Primeira Parte

 

1 — O sentido da vida — Muitas e muitas pessoas, jovens e experientes, julgam que a vida humana, e só humana, é apenas um estágio ou mesmo preparação para algo vindouro, cintilante, algo que vai e deve ser bem melhor do que a nossa condição atual; pensam tudo isso, embora a experiência e a razão digam o contrário. Mas, enfim, por que tantos devaneios? Se se prestar atenção, notamos, inicialmente, que tais devaneios corroboram para uma negação da vida, pois as pessoas sempre imaginam este “outro mundo” como algo melhor que o atual, e depositam nele todas as suas esperanças, ou seja, em outras palavras, afirma-se com tais ilusões que nosso mundo é um mundo miserável e, por conseguinte, os donos de tais ilusões são, no fundo, pessimistas ou pelo menos pessoas insatisfeitas com a vida — e, neste último caso, o devaneio é uma expressão da necessidade de se ter esperança. Por outro lado e quase paradoxalmente, muitos desses sonhos são frutos de instintos que têm como finalidade a preservação do indivíduo ou da espécie. Isto se torna clarividente ao contemplarmos as crenças de inferno ou purgatório, com a primeira estando presente em diversas culturas, que, embora muitas vezes criadas ou intensificadas para meros fins “humanos” — como a manutenção da fé e das contribuições dos fiéis para as igrejas — são utilizadas pela natureza para evitar o suicídio em massa (falando de uma forma mais extremada e fazendo referência a épocas sombrias da história humana) e para que as pessoas, principalmente aquelas mais desanimadas, possam encontrar algum sentido maior na vida, alguma “graça” ou razão de ser, isto é, preenchimento do vazio. O sentido da vida, assim como o sentido de qualquer coisa, não está nela mesma, mas apenas pode ser dado a partir de uma contemplação externa — com efeito, a pergunta: “Tem a vida algum sentido?” não tem sentido, pois tal contemplação é impossível e por consequência não podemos sequer cogitar a existência de uma resposta para ela, e se uma pergunta não tem resposta de forma alguma, é porque não é uma pergunta, porém um erro: para aqueles que formulam esta última pergunta de forma consciente e séria, temos um erro da razão; para aqueles primeiros que deram um sentido para a vida de forma grosseira, ou melhor, que tiveram que dar um tal sentido, temos um erro interno, oriundo de um determinado estado orgânico, e que aflora semeando e dando origem a uma concepção de sentido e a uma visão monótona, descolorida e pouco angular de todas as coisas.


2 — O destino como desculpa — Uma vez ou outra, ora aqui ora ali, é comum escutarmos ou lermos que “o destino é a desculpa dos fracassados!”. Esta frase destoa de um pensamento mais profundo, em primeiro lugar, por expressar uma ideia vaga ou até mesmo inválida a respeito do que comumente se chama destino; em segundo lugar, por não considerar a relatividade das coisas; e, finalmente, por apresentar uma visão unilateral da questão, pois, em boa parte dos casos, quem diz algo assim é alguém que pensa ter conseguido êxito e, portanto, afirmar a existência do destino seria negar o próprio êxito.

3 — O desejo oriundo da virtude dos outros — A virtude nas pessoas produz-nos um grande enlevo, como se ornamentassem as pessoas a ponto de desejarmos sempre estarmos perto delas, pois nos parecem tão cândidas. Esse desejo emana do nosso egoísmo e tem como fim último harmonizar um pouquinho mais as relações entre os homens: à visão de alguém benevolente ou virtuoso, queremos nos beneficiar com sua benevolência (isto, claro, ocorre inconscientemente), e com isso surge em nós o desejo de ficarmos pertos de tais pessoas; da mesma forma, repelimos e nos enojamos de pessoas sem generosidade ou virtude. Somos animais sociais e, como tais, necessitamos das pessoas junto a nós, ou seja, existe uma ação coercitiva da natureza forçando-nos à prática da virtude, pois se formos virtuosos, as outras pessoas vão, pelo menos, querer aproximar-se de nós.

4 — Se no mundo existe uma significação moral — Se a moral existisse verdadeiramente, é possível que existisse tal significação. Mas, no entanto, a moral é coisa relativa que ininterruptamente muda com a cultura, com os povos, com o tempo. Donde concluímos claramente que essa significação moral é pura ilusão.

5 — A insegura crença dos evangélicos — Já notei em muitos evangélicos (principalmente nos mais fanáticos) um temor que é suscitado à vista de um diálogo mais racional com qualquer pessoa, desde que essa tenha um intelecto um pouco mais perspicaz do que a maioria; se, ao contrário, se trata apenas de mais um “motor movido a preconceito”, então não há temor. Esse temor emana, em geral, das profundezas do consciente, indicando que tais evangélicos não confiam inteiramente nas suas crenças. Havendo desconfiança e uma necessidade de acreditar no que acreditam, eles lutam ferozmente contra qualquer esclarecimento mental, e logo que alguém “esclarecido” se lhes aproxima para conversar a respeito de tais assuntos, o temor irrompe dizendo: “Não queremos ouvir a sua ladainha, nossas crenças foram edificadas em bases inseguras e, apesar disso, nós precisamos delas!”. Tudo isto e algo mais nos mostram que a fé destes “intolerantes por necessidade” se origina não na convicção ou no coração, mas antes naquilo que é um verdadeiro produtor de crenças: a necessidade.

6 — O instinto de competição — O instinto de competição é oriundo da necessidade de preservação do ser e da própria espécie, é mais um dos recursos da natureza que, promovendo a competição, faz com que cada indivíduo melhore em relação a si próprio e em relação aos outros, garantindo assim a sua existência e a da espécie. Trata-se de um dos instintos mais importantes e poderosos nos humanos — para se ter uma ideia de sua importância, basta que evoquemos a grande “evolução” da espécie que, em parte, foi graças a esse instinto; para verificarmos o seu poder, basta dizer apenas que não haveria qualquer competição esportiva sem esse instinto. É interessante notar que muitas pessoas dizem: “O mundo de hoje é pura competição!”, ou: “Atualmente, o mundo é demasiado inumano: para onde olhamos só vemos competição e competição...”. Dizem isso como se o mundo há três mil anos atrás já não fosse assim.

7 — Dois coelhos de uma só tacada — Passa despercebido a quase todos o verdadeiro objetivo do amor: a procriação. Devia estar um belo dia quando, em meio ao tumulto e inquietação, a natureza parou, arquejou, depois sentou-se e acalmou-se, ficou absorta por um instante, despertou, virou-se e dirigiu seu cândido e cintilante olhar para nós: os homens. Depois pensou assim: “Que artifício vou usar para promover a procriação nesta espécie? A natureza deles não permite o amor à própria raça e eu não vou criar outra...”. Foi assim pensando que ela teve a grande ideia: o amor. Sim, o amor permitiria a perpetuação da espécie de uma forma bem mais segura do que uma simples atração física, pois não basta apenas procriar, é necessário também proteger e cuidar para que os novos seres cresçam saudáveis. Mas não foi só isso: como o dia estava lindo, a natureza regozijou-se e quis nos dar algo mais, e nos deu: deu-nos um sentido mais profundo para nossas vidas tão vazias, deu-nos uma alegria mais intensa e mais verdadeira; entretanto, ela foi esperta: deu-nos tudo isso não por fora, mas junto com o amor. E foi assim que ela matou dois coelhos de uma só tacada.

8 — Sim! A vida é uma comédia! — Era uma data carnavalesca e muitos foram festejar; mas eis que não há influxo de gostos e de crenças e, concomitantemente às festas, criaram dois encontros paralelos: um de evangélicos e outro de católicos. O assunto em pauta nos dois encontros era: “A tolerância como arma para promover a paz e a interlocução entre as diversas religiões”. Todavia, como os encontros eram de três dias, foi preciso inserir outras atividades nos encontros; uma delas seria uma palestra de um pastor no encontro dos evangélicos. Acontece que, em um dado momento, o pastor falou desta maneira: “(...) então, meus irmãos, fica-nos claro que as aparições de Nossa Senhora nada são senão manifestações demoníacas...” Ah, meus amigos! Quando tal declaração chegou aos ouvidos dos católicos, eis que reluziu a tolerância: “Esse pastor é mal informado!”, disse um padre; “Ele é mau caráter, imundo e merecia levar umas tapas!”, disse outro. Sim! A vida é uma comédia!

9 — A divina comida — As pesquisas mostram-nos um crescente número de obesos em nosso país; a isso atribuo as seguintes causas: grande facilidade ao acesso a comidas gordurosas e as facilidades da “vida moderna”, a falta de tempo e a despreocupação das pessoas com uma boa alimentação. A nossa cultura atual é impertinente para os obesos que não se aceitam, suscitando inúmeros suplícios em suas vidas — aliás, diga-se: se não quisermos infligir sofrimentos nos obesos, se se conhece a dor da não-aceitação, é bom tomarmos cuidado no convívio com os mesmos. Entretanto, se a obesidade é um tipo de doença, então a cultura pode ser útil: é graças a ela, em geral, que os obesos esforçam-se para emagrecer. No geral, temos três etapas: inicialmente os obesos sofrem variadas críticas e frustrações de variados lados de variadas maneiras, com isso se instala uma dor intelectual em boa parte dos obesos: é o sentimento de culpa, a não-aceitação, a solidão, a depressão...: trata-se do inferno; posteriormente, em muitos obesos, uma reação deflagra: é ginástica aqui, remédio ali, redução na alimentação...: temos então o purgatório; por fim, em alguns raros, a vitória aparece por detrás da cortina descortinada: o obeso deixa de ser obeso: é o paraíso.

10 — O livro dos espinhos — Nada é tão pungente quando adotamos um estilo de vida por necessidade, por não conseguirmos seguir um outro, vivemos assim um longo tempo e, conquanto saibamos estarmos no caminho errado, quase nos convencemos de que estamos no certo, do que ler um livro coerente e sábio que nos mostra o caminho certo. No início ainda lutamos contra a verdade, mas depois percebemos a inutilidade da luta e ficamos deprimidos.

11 — Da origem da timidez — Todos nós somos seres sociais, precisamos uns dos outros, necessitamos da comunidade, de carinho, de afeto, enfim, a sociedade ou “os outros” nos é importante. Conseguintemente, a opinião alheia concernente à nossa pessoa faz-se importante ao nosso ser, ou ainda, preocupamo-nos bastante com o que os outros pensam a nosso respeito, pois, caso não possuamos uma boa imagem na mente de outrem, corremos o risco de sermos excluídos do meio social, noutras palavras, nossa sobrevivência estará sendo ameaçada. Quando não confiamos em nós mesmos, quando imaginamos que temos defeitos, quando nos sentimos inferiores, enfim, então surge o medo de se expor, o medo de não transmitir uma boa imagem aos outros. Esse medo não é outra coisa senão o receio de ser rejeitado, o receio de perder todos os benefícios da sociedade ou do grupo, e nesta hora eis quem se apresenta batendo à nossa porta: a timidez.

12 — As crianças — Alguns pais aplicam castigos às suas crianças tentando “educá-las”, todavia, no mais das vezes, tais suplícios não resolvem o problema comportamental. Por outro lado, em alguns casos, as crianças esquivam-se das ações indesejadas pelos seus pais: a “educação”, então, está dando certo. Para atinarmos com a explicação para isso, basta observarmos que existem crianças que vivem buscando o prazer e outras que passam a existência evitando a dor; concluímos daí que os castigos não terão sequer um aspecto positivo quando impostos às primeiras crianças de que falamos, porquanto elas buscam o prazer e só com o uso de recompensas é possível extrair algo de positivo delas. Quando às crianças que evitam a dor, os suplícios farão com que elas obedeçam aos pais, nas nunca por respeito ou por acharem que seus pais estão certos, obedecerão aos pais tão-somente por medo. Entre esses dois tipos de crianças existe uma infinidade de gradações, ou seja, em algumas crianças, para se conseguir uma boa educação, é preciso um castigo aqui, uma recompensa ali, etc.

13 — Aproveitando o ensejo — Quero aproveitar o ensejo para manifestar e exteriorizar a minha indignação e revolta contra os pais violentos, esses imundos deterioradores da geração vindoura, que não fazem outra coisa senão transformar num inferno a vida das crianças e que, para mim, não passam de lixo social!!!

14 — O que o entendimento não cura — Sei muito bem que os pais violentos foram violentados, que parte da satisfação — ou excitação, aliás, dêem o nome que quiserem a esse lixo — oriunda do terror imposto ao filho vem da sensação de domínio experimentada pelo violentador, pois, outrora, esse violentador é que foi violentado e, por assim dizer, dominado. Enfim, sei que os pais quase não têm culpa por serem violentos, mas enfim também, sei que não posso deixar de me indignar com tudo isso.

15 — Variados tipos de música — Olhando a música por um determinado prisma, é possível distinguir dois tipos: a música que é simples, que é de fácil percepção e entendimento, e a música mais complexa, com arranjos mais elaborados e melodias mais sensíveis e pouco perceptíveis. Da primeira, temos o maior exemplo nos Beatles da primeira fase: suas músicas simples, contendo melodias fortes e maravilhosas, encantam logo à primeira vista: só é preciso escutar duas ou três vezes uma música para entendê-la e amá-la. Do segundo tipo de música, um dos exemplos mais clássicos é o Pink Floyd da segunda fase: suas músicas orquestradas, com diferentes acompanhamentos e arranjos complexos, melodias pouco visíveis e de difícil entendimento: é preciso escutar várias e várias vezes para entender e gostar. No entanto, as músicas de que se gosta mais facilmente são as que se abusam também mais facilmente: logo entendemo-las e por isso o seu encanto logo perece; ao passo que o outro tipo de música vai se nos mostrando aos pouquinhos: o seu efeito é mais duradouro.

16 — Um olhar por “baixo” — Eu e outros, nós jogávamos futebol logo cedinho, por volta das 5 horas da manhã, porque todos nós trabalhávamos. Acontece que, todas as vezes que íamos, acompanhava-nos um determinado cidadão cujo um de seus membros superiores era defeituoso, inútil. Tratava-se do nosso juiz. No jogo, ele era muito desrespeitado, insultado e, às vezes até, agredido fisicamente. Num certo dia, como ele fizesse mau uso do apito, ele foi expulso: discutiram muito por causa de seus erros, irritaram-se, tomaram-no o apito e mandaram que saísse. Neste momento, como o meu time perdera, eu estava sentado observando o jogo e pude ver toda a cena. Não dei importância alguma ao ocorrido; naquele momento eu estava absorto, triste, e, por isso mesmo, mais sensível e perceptivo. O juiz expulso veio então sentar-se ao meu lado, todavia, nem sequer olhei-o quando passou por mim. Depois de alguns instantes, porém, levantei o olhar e o dirigi ao nosso juiz: ele estava triste, melancólico, seus olhos marejavam. “Meu deus!”, pensei, “Por que é que esse pobre infeliz está assim tão triste? Está assim porque foi expulso de um jogo formado por jogadores horríveis e que o humilhavam a torto e a direito? Está assim porque privaram-lhe da satisfação de ser um juiz numa pelada às cinco da manhã? Não, não é possível!”. A resposta não tardou a vir: ele estava triste porque, ao ser expulso do “campo”, sofria a privação do único meio social do qual ele ainda participava, a saber: nós, aqueles jogadores imundos que tanto o humilhavam, que tanto o desprezavam. Infelizmente ele já tinha sido expulso de todos os outros meios, pois era muito pobre e deficiente, e para não sofrer um isolamento total, levantava-se
às cinco da manhã para ser insultado, humilhado, ferido. Eis, senhores, o quão bela é a nossa sociedade.

17 — Harmonia — Em determinadas situações, quando somos ajudados, experimentamos uma sensação de dependência, de impotência, sentimo-nos, enfim, inferiores; por outro lado, aquele que ajuda, quase sempre, se alegra e tal alegria é oriunda das sensações inversas às mencionadas acima — o que é a agradável alegria de se ajudar ao próximo (por exemplo: visitando doentes nos hospitais) senão uma deliciosa sensação de superioridade (só existe piedade, inclusive, onde existe esse sentimento)!. Entretanto, ao sermos ajudados, podemos atenuar a desagradável sensação se repassarmos a ajuda recebida para uma outra pessoa; fazendo isto, a nossa potência, que antes fora diminuída, volta a restabelecer-se. Se adotarmos esse ponto de vista e dirigirmos à natureza um olhar carinhoso, podemos até supor que ela realmente quer uma convivência harmoniosa entre nós.

18 — Determinismo — As pessoas percebem, com maior ou menor clareza, intuitivamente que a teoria do determinismo é legítima, ou, pelo menos, aparenta ser; elas no fundo sabem que não têm o poder da livre escolha, a despeito de muitas falarem no tal “livre-arbítrio”: estas últimas, ou por ignorância (ou burrice mesmo) ou para regozijarem-se, admitem-no. Entretanto, como as pessoas distorcem tudo devido as suas necessidades, elas perpassam o determinismo encontrando logo à frente o que comumente é conhecido como “destino”. No destino, antes mesmo de nascermos, já temos um dia para morrermos e, por exemplo, se nos jogarmos de um prédio de cinquenta andares e no meio do caminho atirarmos com uma espingarda calibre doze na cabeça, se acaso este não for o nosso dia, então nós não morreremos. Atribui-se ao destino também um poder proposital — como se o destino pensasse — de entrelaçar certos acontecimentos em nossas vidas, por exemplo: temos um filho, ele vai ao shopping e lá consegue meter-se numa confusão qualquer; chamam-nos e, quando lá chegamos, no meio do tumulto, encontramos a mulher ou o homem de nossas vidas: chegando aqui, eu não, mas muitos diriam: “Foi o destino: ele fez com que meu filho fosse ao shopping, arranjasse confusão, depois mandassem me chamar, tudo isso para que eu encontrasse a mulher dos meus sonhos. Sim, foi o destino e disso eu tenho certeza!” Gostaria de perguntar a essas pessoas de onde vem crenças tão infundadas nisso que se chama de destino, quem é o responsável pela incutição de tamanhas distorções em suas mentes... aliás, pensando bem, é melhor não, o melhor é sermos condescendentes, pois, no final das contas, eles não têm culpa: o destino, sim, o destino é o culpado!

19 — A inclinação ao sobrenatural — As questões sobrenaturais sempre despertaram e ainda despertam muita atenção nas pessoas, principalmente nas mais jovens, para as quais elas se apresentam ainda mais reluzentes. A experiência e a razão nos dizem que não devemos acreditar em Allan Kardec, que não existe alma, que não teremos recompensas ou punições futuras, que tudo isso não passa de devaneios e esperanças, enfim, que a existência em si mesma é bem crua e dura. As pessoas, todavia, relutam ininterruptamente contra esse modo “realista” de se ver o mundo; quando, portanto, alguém aparece falando sobre o sobrenatural, seja ele de qualquer espécie, os olhos tímidos e desesperançados das pessoas recobram a ânimo: elas concentram ali todas as suas esperanças que, aos poucos, a experiência vai atenuando. Portanto, elas vêem naquilo a possibilidade da existência de um “algo a mais”, de uma existência misteriosa e não tão desprovida de significado: a confiança na vida eterna ganha força novamente. Tudo isso ocorre naqueles mais jovens de uma forma muito mais poderosa, porquanto suas crenças ainda não possuem grandes alicerces e a experiência ainda não teve o devido tempo para agir. É provável, inclusive, que parte do grande sucesso de escritores como Stephen King seja fruto dessa inclinação ao sobrenatural; e mais: a célebre frase de Shakespeare (há mais mistérios no céu e na terra...) não se teria tornado tão célebre assim se ela não corroborasse para a crença no sobrenatural.

20 — Se se pode não julgar pela aparência — Parece-me um hábito inveterado de algumas pessoas que, desconhecendo uma imensidão de eventos, desenrolam a língua e metem-se a falar: “Não julgue-o pela aparência!”. Mas que quer dizer isso, afinal? Não é o julgamento algo inconsciente, incontrolável? Ou será possível suspendê-lo à vontade e também moldá-lo? Ora, o que nós primeiro percebemos de uma pessoa é a sua aparência, e todo julgamento que nós fazemos dela (falo do julgamento inicial) é baseado puro e simplesmente na aparência. Muitas vezes, uma pessoa que estorva outrem nos é agradável e nós temos dela uma opinião positiva, ao passo que ou outros julgam-na negativamente; todavia, em ambos os casos, julgamo-la pela aparência. Por exemplo: considere uma mulher bonita, jovial, cativadora; ela então é apresentada a um colega meu e a mim. Meu colega julga-a positivamente, admirando-a simpaticamente e reconhecendo nela todas as qualidades acima mencionadas; eu, no entanto, acho-a dissimulada e antipática. Todavia, uma vez mais, em ambos os casos, julgamo-la pela aparência: o meu colega “deixou-se” encantar pelo resplendor alegre e sincero da moça — ele percebeu-a assim — e eu senti que sua alegria simpática era o fruto de um esforço descomunal para esconder um ser mesquinho, interesseiro, invejoso, vingativo, mentiroso, inescrupuloso...Entretanto, repito: julguei-a pela aparência. Um raciocínio semelhante pode ser usado para mostrar que em todos os outros casos nós julgamos pela aparência e, a despeito da opinião de alguns raros, nós não podemos suspender o julgamento: o simples contado visual com uma pessoa ativa-o; quanto ao molde, o julgamento pode ser alterado aos poucos com o tempo, e não de forma consciente. Mas, voltando à pergunta inicial, o que é que as pessoas têm em mente quando nos dizem que não devemos julgar pelas aparências? Como já foi dito, não julgar pela aparência é impossível pois a aparência de uma pessoa resume-se as percepções que temos dela. Pelo que vejo, só temos, devido ao caminho tomado, uma explicação: as pessoas, quando nos dizem isso, aconselham-nos a não estereotipar as pessoas, a não deixar um determinado preconceito ser uma causa de distorção de um julgamento. Portanto, quando alguém te disser: “Não julgues pela aparência!”, ela quis dizer, na verdade: “Não sejas preconceituoso ao julgares!”. O que de fato ocorre com as pessoas “aconselhadoras” é que, ao tentar nos despir de um preconceito, elas se utilizam de um.

21 — O voto democrático — Quando olhamos de relance para o voto democrático, sempre temos a nítida sensação de que ele é a melhor maneira de se eleger políticos para a condução de um país, e não nego que o seja na maioria das vezes; porém, se o povo mesmo não sabe votar, então este sistema de seleção torna-se inadequado, e não nego que o seja em certos pontos. Uma das dificuldades é a quantidade de dinheiro que é injetada em certos candidatos e que com isso aparecem-nos exaustivamente na TV, no rádio, em folhetos, etc. Outra dificuldade que se apresenta é que, embora não percebam, grande parte das pessoas escolhem seus candidatos instintivamente e não conscientemente como pretende o sistema democrático, isto é, elas votam naqueles candidatos que se mais parecem com elas próprias, etc., e para isso, inclusive, justificam-se inventando motivos ilusórios, devaneando sobre a condição do país e dos candidatos, etc. Aí vai um exemplo: apresentam-se dois candidatos para a disputa da presidência da república e, enquanto um candidato tem um currículo invejável, o outro tem um com imensos “empty spaces” que não lhe propiciaria, noutra ocasião, sequer a candidatura; quem “escolheu” o primeiro candidato justificar-se-á dizendo ser ele mais experiente, com maiores e mais trabalhos realizados pelo país; já quem “optou” pelo segundo justificar-se-á dizendo que currículo não vale coisa alguma, que o seu candidato é mais novo e por isso mesmo mais intrépido, que o país precisa de novas cabeças e não de múmias. O problema é que nem o primeiro “escolheu” conscientemente tampouco o segundo “optou” conscientemente. A melhor maneira de se escolher um candidato é promovendo uma análise dos currículos e das propostas de cada candidato, compará-las e discuti-las para posteriormente se decidir em quem votar; entretanto, se o eleitor tem um contado pessoal ou visual com os candidatos então a análise vai ser regida ou alterada por causas inconscientes. Dessa maneira, acredito que para se votar bem é preciso abster-se de qualquer contato visual ou pessoal com os políticos e limitar-se tão-somente à análise das suas propostas e dos seus currículos, desde que essas propostas e esses currículos estejam escritos em algum lugar não possuam sequer uma foto do candidato, aliás, nem o nome deveria constar (pois o nome pode influir também). Vemos assim que, ao longo da história da democracia, o voto nunca foi livre verdadeiramente — embora conte-se esta mentira — e que com o advento de alguns meios de comunicação esse mesmo voto tornou-se ainda mais coagido.

22 — Escolha justa? — Assisti o último episódio de um desses “show da realidade” em que o dono de uma grande empresa deveria escolher entre dois participantes — os finalistas — qual deveria ser contratado pela empresa. A final era ao vivo e a disputa estava equilibradíssima. Enquanto o tal dono entrevistava os dois candidatos pela última vez, ele deixou escapar qual seria a sua escolha: “Você se parece muito comigo!”, disse a um dos candidatos. Agora eu pergunto: trata-se de uma escolha justa?

23 — Formadores de opinião — As discussões aumentam sobre a legalidade das pesquisas em células-tronco. De um lado temos os cientistas e os deficientes que defendem as pesquisas, uns pela ciência e outros em benefício próprio mesmo; do outro lado temos a velha, a mui velha igreja, que não perde uma oportunidade sequer de atravancar o “desenvolvimento” da espécie, e já faz isso a centenas de anos — será que ela nunca se cansa? —, alegando não ter o homem o direito de destruir uma vida, de aniquilar uma criação divina. Não sabia o que pensar desse tumulto até o dia em que entrei num supermercado e lá, de relance, avistei um veneno para ratos: imediatamente depois já tinha uma opinião formada. O veneno para ratos foi-me, então, um formador de opinião!

24 — Os jovens e sua necessidade de afirmação — Existe um fanatismo que é peculiar nos jovens: é aquele fanatismo por uma outra pessoa, um príncipe, um ator, um cantor de rock. Como todos sabem, trata-se da necessidade de afirmação do jovem, que muitas vezes, tateando, vai procurando uma identidade para si no mundo. Os jovens mais solitários são sempre mais propensos a esse fanatismo, pois, perto de si, em geral, nunca encontram um exemplo para ser seguido; ao contrário, aqueles jovens cujos pais fazem-se presentes positivamente em suas vidas são mais pés-no-chão, não almejando serem isto ou aquilo outro, aliás, não almejando serem apenas aquilo outro, pois sempre tomam como ídolo alguém distante de si. Os pais, neste caso, têm uma importância primordial, haja vista que os jovens manifestam um fanatismo sempre por alguém mais velho, nunca por alguém da mesma idade ou mais novo, pois eles desejam “vir a ser” e não simplesmente “ser”. Muitos jovens vestem-se como seus ídolos, usam o mesmo corte de cabelo e podem chegar ao extremo mesmo: li certa vez que houve um número elevado de suicídios nos EUA quando foi noticiado o suicídio de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana; se a informação procede ou não, eu não sei, mas nunca duvidei de que isso é perfeitamente possível de acontecer. Alguns, mesmo depois de crescidos, não abandonam os velhos costumes e, sem vacilação alguma, vestem-se tranquilamente de Elvis Presley, mostrando assim que nunca conseguiram afirmar-se verdadeiramente — excetuando-se uns raros casos que fizeram do seu antigo fanatismo uma profissão. Nas discussões entre os jovens, a questão da afirmação também deixa sua marca: cada um tenta a todo custo impor o seu pensamento aos demais, pois aqui entre os jovens “afirmar-se” também significa “ser aceito”; já nas pessoas “maduras” não vemos tal calorosidade nas conversas, porquanto inexiste neles a necessidade de se afirmarem no meio. É por isso que dificilmente sai alguma coisa boa das conversas entre os jovens: ninguém respeita ninguém mesmo. Ademais, como os jovens querem sempre emitir e nunca receber, se você é jovem e for conversar com jovens, vá se acostumando aos atropelos.

25 — Um sofisma — É hora matutina, agradável; o discípulo vão ao lar do mestre deleitar-se com a primeira lição do dia; quando lá chega, depois dos cumprimentos, o discípulo inquieta-se e não deixa nem o mestre iniciar a lição: emenda, logo após os cumprimentos, a pergunta:
 Discípulo: “Mestre, tenho observado e não é de hoje, que algumas pessoas proferem todo tipo de calúnia contra a vida, maldizendo-a e fazendo-a passar por um lixo, um mal irremediável que todos nós temos que nos submeter. Não obstante, já encontrei pessoas sonhando acordados, manifestando opiniões fantasiosas sobre a vida, assegurando ser ela a melhor de todas as coisas do universo. Eu, por meu lado, não acho que vivemos em um inferno maldito, tampouco acredito estarmos num paraíso. Na verdade, mestre, gostaria de saber o porquê de uma discrepância tão grande nas opiniões das pessoas?”
 Mestre: “Muito bem, discípulo. Em primeiro lugar, chamamos de pessimistas as primeiras pessoas de que me falaste e de otimistas as segundas; quem não toma um ou outro partido é comumente chamado de realista. Em segundo lugar, já deveis saber, caro discípulo, pois este ensinamento eu já lhe passei, que temos daquilo que amamos uma opinião muito avantajada, e daquilo que odiamos, ao contrário, temos uma opinião muito aquém do que realmente seria justo; ou seja, só podemos formar uma opinião adequada sobre algo se não sentirmos nem amor nem ódio por esse algo. Donde concluímos que, na verdade, os pessimistas odeiam a vida, os otimistas a amam e os realistas não sentem nem ódio nem amor por ela. É por causa do ódio e do amor, portanto, discípulo, que existe uma discrepância tão grande nas opiniões!”

26 — Processo de adaptação, parte 1 — Uma das grandes diferenças da espécie humana para as demais é a sua inigualável capacidade de adaptação, que fez com que o homem sobrevivesse aos obstáculos e possivelmente, graças a ela, continuará sobrevivendo por um longo tempo. Para uma determinada espécie poder beneficiar-se de um grande poder de adaptação, faz-se necessário que seus indivíduos venham ao mundo sabendo pouco, porquanto um processo de adaptação é, antes de tudo, um processo de aprendizagem: é justamente isso que ocorre com a espécie humana, pois enquanto outros indivíduos de espécies diversas já nascem sabendo comunicar-se, andar, etc., o homem nasce com pouquíssimos saberes, apenas os essenciais, o resto são saberes que ele deve adquirir ou aprender ao longo da vida. Quando o homem nasce, em certa medida, ele já sabe comunicar-se com a mãe e traz consigo alguns outros instintos que lhe auxiliará a sobreviver neste momento de chagada ao novo mundo; o choro, por exemplo, o tão terrível destruidor de uma boa noite de sono, é um ato instintivo da criança que objetiva avisar aos adultos que algo lhe está faltando ou simplesmente que ela quer carinho (esse instinto, inclusive, acompanha-nos ao longo de toda a nossa vida: o choro do adulto é, acima de tudo, o pedido de ajuda ou de carinho, excetuando-se, talvez, o choro que emana da alegria). A criança é um ser que está em constante estado de aprendizagem e, por isso mesmo, sabe pouco: aqui entendemos o comportamento tão sem rédea das crianças, que só de longe se assemelha ao dos adultos; é por isso também que elas imitam tanto os adultos, pois a natureza supõe que os adultos “sabem” viver adequadamente no mundo. O processo de adaptação é muito intenso na infância e perdura fortemente até possivelmente o final da adolescência, quando a partir daí só conseguimos rastrear vestígios dele: assim entendemos o porquê de ser tão difícil mudar o nosso comportamento depois de adultos, porquanto há uma nova suposição da natureza: a de que já estamos adaptados e portanto não precisamos mais aprender ou mudar o nosso comportamento.

27 — Processo de adaptação, parte 2 — A socialização é um modo restrito de vermos o processo de adaptação, pois enquanto este último engloba a adaptação do homem no mundo como um todo, o primeiro trata apenas de sua adequação no meio social. O processo de socialização, não obstante, é gigantesco e atinge-nos em todo o nosso ser, mostrando de forma clara e concisa o quão somos seres sociais e, de uma forma ainda mais direta e sucinta, mostra-nos que não devemos viver sozinhos. A importância que damos à opinião dos outros, às convenções sociais, etc., mostra-nos que a natureza preparou-nos deliberadamente para a vivencia social e que todo aquele que procura o isolamento é, no fundo, um animal doente e infeliz. A moral é oriunda das convenções sociais que foram sendo feitas ao longo da história, entretanto não foi conscientemente que as pessoas as fizeram, pois trata-se de uma imposição da natureza: é preciso que existam certos tipos de comportamentos que facilitem a vida das pessoas e que os mesmos sejam adquiridos pela nova geração; o homem é, portanto, um animal cuja tendência moralista está sempre presente e todo aquele que critica veementemente a moral ou sofreu muito por causa dela ou não adaptou-se a ela — o que em alguns casos vem a dar no mesmo. Por outro lado, o homem que não segue os costumes de uma determinada sociedade é tido como imoral, mas nem por isso deixa de ter sua moral. Portanto, a moral é parte inerente do engenhoso processo de adaptação.

28 — Processo de adaptação, parte 3 — Sem retirar os olhos das convenções sociais, podemos perceber alguns exageros cometidos pela sociedade que criou, a partir de algo necessário, um tumulto de coisas supérfluas: um exemplo disso é a etiqueta social, que (já que não sou “entiquetado”) não passa de um conjunto de idiotices e besteiras organizadas por pessoas que não têm o que fazer da vida!

29 — Solidão e tristeza, parte 1 — A solidão é uma espécie de tristeza que não necessariamente é gerada pelo “estar só” ou “estar sem companhia”; ela caracteriza-se essencialmente pelo “sentir-se só”, “sentir-se desamparado ou abandonado”. Para “sentir-se só” não é necessário “estar só” e, inversamente, para “estar só” não faz-se necessário “sentir-se só”. Obviamente, fazendo as devidas distinções e considerações, é preferível sempre “estar só” do que “sentir-se só”. A solidão, esse vazio angustiante, é inerente ao homem justamente por ser uma tristeza e não um estado externo, um “estar só”; também assim vemos que ela está presente em muitas outras espécies animais (no olhar de muitos cães é possível vê-la).

30 — Solidão e tristeza, parte 2 — Quando perdemos um amigo, uma namorada, enfim, algo que nos era importante, sentimos uma espécie de tristeza que, de certa forma, conhecemos a origem e por isso mesmo temos dela alguma percepção, uma imagem distorcida pelo menos; a solidão, por outro lado, é uma espécie de tristeza que sentimo-la mas não sabemos ao certo de onde vem, ela é uma tristeza vazia, ela expressa nitidamente que temos um “empty space” dentro de nossos corações. Quem tem depressão, mesmo estando rodeado por pessoas que pessoas que manifestamente o amam, sente solidão. Em alguns casos não é possível atinar com a sua origem, aliás, diga-se melhor: na maioria dos depressivos a solidão não tem causa aparente (quero dizer: desprezo dos pais, etc.), a tristeza do deprimido não tem sua origem direta em acontecimentos: ela é fruto principalmente de um distúrbio químico e portanto ele a sente como algo desconhecido, como algo sem origem,  que não tem razão de ser — como a solidão é uma espécie de tristeza idêntica, ou mesmo igual, todo depressivo a sente, e fortemente.

31 — Solidão e tristeza, parte 3 — É claro que existe aquela outra possibilidade, a saber: a solidão é causada por algo ocorrido na infância, alguma espécie de privação de algo bom por que passamos; então, devido a uma sensibilidade “apurada”, sentimo-nos, vez por outra, excluídos de algo, abandonados, desamparados — isso explicaria de forma até satisfatória por que as pessoas se sentem mais sozinhas em épocas festivas como Natal e ano novo. Contudo, essa forma de ver as coisas perde um pouco o sentido no caso dos depressivos, pois todos eles expressam sentirem-se sozinhos, e neste caso a solidão aparenta ser mais um efeito de um estado do que propriamente um efeito de acontecimentos; isto é, seria preciso admitir, para coerência e firmeza da explicação, que determinados acontecimentos, que geram a solidão, gerariam também a depressão — mas o problema reside aqui: existem pessoas, como eu por exemplo, que a depressão está no sangue: ela é genética... Previamente, antes de virmos a vida, já nos sentíamos sozinhos...

32 — Solidão e tristeza, parte 4 — Causas complexas, muitas variáveis envolvidas, problemáticas profundas: a discussão está em aberto.

33 — Capitalismo — O capitalismo, este “engenhoso” sistema que tanto permite quanto instiga a exploração e a desigualdade, ainda conserva em bom estado os seus alicerces em muitas nações, mas isso puro e simplesmente porque permite a mobilidade social: “Hoje tu és explorado, amanhã podereis ser explorador”, essa tênue esperança está enraizada bem no fundo da alma das pessoas que carregam o sistema nas costas, e qualquer sistema que não permite a exploração e a mobilidade entra, mais cedo ou mais tarde, em colapso, pois um dos desejos mais ocultos na maior parte dos homens é o de estar no poder, é o de ser literalmente um explorador  (para aquelas pessoas menos utópicas e mais perspicazes esse fato também demonstra o porquê do socialismo nunca ter dado certo); também se um sistema permite a exploração mas não a mobilidade, então, como os explorados são sempre a imensa maioria, haverá um grande insurgimento por parte dos trabalhadores, cedo ou tarde eles revoltar-se-ão contra o sistema, pois ser explorado e poder ser um explorador é uma coisa, ser explorado e só poder ser explorado é uma outra bem distinta. Contudo, a mobilidade social favorece não menos o explorador do que o explorado, porquanto, em certo grau e em um certo aspecto, funciona como um resignador da grande massa, não permitindo uma revolta geral — a própria TV colabora com isso mostrando casos de pessoas miseráveis que conseguiram “êxito” em suas vidas, criando uma falsa ilusão na mente das pessoas pois todos nós sabemos o quão é difícil mover-se na hierarquia social e, demais, para cada pessoa dessa que “vence” na vida existem dezenas de milhares que, muitas vezes, não só não conseguiram “vencer” como, pelo contrário, vivem ainda mais miseravelmente que antes; enfim, o que instiga a esperança e os sonhos é sempre muito forte e as pessoas preferem acreditar num milagre do que encararem a verdade.

34 — Diferentes religiões — As naturezas das pessoas divergem de tal maneira que para satisfazer a todas faz-se necessário a existência de diferentes religiões. Crie-se uma nação gigantesca e despoje todas as pessoas que a constituem de suas crenças concernentes à religião, depois institua de uma só vez, em toda a nação, uma única religião; o que ocorrerá é que uma parte da nação vai aderir com muito bom gosto a religião vigente, outra parte apenas por influência vai aderi-la parcialmente, uma outra vai negá-la e, por fim, haverá aqueles que simplesmente a ignorarão; passado algum tempo, boa parte da primeira parte da qual falamos permanecerá na religião, a segunda parcela largará a religião e se dirigirá a outras que já foram criadas pela terceira e... bom, os que desprezaram inicialmente continuarão sendo “ateus” mesmo. Se duas pessoas diferem muito de caráter, ideologia, etc., e ambas possuem uma propensão para serem religiosas, a existência de duas religiões distintas é indispensável para atender a ambas e elas poderão ser plenamente felizes em suas respectivas religiões. Essa identificação que uma pessoa tem com a sua religião constitui-se o aspecto verdadeiro dessa religião: nesse aspecto todas as religiões são verdadeiras e os seus seguidores podem encontrar a “felicidade espiritual” independentemente de suas religiões, o que torna ridícula a tentativa de alguns religiosos de “converterem” para a sua religião outros religiosos de outras religiões. Em contrapartida, porém, existe um outro aspecto nas religiões: é caracterizado pela tentativa das religiões de darem soluções às questões mais enigmáticas da existência; olhando por esse prisma, como é necessário que existam diferentes religiões e como também elas diferem nas suas explicações para tentar elucidar o grande enigma da existência, então fica claro que todas as religiões são falsas nesse aspecto.

35 — Dias chuvosos, parte 1 — Os dias chuvosos sempre se me apresentaram como dias mais tristes — talvez porque a minha região seja visceralmente tropical, então a mudança para um clima mais incomum me arrebata do meu estado mais natural e a melancolia apresenta-se; talvez seja apenas uma questão de temperatura, porquanto quando nós fazemos exercício físico e o corpo se aquece, ficamos menos emotivos e menos sensíveis, e com os dias chuvosos, como acontece do tempo esfriar, então poderia ocorrer o contrário. De qualquer forma, eu não sei, embora conviva com isso desde há muito tempo, não sei realmente explicar o porquê.

36 — Dias chuvosos, parte 2 — Se eu fosse um músico ou um poeta, mudar-me-ia para uma região mais chuvosa, pois a tristeza me traz inspiração — “Para que vieste/ Na minha janela/ Meter o nariz?/ Se foi por um verso/ Não sou mais poeta/ Ando tão feliz!”. Bravo poeta!

37 — O lado bom do lado ruim da tecnologia, parte 1 — Existem grupos em todo o mundo que criticam a tecnologia: segundo eles, a tecnologia transformou  o mundo em um lugar menos humano; “As pessoas”, dizem eles, “ao invés de conversarem umas com as outras num belo domingo, ficam assistindo TV ou desperdiçando o seu tempo no computador; como efeito, temos as pessoas cada vez mais solitárias e frias, pois se perdeu o calor humano, a conversa, o apoio que só um ser humano de carne e osso pode dar a outra pessoa”. As críticas não param por aí: falam também da degradação sofrida pelo meio-ambiente em nome do progresso, etc. Por meu lado, tenho um caso a contar: quando na infância, viajava com meus pais para visitar nossos familiares; nessa época, ainda não existia energia elétrica na região, e quando chegava a noite, as pessoas saíam de suas casas e iam se encontrar numa determinada casa, que era menos exígua que as demais, para conversarem; ia gente nova, gente velha, gente bonita, gente feia... Todos sentavam em círculos e havia conversas sobre variados temas e entre todas as pessoas; eu, por exemplo, poderia mirar qualquer garota, fosse quem fosse, e depois me aproximar dela para conversar que ela acolheria a atitude mui calorosa e simpaticamente (muito diferente das garotas da “cidade”, essas “mulheres” que na verdade são crianças sem fraudas). Atualmente, neste mesmo lugar, já existe energia elétrica; na mesma hora que antes as pessoas saíam para encontrarem-se, nos dias de hoje elas metem-se em casa para assistirem suas novelas, e quem, nessa hora, aventurar-se saindo de sua casa para dar um passeio pelo local, terá como única companhia sua própria sombra, projetada na rua escura pelas luzes solitárias dos postes.

38 — O lado bom do lado ruim da tecnologia, parte 2 — Quando iniciei este aforismo, minha ideia era a de mostrar como a tecnologia poderia, por exemplo, atenuar a solidão de um deprimido, e com efeito este seria o lado bom do lado ruim da tecnologia; entretanto, pensei melhor, até porque a tecnologia atenua a solidão com mais solidão, e solidão por solidão, elas são sempre tristes mesmo. Então não encontrei nenhum grande ponto positivo no lado ruim da tecnologia... Mas, de qualquer forma, para preservar o título, lá vai um ponto positivo: a tecnologia permite-nos aprender a dar mais valor ao calor humano, pois, afinal, a gente sempre costuma dar mais valor àquilo que perdemos.

39 — Processo de adaptação, parte 4 — Quando saímos à tarde para correr, ou logo cedo pela manhã para caminhar, ou quando vamos à academia lá pela noite, enfim, não importa o tipo de atividade, o que é valioso é a prática regular de alguma atividade física, então fisicamente nós ficamos mais saudáveis e fortes. Ao praticarmos a musculação, os nossos músculos deslizam uns sobre os outros, como consequência do atrito existente, ocorre um desgaste nas fibras musculares que, ulteriormente, se regeneram; acontece que o organismo não cria fibras iguais às perdidas para uma simples reposição, ele cria novas fibras mais resistentes e em maior quantidade: esta é a explicação que é proferida pelos educadores físicos para respondes ao porquê do robustamento físico quando se malha ou quando se pratica alguma atividade na qual o esforço físico faz-se necessário — se inquirirem-me a respeito da veracidade de tal explicação, prefiro abster-me da tentativa de qualquer resposta, o que quero é apegar-me tão-só ao fato em si para dar uma outra resposta à questão. Precedentemente discorri sobre o processo de adaptação do homem no mundo, falei, porém, dos processos mais gerais, aqueles que moldam diretamente o homem para viver no mundo; existe, todavia, processos de adaptação mais específicos e que acompanham o homem durante um longo tempo senão pela vida inteira. O robustamento físico devido a práticas esportivas trata-se de um processo adaptativo; ora, quando fazemos longamente uma determinada atividade física e conseguintemente adquirimos um melhor preparo físico é porque a natureza nos fez de modo que pudéssemos nos adaptar ao estilo de vida que porventura levarmos; neste nosso caso especificamente, a natureza “supôs” que se o homem realiza constantes e suplicantes esforços físicos durante algum tempo é porque ele precisa realizar este esforço para sobreviver, desta forma ela preparou-nos ao longo dos tempos para que adquiríssemos um melhor condicionamento físico através da atividade física, e isto ela fez intencionando adaptar o homem ao seu modo de vida; para tanto ela espera que o homem “diga” do que precisa para depois ela poder satisfazê-lo, pois, afinal, para que eu preciso de uma grande força física se só realizo tão-somente atividades intelectuais? Pelo mesmo raciocínio, mostra-se porque o nosso intelecto é sempre melhor preparado quando o exercitamos continuamente. A natureza é, portanto, muito esperta: ela vê X caçar constantemente utilizando-se de pedras, de lanças e arpões e ainda da força física; do outro lado da floresta, ela observa Y arquitetando uma nova arapuca para capturar suas presas, pois Y, ao invés de sair para a caçada como o faz X, arma suas arapucas e espera que o alimento venha cair na armadilha; a natureza, então, depois de dirigir um olhar um tanto quanto furtivo para ambos, mostra sua benevolência — ou será malevolência? — e sem vacilo algum os presenteia: a X dá um físico melhor para que ele possa tornar-se cada vez mais um exímio caçador; a Y ela dá um intelecto mais bem treinado e fortalecido para que ele possa se tornar cada vez mais um grande arquiteto.

40 — Que é que ela quer? — A natureza desenvolveu em alguns animais notáveis características que propiciaram-lhes serem grandes caçadores; noutros animas, entretanto, ela desenvolveu características que propiciaram-lhes fugirem dos caçadores; em outros termos: ela deu a alguns animais um instinto e mecanismos para caçar, e deu a outros — as presas — um instinto e mecanismos para escaparem dos caçadores. Que é que ela quer, afinal? Será que ela fez isso porque gosta de trabalhar? Ou será porque ela gosta de uma aventura de vez em quando? Acho que ela adoraria assistir Alien ou O Predador.

41 — Aparentes contradições — Quando volteamos a terra com o nosso olhar, enleva-nos a quantidade de vida que nos cerca e a própria vontade de vida que demonstra a natureza; encantamo-nos com o menear dos coqueiros e com os “jardins adornados com delicados lilases”, com o canto dos pássaros que voam livremente pelo crepúsculo numa bela tarde de um dia cujo céu se nos apresenta com toda a sua imensidão e limpidez; aplaudimos internamente o balé dos golfinhos que ornamentam os mares sempre tão reluzentes que banham nosso planeta; deleitamo-nos com as amizades, com as paixões, com a vida! Sim, disse com a vida mesmo! E às vezes, até o mais triste dos tristes, o mais melancólico dos melancólicos, o mais solitário dos solitários, às vezes até eles mesmos ascendem acima do humano e transportam-se para um lugar onde não há tristeza, melancolia ou solidão: eles sentem-se eternos, pois neste momento retornam e se unem novamente ao todo. Mas... bom, deixemos de devanear por um instante. Quando olhamos para a Terra e posteriormente corremos o olhar ou o pensamento pelos outros globos do universo, ficamos com a impressão de que existe uma contradição na natureza: aqui onde vivemos existem tantas formas de vida, o nosso planeta se nos apresenta com uma força vital tão essencial e poderosamente intensa que fica até difícil imaginar que outros planetas, que são regidos pelas mesmas leis que o nosso, não apresentem vida também, mas é justamente isso que diz as investigações realizadas pela ciência — ao menos no que diz respeito aos nossos “vizinhos”. O quê? Como? Não acredito?! Uma natureza que foi tão generosa conosco trata os outros planetas assim com tanto desdém? Uma natureza que agiu meticulosamente em todo o nosso planeta sequer olhou de soslaio para os demais? Onde está o seu obséquio? Foi por isso que os antigos disseram que a Terra era o centro do universo. Ah, é verdade, tinha esquecido, eles nem sabiam que não existiam grandes formas de vida nos planetas vizinhos; na verdade, eu acho que eles nem sabiam que existiam outros planetas. Bom, a despeito de tudo, não existe contradição alguma: além do nosso tempo ser diferente do tempo da natureza, nós somos um pequeno grão de areia no universo e, mesmo que esse argumento falhe, em última instância, posso ainda dizer que existe vida em todo o universo.

42 — Presunção? — As pessoas acreditam — ou tentam acreditar — que têm o poder de controlar o futuro, de alterá-lo ou de desenvolvê-lo à sua maneira. Aproxime-se de alguém e pergunte: “Sabias que não tens poder sobre tuas ações, que as coisas acontecem como devem acontecer e que o universo é o que é e não poderia ser de outra forma?”. Ela provavelmente repudiará a primeira e a segunda partes da pergunta — a terceira ela nem compreenderá — e dirigirá para você um olhar não menos ofendido do que desgostoso. Pergunte a qualquer pessoa se a Terra pode escolher entre girar em torno do Sol ou de Júpiter, pergunte se os planetas foram quem escolheu girar elipticamente em torno do Sol ao invés de circularmente, pergunte se uma maçã controla a velocidade de sua queda, pergunte se um cachorro pode fazer seu próprio futuro; a resposta para todas essas perguntas será uma só: não. Agora, depois dessa bateria de perguntas, faça uma última: pergunte se os homens têm poder sobre seus atos; a resposta a essa última pergunta será sim. Feito isso, você percebe que não é que elas não compreendam a questão, é que elas não querem compreender, pois, aqui entre nós, afirmar que uma mesma lei vale para todo o universo, porém não para o homem, é o mesmo que dizer que o homem não está ou não faz parte do universo, isto é, é o mesmo que vociferar um absurdo inaudito.

43 — Diferentes pontos de vista — A vida é uma competição, e sendo ela uma competição, o maior bem que alguém pode possuir é a capacidade de destruir os outros: portanto, a maior virtude é a força — eis um ponto de vista. A natureza não colocou os homens para competirem uns com os outros para massacrarem-se, mas para que cada um se esforçasse para evoluir em relação aos outros e, por conseguinte, em relação a si mesmos, promovendo, a partir da evolução individual, a evolução da espécie: portanto, a maior virtude não é outra coisa senão o esforço com que se sente superar a si mesmo — eis um outro ponto de vista.

44 — Contra os professores — Em muitos professores a satisfação de ensinar vem justamente da sensação de “saber mais” que os outros, de estar “por cima” dos seus alunos... É também por isso que muitos professores nunca admitem que estão errados.

45 — Contra os educadores — Diz-se que um dos objetivos primordiais da educação é o desenvolvimento do cidadão, daquele que deve ter participação ativa na sociedade, sempre apresentando uma disposição altruísta para com outrem: ouvimos isso com frequência, em um coro manifestamente portador de uma unissonância cansativa e monótona, que os educadores não se cansam de nos propiciar. Nas escolas, porém, os alunos são instigados ininterruptamente a sempre competirem uns com os outros, seja nas atividades seja nas posturas assumidas pelos professores. Os alunos então mantêm contato e convivem com uma grave contradição: os educadores afirmam algo, mas por diversas vezes parecem não convencerem-se a si próprios e fazem justamente o contrário do que dizem: é aqui onde é colocada a maior parte das dinamites que fazem desmoronar os alicerces da educação, pois uma ação vale mais do que dez mil palavras. E a questão ainda piora pelo seguinte: o comportamento dos educadores não destoa unicamente dos objetivos da educação, mas de suas próprias palavras; com isso, os estudantes não só não deixam de perceber o comportamento inadequado dos educadores como também suas mentiras, o que afeta de uma forma duplamente “negativa” os estudantes, principalmente os de idade mais tenra.

46 — A voz do povo é a voz de deus? — Como?! E deus tem voz?

47 — Tolerância e auto-aceitação — As pessoas que não conseguem se aceitar, que imaginam estarem grandemente afastadas dos seus semelhantes, por isso mesmo imaginarão que as outras pessoas não as aceitarão: inicia-se aqui enormes conflitos internos nas referidas pessoas, às quais, daí em diante, não sem muita frequência, tentarão convencer-se de todas as maneiras de que a discrepância entre as pessoas é normal e até essencial. O intelecto funcionará como uma importante e imprescindível arma para que o indivíduo possa contornar ou mitigar os seus conflitos: a natureza do indivíduo vai forçar o intelecto a agir para que ele possa oferecer-lhe uma elucidação da questão, isto é, motivos e argumentos que auxiliem o indivíduo no ato de convencer-se da naturalidade das diferenças; se acaso não houver motivos ou argumentos plausíveis, como o intelecto é forçado a ajudar, então ele inventa-os. O indivíduo então lança-se num abismo de reflexões, e depois de um bom tempo imerso em ponderações, ele, ajudado por suas dúvidas e sofrimentos, tornar-se-á mais tolerante, e não apenas porque aprendeu a observar mais amplamente tudo a sua volta, mas sobretudo porque sabe o que é não ser aceito. Assim, antes dele desprezar uma outra pessoa, ele mesmo coloca-se no seu lugar e vê naquela pessoa o seu próprio eu, receoso e amedrontado, que anseia por uma atenção ou mesmo um simples olhar; a tristeza então penetra-lhe o coração, e ele, imediatamente depois, arrepende-se do que ia fazer e já passa a tratar a outra pessoa com mais amabilidade, com mais polidez, com uma delicadeza que só pessoas que sofreram muito possuem.

48 — O ceticismo no mundo atual — A globalização levou às pessoas um conjunto variado de informações concernentes ao passado e ao presente, que permitiram-nas e permitem-nas uma visualização ampla e concisa de todo o universo de conhecimentos produzidos ao longo da história. Elas acompanharam o perecimento de diversificadas crenças e religiões que sucumbiram com o advento de outras novas; depois acompanharam a convalescença de outras e, finalmente, a descrença em todas. As mentes um pouco mais perspicazes olham para uma determinada época e, ao contemplarem suas crenças, ideologias, teorias científicas, verificam o quão absurdo era todo aquele tumulto de pensamentos elaborados pelos homens, que hoje não são mais do que piadas sem graça — perguntaram aos antigos que causam concorreram para a extinção dos dinossauros, eles então, senhores de si e sem o menor pudor ou hesitação, responderam: “Não houve causas, mas foi uma só: eles não couberam na arca de Noé” (vê-se, com isso, que algumas até têm graça). Diante desta situação, algumas pessoas param, põem-se a meditar, correm a vista pelos conhecimentos produzidos pela nossa época e que permeiam as ideias de toda a gente, depois perguntam-se: “Não seria todo este conhecimento um fruto que, não muito tarde, ficará podre? As pessoas outrora acreditavam ser a Terra o centro o universo e esta era uma verdade quase incontestável mesmo para as pessoas mais inteligentes: não será verdade também que estamos a cometer o mesmo erro? Acreditava-se na demonstração de algumas verdades que, na verdade, não eram verdades, e no entanto, atualmente, a ciência tenta demonstrar outras verdades para o mundo sempre se apoiando no famoso desenvolvimento dos métodos e coisas afins; não seria um erro acreditar em tais demonstrações, assim como o foi a crença nas demonstrações de outrora?”. A dúvida então instala-se na mente de muitas pessoas, produzindo nelas algumas marcas que moldarão muitas de suas ideias — isto, claro, só ocorre em pessoas mais, por assim dizer, inteligentes: a semente do ceticismo precisa de uma mente astuta e fértil para germinar. A verdade de algumas afirmações só é advogada por muitos enquanto não forem contra as suas “convicções”, pois, em caso afirmativo, haverá uma grande negação e pouquíssimos defenderão uma afirmação que é contrária ou invalida a sua, e tudo isto poderão justificar facilmente, aliás, dizendo melhor, justificar-se-ão facilmente. O ceticismo serve como trunfo para muita gente que pretende advogar suas próprias crenças: elas já não estão mais interessadas em descobrirem ou viverem na verdade, mas querem viver sua própria verdade — o que não é condenável —; e para defenderem-se evocam as verdades que sucumbiram e caíram em trevas ao longo da história, para finalmente jogarem na cara de alguém que tenta-lhes mostrar o absurdo de suas crenças a seguinte pergunta já tão usada por muitos: “ Por que dizes que minhas crenças não são verdadeiras, se a verdade sequer existe?”. É dessa maneira que cada um faz do ceticismo um instrumento poderoso para defenderem suas próprias opiniões, colaborando para que o misticismo rasteiro e a superstição triunfem mesmo nos meios mais eruditos. Por outro lado, existem pessoas que, por tendência, são céticas, que já nascem céticas e que nutrem o ceticismo ao longo de toda a sua vida, e mesmo assim partem em busca de terrenos mais firmes para pisarem, mas não na tola esperança de encontrá-los, mas sim devido ao prazer da busca, da análise, da perscrutação e do clarear do que é misterioso e enigmático: é nesse grupo que nos encaixamos.

49 — Um erro de percepção — Muitos depressivos imaginam que sua tristeza vem de fora, justamente porque a tristeza e a imagem dos supostos problemas e situações que, segundo pensam, entristecem-no, aparecem-lhes quase que concomitantemente. Quando a tristeza faz-se presente, ela começa a governar o intelecto fazendo-o seu escravo; o intelecto então começa a imaginar ou lembrar situações tristes, ou mesmo reminiscências lancinantes vem à tona: é como se o intelecto quisesse justificar de alguma forma a tristeza sentida, assim como ele sempre procura motivos para justificar nossos gostos: da mesma forma que aqui os motivos não causam os gostos, ali também as lembranças tristes e as imagens dos supostos problemas não causam a tristeza: o gosto e a tristeza sempre aparecem primeiro, depois é que o intelecto vem justificando tudo — se acaso não acreditares, peça a um depressivo que se encontra em crise para que ele imagine coisas boas que porventura aconteceram ou acontecem em sua vida; depois se aproxime de um que não esteja passando por uma crise e peça-lhe que imagine as mesmas coisas tristes que permeiam sua mente quando do estado de tristeza; finalmente, observe se houve alguma mudança significativa em ambos. A força do sentimento é tão grande que haverá um esquecimento de muitas coisas boas e de muitas coisas ruins, respectivamente, no primeiro e no segundo caso. Quando a tristeza chega a um depressivo, o intelecto logo reage e o deprimido então só percebe diretamente a tristeza através dele: é aqui, em geral, que ocorre um erro de percepção: como eles só entram em contato direto com a tristeza através do intelecto, eles culpam o que está no intelecto pela tristeza, e isso ocorre porque tudo ocorre senão ao mesmo tempo, mas quase ao mesmo tempo. Concluímos daí que um depressivo, independentemente de sua vida, sempre vai colocar a culpa pela sua tristeza em algo: se for um jovem dirá que a falta de uma namorada e a solidão é que são culpados; se já for casado dirá que é a esposa; se for pobre dirá que é a pobreza; se for rico dirá que é a riqueza; enfim, culparão algo que, no máximo, será causa parcialmente direta de suas infelicidades (veja-se que posso inverter ou falar em inversão, mas inversão parcial); ou seja, de grosso modo, ninguém é triste porque tem problemas, assim como ninguém é triste porque não tem fé, mas, em ambos os casos, temos o inverso: imaginamos que temos problemas e não temos fé porque somos tristes.

50 — Pena de si mesmo — A pena de si mesmo, vista em muitos que sofre, é um sintoma da sensação de injustiça experimentada por quem a sente, isto é, primeiramente faz-se necessário um grande sofrimento para que, em uma fase ulterior, muitos se sintam injustiçados: a comiseração para consigo próprio, então, aparece. Essa sensação de injustiça, ou seja, a de que são os outros os culpados pelas nossas dores e infelicidade, é uma expressão da fragilidade do indivíduo diante de sua condição: a natureza do indivíduo faz com que ele culpe os outros ou o mundo ou até mesmo deus pelas suas desgraças, porque sabe que o indivíduo não suportaria saber que, na verdade, é ele o responsável pela sua própria situação, ou seja, a natureza esforça-se para proteger o indivíduo fazendo com que ele culpe o universo por seus problemas, pois, a bem dizer, em certas situações, pelo menos por um instante, é melhor que seja mesmo assim, porquanto o indivíduo não suportaria reconhecer ser ele a causa, mesmo que talvez indireta, de todos os seus suplícios; na verdade, em um estado assim, ele se encontra em desequilíbrio e com suas forças desorganizadas, sem condição alguma de luta: é também por isso que a natureza sequer permite que o ser tenha uma entrevisão da sua real situação. Existem muitas pessoas que afirmam ser a comiseração para consigo próprio um grande entrave para uma vida feliz, todavia eis que temos um erro aqui: a pena de si mesmo não é causa, e sim efeito; o correto seria afirmar que a pena de si mesmo indica antes um grande sofrimento, e não que ela cause e mantenha o sofrimento. A pena de si mesmo também nos diz que o indivíduo se encontra em um estado de maturação aquém do necessário para uma possível resolução ou pelo menos enfrentamento dos seus problemas: se você culpa os outros pelos seus sofrimentos (sofrimentos cujas causas se encontram em você mesmo), você estará negando ser você a causa deles, isto é, você estará negando as suas verdadeiras causas; ora, como você vai lutar contra um adversário que você sequer admite a existência? Na verdade, retornando alguns passos, creio que as pessoas quando dizem ser a pena de si mesmo um entrave para a felicidade, creio que elas não têm outra coisa senão isso em mente, ou seja, se você tem pena de si mesmo, é porque existe em você uma negação das causas das suas dores, portanto você não poderá lutar contra elas, permanecendo imerso na sua infelicidade; mas, de um ou de outro jeito, o que tais pessoas dizem é incorreto, elas estão confundindo a propriedade de uma coisa com a própria coisa, enfim, elas não sabem o que dizem. A pena de si mesmo também pode indicar pessimismo: o indivíduo tenta incutir todas as espécies de defeitos no mundo, esbravejando injúrias desconcertantes contra o mesmo, objetivando destruir e negar completamente o “causador” de suas lágrimas; em outras palavras, todos aqueles que criticam ferozmente o universo, despejando nele todo o seu descontentamento, possivelmente não deixam de experimentar uma profunda compaixão por si mesmos: o que é de se lamentar, pois fazendo isso eles sempre incorrem na tolice de abrigarem em suas almas ainda mais lágrimas: tais pessoas não estão condenadas à infelicidade, elas são infelizes!

51 — O ilógico critica o ilógico — Eu estava numa aula quando, repentinamente, irrompeu uma discussão intempestiva entre professor e aluno; era sobre o velho embate entre Criacionismo e Evolucionismo. O professor defendia o Evolucionismo e a aluna, o Criacionismo. Tempos depois, esta mesma aluna, que na ocasião precedentemente descrita mostrava-se tão senhora de si, tão altiva, esta mesma aluna encontrei-a um outro dia na aula, e, como que demonstrando um profundo desgosto para com os outros, ela levou as mãos às têmporas e afirmou: “Meu deus! Como existem pessoas ilógicas no mundo!”.

52 — Sejamos sinceros — Todo governo é uma hierarquia que se inicia e finda com o povo. Portanto, onde existem políticos corruptos existe um povo corrupto, e vice-versa. Aqui no Brasil, costuma-se culpar os políticos pelo não desenvolvimento econômico e social do país: estão sempre no foco de injúrias oriundas de todos os lados, enquanto que fala-se polidamente do povão — encontra-se aqui uma falsidade, pois, que os políticos ou boa parte deles são corruptos, isto ninguém o nega, todavia, negar uma identidade entre o povo e os políticos é ou ser ignorante ou hipócrita. A corrupção no Brasil é generalizada, manifestando-se em todas as camadas sociais e em todos os ramos de negócios e atividades, desde a feira até a presidência da república, desde os presídios até as igrejas, desde as rádios até as mais importantes empresas televisivas. A corrupção no nosso país é um problema cultural e está arraigada até as entranhas em toda (ou quase toda) a espécie de gente. Não obstante, tenta-se dissimular: a imprensa propaga ideias elogiosas acerca do povo, o povo oculta a sua podridão e todos convergem suas críticas para a classe política, que, na verdade, aqui ao menos, em grosso modo, não passa de um produto do meio: a corrupção não vem de cima para baixo, mas de baixo para cima — aliás, neste caso, não existe “embaixo” e “em cima”. Como a nossa corrupção é um problema ou uma característica cultural, então não podemos ter uma boa perspectiva para um futuro próximo: assim como outros aspectos da cultura, a corrupção é inegavelmente um legado que uma geração herda da sua precedente. Portanto, quando assistimos esses tais “shows da realidade” (nossa! Que programas ridículos!) e vemos alguns participantes combinando-se para que, ilicitamente, possam eliminar um outro, não podemos jamais esperar que os seus filhos se comportem muito diferentemente quando postos na mesma situação.

53 — Diálogo entre ateu, religioso e filósofo — Indignado, o ateu diz ao religioso:
ATEU: “A religiosidade é sempre sinônimo de falta de inteligência!”.
RELIGIOSO: Meu jovem, embora a vossa pessoa digne-se de uma tal ou qual inteligência, é à vossa pessoa que ela furtou-se, pois crer que tudo o que existe não é uma criação de um ser supremo e infinitamente perfeito é crer que algo possa existir sem origem, ou seja, é acreditar em um absurdo”.
ATEU: “Mas o senhor também diz que deus não tem origem...”.
FILÓSOFO: “Abrandem-se, meus amigos; nem a religiosidade é sinônimo de uma insatisfatória inteligência tampouco o ateísmo o é. As pessoas querem a todo custo dar legitimidade às suas crenças, mas não deve ser deste modo: as crenças são injustificáveis. Os homens supõem-se animais racionais, mas, no entanto, nem de longe o são...”.
Depois de pensar assim (pois o filósofo sabia que não adiantaria dizer nada), o filósofo, já saindo, olhou de soslaio os outros dois que, naquele momento, já estavam quase a se estapear, mostrando desta maneira as suas “inteligências”.

54 — A ciência está indo longe demais? — Elisa saiu do aconchego de sua casa e foi à catedral localizada no seu bairro; chegando lá, apresentou-se ao padre e perguntou: “Padre, eu sinto um grande vazio dentro de mim, sinto-me só, sem um grande desejo de viver, eu não tenho fé alguma e se vim aqui hoje é porque estou a sofrer muito. Gostaria de saber qual a sua opinião sobre isto?”. O padre então, tomando a palavra, falou-lhe: “Minha filha, o que você sente é a falta de Deus, a falta de fé: todo o seu desespero emana daí”. Elisa inquietou-se, olhou ao seu redor, viu o quão era linda a catedral, lembrou-se dos inúmeros momentos em que quis conversar com o padre mas que a igreja encontrava-se fechada, teve um acesso de raiva e dirigiu-se novamente ao padre: “Mas, padre, quer dizer então que ‘depressão’ é o nome científico para a falta de fé?”. O padre então já não mais respondeu: desculpou-se e disse apressadamente que tinha que sair para “ajudar” aos necessitados.

55 — Profundas lamentações — Era já noite. O dia daquela noite transcorreu maravilhosamente: era tudo alvo, imaculado, límpido, cintilante; instava-se ao deprimido para alegrar-se, ao armado para desarmar-se, ao introvertido para extroverter-se; as pessoas apresentavam um cândido e honesto sorriso uma às outras, um comportamento sem máculas, um olhar doce e cheio de encanto; o sol reluzia simpaticamente, a condescendência era visível, todas as diferenças e todos os pólos consubstanciaram-se. Enfim saí. Dirigi-me ao parque. Todavia, assim que pus os pés para fora de casa, escutei um canto, um canto de criança, aliás, de várias crianças. Aproximei-me para vê-las cantar: estavam em círculo, todas meigamente vestidas de branco e cantando “Parabéns”; havia alguém no centro, as crianças meneavam o corpo e as mãos em cadência, a música era cantada compassadamente, era tudo muito estranho e singular, mas havia alegria, sim, muita alegria. “...a música é para homens tristes...”, lembrei-me de “Eternamente Jovem” e, pelo menos ali, naquele instante, não pareceu-me expressar-se bem. Segui meu caminho e cheguei ao parque, pois ficava ali pertinho de casa. No parque, tudo era alegria e deleite, os jovens e os velhos, os casais, as crianças, todos regozijavam-se e divertiam-se de maneiras diversas, apresentavam um largo sorriso, todos estavam acompanhados... Todos, menos eu. Senti repentinamente que eu não pertencia àquele lugar, àquelas pessoas, àquela cidade, àquele mundo. Vire-me e fui embora. Quando u já chegava perto de casa, escutei “Feliz Natal (A guerra acabou)”, e nunca, nunca uma canção me tocou tão profundamente. Lembrei-me novamente de “Eternamente Jovem” e não pude deixar de dar-lhe razão, desta vez.

56 — Beatificações — A Bíblia nos narra muitos prodígios de outrora, mostrando-nos o quão eram milagrosos os tempos passados e o quão eram iluminados os seus principais representantes, aos quais, excetuando-se Jesus e talvez algum outro, deram-lhes o nome de “santos”. Mas a época mudou, a ciência avançou, a História se apresentou com mais força, e os cristãos já não vêem desde séculos homens cujo poder se sobrepujasse aos dos demais, homens que poder-se-ia denominar, literalmente, de divinos. A Igreja Católica então vê-se em dificuldades e pergunta-se a si mesma: “Como, como é possível não haver mais milagres como em outros tempos?”, e aqueles de menos fé: “Será mesmo que tais prodígios aconteceram realmente? Será que nos enganaram ao longo de todo esse tempo? Será que uma mentira pode perdurar assim por tanto tempo?”; ulteriormente, toda a Igreja se reúne: aqueles que têm fé e aqueles de pouca fé, e também aqueles que não têm fé alguma (pois estes também fazem parte da Igreja), eles se reúnem para decidir o que é melhor: beatificar-se a tudo e a todos ou apenas aqueles homens comprovadamente santos. Eles ficam, é claro, propensos à primeira opção, pois, em primeiro lugar, não existem estes homens comprovadamente santos (não todos, mas muitos o sabem) e, em segundo lugar, sair beatificando reanima as suas crenças e, o que é o mais importante, não deixa com que os cristãos percam as suas.

57 — Afirmação sábia — “Vocês só vão à igreja e só ajudam aos outros porque a Bíblia ordena e promete castigos para quem não cumprir as ordens!”, exclamou um ateu dirigindo-se a um bispo. Este último, tomando a vez, calmamente disse: “Não sigo os ensinamentos bíblicos porque ela ordena, mas sim e sobretudo porque estou convicto de que eles são verdadeiros!”.

58 — Conhecimento intuitivo — Um dia eu estava assistindo TV, era um programa esportivo, eu era ainda uma criança, e um alpinista estava sendo entrevistado ao ar livre, em um lugar montanhoso e deveras bonito. O repórter então perguntou: “Você acredita em deus?”. O alpinista mexeu um pouco os olhos, pensou, virou-se e passou a olhar toda a imensidão daquele lugar, toda a imensidão que seus olhos permitiam-lhe enxergar. Um instante depois, sem fincar o olhar no repórter e mantendo-os na natureza, abriu os braços e disse-lhe: “Eu acredito na natureza, na sua força, na sua sabedoria”. Naquela época eu era ingênuo (ainda sou), nunca tinha escutado absolutamente nada sobre o panteísmo ou monismo e tinha uma visão completamente dualista das coisas. Todavia, coisa estranha!, aquela resposta jamais deixou de me acompanhar. Na época em que escutei-a, embora não tivesse compreendido, eu como que suspendi o meu julgamento — era como se eu tivesse pressentido uma verdade ali, uma verdade que até então tinha passado desapercebida por mim, ou, o que é mais certo, uma verdade da qual tinha sido privado. Ainda hoje lembro-me com satisfação do alpinista e de sua resposta.

59 — O louco — Então ele saiu arrebatadamente de casa e com um ímpeto alucinante começou a bradar: “Irmãos meus, sim, meus queridos e amáveis irmãos, nós vivemos no melhor de todos os mundos possíveis!”. As poucas pessoas que estavam na rua entreolharam-se com um sorriso sarcástico, reuniram-se e perguntaram-lhe: “Por que dizes que vivemos em um mundo que é o melhor possível?”. Ele, sem vacilação, respondeu: “Ora, tudo que deus criou não poderia ter sido criado de uma outra forma, e, além disso, como deus é um ser absolutamente sábio e cheio de amor e bondade, segue-se, pois, que este mundo não poderia ser...”, um grande e estrondoso barulho o interrompeu abruptamente, as pessoas viraram-se assustadas, o barulho que ecoou tinha paralisado a todos; um pequeno instante depois, questão de segundos mesmo, as pessoas voltaram-se novamente para o pregador, para o “louco”, como chamavam-no, e surpreenderam-se, pois ele estava caído: uma bala partiu-lhe o crânio.

60 — O mundo como felicidade e imaginação — Dois ingênuos saem a passeio: eram amigos e moravam na mesma rua — poder-se-ia até dizer que cresceram juntos e que partilhavam de uma, senão mesma, mas quase mesma visão de mundo. Saíram no então momento porque ouviram falar numa tal discussão que ia ou estava ocorrendo na pracinha da cidadezinha onde moravam. Iam conversando animadamente, cada um exibindo um sorriso doce e terno, até que um deles lembrou-se e evocou um ocorrido na sala de aula da escola em que ambos estudavam. Ele, que não entendera o caso, evocou-lhe para pedir ao amigo que o elucidasse, pondo uma luz definitiva sobre a questão. Assim começou ele: “Você não foi hoje à escola e houve nela um ocorrido que eu não consegui entender: ao ser questionado por um aluno acerca da importância da Matemática, o professor, dentre outras coisas, respondeu-lhe que a Matemática era importante para que ele, o aluno, não fosse enganado na feira das cidades grandes”, “Como é que é?! O que é que ele quis dizer com este ‘enganado’? Ele quis dizer que as pessoas se enganam umas às outras?”, disse o amigo; “Foi o que supus inicialmente”, continuou o outro, “Mas vi que isso era absurdo, pois o mundo é bom e as pessoas são boas. Pelo contexto da fala do professor, aparentou-nos que ele tinha a intenção de passar-nos isso mesmo, mas, depois, pensando melhor, cheguei a conclusão que não, que ele deve ter usado a palavra em um outro sentido e é por isso que eu te pedi socorro, entretanto já vi que você não poderá me socorrer. Agora, eu não entendi: por que razão você disse ‘ele quis dizer que as pessoas se enganam umas às outras?’, eu quero dizer, por que é que você perguntou isso assim, logo de cara?”, ao passo que o amigo respondeu: “É que, um outro dia, como minha mão mandasse que eu fosse para o quarto em castigo por eu ter manifestado o desejo de assistir TV e porque ela ia receber visitas, eu fiz que me retirei para o quarto mas resolvi ficar um pouquinho mais, esperando uma ordem final dela, pois no fundo não queria ir. Acontece que fiquei à espreita por detrás da cortina escutando a conversa dela com as visitas e esperando que ela dirigisse o seu olhar imperativo para mim: ela não me viu, porém, e pude escutar um pouco a conversa. Nela, em um determinado momento escutei balbucios de que havia pessoas que estavam se enganando lá não sei onde. Desse dia para cá fiquei a pensar e confesso-lhe que uma estranha tristeza apareceu em meu coração...”, “Não se preocupe, certamente não existe verdade aí e eu é que devo ter entendido mal o que o professor disse”, falou, por fim, o outro, no justo momento em que avistaram a praça para a qual se dirigiam. E para lá foram, sempre com a mesma felicidade que lhes eram característica.

61 — O solitário — Todo final de tarde ele sai para passear, pois é à tarde que nobres sentimentos mostram-se-lhe, é à tardinha que o seu vazio cresce, que a sua dor aparece, que o seu olhar enternece, que a sua esperança convalesce. Ele então sai, com passos firmes, para o passeio. Começa vagando sem rumo, como se estivesse a procurar algo, mas o quê? Nada de vivacidade ou ímpeto em sua procura, mas indolência: é como se já viesse procurando há muito, muito tempo, porém, como não encontrasse nunca, sem perder todas as esperanças, passou a procurar resignadamente. Mas o quê, o que ele tanto procura? Seria um preenchimento? Seria uma pessoa, um amigo ou uma amiga para conversar? Seria deus? Por que ele nunca encontra consolo nos outros? Será que é porque o criticaram? Será que é porque o abandonaram e ele já não confia em ninguém? Eu presumo que nem ele mesmo saiba as respostas para tantos porquês; ele sabe apenas o porquê dos porquês, contudo não sabe o porquê do porquê dos porquês.