Quinta Parte

 

1 — Reflexoncienciologia, parte 1 — Sempre refloresce em mim a ideia de que nossa consciência nada mais é do que um velado conjunto de reflexos, que, em virtude do assustador nevoeiro que se manifesta em seu redor e que encobre nossas vistas, aparenta-se mais com uma entidade real e independente do que com insignificantes reflexos de processos mais internos. A repartição do homem em pedaços menores e insubordinados pode nos levar a pensar numa independência intelectual que se desagrega das necessidades do organismo, do indivíduo. Mas, nas atuais condições, não podemos dividir o ser humano e nem animal algum: o pensamento moderno, com grandes atrasos, está chegando à conclusão inevitável de que existe uma conexão entre as partes constituintes de um organismo — indo mais além, arrisco-me a dizer que existe uma relação entre todas as partes de um organismo, sem exceção. Muitas coisas que nos parecem desordenadas ou “em evolução” já estão perfeitamente ordenadas e com suas funções determinadas: é mesmo possível que exista um erro grave de julgamento nas análises feitas por biólogos e outros que tentam percorrer o difícil caminho de entender parte da natureza. E o que dizer das análises feitas a respeito do animal homem? Se o homem é realmente um ser mais complexo, como comumente se diz, então podemos sempre colocar algumas interrogações na frente das conclusões a que se chegou a seu respeito. Porém, de que conclusões falo? Já se chegou a tais conclusões?

2 — Reflexoncienciologia, parte 2 — Uma boa alimentação dá a possibilidade de um funcionamento satisfatório do nosso organismo, pois dela o nosso corpo tira vitaminas, sais, nutrientes e todas as outras substâncias de que necessitamos para estarmos saudáveis fisicamente. A alimentação serve para o corpo inteiro, e não apenas para esse ou aquele órgão, para essa ou aquela parte. Mas não é só isso: a alimentação serve para o ser ou organismo inteiro, e não apenas para o nosso corpo físico. Quando estamos gripados, não é sem muita nitidez que percebemos as mudanças físicas que aquela doença produz em nós. Contudo, por mais nítida que seja nossa percepção, ela é sempre muito limitada: no caso da gripe, por exemplo, só percebemos mudanças em algumas partes do nosso corpo; no entanto, todo o corpo muda, desde o sangue até os fios de cabelo, e, consequentemente, também o organismo inteiro sofre alterações e mudanças por causa daquela doença — tudo isso ocorre e nosso intelecto percebe apenas algumas mudanças em algumas partes do corpo, quando, na verdade, o próprio intelecto foi alterado: isso ocorre principalmente por causa da simultaneidade. Inversamente, alteração em parte do nosso espírito é alteração em todo o nosso espírito e, por conseguinte, em todo o nosso corpo: a mudança ocorre no organismo como um todo, pois todas as partes do ser, físicas e não-físicas, mantêm relações ativas e ininterruptas entre si.

3 — Reflexoncienciologia, parte 3 — O que pretende-se dizer ao se falar da consciência como reflexo de funções mais internas? Primeiramente, pretende-se afirmar que a consciência é um efeito ou essencialmente possui uma natureza derivada, mas que também, minimamente, funciona como causa geradora. A consciência ou intelecto de cada indivíduo se ajusta às suas necessidades mais primitivas e imperceptíveis: nenhuma ideia surge de algo ou para algo que em nada auxilia o organismo em sua caminhada, e mesmo isso é válido para aqueles pensamentos mais desconexos com uma determinada contextualização ou para aqueles que “aparentemente” são oriundos apenas da “razão” humana. O pensamento é, pois, uma característica orgânica inseparável e que vive sempre em harmonia com as necessidades de um determinado ser, sendo por isso mesmo um efeito, porém não enquanto é precedido temporalmente e sim enquanto é sempre ajustado de acordo com as características de um dado indivíduo, manifestando-se como um instrumento regulável. Uma consciência que parece-nos auto-destrutiva ou dirigida contra o próprio ser, em verdade, nada disso é realmente: uma natureza não quer destruir-se a si mesma e, em última instância, podemos pensar que o ser individual está sendo prejudicado para que o ser possa lucrar.

4 — Reflexonciologia, parte 4 — Em segundo lugar, quer-se dizer que, como existe uma ligação direta entre inconsciente e consciente, o inconsciente, enquanto função intelectiva, é também reflexo e justamente por isso apenas parcialmente pode ser caracterizado como uma função interna, sendo gerado ou se originando de outras funções mais internas. Estas funções mais internas a que me refiro são as próprias leis da natureza, as leis primitivas que não se relacionam, em certo sentido, diretamente com o intelecto humano, mas ambos estão ligados por um conjunto extenso de entes e cuja extensão e complexidade aumentam com o nível orgânico do indivíduo: nos animais mais “primitivos”, por exemplo, a ligação entre consciência e leis da natureza é mais direta; o mesmo valendo para os homens mais superficiais.

5 — Reflexonciologia, parte 5 — Em geral, acreditamos que uma mudança de atitude ou de opinião é antecedida por reflexões, ou melhor, imaginamos que a mudança vem da consciência ou que a consciência é uma causa ativa e potente: e ela até o é, realmente, mas não no sentido em que comumente se acredita. Pode-se compreender isso facilmente com uma simples ilustração: em certos momentos, quando estamos indecisos acerca da escolha de algo porque a divisão do nosso querer se faz presente, e damos um certo tempo ou esperamos algumas horas ou, enfim, deixamos passar alguns dias, então a escolha se faz naturalmente, sem a participação do intelecto: o organismo como um todo — inclusive o intelecto — mudou e a decisão foi tomada — é nesse sentido que o intelecto também é causa. Acredita-se, entretanto, que, excetuando-se estas ocasiões em que o querer fica repartido, o intelecto age com um grau de independência elevado, o que não é de se espantar: quando uma decisão é subitamente tomada sequer temos tempo de pensar em suas causas, ficando em nós sempre um resíduo muito forte de uma impressão falsa; demais, quando estamos com dificuldades numa decisão, percebemos claramente a força de algumas paixões e necessidades, mas esquecemos da fraqueza ou superficialidade do intelecto naquela e em todas as situações, ou apenas a admitimos para aquela situação em particular e esquecemos de generalizar. Dessa forma, assim como no exemplo supracitado, todas as nossas decisões e escolhas são tomadas pelo organismo; todas as nossas ideias são oriundas dele e os nossos instintos, paixões, necessidades e outros nunca estão separados de nossa razão: esta, portanto, não existe sem aqueles, justamente porque é aqueles.

6 — Reflexonciologia, parte 6 — Embora seja um consenso entre quase todos os homens o fato de que a existência da consciência se faz presente apenas neles, mesmo assim o seu comportamento não destoa em muito daquele apresentado pelos animais, os sem-intelecto: isso nos mostra o quão é superficial a consciência e o quão ela se adapta às funções primitivas e orgânicas.

7 — Engrenagens interligadas — Em uma máquina muito complexa, uma peça que aparentemente tem pouca utilidade pode ser o coração da máquina: sempre fazemos as coisas nos iludir.

8 — Um grande aumento, as mesmas naturezas — O homem superficial passa uma década para escrever um livro, e quando o faz, aborda apenas um tema. Nós, por outro lado, escrevemos um livro a cada folha.

9 — Os de caráter, os moralistas — Os moralistas imaginam que agem corretamente porque isto é o certo e o sensato; mas, em verdade, eles acreditam serem sábias suas ações porque as praticam: primeiro se age, depois se justifica.

10 — O grande intelecto — O grande intelecto não deve ser submisso à ciência ou à opinião comum: ele está bem acima dessas coisas da massa.

11 — Novamente os altruístas — Muitos são bons de “favores” por causa de seu autoconceito baixo — o favor é um modo de se igualar ou ultrapassar os outros. E é possivelmente por isso também que nós sempre vemos tais pessoas com agrado: elas se acham inferiores a nós... E com toda razão!

12 — A necessidade de crença — Aqueles que dizem que o homem, este animal tão inventivo e insensato, precisa acreditar em algo, não estão dizendo besteira: mesmo os céticos, muitas vezes, agarram-se fanaticamente em suas “descrenças”.

13 — A muleta freudiana — Se a crença ou a religião fosse uma espécie de muleta, então todos os homens, na verdade, seriam aleijados.

14 — Baixa cultura — Obrigação legislativa para se votar implica um povo com uma cultura pobre, muito pobre.

15 — Consciência em demasia — O crítico que critica o crítico e tem consciência, não está se mostrando autenticamente, como realmente é.

16 — Libertação — “Dedico-me ao pensamento e à reflexão porque assim me liberto das coisas mundanas”, eis aí um pensamento superficial.

17 — Pior que o egoísta? — Muitas vezes se critica o egoísta porque ele não quer ajudar; quem critica está sendo tão ou mais egoísta.

18 — Che Guevara e Hitler — A força motora que movia esses dois “grandes” líderes era basicamente a mesma.

19 — O bem do filho — Muitas mulheres ou homens da sociedade afirmam que querem ver o filho bem de vida, formado numa profissão respeitada, para o bem dele, do filho. Entretanto, quase sempre o verdadeiro motivo é este: querem dar satisfação para a sociedade.

20 — O motivo não percebido — Por sofrerem em demasia com algum preconceito, algumas pessoas são intoleravelmente duras com os preconceituosos ou com expressões do preconceito — piadas, escritos, etc. Agindo assim, muitas ainda pensam que o fazem porque pretendem viver em um mundo melhor, mais “igual”.

21 — Olhando com teus olhos — Numa conversa com um fundamentalista, é sinal de sensatez agirmos tolerantemente e de acordo com a perspectiva do próprio fundamentalista. E é sinal de maior sensatez e profundidade ainda termos consciência de que aquele fundamentalismo pode estar correto.

22 — Puxando para a luz — Jamais devemos tentar ajudar uma pessoa ou lamentar o seu modo de ser sem antes termos nítida convicção de que ela realmente não está num bom caminho: aquilo que ela faz ou como ela é pode ser o melhor para ela.

23 — Um caminho ruim? — Só podemos saber se um caminho é ruim se tivermos outro para comparar.

24 — Afastando o isolamento — Rebaixe-se ou eleve-se para olhar frontalmente nos olhos daquele com quem conversas.

25 — Sem mérito — É muito fácil ajudarmos aqueles a quem amamos.

26 — O modelo ideal — Não existem modelos ideais, seja na Medicina, na Biologia, na religião ou em quaisquer outras áreas.

27 — O físico moderno — Muitos chamam de frágeis as ideias de Aristóteles sobre, por exemplo, a queda dos corpos. Infelizmente, muitos dos que dizem assim estão apenas repetindo algo que já está pronto: suas ideias são tão frágeis que nem força para morrer têm.

28 — Os animais amorais — Os animais, assim como os homens, não são amorais; mesmo uma pedra não é amoral, mas tem também, e também pelas causas universais, os seus “costumes”.

29 — O nosso inverso: os escritos românticos — As pessoas deleitam-se enormemente com tais escritos, com o seu instinto dizendo: “Parece que a vida é boa mesmo! Parece que alguém é feliz! Existe magia na vida! Eu quero acreditar nisso”.

30 — É sempre a realidade — Quando a “realidade” é monótona e destituída de valor, e a música se torna preto e branca, buscamos algum apoio no mítico, no imaginário: mas isso não é fugir da realidade — a realidade é abrangente: até os sonhos são “reais”.

31 — A história sem fim — Pintando o quadro sombrio da nossa vida, lembrei-me do cão, do grande cão voador, da montanha que falava e do livro encantado. Esta foi uma boa lembrança que veio da infância para arrancar-me um sorriso e uma nova esperança. A história sem fim, mesmo no momento de minha partida, não terá realmente um fim para mim.

32 — Conversa uníssona — “Hoje eu partirei!”; “Será que existe alguém que possa dissuadir-te?”; “Só eu mesmo poderia: talvez se me encontrasse comigo mesmo, eu me escutasse e não fosse mais embora. Eu precisaria me encontrar comigo mesmo para as coisas da vida voltarem com suas cores e sentido”.

33 — Os ideais — Não são as pessoas que vivem em função dos seus ideais, mas os ideais que vivem em função delas.

34 — Criticismo e algo mais — Criticar o crítico é ser um crítico.

35 — A nossa crueldade — A nossa crueldade tem sua principal fonte no nosso ódio pelo mundo. A nossa dureza é uma reação ao desprezo.

36 — Conselho ao suicida — Há sofrimento demais para abandonarmos tudo.

37 — Ganhando significado — “Talvez a própria loucura seja uma espécie de máscara que esconde um saber fatal e demasiado certo”; esta frase tem ganhado sentido em mim: se algum dia eu enlouquecer é porque talvez tenha visto demais.

38 — A solidão nossa de cada dia — A solidão é mais dolorosa quando tomamos consciência dela.

39 — A geração do sexo — Assim como muitos se decepcionaram com o poder da mente e do espírito na busca pela felicidade, igualmente a nossa geração quebrará a cara e se decepcionará por ter depositado tanta esperança no sexo como instrumento de busca da felicidade.

40 — Dependência medíocre — Em tempos passados a ciência era desprezada em detrimento de crenças religiosas e afins; hoje, temos a inversão das coisas. Em ambos os quadros, reina a dependência medíocre das pessoas: antigamente, queimavam gente; atualmente, entopem-se de remédios.

41 — A mulher e suas qualidades — A mulher é mesmo um ser mais humano do que o homem, o que é confirmado inteiramente por sua invisibilidade ao longo da história: os homens só se destacaram tanto porque foram pouco humanos.

42 — As pesquisas novamente — Em São Paulo, no hospital Albert Einstein, fizeram uma pesquisa com idosos: verificaram que entre aqueles que tinham mais fé a depressão era menos presente. Daí concluíram logo e desavergonhadamente que a fé combate a depressão... Como são ridículas essas pesquisas!

43 — Os irracionalistas — É um erro enorme analisarmos o pensamento de um irracionalista com o racional. Muitos irracionalistas sabiam que muitos aspectos de sua filosofia eram, de acordo com a razão, incoerentes, mas essa incoerência é até indispensável e está em perfeita harmonia com a proposta filosófica do irracionalista. Ora, dizer que a razão não é confiável, sendo limitada e o fruto de inúmeros erros, e depois desenvolver um pensamento que esteja de acordo com a própria razão, eis o que é contraditório.

44 — Agnosticismo — A grande vantagem de se ser agnóstico é que podemos rir na cara dos ateus e dos crentes. Além disso, nós não precisamos provar nada: os nossos pressupostos são “auto-evidentes”.

45 — A filosofia está nos trilhos — Já há muito tempo a filosofia embarcou no pragmatismo científico e em suas limitações. O chamado fim da Metafísica, a consideração de certos conhecimentos como não-filosóficos — os teológicos, por exemplo —, a crítica kantiana da razão, o abandono da intuição, enfim, o desprezo pelo pensamento livre transformou a originalidade filosófica em um solo árido e fumacento, onde aquele que ainda é um verdadeiro pensador tem enormes dificuldades de respirar. Que se queira continuar nos trilhos imaginando que assim se está conseguindo um “progresso” para a filosofia, tudo bem, porém deixem-nos em paz, nós, os livre pensadores, nós, que desprezamos certos filósofos da nossa época, os filósofos contemporâneos — a contemporaneidade reduziu muitas coisas ao nada; entretanto, muitos se deixaram reduzir.

46 — Música instrumental — Uma das grandes virtudes da música instrumental é que ela não direciona explicitamente o nosso pensamento ou sentimento (como o faz a música cantada), podendo encantar num maior número de situações. Na música cantada, a interpretação que fazemos da letra, ou melhor, o próprio sentido da letra pode atrapalhar o encantamento, pois, por exemplo, muitas vezes estamos nos sentindo sozinhos ou alegres e, embora numa determinada música a melodia se encaixe com o nosso estado de espírito, a letra destoa dessa melodia tornando a música confusa e fazendo com que ela não nos toque mais profundamente. Existe também o caso em que nem a letra nem a melodia se harmonizam com o nosso estado. Já na música instrumental, o nosso sentimento pode interpretá-la com mais frouxidão desde que a música e o sentimento se olhem com carinho.

47 — Idolatria política — O povo do Brasil sempre manifesta, em épocas de eleições, uma grande idolatria por políticos: cultura de escravo!

48 — Preconceito disfarçado — Agir como se uma criança deficiente fosse igual às outras e tivesse as mesmas capacidades — eis o que é preconceito.

49 — Capacidade de aprender — Será que todos os seres humanos têm a mesma capacidade de aprender? Mas não existe nada de igual na natureza...

50 — Eutanásia — O direito à morte é tão importante, ou mais ainda, do que o direito à liberdade: cada um que decida se quer viver ou não; e no caso de alguém não poder decidir, que aqueles que sofrem por esse alguém decidam.

51 — Julgamentos, interpretações, injustiças — Imaginem a seguinte situação: uma mulher, numa bela tarde de domingo, comete suicídio; depois, descobre-se que numa conversa que ela teve naquele mesmo dia, uma pessoa lhe diz que o suicídio é coisa aceitável e que dependendo da situação não é uma má ideia, já que só cada um sabe o que sofre. Por fim, essa pessoa que supostamente incitou um suicídio é levada a julgamento: a promotoria apenas relata como tudo ocorreu e todos os jurados condenam o acusado. Neste caso, houve um encadeamento de fatos que levaram todos a uma mesma conclusão. O problema de tudo é que um encadeamento de fatos quase sempre não é conclusivo, embora todos, até a nossa ciência, tire conclusões deles e aceite-os como prova. No nosso caso, por exemplo, se a mulher que se suicidou não gostasse daquele que lhe “sugeriu” o suicídio, o efeito daquele incitamento à morte poderia ser justamente o contrário daquele alegado pela acusação.

52 — O homem alto e baixo, parte 1 — A humildade de algumas pessoas é a sua própria arrogância ou o seu modo de ser arrogante: não ser humilde, para elas, é frustrante e decepcionante; elas sempre precisam ouvir: “Tão rico de conhecimentos e tão humilde!”; isso é o que lhes guia, o seu motor, sua forma de “humilhar” e de se pôr por cima. A humildade é um fruto da árvore da ambição — o homem verdadeiramente sério não é humilde, justamente porque a sinceridade lhe acompanha.

53 — O homem alto e baixo, parte 2 — Mesmo o homem que é humilde de verdade, se conseguir deixar a grande ambição de lado, perderá a humildade.

54 — Os otimistas e os pessimistas — Sempre que amamos, do que se ama, formamos uma opinião muito avantajada, inventando qualidades e enaltecendo em demasia as existentes até ao ponto de nos convencermos da autenticidade de nossa opinião; quando, porém, odiamos algo, então ocorre o oposto. Temos então, com algumas poucas ressalvas, os otimistas e os pessimistas, que, guiados por paixões e instintos, saem discorrendo sobre tudo e todos, falando algo sensato aqui e ali, mas no mais das vezes proferindo disparates absurdos e incríveis. Entretanto, quem de nós não é um ou outro?

55 — Prioridade — Existe uma linha de pensamento que afirma serem as mutações — ou mesmo os novos seres deficientes — um artifício utilizado pela natureza para promover ou possibilitar às espécies uma melhor adequação e desenvolvimento no seu ambiente de vida. Assim, pois, por exemplo, na Inglaterra, há cerca de dois séculos, eram comuns as mariposas acinzentadas cuja coloração branca salpicada de cinza oferecia-lhes um poderoso sistema de camuflagem; quando, nesta mesma região, apareciam mariposas de cor escura, estas últimas eram logo atacadas por predadores, pois ficavam sempre à vista, ao passo que as outras, devido à sua cor e ao ambiente, conseguiam se camuflar. Entretanto, com a instalação de indústrias pesadas naquela região, depois de aproximadamente um século, a fumaça e a fuligem enegreceram o solo, as rochas e os troncos; a partir daí, as mariposas cinzas começaram a ficar visíveis aos predadores e passaram a ser atacadas, ao passo que a mutante, ou seja, a mariposa escura, passou a nascer já camuflada e assim houve uma gradativa diminuição da cinza e um crescente aumento das escuras. A natureza então, logo no início quando já lançava um mutante à vida, se acaso não o fizesse, teria perdido uma espécie; portanto, devem dizer, ela lança mutações para casos como este. Contudo, alarguemos um pouco esse raciocínio: na nossa espécie não é incomum vermos, aqui ou ali, uma pessoa que traz algum tipo de deficiência, mas que, não obstante, destaca-se por possuir algum “dom” — alguns autistas, por exemplo, que possuem uma grande inteligência musical —; pois bem, essa pessoa seria assim lançada pela natureza com algum fim, um objetivo mesmo: no caso de algum autista que trouxesse consigo um Mozart interno, poderia ele compor belas músicas para atenuar a solidão de muitas pessoas, isto é, preencheria um pouco o vazio sentido por muita gente e possibilitaria, dessa maneira, que o sofrimento de muitos fosse diminuído e que sua vontade de vida fosse aumentada; em outros termos, contribuiria para a manutenção da espécie. Um outro exemplo que poderia ser citado é o do “gênio louco”, ou seja, aquelas pessoas que possuem uma exímia inteligência e que devido a suplícios ou a um temperamento melancólico — ambos impostos pela natureza, é claro — passam à prática de uma ininterrupta introspecção, contribuindo dessa forma para, por exemplo, o desenvolvimento da Psicologia, que por sua vez ajuda muitas pessoas em todo o mundo; mais uma vez em outros termos, a natureza concebe uma notável inteligência para tais pessoas e também uma constituição que lhes propicia um sofrimento intenso para que com isso possam contribuir com a espécie. De tudo isso, o que podemos deduzir? Que a natureza prioriza a espécie em detrimento do próprio indivíduo. Entretanto, como eu não tomo partido tampouco nego o raciocínio precedentemente desenvolvido, para ratificar a minha ideia, a saber, a de que a natureza prioriza a espécie, vamos a uma observação de algo um pouco mais simples: a tração física entre homem e mulher (um pouco mais simples?). O objetivo visado pela natureza quando deu-nos (aliás, quando obrigou-nos a receber) a tração sexual, foi justamente a procriação ou perpetuação da espécie (pois ela sabia que, sem um algo coercitivo, nós não promoveríamos a procriação); a atração física, então, como ela tem importância vital na manutenção da espécie, apresenta-se-nos com uma força tremenda, e quantos tormentos afligem as pessoas por não conseguirem satisfazer-se sexualmente, quantos conflitos internos são oriundos da sexualidade dos indivíduos, e quanta satisfação e equilíbrio têm, em geral, aqueles melhor ajustados sexualmente — e tudo isso, como já disse, porque a natureza focaliza a espécie: o indivíduo, para ela, desde que dê sua contribuição para a “evolução” humana, fica sempre em segundo plano.

56 — A impunidade no Brasil — Enganam-se aqueles que consideram o Brasil um país onde não existe punição, até por que, quando falamos em Brasil, estamos falando em sociedade brasileira, e onde existe uma sociedade existe punição: o que muda de uma para outra é apenas a forma com que seus integrantes são punidos.

57 — Os traficantes e seus protetores — Ora, se eu vivo numa favela, tenho um filho e este adoece, procuro um serviço público e sou mal atendido, ou melhor, não sou atendido; daí, vem um traficante da minha favela e me ajuda, fazendo o que o estado deveria fazer; quando a polícia for subir o morro para pegar o tal traficante, será que não vou procurar defendê-lo? Mas é claro que vou ajudá-lo, e com muita satisfação.

58 — O que vemos — Sempre que não queremos ou não podemos ver aquilo que está ao nosso redor, costumamos olhar para bem longe, para os recantos mais distantes e inalcançáveis do horizonte.

59 — O nosso motor — Na infância, a nossa força vital é quase sempre a maior possível, a maior que poderíamos ter em nossas vidas — é como o arranque inicial, o impulso, que precisa ser forte o bastante para chegarmos até o fim.

60 — O depósito de lixo, parte 1 — A mídia costuma produzir lixo cultural em larga escala, e são as pessoas que consomem isso: elas se deixam ser, por assim dizer, um depósito de lixo.

61 — O próprio lixo, parte 2 — No entanto, existe uma interação entre as pessoas e a mídia: esta última, como o seu interesse maior é sempre a audiência, produz e “impõe” às pessoas apenas aquilo que elas querem ver; ou seja, na verdade, o lixo são as próprias pessoas.

62 — Em que conta tens a ti mesmo? — Algumas pessoas se impõem sofrimentos para se vingarem de outras pessoas: quanto mais intensos e sérios forem tais sofrimentos mais essas pessoas valorizam os outros do que a si mesmas.

63 — O cemitério onde a mãe teve o filho — Num cemitério sombrio e silencioso, certa vez uma mulher da rua penetrou nele, pela manhã, e teve seu filho; os espíritos dos mortos que ali jaziam se aglomeraram ao redor da mãe e da criança e, então, sorrindo, aplaudiram o ocorrido e reconfortaram-nos.

64 — Minha relação com a coisa-em-si — O mundo só existe porque temos consciência dele: daí concluo que a coisa-em-si, isto é, o mundo como realmente ele é, que transcende a nossa percepção e que é intangível, não existe. É contraditória a admissão de que um mundo a priori, que subsiste além da nossa percepção, exista, pelo simples motivo de que, para admitirmos a existência de uma coisa qualquer, ela precisa chegar até nós através da percepção e consciência, ou seja, de um jeito ou do outro, precisamos sempre filtrar as informações e é este mundo interpretado o que realmente existe. Em outras palavras, um mundo qualquer não pode existir para além da consciência ou da percepção, pois são destes que aquele tira sua existência; e se existe e é, de alguma forma, perceptível, então deixa de ser um mundo puro.

65 — Mãos que o preconceito armou — Em geral, quando falamos em algum lugar, por exemplo, que não devem existir direitos iguais para homens e para mulheres, logo se pensa que estamos afirmando que o homem deve ter prioridade de direitos.

66 — Epílogo: uma nova chance para um reinício — Atormentado pelo seu passado, pela sua vida passada e fracassada, recebeu uma nova chance: ir para o passado e conversar consigo mesmo numa outra época para tentar se convencer a si mesmo de que tomasse um caminho diferente daquele que tomou. Tentou então se aproximar de si mesmo, aos poucos, e com longos passeios, conversas e desabafos, conseguiu se tornar companheiro de si mesmo. Em certo momento de desânimo, pensou que, conquanto tenha se aproximado de si mesmo, não tinha mencionado o verdadeiro motivo que lhe levara lá e não tinha conseguido se persuadir para tomar um novo rumo na sua vida: a existência dele dependia disso: se o outro morresse, ele morreria e cessaria de existir necessariamente (aliás, já estava morto). Num certo dia, porém, quando ambos saíram para um longo passeio pelo meio do campo até uma cachoeira, ouviu de sua própria boca de outrora, surpreso, as palavras: “Não mais vou fazer o que estava pensando em fazer: a sua amizade fez com que eu quisesse continuar vivendo”; neste mesmo instante, sabia que ia sumir, pois tinha decidido continuar vivendo, mas mesmo assim ainda teve tempo de se despedir de si próprio. No final da vida, já na velhice e com a morte na beira da cama, lembrou-se de lembrar daquela amizade da infância — “Eu só precisei da amizade dele para querer continuar vivendo, nada mais!”.