Quarta Parte

 

1 — Doutrina da vida universal — Não existe uma diferença de essência entre os seres: a diferença é apenas de grau. Todos nós fazemos parte de uma mesma substância, que é única e diversa, sombria como um cemitério à meia noite, e resplandecente como a luz do sol à beira mar. Inexiste uma diferença essencial entre o ser humano e o animal: essencialmente, tudo que este tem, nós também temos, e tudo que nós temos, ele também tem — a diferença é sempre de grau. Imaginemos a imensidão do universo e o nosso tamanho em relação ao todo: tomando uma pedra como referência, o nosso planeta é enorme; em relação à Terra, entretanto, o Sol também é enorme; e a via Láctea, em relação a este, é imensa também; enfim, o universo é infinito no tempo e no espaço. Então, antes que nós nascêssemos, já haviam transcorrido uma infinidade de anos: voltemos um a um e paremos quando chegarmos aproximadamente a cinco bilhões de anos atrás. Nessa época, segundo as mais recentes pesquisas científicas, a Terra não existia, mas o movimento universal estava providenciando o seu surgimento; depois que a Terra surgiu, com o transcorrer de mais algumas centenas de milhões de anos, a vida como comumente se fala foi se tornando presente na superfície terrestre, até que estamos nós aqui. Todavia, voltemos mais no tempo: de ano em ano, paremos quando tivermos voltado quinze trilhões de anos: será que encontraremos um planeta como nosso por lá? Caso não encontremos, voltemos mais... Que tal uns quinhentos trilhões de anos? Bom, imaginemos que agora encontramos um planeta parecido com o nosso: ele certamente teve seu início e, como já se passaram tanto tempo, ele não deve existir mais (assim como ocorrerá conosco); nesses intervalos, pergunto, nesses imensos intervalos de milhões e milhões de anos sem um planeta dotado de vida como o nosso, neles não existia vida no universo? E se isso é assim, se não havia vida, como ela pôde surgir? Será que foi do nada? Não: o universo é vivo, o poder vital está em cada partícula da atmosfera, em cada parte ínfima de um “vácuo” (como se isso existisse), em cada átomo formador do nosso corpo. Como?! Como seria possível a passagem de trilhões de anos sem vida alguma no universo se quando olhamos para a natureza percebemos a existência de uma vontade intensa e laboriosa que deseja ardentemente a vida, que trabalha para ela, que monta sistemas profundamente complexos para que ela possa ser plena? Pode-se alegar, evidentemente, que a natureza “interpreta” o tempo diferentemente, e para ela, um milhão de anos seria apenas como um segundo para nós; porém, apesar de tal alegação ter procedência — fui eu mesmo quem a usei —, ela só é usada com plena correção a partir de outro ponto de vista, porquanto não resolve o problema da infinidade de tempo sem vida e deixa sem solução aquele outro problema, a saber, como surgiu a vida em um lugar sem vida. O nosso mundo é único, isto é, ele abrange tudo e portanto não existem outros mundos: a partir disso, porém, podemos observar algumas curiosidades e mistérios que, em certo ponto, até contradiz a forma como colocamos algumas coisas: jamais podemos ter certeza se existe ou não um outro planeta parecido com o nosso (a não ser que avistemos um), pois por mais que andemos procurando, como o universo é infinito, nunca poderemos “olhar” tudo e por conseguinte a possibilidade de existir outras “Terras” estará sempre presente — ou seja, não tem sentido dizermos que durante uma infinidade de tempo não houve vida, como comumente é entendida, no universo; também não tem sentido votarmos no tempo atrás de outros planetas como o nosso, pois, por mais que pareça improvável, mesmo hoje não temos como ter certeza se existe ou não “vida em outros planetas” —; também o universo não tem centro, e aquele que, em épocas passadas, acreditasse na infinidade do universo, não poderia dar importância a teorias como a geocêntrica ou heliocêntrica. Em suma: algo que existe por si mesmo tem que ser infinito, e tudo o que pertence a esse infinito pode ser reduzido a uma essência única, comum a todos, que já carrega a força vital consigo: adotando esse ponto de vista, muitas das grandes questões difíceis que atormentam o homem são resolvidas.

2 — A passagem do mar — Àqueles que são portadores de crenças cristãs, digo que é possível, e muitos já penetraram por esse caminho faz muito tempo, aliar os milagres bíblicos a um universo regido por leis eternas e imutáveis, que não podem ser quebradas ou modificadas a qualquer instante e ao bel prazer de um deus criador — os cristãos mais perspicazes sustentam que tais leis não podem ser quebradas justamente porque são a “força” de deus, isto é, o seu próprio poder de produzir ou transformar isto ou aquilo; se forem mais longe, podem dizer ainda que a criação de leis imutáveis engrandecem a deus, pois só um ser dessa magnitude poderia criar leis e antever com absoluta abrangência os resultados das mesmas, isto é, além da sabedoria da criação, deus teria o “conhecimento” de todas as forças que regem o universo e portanto poderia saber de todo o futuro; mais ainda: tudo isso provaria o quanto sábio é deus, pois um deus que criasse uma máquina e a todo momento tivesse que fazer milagres, isto é, tivesse que alterar a máquina, modificando-a incessantemente e tendo que corrigir os seus defeitos, este deus não poderia ser visto com bons olhos: ele, por assim dizer, não seria “sábio”... Então, infinitas transformações no universo, causadas por suas leis, ao longo dos tempos, convergiram para a abertura do mar, naquele momento, naquele instante em que Moisés necessitava de uma passagem: tudo estava para acontecer, já se sabia, e justamente o que carregava esse saber pôde mostrar sua grandiosidade, pois armou um esquema em um tempo imemorial e que propiciou o acontecimento de um “milagre” em um estante presente, ao invés de, de uma hora para outra, decidir-se pelo milagre.

3 — O problema do ser — A vida, se a olharmos com olhos desapaixonados, dista notavelmente de um grande jardim ornado com as mais belas flores e frequentado pelas mais polidas pessoas: em seu âmago encontramos muitos sofrimentos, os quais, muitas vezes, são cortinados por paixões impetuosas. Como uma considerável consequência disso, temos o fato de que, não apenas por isso, evidentemente, mas tal dissabor na vivência é uma das causas da “criação” de outros mundos, da idealização de uma existência que está por vir: este “olhar para frente”, ou melhor, falando seriamente, este olhar para o nada, ocasiona uma automática desvalorização da existência e do próprio ser. Um líder religioso oriental, cuja doença fez-lhe acreditar que a mesma é um processo de “purificação”, e cuja loucura e devaneio fez-lhe supor que estava tendo “revelações” divinas, em seus ensinamentos, proferiu palavras com este significado: “É compreensível que a angústia e o desespero dominem nossa sociedade: com o materialismo dominante, as pessoas perderam a fé e passaram a pensar que toda a existência se resume ao aqui e agora, ou seja, não mais acreditam numa vida futura”. Entretanto, possivelmente existe uma grande inversão neste ensinamento: ao retirarmos os olhos de nós mesmos e colocá-los noutro lugar, passamos a não mais ver a nossa condição, o nosso caminho, o lar, nossos corações, nossos amigos e pais: um resultado disso é que, com o tempo, esquecemos de viver, ou melhor, esquecemos da própria vida, retiramos o seu valor, um valor que lhe é devido e que precisamos reconhecer e dar. A natureza então, com toda a sua austera intransigência, parte atrás de nós com seu chicote para nos punir, pois ela não quer que abandonemos a existência e o ser, ela não quer que nós neguemos nossa condição, nossa real condição: a angústia e o desespero do homem moderno não são oriundos da falta de fé em deuses, espíritos ou anjos voadores, mas de um longo processo de esquecimento e atrofiamento. Esta fé da qual falamos, a que serve para aliviar uma dor pungente e satisfazer alguns inconformados instintos, pode ser sempre útil no agora, em um momento de crise no qual precisamos de um apoio mais forte e eficaz, porém, a longo prazo temos que pagar juros muito altos, porquanto esquecemos o que é viver, tornamo-nos incapazes de lidar com os verdadeiros problemas que nos atormentam: fugimos,  por assim dizer, sem lutar contra nossos adversários e os deixando livres e fortes para nos procurar: à lembrança deles, mesmo que muito vaga, não importa onde estejamos, ficamos assustados e receosos, e muitas vezes não tomamos consciência disso, isto é, ficamos angustiados. O verdadeiro causador do problema, no entanto, embora talvez não pareça, é a retirada dos olhos, e não a colocação dos mesmos noutro lugar, ou seja, não é apenas o desejo irreprimível de uma outra vida que faz com que se olhe para lugares longínquos, mas existem causas variadas, isto é, o problema não é a fé, mas um de seus efeitos: um ser humano com “pouca fé”, ou, para me expressar mais confusamente, um ateu, ele pode passar por um processo idêntico e esquecer-se que está vivo — é sempre uma linha tênue a que separa a fé popular de outras crenças ou convicções. Assim, mudando um pouco a perspectiva, pode-se dizer que o problema reside no fato de como estamos encarando as coisas (pois o esquecimento voluntário pode ser visto como uma forma de enxergar), e não no fato de o que estamos encarando. Durante um longo tempo, as pessoas nutriram crenças absurdas e com isso perderam a coerência no ato de viver, perdendo da lembrança o que necessitavam para viverem bem, pois elas não mais queriam viver, mas esperar; em um sombrio dia, porém, as suas crenças viraram pó e elas então, não sabendo nada sobre a vida, ficaram desesperadas e sem saber o que fazer ou para onde ir.

4 — Condicionamento externo — Não existe restos de dúvidas de que fatores externos, dos mais variados tipos, afetam nosso ser de maneiras diversas. Um relacionamento saudável com tais fatores é imprescindível para que possamos levar uma vida satisfatória, mas veja-se: os fatores em si não são determinantes. O que define se o nosso relacionamento com as coisas do mundo será ou não proveitoso é justamente o que temos dentro de nós, a nossa maneira de ser, de sentir, e não o que está fora: o indivíduo é o centro dele mesmo, ou seja, ele não deve procurar a felicidade fora dele, em coisas externas como dinheiro, mulheres, sucesso, posição social — os que fazem isso, os que buscam assim são, no fundo, infelizes. Não advogo uma rejeição pelas “coisas do mundo”, mas defendo a ideia de que tais coisas estão em segundo plano, não são determinantes: a felicidade não está condicionada a coisas externas, porém a coisas internas: primeiro temos que aprender a compartilhar a felicidade com nós mesmos, para só depois irmos em busca do mundo.

5 — Devaneios: a alegria do brasileiro — Qual a razão do brasileiro ser tão alegre, conquanto leve uma vida tão sofrida? A razão é a seguinte: sua “semi-inteligência”: a grande alegria e a grande inteligência são inimigos eternos!

6 — Devaneios: depressão pós-parto — Todo o escrutínio já realizado para identificar a causa da depressão pós-parto foi inútil: detiveram-se apenas nos efeitos, e tão-só nos efeitos; eis a verdadeira causa: a mulher, depois de ter o nenê, apercebe-se de que sua contribuição para a espécie já foi dada — ela, nos abismos mais profundos e sombrios do seu espírito, sente-se inútil, sem serventia.

7 — Quanto mais verídico, mais falso — A consciência toma apenas um conhecimento muito parcial e superficial daquilo que realmente acontece com nosso ser, seja no âmbito físico ou no espiritual: nela aparecem apenas os reflexos de processos muito internos!

8 — Ou uma coisa ou outra — Ou o universo é infinito ou ele não é: não existe outra possibilidade, e uma das duas é verdadeira. No entanto, caso ele não seja infinito, não necessariamente ele é finito. Como? Será isso mesmo possível?

9 — A infinidade do universo — Quando estamos brincando com uma criança novinha, e escolhemos a brincadeira do esconde-esconde para diverti-la, sempre que nos escondemos e, depois de um tempinho, voltamos a nos por em sua presença, ela “pensa” que nós realmente desaparecemos em um momento para aparecer no outro — por isso ela se diverte tanto e fica imensamente entusiasmada. A partir do momento em que essa criança vai crescendo, ela começa a aprender que não há sumiço verdadeiro e tampouco aparições do nada, isto é, sua percepção começa a receber moldes do intelecto. Já se relatou, e é bem conhecido, o caso de uma criança que, por ter passado a infância inteira vivendo em um lugar fechado e sem o menor contato com outras pessoas (excetuando-se uma, que nem sequer mostrava-se-lhe e que era a responsável por sua alimentação), ao sair de lá e interagindo com inúmeras coisas que jamais vira em seu mundinho, começou a interrogar a todos sobre quem tinha criado aquelas coisas: via uma cadeira, logo perguntava: “Quem criou isso?”. Diante disso, é-nos lícito enunciar a seguinte tese: a ida e a vinda das coisas, aliada a falta de ligações cerebrais e de conhecimentos abstratos — coisas típicas do ser humano quando na infância —, fazem com que as crianças acreditem na criação e na aniquilação de objetos, e não, o que seria o correto, na transformação dos mesmos. O problema é que uma percepção primitiva como esta não pode ser e não é modificada enquanto percepção, ou seja, mesmo na idade adulta, malgrado não consigamos discernir claramente, o ser humano tem a mesma percepção, isto é, coisas são criadas e destruídas. Evidentemente, junto com tal percepção, mesmo numa criança novinha, já existem conhecimentos grudados nela, e é justamente a evolução de tais conhecimentos, dos conceitos, que o ser humano, com a capacidade de abstração que desenvolve no percurso de sua vida, começa a perceber que, na verdade, as coisas apenas se transformam — e mesmo isso, veja-se, mesmo isso não é completamente apreendido; muitas vezes, aliás, não é nem apreendido: bons adultos não desenvolveram conhecimentos que permitissem-lhes moldar ou mesmo refutar algumas de suas distorcidas percepções. Portanto, que se fique claro: a percepção por si só não é a única causa do erro, mas este obtém muita força a partir da falta de preparação do organismo e do espírito, principalmente em termos de conhecimentos e capacidade para pensar. Uma ilustração simples pode ser conseguida ao considerarmos o Sol: ele sempre nos parece perto quando estamos na idade tenra; quando crescemos, entretanto, tomamos conhecimento que, na verdade, a sua luz leva cerca de cinco a oito minutos e alguma coisa para chegar até a terra, e ela viaja a 300.000 km/s, isto é, o Sol está assustadoramente distante da Terra; então, com isso, ocorre o seguinte: quando hoje olhamos para o Sol, temos a sensação de que ele está próximo, mas logo o nosso conhecimento do seu afastamento, conhecimento este que já se encontra na consciência da consciência, aparece e então “corrigimos” a percepção, ou ainda, substituímos a ideia que nossa percepção sugere por uma outra, advinda do conhecimento. Como todo esse processo se dá de forma muito rápida (logo que olhamos para o Sol, a nossa percepção de sua proximidade é suprimida rapidamente pelo conhecimento que temos de sua verdadeira distância), quase não conseguimos perceber que nossa percepção incorre num equívoco (neste caso, devido às nossas primeiras percepções deste mundo, ou seja, um objeto está perto quando o vemos grande, etc.). Esse tipo de percepção está sempre por perto, mesmo em muitos dos nossos julgamentos mais “racionais”, e nunca conseguimos derrotá-lo por inteiro: ele está sempre à espreita, observando-nos como uma espécie de espectro e que fica repetindo incansavelmente obscuras mensagens subliminares, influenciando os nossos pensamentos com uma sutileza florida e enganadora. É dessa forma que muitos, também não tendo o conhecimento devido e não refletindo, tomam como absurdo o fato de existir algo que não foi criado, e a partir disso, e já evitando algumas dificuldades, jogam o problema para uma outra realidade, para um lugar onde nossa compreensão não pode penetrar, para deus, por assim dizer. Porém, repito: tudo o que até hoje mantemos contato, sejam pessoas, pedras, músicas, árvores, nada disso foi criado, mas foram coisas que sobrevieram, transformaram-se e continuarão se transformando: nada do que existe foi criado, nós estamos na eternidade, e não existe isso de deus, pelo menos não o deus popular.

10 — Inexplicabilidade — Ora, se algo não tem realmente causa ou origem, então não poderemos saber o que é: só poderemos descrevê-lo. Eis um ponto a favor da ciência.

11 — Diferentes aparências — Diz-se que, a cada sete anos, ocorre uma substituição de todos os átomos do nosso corpo: corporalmente, portanto, passamos a ser outro. Entretanto, aparentemente esse outro mantém uma relação de muita semelhança conosco, mais no âmbito espiritual do que no corporal. O quê? Mas como? Então a cada momento os nossos tijolinhos são modificados a tal ponto que em sete anos todos eles já não são mais os mesmos e, a despeito disso, o nosso espírito se conserva quase o mesmo? Então a alma é algo de imutável ou quase isso? Não, não, não! A alma se altera tanto quanto o corpo, o que ocorre é que os processos espirituais, os verdadeiros processos espirituais internos, dos quais nosso jeito de ser é apenas um efeito, eles não podem ser “vistos”, “observados”, como sucede com o corpo; e quanto aos poucos superficiais efeitos de tais processos, isto é, a nossa maneira de ser, esta também sofre alterações que, de uma época para outra, são muito contrastantes: aqui, a percepção de um observador falha, mas se tivermos uma boa percepção e compararmos o nosso eu de hoje com o nosso eu de outrora, e fizermos algo de minucioso, veremos a quantidade de alterações pelas quais passou nosso espírito.

12 — Mudança de realidade — Obviamente — será? —, se eu existo hoje é porque eu sempre existi e continuarei existindo. Existia em diferentes formas no passado, certamente: talvez fosse um touro, uma planta, um pássaro, ou, enfim, talvez eu estivesse sorrateiramente intrometido no chifre do touro, no bico do pássaro ou no verde da planta; e, claro, sem esquecer meu outro lado, talvez eu já tenha sido a melancolia de Hamlet, ou a alegria da camponesa de Voltaire, ou talvez ambos. As transformações ocorrem sem demora e sem intervalo... Ruptura! Sim, existem as rupturas ou mudanças bruscas de realidade: hoje eu sou eu — ou não? —, mas amanhã, quando a morte bater em minha porta, eu não serei mais eu: estarei em outra realidade, continuarei existindo, é apenas uma mudança, e não um fim.

13 — Contradições à longa distância — Certa vez, eu estava conversando com alguém quando ele me disse: “... eu penso assim, tenho essa ideia e não vou mudá-la...”. Em outra conversa que tive com essa mesma pessoa, antes da citada, ela afirmou: “Cada ser humano é único!”. Ora, se cada ser humano é único, então cada um terá uma maneira única de perceber as coisas, isto é, não existe a verdade, mas verdades. Consequentemente, não se pode dizer que a verdade não existe e depois se comportar arrogantemente como se se a possuísse.

14 — As crianças da colheita — Numa época muito distante da nossa, existia uma pequena cidade que era cercada por plantações vultosas. A pacacidade do pequeno lugar permitiu o desenvolvimento de um relacionamento bom entre as pessoas. Havia também muitas crianças: elas eram muito prezadas pelas pessoas; acreditava-se que possuíam algo de divino, de boa sorte e fartura, e por isso mesmo eram submetidas a uma forte educação, onde as noções extremadas de bem e de mal eram-lhes incutidas. No entanto, depois de um ano sombrio e com fortes tempestades, o comportamento das crianças, e isso foi algo percebido pelos adultos, mudou estranhamente. Certo dia, um uivo estranho e um zunido demoníaco pareceu anunciar a chegada de algo monstruoso: observava-se um forte vento, via-se um turvo céu, ouvia-se uma grande mistura de vozes, todas baixas, ininteligíveis, e originadas das grandes plantações que cobriam os arredores da cidade. Era final de tarde e início da noite. Todos fecharam suas portas e não mais interagiram entre si: as crianças, apenas as crianças não pareciam assustadas. No dia seguinte, uma triste notícia corria pela cidade: um dos casais mais antigos da cidade foi encontrado morto, mas seus corpos não estavam inteiros... As crianças levaram alguma coisa para a plantação, a colheita devia ocorrer naquele dia. O alvoroço com as mortes foi enorme: conversava-se aqui e ali, cogitava-se a respeito do que sucedera com o casal, do quão satânico foi aquilo; não se prestava atenção nas coisas, e naquele dia, naquele mesmo dia, todas as crianças da cidade se reuniram, depois da colheita, nas impositivas plantações, as quais encobriam os rastros de qualquer pessoa, ou pessoas, se estas quisessem. No final daquele dia, as coisas tornaram-se mais sombrias ainda: o clima e o ambiente despertaram as lembranças mais terríveis e nefastas que aquelas pessoas carregavam bem no íntimo, no íntimo de seus corações que, naquele dia, naquele terrível dia, estavam tão angustiados, como se algo de horrível estivesse prestes a acontecer. Mas isso era diferente para as crianças... Elas haviam planejado, queriam outro mundo, ansiavam pelo grande bem, pela limpeza; seguiam os ensinamentos dos adultos à risca, o seu mal endemoninhado, a crença em um ser do outro mundo... Queriam matá-los, eles estragaram o mundo: era no que acreditavam. E aquele era o dia. O anúncio já havia sido feito. Daquela noite nenhum adulto deveria sair com vida. E foi assim que ocorreu... Ainda nos dias de hoje, diz-se que nesse lugar, no qual não se situa mais aquela cidade, mas uma outra bem maior, nesse lugar ainda se tem resíduos daquela grande tragédia: ouve-se pedidos, à noite, pedidos, pedidos e lamentos do tipo: “Ajudem-nos! Não queríamos morrer! Eles que mataram! Eles nos criaram! A culpa não foi nossa! Precisamos nos libertar da prisão do suicídio”.

15 — Aos leitores dos críticos — Antes de lermos algum crítico sobre alguma obra, é necessário, primeiro, que tenhamos lido inteiramente a obra; segundo, que tenhamos feito nós mesmos uma análise crítica do que foi lido; terceiro, que a leitura do crítico seja feita criticamente, pois o crítico também pode estar errado. Se és um psicólogo, por exemplo, ou um aficionado em crítica literária e quiseres ser profundo, deves, acima de tudo, no caso do psicólogo, ler na íntegra as obras dos grandes de tua área, e se possível antes mesmo de ler qualquer crítica sobre eles; já no caso de um crítico literário, tens que aprender a alimentar o teu senso crítico, e isso, primordialmente, não se faz com a leitura do crítico. Agora, falando para ambos, se não quiserdes ser um profissional profundo, se não almejardes transpor os mais tímidos limites do superficial, enfim, se gostais de ser um profissional medíocre, então continuais lendo os críticos mesmo antes dos criticados.

16 — Os intelectuais e suas opiniões — O que caracteriza essencialmente um intelectual é o seu grande conhecimento. Eles se denunciam a partir do momento em que fazem exaustivas referências a outras pessoas, outros pensadores, outras fontes. São pessoas que, em geral, não desenvolveram os conhecimentos, mas já os pegaram prontos: possuem uma pequena capacidade para pensar, e uma extensa memória e gosto de repetir o que os outros dizem. E quando, no final das contas, queremos saber sua real opinião sobre algum assunto, eles dizem: “Bom, a respeito disso, eu penso como...”.

17 — A justiça eterna no espiritismo — A ideia de que, de algum modo, alguns dos nossos sofrimentos são punições sofridas por atos praticados em outra vida é sustentada não tanto pela lógica quanto pelo medo: o anseio por algo maior e pelo afastamento de uma grande desilusão, o medo de descobrir-se que, no fundo, muitos sofrem injustamente e que suas vidas, sentidas no íntimo do íntimo, não valem realmente nada, que muitos padecerão na miséria da miséria e não terão recompensa ou conforto algum — eis que não é por “amor a deus” ou por causa do “amor de deus” que se tem tais ideias, mas em geral, e quero que perdoem-me a dureza, por covardia. Evidentemente, a covardia também não passa de um ponto de vista, e não quero nem estou desqualificando ninguém. Todavia, o ser humano, quando se imagina frente ao seu túmulo, em um cemitério vazio e desolado num dia de domingo, dá um passo para trás assustado e a partir daí, por medo e incapacidade de encarar sua própria finitude, começa a ser completamente submisso aos instintos. Não se trata de reconhecer ou admitir que as coisas sejam injustas ou que a existência seja miserável, pois em ambas as admissões temos apenas conjeturas falsas e provenientes dos negadores; mas de estar ciente, isto sim, de que temos muitas limitações enquanto sujeitos ativos e de que precisamos sobrepujar os obstáculos ou aceitar aquilo que não for obstáculo. A vida, em muitos e muitos momentos, é duríssima: faz-se necessário, portanto, que tenhamos firmeza e que ao menos tentemos lutar. Se uma criança sofre barbaridades, se um “justo” é condenado à morte por corruptos, se pessoas morrem de fome enquanto outras desperdiçam comida, estas coisas não querem significar, porque não existe “justiça eterna”, que a caminhada não vale a pena, que não existe justiça ou que devemos desistir da luta e lançarmos as armas ao lixo, tornando-nos uns desonrados e desmerecedores: tudo isso é apenas uma forma de fuga, assim como o é a crença no outro mundo. Nada disso! Devemos nos chocar violentamente contra essas coisas, devemos declarar guerra a elas. A paz e a felicidade mundial, das pessoas, é um dos objetivos maiores que devem constar nos corações dos humanos, e por isso mesmo, acreditem: inalcançável!

18 — Problemas estruturais, parte 1 — As nossas crianças de hoje, os seus pais não dedicam muito tempo para elas: três horas por dia dedicadas a um filho, por exemplo, é muito pouco, aliás, é lamentável. A estrutura da vida das pessoas, dessa vida desenfreada e pouco contemplativa, está e continuará trazendo prejuízos horrendos para as pessoas de amanhã: pouco se sai com as crianças, não se conversa com elas, deixam-nas sozinhas ou na companhia de estranhos a maior parte do dia, e quando, ao surgir um efeito por vezes inevitável, a criança começa a apresentar problemas emocionais ou de ordem psicológica, levam-nas para um psicólogo ou pede-se para a professora resolver o problema: que vil atitude! Que falta de caráter e de honra! Que semidemência estúpida! Pois eu lhes digo: na maior parte desses casos, nem é preciso professora e tampouco psicólogo ou psiquiatra: basta olhar, olhem para as crianças, pois é disso que elas estão sentindo falta.

19 — Problemas estruturais, parte 2 — Já os nossos adultos, e até que eles têm boas desculpas para se justificarem frente às crianças, levam uma vida bem estressante, mas nem por isso, em suas relações com as crianças, devem ser eximidos da culpa. Existe uma procura intensa pelo que se chama de “um lugar ao sol” — que coisa ridícula! —, e mesmo que não seja apenas isso, a dureza da vida faz com que muitos trabalhem até gastarem a última partícula de energia — a estas, sou complacente, mas àquelas que podem e não fazem, àquelas que tiram o corpo fora quando elas mesmas deveriam cuidar dos filhos, digo o que havia dito anteriormente: são pessoas sem honra, incapazes de responsabilidades e de assumir os próprios erros. Por outro lado, é preciso perguntar: a que devemos uma labuta tão grande? Por que a vida tem se tornado algo tão desgastante? Inegavelmente, são inúmeras as causas disso; porém, será que podemos destacar uma? Acredito que sim. A maior das causas é, indubitavelmente, a cultura. Pensa-se que as coisas simplesmente aconteceram, que foram tomando um determinado rumo e sem controle, mas não foi assim: embora a vida hoje pareça ser regida por leis rígidas, nenhuma dessas leis deixou de ter o aval das pessoas: elas permitiram que as coisas se transformassem nisto, é do gosto delas. Os conceitos capitalistas invadiram as casas das pessoas, principalmente através da mídia, e nos dias de hoje, por exemplo, quando estamos a três ou quatro meses do dia dos pais — eis que alguns asseveram que tais dias comemorativos foram criados principalmente através da força do capitalismo, que precisa de uma “desculpa” para vender produtos —, já se começa a anunciar diversos produtos para eles. Como resultado dessa cultura mesquinha, as pessoas passam a valorizar estupidamente as coisas materiais e as advindas delas e, então, tais coisas passam a ter prioridades que nunca deveriam ter: o trabalho agora vem em primeiro lugar, porquanto é dele que “tiramos o sustento”; mas o que se quer dizer realmente é: “É dele que tiramos um carro de última geração, é dele que tiramos uma viagem para a praia, é dele que tiramos reconhecimento social”. E a alegria? A paz de espírito? “Bom”, respondem, “nós não tivemos tempo para pensar nisso”.

20 — Desgosto — Certa vez, numa época natalina, preparei uma lembrança para uma colega mais velha, ao invés de comprá-la. Levei uns cinco dias para fazê-la, e quando a entreguei, quando disse que tinha sido algo “artesanal”, ela me respondeu: “Não tem problema, não tem problema: eu sei que o que importa é o significado”. Ela repetiu isso várias vezes, como se quisesse se convencer disso.

21 — Autodefesa ou má interpretação? — Alguns “cientistas” já levantaram a tese de que as pessoas solteiras estão mais propensas ao suicídio do que as que não vivem sozinhas. Basearam-se em pesquisas, isto é, “constataram”, através de pesquisas com solteiros e com “não-solteiros”, que há uma tendência maior, ou melhor, que há uma valorização menor da vida por parte dos solteiros. De posse dos dados, concluíram, utilizando-se para isso de sua irrelevante e medíocre capacidade de interpretação, e de instintos e preconceitos sociais banais, os quais fazem-se presentes em muitos “bons” cientistas, que por serem solteiras é que as pessoas tendem mais para o suicídio. Pergunta-se: por que não poderia ser o contrário? Então, neste caso, as pessoas solteiras, pelo menos as tais que estão mais expostas ao suicídio, o são porque desvalorizam a vida! Analise-se este caso: muitos religiosos, talvez todos mesmo, dizem que uma pessoa sofre de crises depressivas justamente porque não tem fé — admitindo, claro, que tal pessoa não tenha fé e que ela seja muito triste —; mas neste caso, na maioria das vezes, dá-se justamente o contrário: por ser depressiva é que ela não tem fé! Eis uma tese muito clara e pouco percebida pelas pessoas. Entretanto, voltando aos solteiros, nunca é demais lembrar que todo ser humano tem suas peculiaridades, e, neste caso, elas devem ser consideradas, pois, devido a problemas diversos, uma pessoa pode muito bem encontrar dificuldades nos relacionamentos e por causa disso levar uma existência mais sofrível e descolorida; por outro lado, uma determinada pessoa pode vir a ficar solteira por ser infeliz.

22 — Maquinalidade — Assisti a uma palestra na qual um homem, um estudioso de Carl Sagan, um “conhecedor” da teoria do big-bang, da grande massa comprimida, do evolucionismo darwiniano, de muitas inúmeras galáxias que existem no universo, este homem queria se passar por um homem de ciência, queria fazer-se parecer um “cientista” — e talvez, para os padrões grotescos de hoje, até possa ser considerado um. Carl Sagan é um grande cientista, isso é indubitável, mas conhecer a obra de um grande escritor não é ser um grande escritor. Porém, retornemos. Na palestra, o homem apontava o “caminho” para a felicidade. Dizia ele: “Para alcançarmos a felicidade é preciso, basicamente, quatro coisas: saúde, liberdade, reconhecimento social e dinheiro”. Em sua argumentação, se é que podemos dar uma tal denominação a um conjunto de palavras superficiais e vazias, ele dizia que uma das coisas que merecia um grande cultivo por parte das pessoas é a disciplina; imediatamente depois, concluía que a pessoa disciplinada alcançou a “liberdade”, ou seja, ser livre é ser disciplinado — os chimpanzés de circo, os cabeça-de-vácuo dos militares e os cães domésticos agradecem a afirmação, pois disciplina é também adestramento. Em outro momento, quando falava do reconhecimento social e precisava argumentar, não proferiu palavra: não sabia o porquê do reconhecimento, provavelmente estava repetindo uma pequena lição que decorara na escola. Quanto ao dinheiro, dizia que era importante para... viajar — sim, foi isso mesmo: dentre todas as grandes utilidades do dinheiro, ele achou esta: viajar. No que diz respeito à saúde, não direi nada. Mas o que despertou mais a minha atenção foram os métodos descritos para alcançarmos as coisas: ele dizia exatamente o que deveríamos comer, como deveríamos dormir, mostrou alguns recursos que acreditava desenvolver a inteligência emocional, corporal, intelectual; deu dicas imperativas (eles não se conformam) de como atingir o “sucesso profissional”; e ainda criticou um outro palestrante que, ao falar dos males causados pelo não-perdão, não tinha “ensinado” como perdoar: porém, apesar da crítica, ele também não “ensinou”, mas apenas referiu um livro que “ensinava” — isso é típico do homem atual, do homem superficial: como não têm mais tempo para refletir e para fazer verdadeiros estudos (e são disciplinados!), lêem as orelhas dos livros e os resumos dos resumos dos artigos, e já acham que sabem de alguma coisa; “a memória é mais importante do que a inteligência no mundo atual”, eis uma ridícula afirmação que vem ganhando força, graças à “sabedoria” e ao “profundo” conhecimento do homem moderno. Muitos cientistas, não todos, pois muitos são dignos de aplausos, querem transformar o homem em uma máquina, veja-se: em uma máquina, não em um animal, pois mesmo entre os animais a padronização não funciona. Eles dizem: “cada ser humano é único”; mas a cada palavra, a cada afirmação, ou ainda, para dizer a verdade, em cada idiotice proferida, tal afirmação é vergonhosamente contrariada. Fiquemos atentos: é sinal de baixa cultura e de ferrugem intelectual uma exacerbada valorização de padrões comportamentais: encontramos muitas pessoas desse porte nas religiões, e estamos encontrando também na ciência. No fundo, mas bem no fundo mesmo, cada ser humano, cada instituição, cada seita, todos querem, de alguma forma, controlar uns aos outros: a ciência pode facilmente se transformar numa espécie de religião dogmática, trataria-se apenas, portanto, de uma substituição: sai a religião e entra a ciência; e tudo isso com o aval das pessoas, que desejam ardentemente leis, que querem obedecer, que anseiam por um caminho mais fácil e vistoso: têm preguiça de procurar o seu caminho ou medo de descobrir que ele não existe.

23 — À companhia do medo — Há coisas, as quais causam-nos temor, que, enquanto tivermos medo delas, nunca nos deixarão em paz, nunca se afastarão, sempre se concretizarão. O temor pelo desprezo alheio, por exemplo, ou o medo da solidão trazem consigo justamente o desprezo e a solidão, respectivamente: aquele que mais ardentemente deseja fugir os “escapar” da solidão estará sempre só e viverá imerso no vazio. Há sentimentos ou paixões que jamais devem ser negados, e dos quais uma fuga sempre trás inúmeros prejuízos para a nossa vida, pois eles, justamente eles, querem nossa companhia, nossa compreensão, nosso olhar, querem apenas conversar conosco, e não guerrear, não fugir, não que fujamos: é preciso sentar junto deles para uma conversa, é preciso, antes de tudo, que a sua companhia não nos desagrade: quando menos percebermos, eles tomarão os seus caminhos e nos deixarão em paz, para vivermos.

24 — Uma desculpa para o futuro — Certas vezes, queremos um motivo para tomarmos, enfim, uma determinada atitude que, no fundo, já queremos tomar, mas algo tenta nos impedir, talvez uma previsão não muito boa, um medo de errar: o motivo é, portanto, uma desculpa para o futuro.

25 — Fantasia no magistério — Alguns professores imaginam que o seu prazer de ensinar vem da preocupação com a nova geração, com o bem comum. “Gosto de ensinar porque gosto de ajudar a sociedade no seu desenvolvimento”, pensam alguns. Mas tudo isso é uma farsa, uma ilusão.

26 — Diferentes tipos de professores — Alguns professores gostam de ensinar porque, como encontraram prazer no seu aprendizado, ficam, como se quisessem retornar no tempo e não soubessem de nada, tentando repeti-lo, e para isso utilizam os alunos como pretexto; outros têm prazer no ensino porque gostam de estar por cima, porque gostam da sensação de se sentirem os donos do conhecimento, os superiores; outros ainda se deliciam porque podem ser autoritários, porque podem exercer autoridade, uma autoridade que não podem exercer em nenhuma outra ocasião de suas vidas; por fim, alguns se sentem bem ao adentrarem nas salas de aula porque se deixam contagiar pela alegria dos jovens, porque são jovens também. Todos esses tipos são incompletos, são professores pela metade ou menos ainda.

27 — Uma força motora — O conhecimento e a riqueza são duas coisas que, quanto mais se tem, mais se deseja. Não é incomum alguém que é possuidor de abundantes bens materiais achar-se, por vezes, com poucos recursos: é o que faz com que ele sempre deseje mais, mesmo tendo muito; isto é, é a própria insatisfação com o que se tem que produz o desejo de se ter mais, e não uma, por assim dizer, ingênua “vontade de poder”, haja vista que neste caso supõe-se que se conhece o poder que se tem, o que jamais ocorre. O mesmo ocorre com aquele que deseja ardentemente o conhecimento: por vezes, e não raramente, ele, mesmo tendo mais conhecimento do que a maioria, acha-se vazio, destituído de saberes: isso empurra-o sempre para mais adiante, para a busca de mais conhecimentos. Tanto no caso do dinheiro e dos bens materiais quanto no caso do conhecimento, a força que age é a mesma, e tem como fim, como objetivo último, a preservação do indivíduo, ou ainda, o seu progresso individual, com possíveis diminutos benefícios para a espécie.

28 — Uma justiça plena — Os conceitos de justiça e injustiça são bem maleáveis e variáveis de acordo com o tempo e o espaço, mas todos eles carregam uma semelhança, ou seja, conseguem fazer com que as pessoas acreditem neles, pelo menos a grande massa. Contudo, com o passar dos anos, os “crentes” passam a ver que as coisas não são tão certinhas e dignas de aplausos como eles supunham, e com isso, não sem uma espécie de decepção, adotam uma postura mais resignada: muitos a chamam de experiência. Tal resignação, a bem da coerência, é na verdade uma redução da vontade de viver, pois ela sempre vai diminuindo com o acúmulo de dor ao longo da vida; e tal decepção, a mencionada anteriormente, impede as pessoas de verem aquilo que é claro e obscuro e surpreendente: elas se decepcionam porque a “justiça” realmente não existe, e por isso deixam de perceber que, na verdade, ela não deveria e não deve existir: ao invés da decepção, devemos nos alegrar, pois um mundo onde a justiça fosse plena seria completamente previsível, sem tempero, sem surpresa, sem vida!

29 — Aqueles que criticam — O motivo pelo qual muitas pessoas gostam de criticar outras, que lhes são próximas, é este: não gostam de ajudar, e portanto tentam convencer a si mesmas e aos outros de que aquele que necessita de ajuda está errado, isto é, não precisa de ajuda, mas, e algumas são maldosas, precisam de castigo.

30 — Pais miseráveis — É bem possível, e sou cauteloso ao falar disso, que a principal causa do homossexualismo feminino seja a presença de pais ordinários e medíocres, meio-homens, por assim dizer, e que por isso mesmo desencantam todos os homens para suas filhas. Devido ao pai, muitas garotinhas perdem a afeição pelos homens, vindo a se tornarem lésbicas. Supondo a veracidade disso e levando em consideração a imponência dos instintos sexuais, temos então um algo que corrobora com a tese de que os pais são importantíssimos e determinantes para seus filhos, seja no aspecto espiritual ou no intelectual.

31 — O mundo perdido — Para as crianças, a escola é como uma espécie de mundo perdido, mas não aquele mundo desconhecido e cheio de novas possibilidades, mistérios, caminhos, saberes a serem descobertos, e sim aquele mundo cheio de perigos, obscuro, onde qualquer desvio pode ser punido com a morte: é também por isso que as crianças sorriem e se alegram tanto, quando, finalmente, saem da escola.

32 — Um erro comprometedor — Nas universidades, existem tantas regras que as mentes medíocres são sempre favorecidas (pois faltam-lhes autonomia e capacidade de divagação), enquanto que as mentes férteis, tão raras, são lentamente destruídas, aniquiladas. Já na escola, devido às mesmas regras, muitas das capacidades das crianças, capacidades belíssimas, pois todos têm talentos, são atrofiadas até quase à debilidade total: eis porque as mentes férteis nas universidades são raras e as mentes medíocres estão em maior número.

33 — As mentes — Em verdade, não existem mentes “medíocres”, mas apenas mentes presas, embrutecidas, amarradas: a inteligência é algo natural, e não só nos seres humanos.

34 — A escola e a destruição do futuro — Enquanto as escolas e o sistema de ensino se prenderem a tantas regras, as nossas crianças não desenvolverão a capacidade de seguir por diferentes caminhos, de negarem, de descobrirem o novo, de verem o além, de conseguirem soluções, de andarem sozinhas. No nosso mui “belo”, “justo” e “honesto” país, faltam pessoas com mentes mais errantes, que possam pensar soluções para os grandes problemas que assolam o país. E de quem é a culpa? Quem foi a responsável pela criação dessas mentes monótonas e submissas? E nem adianta dizer que grande parte do país é analfabeto, que nunca frequentou a escola: neste caso, poucos podem fazer muito, pois é só lançar a semente que a natureza faz o resto. Todavia, no Brasil, não se lança a semente: atira-se pedra, porém não se lança a semente.

35 — Perguntas difíceis — Certa manhã, minha professora de redação me fez a seguinte pergunta na aula: “Que é a vida?”. A pergunta pode ser considerada inteligente, porquanto me fez pensar, e pensar muito. No entanto, e agora também falo aos professores, não seria preferível fazer uma pergunta que tivesse resposta?

36 — Quando os professores trazem alegria aos alunos — Os professores trazem alegria aos alunos em, basicamente, duas situações: quando adoecem ou quando erram e servem para chacota.

37 — Por que não gostamos dos professores? — Não é realmente dos professores que nós não gostamos, mas de toda a situação: os professores também, outrora, sofreram tanto ou mais do que os seus alunos. Muitas vezes, inclusive, é por revolta que os professores maltratam tanto as crianças.

38 — Sufocando demais — Às vezes é preciso dar espaço a uma pessoa para que ela possa se acomodar.

39 — Desprezando sem piedade — Certas pessoas nos desprezam quando lhes damos importância e correm atrás de nós quando lhes damos as costas: neste caso, se você gosta de uma pessoa dessas, despreze sem piedade e até às últimas consequências: tais pessoas desprezam-se a si mesmas, e só se corrigirão quando terceiros a desprezarem fortemente.

40 — Muletas invisíveis — Algumas pessoas, mulheres principalmente, vivem com tais e quais valores que é como se estivessem sendo amparadas por muletas, que sustentam seus corpinhos frágeis e seus espíritos acanhados e mimados — aqui se encontram praticamente todas as mulheres de “sociedade”.

41 — Quem tem razão? — Os professores de educação física dizem que sua profissão é a profissão do futuro, a mais importante e inegavelmente salutar para o bem individual e geral, pois promove a saúde, o maior dos bens, e de forma natural; os psiquiatras dizem que a cura mental através de remédios é um dos mais fantásticos avanços da humanidade, e por isso mesmo de vital importância; os psicólogos dizem que, devido a uma modernidade tão conturbada e neurótica, as desordens psicológicas são e serão tantas que a psicologia ganhará cada vez mais força; os filósofos dizem que nossa época é uma época de crises, e de crises fortes, porque as pessoas, “persuadidas” por um materialismo dominante, não mais perdem seu tempo com as questões fundamentais da existência. Quem tem razão, então? Ninguém!

42 — Os gays — Particularmente, faço distinção entre os homossexuais e os gays ou bichas: os primeiros, encaro-os com natural serenidade; já os últimos tentam sempre parecer o que não são, modificando a aparência e esforçando-se para afinarem suas vozes graves e horríveis; por serem assim, por falsearem o próprio ser é que eles me desagradam tanto. Por outro lado, alguns homossexuais possuem uma feminilidade natural, que lhes é própria; não são atores, não são dissimulados e não estão tentando tornar-se o que não são; e o mesmo ocorre com algumas lésbicas.

43 — A beleza da mulher vista pela mulher — Tenho percebido que as mulheres têm uma grande capacidade de reconhecer qualidades ou belezas em outras mulheres, como inteligência, cabelos bonitos, charme distinto. Nos homens, no entanto, essa capacidade apresenta-se sempre muito timidamente, e quando se apresenta. Consequentemente, por vaidade e para proteção do próprio ser, as mulheres estão mais propensas a criticarem umas às outras do que os homens, ou seja, uma das nascentes da inveja feminina é sua capacidade de reconhecer as qualidades das outras mulheres. Com os gays ocorre algo parecido, porém, além de possuírem, em geral, uma auto-estima mais baixa, eles são mais explícitos em suas críticas.

44 — As escolas militares e sua “qualidade” — Algumas vezes encontramos, na rua ou no vento úmido, estéril e ermo das universidades, algum saudosismo matuto, que alega as grandes “virtudes” das escolas autoritárias, das escolas de antigamente, das escolas militares. Para a preparação técnica de funcionários-máquina-vácuo-na-mente, aqueles que realizam trabalhos mecânicos e só mecânicos, escolas desse tipo são muito proveitosas, pois adestram satisfatoriamente. Todavia, não pensem que é espoliante promovermos o total divórcio entre as escolas militares e a educação verdadeira, aquela que auxilia um ser humano, em amplas áreas, no seu desenvolvimento: qualquer conceito de educação com que trabalhe as escolas militares é sempre distinto do nosso, e, salvo os casos em que é preciso uma formação técnica, apenas técnica, as escolas militares ou qualquer outra que mantenha uma linha autoritária devem ser consideradas como ultrapassadas, não são mais bem-vindas e devem ser afastadas o máximo possível do sistema educativo do país.

45 — As escolas especiais — Devemos, doravante, esforçamo-nos para promovermos a destruição das escolas especiais, pois são instituições separatistas, que plantam preconceitos e prejudicam ambas as partes, isto é, os deficientes e os normais: os deficientes não podem ser privados de nós, e nem nós deles.

46 — Iluminando o motivo — Quando, munidos de uma lanterna, iluminamos os verdadeiros motivos que estão por detrás de uma ideia, não estamos atacando a ideia; e mesmo quando os motivos são ignóbeis, também nem por isso a ideia perde o seu valor: os motivos não são as ideias.

47 — Ambiente escolar — O ambiente escolar de antigamente era marcado pelo autoritarismo, disciplina e respeito. Os seus frutos, ou melhor, sua consequência era aquele indivíduo domesticado, pouco crítico, servo e pontual, incapaz de exteriorizar sentimentos e ideias e de promover alguma espécie de revolução. Mais recentemente, com a abertura do ensino superior para a grande massa, mediante testes como o vestibular, o ambiente escolar tornou-se algo desagradável, com muita competição, com um neurótico, vulgar, pobre e ordinário sistema de avaliação por notas, onde a competição é instigada juntamente com a grande frustração e sentimento de fracasso, aquele sentido pela grande maioria dos alunos por não serem “os primeiros” da sala, por não se “sobressaírem”. Uma consequência imediata disso é que esses alunos procurarão “negar” aquele ambiente, a escola, pois a natureza não se rende fácil e necessita proteger o ser: se o mundo escolar, a sala de aula, aquela mini-sociedade agride um aluno, a sua auto-estima, sua dignidade, então ele irá tentar promover um contra-ataque; mas não o conseguindo, pois são muitos contra um, ele partirá para a negação: aqui se encontra um grande perigo para as pretensões da educação, porquanto aquele aluno excluído na escola será portador de uma perigosa antipatia pela sociedade: ele foi excluído na pequena sociedade; transferirá o seu ódio para a grande sociedade e possivelmente será um cidadão inerte, mas não porque é despojado de senso-crítico, não porque não almeja melhorar de vida, e sim porque odeia a sociedade, não quer trabalhar para ela: será um indivíduo egocêntrico... E isso é um direito dele!

48 — A crítica como construção — É dito insanamente por aí que aquele que critica um outro o faz para o bem deste, salvo algumas exceções, como é evidente. Aquele que critica não está pensando senão em si mesmo; e aquele que é criticado, se conseguir digerir sempre bem as críticas, aparentando ter uma maturidade e ser acolhedor às críticas, salvo raras exceções, sempre se comporta desta maneira balançando e remexendo a cabeça para olhar para outra coisa, visando algo: no fundo, é sempre um ambicioso.

49 — A coloração — Em certos momentos, quando a vida está pálida e permanece assim por um bom tempo, e encontramos um alguém, uma mulher que, de repente, planta uma alegria simpática e pura em nossos corações, então um gosto novo é sentido, as cores intensificam-se, compreendemos novamente: a história, então, passa a fazer sentido outra vez.

50 — Uma visão sempre superficial — Os tratamentos psicológicos, excetuando-se os de ordem espiritual ou os místicos, tentam facilitar o andar ou mostrar caminhos mais corretos para que os pacientes percorram. Muitos pacientes terão satisfatórias melhoras, principalmente se o que lhe atormenta é algo de superfície, algo tangível e pouco arraigado. Muitos outros pacientes, porém, não sentirão efeito positivo algum com o tratamento realizado pelos psicólogos, porquanto tais abordagens são muitíssimas limitadas, e muitas desordens psíquicas, malgrado a negação de muitos psicólogos, têm sua verdadeira origem em causas não aparentes. A visão superficial de certos psicólogos irrita, e poderíamos muito bem parafrasear Hamlet e dizer a um deles: “O espírito humano possui mais mistérios do que a tua psicologiazinha sonha”.

51 — Olhando repetidas vezes — Muitos dos grandes psicólogos, de ontem ou de hoje, possuem ou possuíam uma visão filosófica. Pergunta-se: são grandes psicólogos por causa dessa visão ou será que possuem essa visão porque são grandes psicólogos? O conhecimento de si mesmo ou da natureza humana é sempre fruto da observação, da experiência e do estudo, ou seja, ele é adquirido; ao passo que a visão filosófica é inata — mas isso ainda não responde a pergunta.

52 — Uma visão cética — O ser humano criou joguinhos de palavras, com sentidos amplos e restritos, e a partir daí estabeleceu regras, significados, valores, propriedades, e com isso tentou se explicar e explicar ao mundo — à possível explicação correta, baseada em todas as suas criações linguísticas, ele dá o nome de “verdade”. Esquecendo-se, porém, que essa “verdade” está completamente condicionada aos pressupostos ou regras adotados, ele partiu em busca dela e, como a decepção lhe infligiu sofrimentos, ele, perscrutando, encontrou a seguinte saída: considerar uma tal verdade inacessível, a “coisa-em-si”. Mas ao contemplarmos a coisa-em-si como uma espécie de verdade, então já estaríamos, pelo menos parcialmente, na posse dessa coisa-em-si, o que é evidente contradição. Portanto, dizer que a verdade não existe, dizer que ela existe, ou dizer que ela existe conquanto seja inacessível é sempre muito suspeito e contraditório. Fica-nos, então, uma última pergunta: que seria a verdade? Uma ideia confusa.

53 — Os nossos escritos sombrios — As crianças são influenciadas facilmente, pois estão em intenso processo de aprendizagem: o que passa na televisão, os adultos e os colegas são, muitas vezes, como verdadeiros modelos que devem ser imitados por elas. No entanto, as crianças só fazem aquilo que já se encontra dentro de si mesmas, ou ainda, a influência só se dá quando a criança “permite”. Exemplificando, quando uma criança observa que seus pais discutem e brigam muito, ou quando ela observa a violência na TV e, partindo disso, torna-se mais agressiva ou violenta, ela não recebeu essa agressividade dos seus pais ou da TV, mas isso já se encontrava nela, faz parte de sua natureza. Em casos um pouco mais específicos, por exemplo, no caso em que um pai é muito amigo da filha, e esta, por isso mesmo, não teve grande preocupação em procurar logo um namorado, esse comportamento também pode ser visto como uma resposta, uma resposta ao que o pai lhe deu: foi uma resposta dada; mas ninguém dá algo se o não tiver. Focalizando melhor e deixando as crianças e essas questões mais instintivas de lado, partamos para coisas mais sutis. Um jovem de vinte e cinco anos comete suicídio; averigua-se o fato e descobre-se que ele, antes de partir, tinha o costume de ler coisas pesadas, pessimistas a respeito da vida: esses escritos tiveram alguma influência marcante na sua, por assim dizer, decisão? Independente do caso, não, os escritos de forma alguma foram decisivos: no máximo, e já exagerando, os escritos apenas acordaram algo que estava adormecido. Se a própria dor e esgotamento não estivessem presentes no suicida, ou ainda, se a semente do suicídio não estivesse presente, ele jamais cometeria o auto-extermínio.

54 — O ato de ler — Sempre que lemos algo, qualquer coisa que nos venha após a leitura, seja ela um pensamento, uma ideia ou um sentimento, já estava presente em nós: ao aguarmos a terra de um vaso de planta, se nele não houver alguma semente, nada crescerá, nada aparecerá.

55 — Fugindo — Muitas pessoas esforçam-se tanto quanto podem para escapar do “ficar sozinho”; elas temem sobremaneira a solidão, pois, no fundo, temem ficar sozinhas consigo mesmas.

56 — Transformação — Não são nossas ações que transformam a vida, mas a interpretação que fazemos dela.

57 — Noutro mundo — Se existe realmente um paraíso, um lugar belo para onde as almas boas se dirigem depois da morte e lá vivem eternamente felizes, então, ao morrer, a essência da nossa alma deve mudar consideravelmente, pois a natureza humana é disposta de tal modo que ela não aceita uma tal alegria. Esse paraíso, por isso, deve realmente ser um “outro mundo”.

58 — Lamentações — Pessoas que, não pouco comumente, vivem aos lamentos, passam a maior parte do tempo estagnadas, porquanto a lamentação é uma espécie de ato crítico e negador, mas inativo e sem ação positiva. A insatisfação com um estado de vida, por exemplo, não só é natural como também necessária, pois é a partir dela que buscamos o avanço, a solução dos problemas, o “caminhar para frente”. Entretanto, o ato de lamentação já não é mais uma simples insatisfação, mas uma insatisfação com um algo a mais — uma fraqueza, um vício, autocomiseração, ou ambição mesmo, no caso em que a pessoa que se lamenta deseja angariar vantagens através desse lamento. Mesmo em situações mais extremas e difíceis, por exemplo, quando estamos prestes a morrer por causa de uma doença fatal, não são positivos os constantes lamentos, como se fossemos as pessoas mais coitadinhas do mundo. Não! Devemos tentar proceder de outro modo: primeiramente, é preciso que recebamos a vida em nossas mãos, ao invés de ficarmos agindo ou pensando de maneira tal que as causas exteriores a nós é que figurem como culpadas pela nossa situação: nego praticamente toda espécie de liberdade humana, porém nós é que trilhamos o caminho, nós é que escolhemos — note-se que não estou a falar de um ser que é consciente e ativo: a nossa liberdade reside no fato de que podemos obedecer as leis da natureza, que também são nossas leis, e o homem enquanto considerado ser consciente não é livre — pois a consciência é determinada —, mas quando considerado amplamente torna-se livre, pois as próprias leis que o regem tornam-se integrantes dele. Em segundo lugar, é preciso considerar todo o sofrimento do mundo. “Todo mundo sofre”, diz uma música, e não devemos ser tolos o bastante para acharmos que nossa carga é sempre a mais pesada. Ao tomarmos nossa vida nas mãos, deixamos de ser um ser passivo — aquele que se comporta como se fosse uma bola em um jogo — e passamos à atividade — somos os jogadores —: só assim é possível alguma mudança; e ao considerarmos o sofrimento alheio, passamos a perceber que ele é inevitável e que todos, não apenas nós, têm suas necessidades, aflições, frustrações, desejos de serem ouvidos, etc., e que não cabe a nós fazermos o papel de vítima da peça. Para vermos o quão é insensato e ilógico esse papel, basta observarmos o seguinte: o mesmo motivo que leva alguém a se considerar a vítima da peça, pode levar todos, se todos “quiserem”, a se considerarem vítimas também da peça, e sendo assim, se todos são vítimas, então não há agressor e, portanto, não pode haver vítimas.

59 — Dúvidas e mais dúvidas — Certo dia, estava pensando acerca da liberdade. “Não existe isso de liberdade ou livre-arbítrio, e disso estou convicto”, dizia um eu; “Mas, se é assim, não posso confiar nesse pensamento, pois quem garante que ele não está vindo de uma necessidade enganosa?”, dizia outro eu; “É verdade! Além do mais, nunca poderemos saber se temos liberdade ou não: se a tivermos, poderemos ser levados por ela a uma opinião enganosa a seu próprio respeito, e se não a tivermos, se ela não existe, não poderemos saber o que ela é”, dizia ainda um terceiro eu; “Mas, então, só estou pensando besteira e tudo o que disser a respeito desse assunto não passará de um balbuciou infantil e incompreensível”, disse, por fim, o meu eu cético. Todavia, repito: não acredito na liberdade.

60 — Os nossos mui “honestos” advogados — Aqui entre nós: excetuando-se, talvez, a carreira política, existe uma outra profissão cujos seguidores estão tão propensos a mentir, dissimular, mergulhar num mar de imundícies e falcatruas do que os advogados? Recentemente, em um caso em que uma jovem planejou a morte dos pais, por ter se descoberto o seu crime, como ela estava esperando o julgamento em liberdade, preparou-se uma entrevista para ela: na entrevista, descobriu-se que os advogados estavam induzindo, ou melhor, mandando a moça dizer isso e aquilo, e se comportar assim e daquele outro jeito — e até chorar! —, para, com isso, amolecer o coração dos jurados e melhorar sua imagem perante o mundo — pois, pela frieza e pelo que fez, ela é uma sociopata. Descoberta essa desonestidade dos advogados da moça, como a notícia espalhou-se pelo país, a Ordem de Advogados do Brasil manifestou publicamente o seu repúdio a uma tal atitude, acusando os advogados do caso de serem antiéticos e algo mais... Santa falsidade! Santo cinismo! Todos da OAB são farinha estragada do mesmo saco! Uma vez mais o Brasil é palco para a comédia da dissimulação dos imbecis engravatados.

61 — Nós, os muito críticos — Pessoas que criticam outras pessoas, um parceiro, um pai, um irmão, uma amiga ou um amigo, elas o fazem, quando atiram com frequência, por algo pequeno, de importância irrisória — pequena inveja, alguma raiva, auto-estima um pouco baixa. Por outro lado, aquelas pessoas que promovem críticas mais contundentes, que criticam uma sociedade, uma nação, o mundo, a existência, elas o fazem como uma espécie de negação, ou ainda, não se sentem bem com a existência e com o mundo, com a natureza intrínseca das coisas; em suma, criticam por ódio, um ódio generalizado e abrangente que é dirigido contra si e contra o todo, ou “os todos”. Pessoas desse tipo não se sentem acolhidas pelo mundo, possuem um coração por vezes amargo e despedaçado e desalentado que, devido a toda desesperança e desprezo do qual foi vítima, perde a fé nas coisas, nas pessoas, em si, e tentam, como uma espécie de último recurso de sua natureza, culpar o mundo pelos seus fracassos e desilusões: sentem-se um pouco melhor assim, pois aliviam parte da dor e da angústia que também se manifestam em seus pesadelos, tirando-lhes a paz e o descanso.

62 — O propósito da escola — Acerca do objetivo do sistema formal de educação, tenho algumas palavrinhas. Inicialmente, gostaria de falar sobre aquele psicólogo, aquele que estudou as inteligências. Diz-nos ele que o principal objetivo da escola é o de desenvolver a inteligência e ajudar as pessoas a atingirem uma espécie de vida satisfatória baseado nas inteligências peculiares de cada uma. Disso resultaria pessoas mais felizes e, consequentemente, mais engajadas na construção de uma sociedade melhor. Analisemos tudo isso. O desenvolvimento da inteligência não implica felicidade ou compromisso social ou ainda honestidade e comportamento ético: na verdade, mesmo que implicasse, por exemplo, felicidade, isto é, se o sistema educacional conseguisse ter êxito e as pessoas de uma determinada sociedade passassem a viver satisfatoriamente no que diz respeito à alegria de viver em um meio social, e se isso estivesse de alguma forma ligado à inteligência — o que é absurdo —, essas pessoas não necessariamente seriam justas umas com as outras. Como já dizia um filósofo de outrora, quando as pessoas insinuam que alguém é “esperto”, “inteligente”, “sagaz”, na verdade estão insinuando as suas suspeitas em relação a ele, pois sabem, por intuição, que o coração é mais confiável do que o intelecto, já que este último é efêmero, superficial, enquanto aquele é — como posso dizer? ...semi-imutável. Evidentemente, para aqueles que acreditam que a felicidade está intrínseca e irremediavelmente ligada a atitudes corretas e éticas (no sentido vulgar das palavras), então parte desse quadro muda sensivelmente: este, porém, não é o nosso caso. Ao considerarmos que o sistema educacional deve ser útil à sociedade, não poderemos, de maneira alguma, colocarmos a inteligência como o seu maior objetivo: talvez como segundo grande objetivo, ou terceiro mesmo. Se adotarmos essa perspectiva da utilidade social, só nos resta um objetivo maior: a escola deve adestrar as pessoas para que se ajudem entre si: digo adestrar porque qualquer educação ética e rígida não pode ser respaldada por argumentos firmes, já que estes não existem: pergunte-se, por exemplo, a algum pregador da moral porque é errado matar uma outra pessoa e diga de antemão que sua resposta não pode conter sentenças ridículas do tipo: “ah, é porque deus não quer...”; depois, pegue a resposta dela e analise os argumentos: são todos frágeis, frágeis como o dedo mínimo de uma pequena criancinha... Mas se é assim, as nossas escolas não estão no caminho certo: elas estão incitando de maneira demasiada a competição entre as pessoas! A minha opinião acerca da cultura brasileira, já a expus em outra ocasião: o povo brasileiro é um povo corrupto e o chamado “jeitinho brasileiro” nada mais é do que um eufemismo que representa uma máscara horripilante e vergonhosa criada e alimentada pelo “povo sofredor, mas alegre”; sendo assim, como a escola é um reflexo da sociedade, já sabemos porque existem tantas coisas erradas nela.

63 — O vestibular e a escola — É um gravíssimo erro este das escolas de darem tanta importância ao vestibular: isso é reflexo, no entanto, de um grande problema estrutural e global e que é do conhecimento de todos. Os educadores devem rever suas posturas: não se trata de mudar radicalmente as coisas, mas uma coisinha aqui pode ser melhorada, outra ali pode ser revista. Estamos falando de um quadro grave e cuja única coisa engraçada são as já afamadas “aulas-show”: um idiota-palhaço faz seus trambiques e vende uma mercadoria sem valor, enquanto os compradores, ingênuos e cheios de obstáculos epistemológicos (para não dizer burros), compram tal mercadoria a preço de ouro e ainda acham que fizeram um bom negócio.

64 — Os espíritos, parte 1 — Existe uma porção de “ateus” — que é isso? — que, por desilusões e sofrimentos advindos de religiões, ou de coisas religiosas, ou mesmo da religiosidade das pessoas, voltam-se contra qualquer tipo de misticismo — eles agem sem saber: a própria natureza é mística. Com efeito, tais negadores precisam de uma arma para sua investida: olham ao redor e o que encontram? O que poderia ser plausível e confiável? A chamada ciência se lhes serve muito bem! No entanto, assim como muitos religiosos quase chegam até a loucura, assim também muitos desses “seguidores da ciência” também o fazem: a todo instante comete-se distorções no nome da ciência, quando esta, na verdade, nem figura relevantemente na história. Sem querer defender o cristianismo, mas veja-se isso: suspeita-se que muitos milagres de Cristo não foram realmente “milagres”: muitos daqueles sofriam de epilepsia ou coisa parecida, e, portanto, Jesus não expulsou espíritos ou curou. Entretanto, a ciência e a filosofia não podem realmente garantir que os ataques epilépticos não sejam possessões, ou seja, a “doença”, como se fala, seria apenas uma espécie de resultado ou efeito de um espírito que estaria naquele corpo, assombrando aquela pessoa; e ando percebendo que muitos grandes intelectos andam defendendo isso — a generalização é sempre perigosa: gostaria de deixar claro que a crença no sobrenatural, em espíritos que nos acercam, em geral, é um ato de covardia e de medo, ou mesmo de auto-preservação; nem sempre, porém, temos isso assim: não nego o poder das experiências místicas e dos sentimentos benéficos e puros que um ser humano pode sentir, além, claro, do poder da cultura. Basicamente, todos os ateus incorrem neste mesmo erro: ignoram o espírito e sustentam um materialismo quase infantil (um atomismo) que há muito já foi refutado. Dessa forma, a explicação de tudo, de uma doença, de uma ruptura psicológica abrupta, recaí sempre no corpo: é nele que tudo se origina, é dele que tudo deriva, ele é a causa, as suas alterações não podem ser efeitos. São provenientes desse erro inúmeras ideias e conclusões distorcidas, muito distorcidas, acerca da espiritualidade, religiosidade, ciência.

65 — Os espíritos, parte 2 — Talvez o demônio que perturbava Reagan não fosse realmente um personagem fictício: quem sabe se ao meu lado ou ao teu lado agora, caro leitor, não existe um espírito nos observando, com a mão no nosso ombro, rindo de nós, ou com o rosto todo deformado e assustador devido ao acidente que lhe arrancou a vida. Talvez as ideias que temos não sejam outra coisa que não um sopro, uma dica de um espírito. A natureza vai muito mais além de nosso pensamento e de uma pedra: existe uma transcendência... Veja que existem centenas ou milhares de sons que não conseguimos escutar, mas que um cão escuta; da mesma forma, existem tantos sons que um cão não escuta! E igualmente, quantas coisas os nossos olhos não nos permite ver! Dizem que os gatos têm um pé aqui e outro no outro mundo: certa vez, tive uma experiência interessante com um. Foi na minha infância. Estava brincando com a nossa gata quando, repentinamente, ela assustou-se violentamente e me rasgou com fúria: ela estava em meus braços e lutou para que eu a soltasse; tinha visto alguma coisa na nossa frente; o seu olhar era fixo em algo, e esse algo estava perto de nós. Depois que a gata sumiu de minha vista, revistei o lugar por inteiro: não percebi absolutamente nada de estranho. Uns quinze minutos depois, procurei-a e novamente levei-a naquele lugar. No caminho, ela vinha tranquila até que... Novamente me rasgou inteiro. Ela olhava fixamente para algo e tinha muito medo. Essa gata viveu muito tempo conosco e esse acontecimento foi único. Além disso, diga-se: ela era muito valente: excetuando-se esse dia, jamais a vi assustada.

66 — Os espíritos, parte 3 — A metempsicose é uma teoria interessante, mas suas bases são de areia. A “culpa inicial”, por mais que se invente argumentos, é muito difícil de ser sustentada. Demais, viver eternamente seria realmente uma “brincadeira de mau gosto”, pois nossa natureza é feita para seguir um caminho linear, e viver eternamente seria o mesmo que tornar o caminho cíclico: o nosso ser não suportaria, não teríamos como resistir. Por outro lado, pode-se sempre sustentar que, quando muito, só existem reminiscências obscuras e vagas, que o caminho continua sendo linear; ou ainda, como o fez Schopenhauer, pode-se alegar que sequer existem reminiscências: a substância é a vontade; o intelecto é adquirido; só a vontade permanece. Mas, enfim, de um ou de outro jeito, são sempre teorias vagas e muito imprecisas e duvidosas.

67 — Os espíritos, parte 4 — Quando o tecladista dos Mamonas Assassinas teve uma premonição e falou naquela gravação, um pouco antes de morrer no desastre aéreo, que no dia anterior tinha sonhado com um avião caindo, não teria um espírito invadido o seu sonho e lhe revelado o futuro? Penso que não: de acordo com minhas teses, o determinismo não é falso, e, portanto, de alguma forma, não é inteiramente impossível que algum ente ou ser saiba do futuro, mesmo admitindo a inexistência de espíritos ou de forças sobrenaturais. Como isso se dá, ou como é possível, eis aí um grande mistério.

68 — Bios theoretikós — A razão de ser de uma existência, o seu caminho, não pode ser apenas a contemplação ou a vida ascética. Qualquer grande isolamento e solidão são monstruosas armas que causam muito sofrimento e angústia, embora sejam o terreno onde cresce o grande intelecto, a força criadora. As fontes de alegria, se se observar bem, existem multiplamente, e devemos sempre ter mais de uma em nossas vidas para que não estejamos presos a ela apenas por uma frágil linha, que logo que se rompe leva consigo o sopro vital, a razão de viver. O equilíbrio de uma vida está justamente nisto: na variedade, e qualquer vida que tenda à monotonia existencial está fadada a ser sempre invadida pela melancolia de tempos em tempos. A vida contemplativa, evidentemente, não é uma escolha nossa, pelo menos não enquanto a encaramos como uma qualidade ou propriedade do espírito; já a vida contemplativa que traz consigo, em todas as revelações exteriores, a reclusão, o afastamento do mundo, essa vida não é fruto de uma característica do nosso ser, mas origina-se do medo, das decepções e frustrações que aterrorizam muitas pessoas de sensibilidade demasiada, e que muitas vezes, devido a imposições exteriores, não conseguem adequar-se bem ao meio em que vivem. Além do mais, o conhecimento por si só não traz felicidade e estou mais que convencido de que o ser humano não precisa da “verdade” para viver bem.

69 — Não gosto das regras, parte 1 — As regras, em quase todas as situações de nossa vida, indubitavelmente são sempre limitantes e castradoras. Alguns podem até ser favorecidos por elas, mas o grande criador, o grande gênio, ele, por possuir enormes asas, não pode ser aprisionado em um curto e mísero espaço: por não seguir as regras é que ele cria o anormal e o inimaginável.

70 — Gosto das regras, parte 2 — A raiz da repulsa de alguns em seguir as regras sociais ou quaisquer outras, seja no trabalho ou na universidade, encontra-se em uma espécie de mimo demente e infantil: a própria ciência moderna foi erguida em cima de métodos e regras eficazes, que representam o veículo a ser usado para se percorrer o caminho.

71 — Gosto e não gosto — Em quase todas as situações é sempre uma questão de gosto mesmo: nós é que ficamos tentando dar mais plausibilidade às nossas tendências, como uma espécie de satisfação que se tem que dar.

72 — Os nossos julgamentos — A grande medida que usamos para medir os outros é sempre o nosso próprio ser, o nosso modo de ser, de pensar e de agir. Ao olharmos para uma pessoa e percebermos que o comportamento externo dela se assemelha com o nosso em alguma ocasião específica, logo pensamos que os motivos dela assemelham-se aos nossos. Em geral, entretanto, isso é um erro, uma falha de julgamento: devemos sempre ter muito cuidado ao analisarmos os outros.

73 — Freud — Completou-se, recentemente, cento e cinquenta anos do nascimento de Freud. O seu legado é inegável. Sua teoria da personalidade, por exemplo, ao meu ver, é uma das mais bem postas e formuladas dentre todas. É bem verdade que sua teoria do inconsciente não era nova — todas as ideias que são pensadas hoje, que foram pensadas ontem e que serão pensadas amanhã já existiam em algum lugar, talvez no máximo de uma forma diferente —, mas a forma como ele tratou do inconsciente foi direcionada: ele não procurou simplesmente explicar ou descrever a psique humana para posteriormente “ensinar” em termos amplos como devemos nos comportar e vivermos, mas fez algo bem mais específico: com efeito, este foi o seu grande mérito: o desenvolvimento de um método que propiciasse um alívio da dor espiritual sentida por muitos. Quanto ao seu caráter, sua honra, eles parecem-me, no mínimo, suspeitos, principalmente devido aos boatos envolvendo a Teoria da Sedução e o Complexo de Édipo, os quais se realmente forem verdadeiros, mostram-nos a submissão e a covardia de um homem cuja sensibilidade era anormal, mas que não teve coragem de ser honesto com ela, não foi às últimas consequências — é sempre importante ressaltar que Freud dava demasiada importância ao sexo, o que nos diz pelo menos duas coisas: primeiro, que Freud tinha problemas com o mesmo, e segundo, que o Complexo de Édipo pode ter sido uma teoria não coagida, mas natural e honesta de Freud, pois quando damos importância exagerada para algo, muitas vezes começamos a ter ilusões e a vê-lo em diversos lugares.

74 — À luz do dia — Os intempestivos e impertinentes estão sempre a mostrar-se; eles gostam da exibição, de serem o alvo das atenções e de figurarem como influenciadores ou os mais altos, aqueles a quem, de alguma forma, deve-se submissão e respeito. O que muitas vezes se origina de uma carência afetiva “quase” inata e de uma falta de sensibilidade, por muitos, não raramente, passa a ser visto como uma virtude, uma “vantagem” que se tem: são tão pobres os que assim pensam!

75 — À sombra da noite — Temos também aqueles que esperam, sempre esperam o afastar-se do crepúsculo vespertino para saírem de suas tocas, para abandonarem a inatividade e postarem-se como pessoas ativas. Consideram-se observadoras, especiais e sensíveis, e atribuem a isso o modo como vivem e se comportam. Pouco percebem eles, mesmo com toda a “sensibilidade”, que o medo é seu combustível, ou melhor, sua prisão, e estão bem enganados ao contemplarem suas qualidades: são tão pobres os que pensam assim!

76 — O grande olho — Eis, entretanto, que todos eles não passam de micróbios aos olhos do “grande olho”, ou ainda melhor, eles sequer existem: são tidos como movimentos, mas, como pensava Zenão, trata-se de movimentos ilusórios, inexistentes e irreais: uma falha mesmo dos sentidos. Todavia, ele “sabe” disso, ele “tem” o conhecimento de que todos fazem parte dele e são uma coisa só, apenas manifestando-se individualmente como representações acessíveis tão-só aos pequenos seres, a um grupo limitado de pequenos seres.

77 — Espírito guerreiro, parte 1 — Fitando o nosso presente e o nosso passado, ficamos com a sensação, com a alegre sensação de que os seres humanos estão mais pacíficos e, por assim dizer, “amigos” uns dos outros. Que isso não passa de uma mera sensação, todos vêem facilmente. Em princípio porque as nossas guerras, atualmente, estão concentradas nos interiores dos países, malgrado a existência de um conflito externo aqui e outro ali: isto faz com que elas ganhem menos notoriedade internacional ou pública. Contudo, existem outros fatores que merecem destaque e que têm papel importante na origem da sensação que temos de uma paz maior: os esportes e os filmes figuram entre eles e são, muito possivelmente, os dois principais. Dos primeiros, temos a competição real propriamente dita: os instintos guerreiros dos esportistas são razoavelmente satisfeitos, enquanto que os dos torcedores também se alimentam das rivalidades criadas, das brigas existentes entre torcidas, etc. Já do cinema, originam-se diversas situações da vida onde o espectador pode sempre se colocar dentro da tela e vivenciar, de alguma forma, aquelas situações, satisfazendo momentaneamente muitos dos seus instintos guerreiros: muitos filmes de guerra, de batalhas e de lutas propiciam isso. Portanto, enquanto antigamente tínhamos os gladiadores e os conflitos épicos e os imperadores dominadores, hoje temos os sangrentos e violentos filmes e as competições esportivas, além das guerras sociais — ou seja, quase a mesma situação de antigamente, pois a natureza humana muda muito paulatinamente e a guerra faz parte da vida, propiciando, além de outras coisas, a “evolução” e a filtragem dos seres.

78 — Espírito guerreiro, parte 2 — Reivindicar filmes pacíficos e uma convivência harmoniosa entre torcedores é perca de tempo: muitos mesmo desses que reivindicam fazem isso comportando-se como se estivessem numa guerra. E mesmo os religiosos com suas extremadas críticas não estão fazendo nada senão guerreando.

79 — O sentimento e a realidade — Em muitos momentos existe um abismo entre o que se sente e a realidade. Não é insondável, porém, esse abismo: somos grandes filtros.

80 — O mundo físico e o espiritual — Estou imbuído da existência de uma ligação entre o mundo material e o imaterial, mas tal ligação não é intrínseca — no sentido de que lhe é própria — à matéria ou à imatéria (se me permitem falar assim), ou a ambos concomitantemente. A existência da ligação, inegavelmente, é mesmo percebida por todos, ou por quase todos; no entanto, o modo como se apresenta esta ligação é discutido e defendido por muitos por diferentes perspectivas e com diferentes argumentações: temos muitas respostas acerca do modo como, por exemplo, o corpo e o espírito se relacionam, e esta, conquanto tenhamos nossas “convicções”, é uma questão ainda em aberto para os pensadores e cientistas — na verdade, suspeito que, assim como a questão da infinidade do universo, continuará sendo uma pergunta sem uma resposta precisa por toda a eternidade. A maioria, porém, parece defender que o espírito (o imaterial) é que é o subjugante. Alguns outros, e estes vêm crescendo muito, como se fossem uma pandemia originária de certas condições climáticas que, enquanto para alguns propiciou a oportunidade de manifestarem sua falta de singularidade e sua não pouco mesquinhez, para outros propiciou uma espécie de cerração em que suas opiniões foram maltratadas e dominadas por outras, as opiniões piratas, as que saqueiam à força; enfim, outros defendem a primazia da matéria sobre a imatéria. Aproximando mais a questão, os primeiros defendem que a alma altera o corpo, ou ainda, que o mundo espiritual altera o mundo físico; já os segundos sustentam que o corpo altera o espírito. Correndo o olhar por aí, encontrei, e não foi em livros e nem também em reflexões, uma outra resposta que me pareceu interessante: em determinadas situações, o mundo físico altera o espiritual, mas em outras situações o que ocorre é o inverso. Esta última apresentou-se a mim como mais coerente do que as anteriores: ainda hoje assim me parece. A coerência, no entanto, não está na positividade da ideia, porém nos percalços evitados quando percorremos o caminho por ela sugerido: não se trata, portanto, de um caminho que seja realmente bom, mas de um caminho que não seja tão ruim. Olhando um pouco mais, já percebemos com nitidez o porquê de uma tal ideia não estar inclusa seriamente nas batalhas cuja causa é a tentativa da solução do problema histórico acerca do corpo e do espírito: é que ela se apresenta como uma espécie de “em cima do muro”, ou seja, nem é uma ideia materialista e tampouco uma ideia espiritual — e não só a mim quanto a todos, as batalhas que sempre se nos apresentaram, batalhas incansáveis e sem vencedores, foram sempre entre materialistas e espiritualistas, mesmo que, por vezes, estes estivessem sob alguma roupa ou máscara que lhes permitisse o andar furtivo, a fala enigmática e as interpretações inequivocamente equivocadas a seu respeito. Retornando um pouco mais, como ia dizendo no início, existe uma ligação entre a imatéria e a matéria, mas tal ligação não pertence à natureza intrínseca de ambos, sejam considerados separadamente ou juntos. Essa ligação pertence à natureza do todo, o qual engloba, evidentemente, a matéria e a imatéria, e ainda algo mais: é justamente aqui que está presente a diferença e a chave da questão — se é que esta existe —: não é da natureza do espírito alterar o corpo e não é da natureza do corpo alterar o espírito, entretanto é da natureza alterar a ambos ao mesmo tempo. Isso posto desta forma, fica-nos claro o horizonte que nos diz que a ligação, de alguma forma, deve estar também fora da matéria e da imatéria, e isso significa que ela não é intrínseca ao corpo ou ao espírito, embora também, de alguma forma, pertença a ambos separadamente. O mundo físico e o espiritual, portanto, estão juntos e separados ao mesmo tempo: separados quando os consideramos individualmente, e juntos quando consideramos o todo — no primeiro caso eles não se tocam; no segundo, eles são um mundo só. No entanto, deve-se sempre considerar a harmonia, a unidade e a dependência mútua entre os seres da natureza, mesmo aqueles de difícil compreensão. Logo, o mundo espiritual e o mundo físico são um só.