes ocorre em sala de aula é atenuada com a atividade em grupo, isso fazendo com que não apenas um ou dois alunos evoluam mas sim que o próprio grupo cresça. Aqui, pois, vou de encontro contra o sistema capitalista ou pelo menos contra parte do que é pregado em seu nome e contra a própria cultura que foi imposta às pessoas, que por sua vez aceitaram, por aqueles que dominam, aqueles que querem a competição para que melhores operários sejam formados para que eles lucrem mais: a educação não deve se submeter aos ideais dessa gentinha medíocre e espiritualmente pobre e miserável — ela deve procurar ser abrangente como o mar e como o sol.

§ 5 §

Foi-se o tempo em que as aulas eram dadas de forma satisfatória apenas com o uso do giz, da voz e do quadro negro: ao menos uma pequena parte da vasta gama de novos recursos que surgiram para o ensino deve figurar na metodologia de qualquer professor que tenha a pretensão de fazer um bom trabalho. A questão é bastante simples: os alunos precisam estudar mais e com maior independência, e tal estudo de forma alguma deve deixar de ser proveitoso, ou seja, ele deve ser eficaz e trazer bons frutos para os alunos; para tanto, ou o professor se utiliza de métodos coercitivos e obriga os alunos a estudarem, como ocorre na maioria das escolas com o uso das provas e com alguns discursos, ou o professor organiza um método de ensino que possa despertar a curiosidade e o interesse dos alunos para a sua disciplina, fazendo assim com que eles estudem mais e de uma forma mais espontânea e por conseguinte mais sadia.

É claro que, quando inserimos nesse quadro a atual cultura da nossa sociedade e dos próprios alunos, essa questão singela adquire outros contornos e algumas dificuldades e até impedimentos surgem: como trabalhar certas atividades, por exemplo, que carecem da ação dos alunos para que o êxito seja alcançado, se a inatividade é tão presente nos nossos alunos? Uma resposta razoavelmente boa para tal pergunta seria aquela dada por muitos educadores e cujo teor é algo do tipo: a solução para isso é desenvolver atividades interessantes que automaticamente os alunos se estimularão e agirão. Contudo, estas “atividades interessantes” precisam de um esclarecimento mais digno por parte desses educadores que falam sempre muito por cima e, quando o fazem de forma mais detalhada, em geral trata-se de uma atividade especial, uma pesquisa ou um trabalho para doutoramento, ou seja, algo que foge da verdadeira realidade das escolas, principalmente daquelas escolas que estão mais à margem (3).

A solução que enxergo para isso, e é inclusive o que tentarei, é a invasão dos novos recursos no ensino, mas uma invasão gradativa e planejada, que dê tempo aos alunos e que vá mudando a cultura escolar aos poucos. Não acredito, de forma alguma, que uma metodologia completamente nova, que utiliza bastantes jogos, a informática, brincadeiras diversas, vídeo, etc., não acredito que a implantação de um método de ensino que se utilize de tais recursos possa lograr êxito: na verdade, penso que ela já estaria fadada ao fracasso antes mesmo de ser completamente efetivada, pois os alunos, principalmente aqueles das séries mais avançadas, não “combinam” com tais coisas, ou ainda, os professores, com sua mania de apenas expor e de fazer tudo para os alunos, incutiram neles a preguiça e a indisposição para o estudo (4), desenvolvendo assim, ao longo dos tempos, uma cultura escolar que não aceita a mudança repentina de uma metodologia para outra muito diferente da primeira, de um método de ensino arcaico para outro mais ousado e que exige atitude dos alunos — a mudança, portanto, deve ocorrer aos poucos, muito embora tenha ocorrido até agora de uma forma demasiado lenta.

Dessa forma, quando eu começar a ensinar, seja no estado ou em outro lugar, sei que não terá sucesso a tentativa de desenvolver um trabalho metodológico completamente novo, que se utiliza dos mais diferentes jogos, do computador e dos melhores softwares educacionais, das atividades em grupo e da modelagem, de um sistema avaliativo que dispense por completo as provas: a implantação dos jogos matemáticos, por exemplo, deve ser iniciada aos poucos e não em todas as turmas; o uso do computador, se na escola houver a disponibilidade de um laboratório de informática, também deve ser feito com cautela e com muito e cuidadoso planejamento. No decorrer do tempo, com a experiência advinda dos fracassos e êxitos iniciais, acompanhados de uma pequena mudança na mentalidade dos alunos e dos próprios professores, aí sim é que se pode pensar numa mudança mais drástica: até lá, temos que ir aprendendo a mudar.

§ 6 §

Em minha época de estudante, só vim usufruir verdadeiramente do livro didático lá pelo primeiro ano do Ensino Médio. Atualmente, pelo que vejo nas escolas, os livros estão mais presentes, com, inclusive, os alunos do Ensino Médio, em algumas escolas, recebendo livros de algumas disciplinas, principalmente de Português e Matemática, sendo isso muito importante para quem ensina.

O livro didático, além de trazer muitas informações e de ser uma não pouco irrelevante fonte de pesquisa e de atividades para os alunos e para os próprios professores, se bem usado, pode ser de grande serventia, em alguns aspectos, para os professores, como por exemplo na organização dos conteúdos e na economia de tempo que lhe propicia. Todavia, em relação ao modo como o professor encara e utiliza o livro didático, a cautela é necessária: a supervalorização do mesmo pode trazer uma grande ineficácia para o processo de ensino-aprendizagem, uma vez que limita bastante o campo de estudo não permitindo o divagar solto e livre pelo mundo, além de tornar as aulas muito afastadas do cotidiano dos alunos e do seu próprio mundo, e além ainda, neste caso quando o professor se utiliza apenas de um único livro, transformando a abordagem dos assuntos em algo monótono, sem muitas perspectivas, isto é, apresentando apenas um único ponto de vista.

Eu, por meu lado, pretendo utilizar, inicialmente, uns três livros diferentes em minhas aulas e na preparação delas, usando parcialmente os livros dos alunos, se estes os tiverem, para a realização de atividades, principalmente pesquisas e resolução de problemas em casa, com estas últimas tendo muito valor, já que permitem, de certa forma, a exploração independente por parte dos alunos, desenvolvendo ou contribuindo ligeiramente para o desenvolvimento de sua autonomia.

§ 7 §

Ainda em referência à autonomia dos alunos, não está em meu querer ser um professor que trabalhe no lugar dos alunos, desenvolvendo o que eles devem desenvolver: pretendo ser um professor mediador, e não me importo em ter um papel um pouco secundário no processo.

O professor que acaricia demais os alunos está prejudicando-os, aparentemente sendo bom, mas estorvando os alunos e travando e tolhendo o seu caminhar, o livre caminhar no qual os obstáculos, isto é, aquilo que promove o descontado dos pés com o chão e que portanto alça, devem fazer-se sempre presentes. Os problemas e os exercícios, por exemplo, não devem de modo algum ser inteiramente resolvidos pelo professor, que deve, aqui, ter uma participação parcial, estimulando os alunos a resolverem os problemas propostos e deixando claro que vai resolver apenas alguns poucos problemas. E quanto às atividades para os alunos levarem para casa, mesmo sendo difícil fazer com que eles resolvam-nas ou mesmo tentem resolver, no entanto é possível fazer com que eles estudem com mais afinco na própria escola — logo, o professor que não diminua a possibilidade de efetivação dessa necessidade resolvendo os problemas que são para os alunos resolverem (5).

Portanto, esse é um dos primeiros passos que tentarei dar para despojar os alunos de sua incômoda e danosa preguiça, que por sua vez só poderá ser enfraquecida depois de muito tempo e com o auxílio de boa parte dos professores: é da atitude e imposição desses que poderá surgir o desfalecimento daquela.

§ 8 §

Não ser tradicional em demasia, ser exigente, avaliar continuamente, fazer uso dos trabalhos em grupo, utilizar os novos recursos para o ensino, fazer bom uso do livro didático, ser um professor mediador — será que estou exigindo demais de mim mesmo? Ou será pouco? Primeiramente, vejam que deixei de lado algumas exigências que são impostas aos professores na nossa atualidade, como por exemplo a interdisciplinaridade ou a “conversa” entre as disciplinas, que não é algo que tentarei logo de início, pelo menos não movido por um querer inteiramente meu: farei se os professores da escola em que vou trabalhar quiserem desenvolver um projeto nesse sentido; em caso contrário, tentar convencer, persuadir e dissuadir os outros nesse sentido seria uma perca de tempo quase certa, salvo algum milagre ou a presença de uma força de vontade e de uma capacidade dialética e oratória estonteante, que aumentariam significativamente a possibilidade de sucesso do intento. E depois, esse esboço que fiz do professor que pretendo ser é algo a ser atingido, aliás, é algo do qual tentarei me aproximar o máximo possível: eu não sou um professor assim, pois não sou um professor ainda — logo, é uma meta, capacidades que vou procurar desenvolver em mim mesmo ao longo dos anos, podendo fracassar ou não, podendo ir muito além disso e inclusive desenvolvendo novas capacidades das quais não falei, ou simplesmente ficar bem aquém, transformando-me em um professor medíocre... Se o que propus para mim mesmo está além ou aquém de minhas capacidades, se atende ou não o perfil do professor que o mundo quer, eu ainda não estou apto para dar uma resposta que seja adequada.

— III —

Minhas deficiências.

§ 1 §

Para conseguir atingir minhas metas enquanto profissional, algumas competências fazem-se necessárias. Inteligência satisfatória, desejo de evoluir, propensão à pesquisa, bom domínio da escrita, intimidade com alguns dos novos recursos para o ensino — estas são algumas das coisas que estão presentes em mim. No entanto, e é evidente que deixei outras coisas de fora, isso só não basta.

Passarei a escrever agora, de forma sucinta, sobre algumas de minhas deficiências, sobre aquelas que, acredito, devem ser sobrepujadas ou melhoradas para que eu possa me tornar um professor senão ótimo mas pelo menos razoável.

§ 2 §

O bom professor tem que saber se expressar.

Este é, com efeito, o meu maior desafio enquanto professor que precisa evoluir e se aprimorar em sua profissão: tenho que aprender a me expressar melhor.

Minha dicção não é boa e por vezes, quando estou falando publicamente, algumas pessoas não compreendem certas passagens de minha fala: geralmente reclamam que minha voz é muito baixa e tímida; além disso, muitas vezes a forma como concateno as palavras é digna de um posterior pedido de desculpas: aqui, ocorre um problema com os meus pensamentos que, de forma intranqüila, surgem impetuosos e querendo, vários ao mesmo tempo, serem expressos oralmente. Dessa forma, embora exista um sentido concreto e completo em muitas de minhas seqüências de palavras, como elas tentam expressar várias idéias ao mesmo tempo, a incompreensão se instala naquele que me escuta, principalmente quando pulo de um pensamento para outro de forma abrupta.

§ 3 §

O bom professor tem que saber se fazer entender.

Não bastasse a dificuldade para os meus ouvintes me entenderem oriunda de minha expressão enquanto expressão, às vezes, quando estou explicando algo, afasto-me e posiciono minha linguagem um pouco distante da linguagem que deve ser utilizada para uma melhor acepção dos alunos. Não se trata, porém, de falar em um nível alto demais ou baixo demais, mas de aplicar um sentido às palavras que foge um pouco da realidade dos alunos e do próprio conteúdo que estou ministrando. Poderia dizer que preciso dar um significado às palavras que as torne facilmente acessíveis para os alunos, que entrem em suas mentes e não sejam rejeitadas pelo seu mundo particular, fazendo com que, por exemplo, um determinado exemplo ou ilustração que lhes dou se torne claro e assim atinja o objetivo que se pretendia com o seu uso — em suma, eu não sei explicar muito bem.

§ 4 §

O bom professor tem que ter uma boa noção a respeito do processo pelo qual os alunos apreendem os conteúdos que estão sendo ministrados.

A questão, na verdade, é basicamente esta: é preciso saber identificar os bloqueios epistemológicos que fazem com que os alunos não aprendam ou tenham dificuldades em aprender um determinado assunto — eis algo que preciso melhorar bastante e com o qual o curso de licenciatura não me ajudou em praticamente nada.

Noutro dia, por exemplo, estava dando uma aula de reforço para um menino; uma das dificuldades dele era colocar um número em forma de fração. Em uma dada questão, tinha-se que colocar o número 1,2 na forma de fração, e a resposta dele era sempre 1/2; daí, expliquei a ele a forma correta de fazer e etc. Na outra aula, cerca de uma semana depois, em outra questão parecida, ele fez a mesma coisa: perguntei-lhe a razão de ele ter feito aquilo (disse-me que é porque era o certo), se alguém o havia ensinado daquela forma (negou); no fim, não consegui entender o porquê daquela resposta. A despeito disso, e aqui é que reside essencialmente o problema no nosso caso, havia uma razão para ele fazer aquilo e seria importante que fosse descoberta, pois poderia possibilitar não só a solução correta para o problema e um aprendizado mais consistente como também poderia ajudar a corrigir outras falhas no modo de pensar do aluno, outros derivados de uma falha em sua rede psíquica ou mesmo outra falha na mesma.

Evidentemente, se olharmos com outros olhos, poderíamos até pensar que isso não é tão importante assim, já que um professor quando está em sala de aula não tem como dispensar uma atenção demorada aos alunos individualmente, e em geral cada aluno tem seus próprios bloqueios. Além disso, esse tipo de conhecimento, de faro e percepção, o professor só o adquire com a experiência (ou seja, um curso de licenciatura não por obrigação “ensinar” isso). Daí, além de isso não ter tanta importância para o professor que vai trabalhar com “alunos”, é absolutamente natural que um recém-formado esteja despreparado nesse aspecto. Todavia, em relação ao que temos hoje, para o futuro contemplo algo diferente, que deve ser e é necessariamente diferente: a abordagem dos conteúdos terá cada vez mais como parâmetro os próprios alunos — em muitos lugares já está sendo assim: é que nós estamos muito atrasados. Quanto ao fato do recém-formado não ter a obrigação de dominar a capacidade de identificar os bloqueios, pois esta só vem com a experiência, o bom professor tem que tê-la e, portanto, considero-me deficiente neste ponto.

§ 5 §

O bom professor, na nossa atual conjuntura, tem que acreditar na mudança.

Se a esperança na mudança e no progresso é natural ou não no ser humano, eis uma questão que é para ser tratada em outro escrito. Aqui, é bastante que eu diga que vejo uma grande estática em todas as coisas, desde as mais simples às mais complexas (simples aqui é diferente de particular). Em outras palavras, eu acredito no equilíbrio universal, isto é, não admito a existência do progresso ou da evolução (salvo em casos estritamente subjetivos e sempre com um bom relativismo como plano de fundo). Em vista disso, temos então o conflito: como mudar sem acreditar que isso seja possível? Como incitar a mudança sem acreditar nela? Ou melhor, por que mudar? Por que incitar? Tal conflito, que já está presente em mim faz alguns anos, tem ameaçado a minha esperança de ainda ser um bom professor. Por outro lado, este é um conflito que, em relação à sua totalidade, dista sensivelmente da sala de aula, pois a crença no equilíbrio universal é uma crença metafísica e que quer abranger o todo, muito embora tenha suas conseqüências na contemplação do particular.

Sei, por exemplo, que, enquanto existirem seres humanos e natureza, as guerras nunca se extirparão, pois a guerra faz parte da vida; sei também que a igualdade nunca existirá entre os homens, pois, além do conflito de forças sempre se fazer presente nos seres, nada de igual existe na natureza; além do mais, sei que a infelicidade sempre estará vagando pelo mundo, pois é algo necessário. Entretanto, não pensem que tenho uma visão tão desanimada e descolorida das coisas: a pobreza e a miséria material, por exemplo, pelo menos naquilo que é mais essencial, ou seja, em uma palavra, a fome, acredito que ela possa ser extinta. E mesmo tendo tais pensamentos, eu posso muito bem ir para a sala de aula e cumprir satisfatoriamente o meu papel como professor que precisa ajudar um determinado grupo de pessoas a encontrarem o seu próprio caminho, a evoluírem no seu contexto particular — só não me perguntem se eu acredito em paz eterna e na “igualdade de direitos”... Ou ainda, podem perguntar, e é até bom que o façam, que terão a minha resposta! A minha resposta!

O conflito, contudo, permanece: um professor que realmente acredita nessas coisas pode lutar com mais vivacidade, não por elas, não pela utopia e sim por outras coisas pelas quais um professor um pouquinho mais “desanimado” como eu não lutaria com tanta energia. Eu, portanto, terei que me elevar em outros aspectos, pois não sou idealista, não acredito no “céu” e por isso mesmo vivo mais parado, no chão, de forma mais fixa, com menos energia para a mudança e com pouca esperança.

— IV —

É chegado o momento

§ 1 §

Depois de um longo intervalo de tempo sem escrever, chegou o momento de encerrar este livro. Tinha dito a mim mesmo que só ia encerrá-lo na véspera de iniciar o novo caminho: começo amanhã a ensinar.

Infelizmente, houve uma demora muito grande, pois, muito embora tenha feito o concurso em 2005, em dezembro de 2005, só fui ser chamado agora para tomar posse no dia 03 de janeiro de 2008 — uma demora lamentável do governo do nosso querido estado da Paraíba. Mas, enfim, fui chamado, escolhi a escola e começo amanhã.

§ 2 §

Que espero do novo caminho? Esta é a questão que ainda não respondi; é a única que falta.

A minha escola situa-se quase na zona rural e, conquanto tenha uma estrutura razoavelmente boa em termos de conservação, é bastante pequena. Não tem computadores em lugar algum. A maioria dos alunos mora nas redondezas (talvez todos). Alguns professores ensinam duas disciplinas; outros são contratados, isto é, o concurso que o estado fez não teve o número de vagas suficientes. Não houve planejamento na escola (estava marcado para os dias 07 e 08 deste mês, porém não houve — e não sei ao certo a razão disso). Não recebi os livros que devem ser entregues aos professores, ou seja, vou começar a dar aulas numa escola sem saber que livros serão utilizados pelos alunos (o diretor disse que não recebeu os livros dos professores; fui à editora quatro vezes e não consegui nada). E para completar, o diretor me disse que está esperando uma tal de reforma, isto é, possivelmente, em algum mês daqui para frente, terá início um período sem aulas que poderá durar várias e várias semanas, talvez meses. É um cenário atrativo, não? Talvez não seja dos melhores, mas tentarei fazer o melhor que posso (desde pequeno, este sempre foi um dos meus lemas: se for fazer algo, faça bem feito; se não for fazer bem feito, não faça). No final das contas, eu sempre procurei fazer as coisas da forma mais bem feita possível, fosse nos estudos, no trabalho, etc.; se não consegui fazer, foi por limitações impostas pela minha natureza e pela própria natureza.

§ 3 §

Eu não espero que o novo caminho seja um caminho maravilhoso, cheio de árvores bonitas, rosas, um ar agradável, o som do rio acariciando os ouvidos, e, ao fundo, um pôr-do-sol fantástico servindo de pano de fundo para aquele cenário (6). Nada disso. Mas também, por outro lado, espero muitas boas coisas, sim. Por exemplo, trabalhar com adolescentes ou crianças sempre serviu-me como terapia (7). Ademais, ultimamente tenho percebido algo que até então tinha passado desapercebido: tenho as características de um professor, tenho um professor muito forte dentro de mim: vim perceber isso na forma como venho ensinando as pessoas pela Internet (venho ensinando Informática, principalmente programas gráficos, em várias comunidades do Orkut), na forma como me interesso pelas questões, na forma como pesquiso e como estudo para passar da melhor maneira possível (eu estudo pensando no outro, em como adquirir um determinado saber e transformá-lo de tal forma que o outro possa compreendê-lo da melhor maneira possível, de tal forma que aquele saber possa interessar ao outro: isso é típico do professor, e percebi que estava fazendo isso naturalmente, sem nem mesmo ter consciência).

§ 4 §

Um dos maiores problemas que vejo é realmente o salário. Acredito, inclusive, que boa parte do stress tão presente nos professores é oriundo de muitas horas de trabalho (praticamente a única forma dos professores ganharem um salário mais digno). Certamente, se os salários fossem melhores e os professores não precisassem trabalhar tanto, o clima seria bem mais agradável, os professores seriam mais felizes e estariam mais satisfeitos com a própria vida: a profissão de professor é muito bonita, há muitas satisfações no trabalho, muitas recompensas; é muito bom participar da história de vida de alguém, ajudar alguém a crescer, a ganhar força para lutar por uma vida melhor. A Matemática, a História, a Filosofia, enfim, o conhecimento, as ciências, o avanço do saber, tudo resplandece quando bem utilizado, quando plantamos a semente da forma correta, respeitando a terra, respeitando a semente.

§ 5 §

Epílogo.

Eu espero poder ser mais feliz em minha nova profissão: vou tentar trabalhar direito, fazer a minha parte. As dificuldades serão contornadas. Tenho muito a evoluir, e vou evoluir. Ficarei sempre estudando: quero fazer mestrado e doutorado mais na frente. Espero que a educação melhore, que os professores sejam mais felizes, que o povo do Brasil seja menos corrupto, que os políticos sejam presos. Espero, enfim, que tudo dê certo, que este livro caótico e fragmentado possa ter alguma utilidade algum dia.

Por enquanto, nada mais tenho a dizer: que venha a vida, e que nós a vivamos!

 

NOTAS

(1) Suspeito, inclusive, que essa curta época de aprendizagem e ensino tenha influenciado, posteriormente, a escolha que fiz do curso no momento do vestibular.

(2) E a tendência de nossa época, o futuro mesmo dirá que é esse o tipo de professor que deve prevalecer, com o professor tradicional adoecendo e morrendo, e isso começando pelas escolas para só depois, muito tempo depois, atingir os muitas vezes arrogantes e despreparados professores universitários.

(3) Veja-se, por exemplo, que muitas pesquisas para dissertações ou teses são feitas em turmas boas de boas escolas, o que muitas vezes produz um trabalho final ilusório e cambiante quando nos utilizamos de parâmetros mais consistentes e reais para analisá-lo.

(4) Noutro dia, estava conversando com a filha de minha prima; ela faz a quinta série e, no momento no qual conversávamos, tentava fazer uma atividade; não conseguindo, olhou para mim e disse: “Ah, eu não vou nem tentar novamente: a professora corrige no quadro mesmo!”.

(5) Porque muitos professores fazem isso: viram seus professores fazendo, não resistem à tentação de resolverem os problemas na frente dos alunos, eles imaginam que é mais prático e que perdem menos tempo assim.

(6) E se assim fosse, que graça teria? Eu morreria de tédio em um mundo desgraçado pela maravilha.

(7) A tal ponto que a própria depressão ia embora.