Segunda Parte

 

1 — Da origem da vida — Oparin explicou, ou tentou explicar, como a vida, através de material inorgânico, surgiu na Terra. Segundo ele, a Terra, há milhões de anos, possuía uma atmosfera bem diferente da que se nos apresenta hoje; provavelmente era rica em vapor de água, metano, amônia e hidrogênio. Esses gases devem ter se combinado originando moléculas de aminoácidos; posteriormente, bom, posteriormente a vida foi seguindo o seu rumo até chegar ao que somos hoje. Lendo esta teoria, sem muito esmero mesmo, fiquei com a sensação de que tratava-se apenas de uma teoria alicerçada em um amontoado de classificações e concepções naturalmente humanas, o que, em certo grau, é completamente aceitável, pois não trata-se de uma perscrutação filosófica, mas tão-somente de uma tentativa de elucidar uma de tantas questões perenes que atormentavam a ciência que, igual a um cego, só consegue identificar ou conhecer algo através do barulho ou do tato, pois ela não possui visão, ela não passa de um objeto cuja única finalidade é servir-nos. Mas, voltando à teoria, se a olharmos com outros olhos, ficamos tentados a dizer que não é mais sensato imaginar que a vida em si mesma tenha se originado de matéria completamente inanimada do que imaginar que tudo surgiu do nada, que as leis da natureza podem ser quebradas a qualquer momento, que todo o universo pode desaparecer ou ser aniquilado em um centésimo de segundo. Ora, como o pensar e o sentir podem ter como primeira ou segunda causa (ou terceira ou quarta) uma mera combinação de gases? Será que estes pensamentos que estou transcrevendo aqui se originaram de uma combinação material, puramente material? É-nos evidente que não. Todavia, veja-se: não estou defendendo qualquer espécie de dualismo ou até mesmo de criacionismo, também não estou criticando a teoria de Oparin, pelo menos não diretamente. O que estou dizendo é que a vida em si mesma, isto é, a vida enquanto pertencente à essência do universo, ela não pode ter surgido de um simples acaso: na verdade, ela nem surgiu, pois, como acabei de dizer, ela pertence à essência do universo, e isto todos nós podemos perceber, basta olharmos para a teoria de Oparin e veremos que, mesmo que tudo aquilo seja verdade, o que ocorreu foi apenas uma transformação, não houve o surgimento de coisa alguma ali, trata-se apenas de uma modificação nas tabelas e classificações elaboradas pelos homens. O que é que é matéria orgânica? O que é que é matéria inorgânica? A natureza não diferencia ambas e portanto tal pergunta não porta sentido para ela. O homem destrói a natureza? Faça essa pergunta às pessoas e todas balançarão a cabeça respondendo afirmativamente, esquecendo-se que o próprio homem faz parte da natureza e que por isso mesmo não pode destruí-la. Não há como negar que as massas humanas pensam superficialmente, e muitos cientistas também o fazem, ignorando a metafísica e mostrando desta maneira que não sabem o que estão fazendo. Do fato de existir um princípio vital inerente ao universo, decorre consequências impressionantes e inacreditáveis para tais pessoas: existe vida em tudo no universo, ou seja, todo corpo extenso possui também uma parte imaterial. Para entendermos melhor, vejamos o seguinte: podemos descrever uma pessoa dizendo ser ela alta, magra, cabelos compridos, etc.; mas podemos também descrevê-la de uma outra maneira, qual seja: dizendo que ela é meiga, alegre, inteligente, etc.; isto é, podemos descrevê-la material e imaterialmente. Todavia, não é só um ser humano que podemos descrever assim: tudo no universo pode ser descrito assim, isto é, em outras palavras e levando o raciocínio às últimas consequências: tudo no universo pensa e sente.

2 — Quando vemos as coisas como objetos — A muitos assusta todos os atos praticados pelos nazistas contra os judeus, todo aquele massacre covarde e cruel que levou muitos homens a entreolharem-se e perguntarem a si próprios se eles também possuíam dentro de si um algoz ou um demônio tão cruel como aquele apresentado por Hitler e sua turma. Realmente, quando pensamos em tudo o que os nazistas fizeram no Holocausto, nunca deixamos de nos assustar com tamanhas barbaridades e atos de violência pura contra a espécie humana: a própria natureza deve ter ficado assustada, pois ela, em geral, sem receio algum, coloca uma espécie contra a outra, mas é incomum ela colocar uma espécie contra si própria, conquanto muitas tenham indivíduos que pratiquem o canibalismo. Os assassinos em série também são responsáveis pela promoção de atos selvagens — nunca esqueci do casal que convidava as pessoas para um chá, se bem me lembro, para depois asfixiá-las com um pedaço de plástico; também não esqueci de um psicopata que acorrentava mulheres uma ao lado da outra, depois, com o passar dos dias, ia cortando os pedaços de uma para dar para a outra comer, até que finalmente todas morriam e tinham, por fim, suas cabeças decepadas e guardadas em um barril (vi ambos os casos numa reportagem há muitos, muitos anos, por isso estou escrevendo apenas o que lembro e peço desculpas se acaso não lembrei com precisão). Ficamos assombrados com tais casos, mas só enquanto os olhamos com olhos humanos, só enquanto olhamos para os nazistas e para os psicopatas como se eles fossem objetos incumbidos de trazer-nos um mal, um grande mal, um mal desumano: sempre olhamos para eles como eles olham para suas vítimas. Por outro lado, se olharmos para Hitler e o encararmos como ele deve ser encarado, ou seja, como um ser humano, como um homem que sofreu muito, um homem muito infeliz e doente, então poderemos começar a compreender o seu comportamento e a sua conduta, e os seus atos não nos deixarão tão chocados. E se nós olharmos mais parcialmente, se deixarmos um pouco de lado os olhos humanos e formos para um lugar muito distante, um lugar onde veríamos a tudo e a todos de forma imparcial, então perceberíamos que não há nada de estranho nos atos dos psicopatas  ou nos atos cometidos pelos nazistas: os escorpiões sempre comeram uns aos outros, e este fato nunca nos despertou comoção alguma; nós vamos ao supermercado e compramos venenos para insetos, ao chegarmos em casa o aplicamos na primeira barata que encontramos e sem ressentimento algum ficamos assistindo a pobrezinha morrer aos poucos numa agonia extrema: justamente aqui estamos agindo como os nazistas, porquanto estamos praticando um ato covarde e cruel contra um ser vivo que não nos fez nada, mas que é visto por nós como um mero objeto, um objeto que nos importuna, isto é, olhamos para ele da mesma forma que os nazistas olhavam para os judeus. Mas, apesar disso, ficamos aturdidos quando ouvimos falar nas câmaras de gás. Em suma, nunca existiu um demônio em Hitler e os seus atos nunca foram tão perniciosos e malignos como se pensa: nós mesmos praticamos atos semelhantes, o problema é que nunca percebemos, assim como Hitler não percebia os seus.

3 — Da inconstância das mulheres — Não é incomum encontrarmos em textos mais antigos referências a uma tal inconstância das mulheres — até mesmo nos dias de hoje escutamos eventualmente coisas parecidas, como aquela famosa afirmação que diz que mulher é algo muito bom, mas é bicho que ninguém compreende tampouco sabe-se o que ela quer. Uma certa inconstância é até natural e, mais ainda, necessária em todos nós, todavia, quando falam, especificamente, da inconstância das mulheres, as pessoas estão insinuando que o seu comportamento é imprevisível e, variadas vezes, estranho. Entretanto, reportemo-nos para o passado e veremos que o comportamento da mulher de outrora não era tão imprevisível como alguns querem fazer crer. Antigamente, na maior parte das sociedades, o tratamento dispensado às mulheres era repressor e completamente discriminatório, existiam forças coercitivas que as obrigavam a manterem-se fixas e caladas, que faziam-nas aceitar as coisas como elas se apresentavam, despojando-as de qualquer direito de ação e reação e consequentemente de manifestação: os seus sentimentos eram reprimidos, muitas viviam solitariamente, e impedidas de falarem dos seus desejos e de suas dores, impedidas de desabafarem um pouco, de jogarem para longe todas as suas angústias, muitas explodiam em reações intempestivas, manifestando comportamentos “estranhos” para os homens, manifestando a sua “inconstância”. Não me resta dúvida de que a vida de um grande número de mulheres foi dura e sofrível e que muitas delas foram verdadeiras guerreiras ao suportarem tantos ultrajes e atos maldosos e perniciosos vindos do meio externo. Saindo agora do passado, falemos um pouquinho do presente. A emancipação feminina ocorreu apenas parcialmente, a mulher ainda não conseguiu obter todos os seus merecidos direitos e muitas delas ainda se encontram em um estado de grande dependência. As leis, aos poucos, vão sendo mudadas em favor das mulheres, mas a cultura e os atos discriminatórios mudam muito lentamente em favor delas, e isso quando mudam. A grande mídia, muitas vezes, tenta nos passar a imagem da mulher como sendo um ser independente, que comanda a sua própria vida: eles até deram um nome a esse tipo de mulher — a mulher “moderna” —; mas as mulheres sabem que não é bem assim, elas sabem que a discriminação não cessou, aliás, todos nós sabemos e sabemos também que coisas muito piores acontecem com as mulheres às escondidas: quantas não estão sendo espancadas neste momento, mas por medo não denunciam; quantas não são obrigadas a se prostituírem em troca da permanência em um emprego... A inconstância das mulheres, tão falada em outras épocas e ainda presente na nossa, é, no fundo, a expressão de um sofrimento, um sofrimento silencioso.

4 — Uma produtora de frustrações — Grande parte da insatisfação das pessoas com as suas vidas e consigo próprias é oriunda de uma acentuada padronização do que se deve ser, na qual, sem cessar, um paradigma de ser humano, o ser humano “ideal”, é proposto às pessoas e divulgado através das grandes mídias: é proposto implicitamente e divulgado explicitamente. Um dos recursos da televisão para conseguir audiência é elaborar programas tomando como parâmetro os sonhos das pessoas, sonhos estes que, muitas vezes, são criados artificialmente pela própria mídia e empurrados, sem piedade alguma, nas pessoas. Mas o que realmente ela faz, e faz bem, é mexer com os sonhos mais comuns das pessoas e que normalmente estão presentes nas grandes massas. É assim que, por exemplo, nas novelas, as pessoas quase sempre moram em grandes casarões, possuem status social (nossa! Que coisa ridícula!) e vivem uma vida agitada, cheia de aventuras e emoções de todos os tipos imagináveis e inimagináveis. Como se não bastasse, as pessoas que vão aos programas de TV são sempre modelos, atores e atrizes cujo padrão de vida é completamente inacessível à grande população (inacessível é o padrão, não a qualidade), e os seus corpinhos bonitinhos, sempre tão cheios de maquiagem e de remendos, geram sempre uma grande insatisfação em muitos, e isto não antes de uma bela frustração. Algumas pessoas então passam a orientar suas vidas através daquele mundo imaginário, que faz delas um nada, frustra-as, causa-lhes sofrimentos, e que mesmo assim elas o tomam para si, para servir-lhes como uma espécie de consolo, um consolo para um sofrimento que aquele mesmo consolo causou. Todavia, nem tudo são pesares: a falta de inteligência dos apresentadores e daquelas pessoas que fazem aquele mundinho sempre nos consola, pelo menos a nós, os que pensam, pois se tem algo que não se compra e não se vende, se tem algo que não se pode aparentar ter (aparentar falando), esse algo é a inteligência. Mas, poderão replicar-me: “Dizes tudo isso porque sois feio, pobre, não sois possuidor de fama alguma, padeces na escuridão, etc.”, ao passo que eu, como resposta, nada digo: estou seguro do que disse.

5 — O sistema educativo castrador — As nossas universidades, assim como o fazem todas as instituições educativas, utilizam-se de metodologias e regras que, segundo dizem, servem para promover a maturação intelectual do aluno. Em nada me surpreenderia se esses educadores manifestassem, em público, a opinião de que sem tais metodologias ou regras a maioria dos alunos, mas a maioria mesmo, não conseguiria se desenvolver como alunos ou pesquisadores, e sem constrangimento algum admitissem que o sistema educativo está correto e que, na verdade, quando um aluno fracassa, o aluno mesmo fracassou. “Grandes intelectuais e grandes pesquisadores foram formados neste sistema!”, afirmam eles. Todavia, os alunos não fracassam por culpa própria, e os que conseguem êxito não o conseguem graças ao sistema, embora eu não negue a contribuição deste na formação daqueles e tampouco uma certa culpa dos primeiros. Se formos perscrutarmos mais ao fundo, se transpormos essa visão superficial, veremos que, em verdade, não há fracassados ou exitosos: o que realmente existe são adequações, isto é, exitosos são aqueles que melhor se adaptam ao sistema educativo e os que melhor absorvem ou processam as suas propostas e objetivos, e são fracassados os que não se adaptam a isso, ou seja, aqueles que, de alguma forma, não se submetem às regras, que se recusam a estudar sob forças coercitivas: os ditos fracassados de hoje poderiam muito bem conseguir êxito em um outro sistema ou numa outra época; igualmente, os que conseguem sucesso talvez não o conseguissem em outra época ou em outro sistema. Disso tudo, chega-nos a conclusão de que não existem fracassados ou exitosos em si mesmos, porém tudo depende de uma extensa e larga estrutura que, infelizmente, não pode atender a todos, ou, o que vem a dar no mesmo, não existe uma estrutura ideal que possibilitasse a adequação de todos — a organização do mundo não permite isso, e a natureza parece não permitir outra organização. Mas o nosso sistema educativo pode ser melhorado, os seus braços podem alongar-se para abraçar um número maior de pessoas: diminuam-se as regras e a coerção que as melhorias virão. Não defendo as ideias de Rogers nem muito menos as de Skinner: se as primeiras fossem aplicadas, teríamos um verdadeiro e grandioso caos na educação; quanto às segundas, sempre olhei-as com repúdio e náuseas, e sua aplicação seria desastrosa e inviável. Defendo, como muitos, um meio-termo e estou mais disposto a aceitar as ideias de Rogers do que as de Skinner. Entretanto, nas nossas universidades, vejo uma presença maior das ideias comportamentalistas: só como exemplo, existem trabalhos nos quais são exigidos umas tais de “palavras-chave” (que ridículo!), que antes despojam os alunos de sua criatividade do que a auxiliam; o chamado Trabalho Acadêmico Orientado também é regido por fortes regras (mentalidade medíocre: exigir que no TAO existam citações — eu não quero citar, eu não gosto de citar), e essa sua última palavrinha desperta em mim um certo desagrado. Não obstante, não estou defendendo que tais regras sejam abolidas (isso seria absurdo), mas defendo uma maior flexibilidade das mesmas, ou antes, defendo que não sejam necessariamente regras, porquanto acredito que os alunos deveriam escolher se querem ou não uma orientação, assim como também se querem ou não colocar as tais palavras-chave; defendo uma diversidade de regras concernentes a uma mesma questão, para que aos alunos se apresentassem mais de um caminho para eles percorrerem, para que os alunos pudessem observar quais se adequariam melhor às suas necessidades e capacidades; enfim, defendo um sistema educativo menos exclusivo e mais flexivo, para que os atuais excluídos e os Einteins da vida pudessem se integrar a ele.

6 — Os discursos educativos — Presenciamos no país, já faz algum tempo, um discurso educativo, promovido de cima para baixo, não pouco interessante e satisfatório para muitos: não refiro-me às mentiras contadas pelo governo, mas ao outro discurso, àquele que se apoderou das nossas universidades, que é ponderado e aceito por sociólogos, matemáticos, os mestres e doutores que “formam” os licenciados que darão aula no nosso desprezado e sucateado sistema educativo. O discurso a muitos encanta e causa um triste regozijo, nutrindo em muitos a sensação de que, finalmente, estamos no caminho certo. Ele prega uma igualdade entre os alunos, isto é, alega que todos os alunos têm capacidades para aprender; ele renega qualquer tipo de discriminação e ressalta o papel do professor como agente incentivador e criador de um sistema de ensino renovado, atraente, que possa formar cidadãos criativos e capazes de resolver problemas, participando efetivamente da sociedade e dando-a a sua contribuição; o discurso também destaca a necessidade de se formar mentes que aprendem a aprender, e critica com veemência as antigas concepções do que seria a aprendizagem (inatismo, empirismo, etc.) e faz elogiosas referências ao interacionismo (como se este não fosse ter também o seu dia). Tudo é muito bom e bonito e praticamente todos aceitam essa falácia (discursos teóricos + longe da prática = inutilidades) como se ela fosse a expressão mais genuína da verdade. Parece-me que os universitários, pelo menos a grande maioria, não têm um bom poder de julgamento e aceitam tudo assim como os computadores aceitam as nossas ordens, ou seja, de forma impensada e sem qualquer tipo de análise crítica acerca daquilo que lhes estão sendo passados. Não critico os discursos em si mesmos e não tenho a pretensão de instigar os universitários contra os discursos — quero tão-só que eles se afastem um pouco para terem uma visão mais ampla de toda a situação. Reportemos esses universitários, coloquemo-los numa outra época, numa época em que os discursos seriam outros, numa época em que os trabalhos repetitivos em uma indústria seriam o destino da maior parte da população: neste contexto, evidentemente, os discursos seriam bem outros — eles pretenderiam mostrar a relevância do trabalho empírico, da disciplina; a concepção da aprendizagem como transmissão de conhecimentos iria ser aceita; enfim, teríamos uma outra concepção a respeito do que seria uma educação ideal. Os nossos universitários, então, estes mesmos que defendem com unhas, dentes, braços e pernas o interacionismo, eles aceitariam ingenuamente os discursos, acreditando serem eles verdadeiros e anunciadores de um novo tempo, acreditando, outrossim, que eles trazem consigo ideias humanistas e verdadeiramente preocupadas com a situação das pessoas. Os homens e mulheres que, hoje, engolem os discursos sem esboçar qualquer tipo de reação crítica, engoliriam qualquer outro discurso de uma outra época — facilmente são persuadidos, porquanto, especificamente neste caso, não percebem que os discursos educativos vêm de cima para baixo, não percebem que as ideias de alguns sociólogos ligados à educação só são aceitas porque não destoam das ideias de um interesse maior: o interesse dos empresários, das indústrias, das grandes empresas, das grandes potências, do capitalismo. Atualmente, deve-se ensinar aos alunos a “aprender a aprender”, mas... para quê? Para eles aprenderem a resolver os seus próprios problemas ou para satisfazerem as necessidades do sistema capitalista? Ou melhor, a pergunta é assim: qual o verdadeiro motor que impulsiona a divulgação dessa ideia segundo a qual deve-se ensinar aos alunos...

7 — Decepção dos sociólogos — Fernando Henrique Cardoso, tão aclamado pelos sociólogos, tão elogiado por eles como sendo um homem culto, erudito, conhecedor dos verdadeiros problemas do país, Fernando Henrique foi-lhes a sua decepção: apoiado pelos sociólogos, ganhou as eleições e assumiu a presidência da república; mas lá chegando, “esquecera” de suas ideias e de suas propostas e fez tudo às avessas.

8 — O voto — Frequentemente se nos desenha, sempre perto das eleições, ao menos para a maioria de nós, uma mesma questão: votar ou não votar? Deves conhecer, leitor, alguém do teu meio que sempre vai às urnas para votar em branco ou anular o voto, e isso é muito comum não apenas no Brasil mas em muitos outros países, até mesmo nos ditos países desenvolvidos. A incredulidade parece pairar por entre as pessoas na época da política: é como se um fantasma fosse liberto das profundezas de sua prisão para vir perambular entre nós; entretanto, não nos assustamos quando o vemos, pois ele é portador não do medo, porém de uma espécie de tristeza, uma descrença no homem, em nós mesmos, nas pessoas. Vamos aos comícios assistir aos discursos dos candidatos e não conseguimos acreditar, por mais que nos esforcemos, naquelas palavras sempre tão despidas de sentido e despojadas da verdade, bem como tão ornadas com a mais pura e pérfida malícia; acompanhamos os debates entre os candidatos para justamente presenciarmos as mais desleais e injuriosas mentiras, para ouvirmos os mesmos ataques repetitivos que já se fazem presentes em nossa política há muitos anos, para sentirmos o quão é frágil o vidro do qual são feitos os telhados dos nossos mui ilustres políticos quando vemos as suas esquivas e as suas respostas evasivas. Por outro lado, existe em nós o desejo de vivermos em um país melhor, e esse desejo, de acordo com a estrutura mundial, deve ser nutrido através do voto, ou melhor, o voto popular é imprescindível para o desenvolvimento de um melhor país, pelo menos aparentemente — digo aparentemente porque o desenvolvimento de um país depende menos de seus políticos do que do seu povo, isto é, o voto em si mesmo praticamente não tem influência alguma sobre um país: só o voto como expressão da participação popular é relevante. Por conseguinte, não é difícil concluir que votar ou não votar são a mesma coisa, desde que não haja uma verdadeira participação popular para a resolução dos nossos problemas.

9 — Doces ilusões — “No fim, tudo dá certo; se ainda não deu certo é porque ainda não chegou no fim”.

10 — Pessoas chatas — Não é menos difícil encontrarmos por aí pessoas que sustentam uma falsa opulência de conhecimentos do que pessoas que realmente trazem conhecimentos: tudo bem que estas últimas, ao contrário das primeiras, não tentam, em geral, ostentar conhecimentos, mas, de um modo ou de outro, a afirmação procede. Tais pessoas, ao tentarem esbanjar conhecimentos que não possuem, tornam-se chatas e impertinentes, estorvando-nos com o seu desejo incontrolado de admirarem-se ou elogiarem-se a si próprias: por que será que fazem isso? Será que é porque se sentem carentes? Será um problema de auto-estima? Ou melhor: serão ambos?

11 — Um olhar diferente — Duas amigas conversam: “Eu não acredito?! Ele foi assim tão grosso contigo e tu não fizeste nada — nem um insulto nem um tapa, tu ficaste assim tranquila e engoliste tudo?”. “Na verdade, não engoli nada: ele era um homem infeliz e antes mesmo de me insultar já havia pagado por isso”.

12 — Os empreendedores — O comportamento errante de algumas pessoas, sempre tão impetuosas ao engendrarem novos empreendimentos (não refiro-me a negócios), mostra-nos que existe, nessas pessoas, algo de incompleto, um local que não foi preenchido ou do qual emanam suplícios para essas pessoas: é como um cão faminto que sai desesperadamente para procurar, em todos os lugares, comida para pelo menos atenuar a sua fome — mas ele já tinha procurado antes em todos os lugares, e sem sucesso, mesmo assim, suas esperanças, por algum motivo, convalesceram posteriormente a tal ponto que ele passou a acreditar novamente: ele então parte para uma nova busca, ele passa a acreditar em um outro destino, um destino bem diferente daquele que se lhe apresentou até então. Essas pessoas, sentindo-se vazias e infelizes em certos aspectos de suas vidas, tentam de alguma forma compensar esse vazio e essa infelicidade, elas passam a procurar algo, deixam-se convencer muito facilmente e passam a acreditar que a felicidade pode estar muito perto delas, que elas só precisam participar de uma instituição, de uma igreja, de um grupo, de movimentos sociais. São, muitas delas, fáceis de serem persuadidas, bastando para isso incitar suas esperanças: já estão tão esgotadas de procurar e encontram-se num desespero tal que começam a acreditar em muitos absurdos, começam até em acreditar numa fórmula para a felicidade, uma fórmula que, por alguma razão, até então passara desapercebida por seus olhos. Em geral, pessoas desse tipo percorrem muitos caminhos, vivem a procurar algo que, talvez, nem exista, e sempre numa nova empreendida, o ímpeto e o desejo ardente de encontrarem o que procuram nunca deixam de se fazerem presentes: ambos expressam, inegavelmente, um desespero, um desespero oriundo do desejo de serem felizes e de encontrarem paz para os seus corações aflitos.

13 — Criadores e imitadores, parte 1 — Basicamente, em certo aspecto, existem dois tipos de pessoas: aquelas que criam e aquelas que imitam. Às primeiras, devemos a gratidão pela montagem, pelo criar, pelo fazer-se novo: são os roteiristas; às segundas, devemos ser gratos pelo fazer funcionar, pela execução, pelo desenvolvimento: são os atores. Praticamente todos podem ser encaixados nestas duas categorias, e aquelas que escapam, se realmente escapam, são coisas raras, não muito fáceis de serem encontradas. Os criadores têm sempre um imenso desejo de fazerem algo novo, eles querem inovar e produzir; relanceiam, muitas vezes, o olhar por sobre a multidão e um singelo desejo de não fazerem parte daquela massa de operários aparece-lhes sorrateiramente, caminhando com visível e oculto esmero, pois este desejo sabe que o coração que ele está invadindo possui um dono que lá, bem lá no fundo de sua consciência, sabe que os operários lhe são necessários, malgrado muitas vezes ele até fazer um esforço para negar e destruir tal necessidade, seja por orgulho ou mesmo para se justificar — mas de tempos em tempos, quando menos se espera, no seu dia-a-dia, a consciência da necessidade de todos ganha força e sai das profundezas de sua mente para atingir, em pouco tempo, a sua superfície, e isso justamente porque ele sabe observar, ele é um criador, ele tem uma visão desanuviada pela sua sensibilidade e por isso consegue perceber sutis coisas que outros poderiam não perceber ou mesmo ocultar, porquanto tais coisas trazem dor, ferem o seu orgulho e seu desejo de sobrelevar-se, de ascenderem acima da multidão: é como um roteirista que, muitas vezes, conquanto os atores não percebam, sabe que sua peça ou novela não está tão boa, sabe que não atingiu o cume e que falta algo, seja um detalhe ou uma fala, mas algo o perturba deixando-o cismado.

14 — Criadores e imitadores, parte 2 — Do outro lado da moeda, mas, para muitos, estranhamente não se opondo ao primeiro lado, encontramos os imitadores, aqueles que executam a obra não deixando que um local de construção transforme-se em um lugar ermo, próprio para os taciturnos chorarem as suas dores — sim! Como seria triste o mundo sem os operários! Como poderíamos nos alegrar passeando por uma cidade vazia? Como poderíamos encontrar paz e conforto frequentando praças, parques e igrejas onde encontraríamos tudo exceto pessoas normais, os operários, para quem poderíamos dirigir o olhar e nos deliciarmos com o seu comportamento e com quem poderíamos trocar uma palavra amiga ou mesmo um simples cumprimento? Sentimos isso assim, dessa forma, porém, não obstante, os remadores parecem não perceber a importância da bússola ou de um outro guia: muitas deles negam completamente a sua importância e parecem estar bem convencidos de que são os protagonistas, os que fazem, os que realizam, os que criam. A razão disso, já podemos entrever: eles são os que executam, e como tais são destituídos de uma sensibilidade ou percepção mais apurados, pois se possuíssem-nas não seriam executores e sim projetistas; e assim o é verdadeiramente: o que desenvolve o projeto, em si, é algo imaterial, é a mente criativa, o ser humano sensível; o que o executa são peças físicas, as engrenagens, aquelas pessoas que não gostam de refletir, pois refletir é um trabalho imaterial e criador, e as peças não pensam...

15 — Criadores e imitadores, parte 3 — Os imitadores são sempre a grande maioria, ao passo que os criadores aparecem em menor número (é preciso poucos para projetarem um prédio e muitos para construí-lo): é que as transformações no nosso mundo e em todo o universo ocorrem ininterruptamente e o universo de agora já não será o mesmo de daqui a um bilionésimo de segundo; mas as transformações grandiosas que ocorrem no nosso mundo são lentas e gradativamente desenvolvidas, isto é, faz-se necessários mais executores do que criadores haja vista que a criação verdadeira é prescindível se acaso não tivermos transformações abruptas, donde se segue que se houver uma razão tangível pela qual podemos explicar a diferença quantitativa entre criadores e imitadores, então essa razão só pode ser a que mencionamos. Dentre a grande imensidão de imitadores, podemos encontrar numerosos tipos, e aqueles que imaginam que não os encontramos entre músicos e escritores se enganam: muitos músicos apenas imitam e executam, eles não criam, não possuem essa capacidade — ou necessidade — (passem os olhos pelas orquestras), e muitos escritores e até filósofos fazem o mesmo (passem os olhos pelos professores universitários). Da mesma forma, mesmo que raramente, podemos encontrar criadores entre os operários.

16 — Criadores e imitadores, parte 4 — Com um pouco de observação, podemos perceber que algumas pessoas são portadoras de características de ambas, ou seja, projetam e executam ao mesmo tempo (olhem para Beethoven e Kant). Todavia, parece-me que estas são bem raras, e embora possamos encaixá-las na classe dos criadores, se os considerássemos uma terceira classe, veríamos que ela apresentaria um número bem menor de constituintes do que as outras duas. Mas, chegando aqui, talvez muitos repliquem dizendo que os criadores não são minoria, porém o que ocorre é que já foram criadas e estudadas tantas e tantas coisas que já não há mais caminhos novos para se seguir; e outras replicar-me-ão ainda dizendo que os imitadores são menos importantes do que os criadores, ou vice-versa. À primeira réplica respondo dizendo que séculos atrás muitos pensavam dessa mesma forma, ou seja, achavam-se os possuidores do conhecimento e da verdade, acreditavam que, mesmo passado o seu tempo, as gerações vindouras seriam devedoras de sua época de uma grande gratidão pelo desenvolvimento propiciado; em outros termos, quem acredita que quase tudo já foi estudado ou criado se engana ingenuamente: muitos dos conhecimentos mais bem alicerçados e mais sólidos que hoje existem serão derrubados posteriormente, mais cedo ou mais tarde, e portanto a réplica não procede, pois toma como argumento uma ilusão, uma falsa impressão (deixa de considerar as transformações e a infinidade de coisas que existem). Quanto à segunda réplica, digo que os imitadores e os criadores formam duas faces de uma mesma moeda, duas faces que não se contrapõem — um necessita do outro, assim como o bem necessita do mal para existir, isto é, existe uma relação de necessidade mútua entre ambos, e tanto um como o outro são indispensáveis para a estrutura da natureza (a introversão e a extroversão são coisas naturais e necessárias, e o homem pensador não é um animal depravado como o queria Rousseau; além disso, estou quase convencido de que a depressão e outras “doenças” que levam a uma melancolia reflexiva são recursos utilizados pela natureza para promover a chamada “evolução” da espécie). Portanto, concluindo, se existe uma relação existencial de dependência entre os que criam e os que imitam, ou seja, se um põe a existência do outro e vice-versa, então um não pode ser mais importante do que o outro.

17 — Vendedores — Algumas pessoas assemelham-se a vendedores: falam doce e polidamente, tentam fazer-se agradáveis dizendo-nos coisas que nitidamente percebemos serem falsas e cujo único objetivo, aparentemente, é nos agradar — mas será mesmo que elas se comportam assim para nos agradar? Acredito que não. Elas agem assim pela simples satisfação que sentem ao tentarem nos cativar, fazem isso sem muita percepção, e ao prometerem algo, mesmo que nunca cumpram as suas promessas, aparentemente acreditam nas suas próprias falsas promessas, pelo menos no momento em que prometem. Portanto, não nos aborreçamos com tais pessoas, tentemos compreendê-las.

18 — A vida sem sentido, primeiro ponto de vista — A vida em si mesma é destituída de qualquer sentido: olhamos para os bosques, para os pássaros e pessoas, e não conseguimos sequer entrever algum recôndito encanto, que estivesse a se esconder por detrás das nuvens, um encanto que talvez nos alegrasse em algum sentido, que mostrasse-nos que não é em vão a nossa passagem por este mundo, um mundo no qual o sofrimento geral é a grande regra e em que todos, incansavelmente, como que empurrados ou forçados, sofrem inúmeros e incontáveis suplícios a todo momento, vivendo sempre instantes dolorosos e pesadelos lancinantes e ainda por cima trabalhando desgastantemente, numa vida que mais se assemelha a uma labuta infernal do que a qualquer outra coisa positiva, para não morrerem de fome. Passamos os olhos pela natureza e só encontramos guerra: os animais matam-se uns aos outros por tudo e para tudo, existe uma grande competição entre os da mesma espécie para ver quem fica com o melhor alimento, com o melhor território ou com a melhor fêmea, e enquanto um sai vitorioso para desfrutar de tais “vantagens”, inúmeros outros saem cabisbaixos e feridos e melancolicamente dirigem-se para uma nova empreitada, onde serão humilhados e derrotados novamente. Pelo nosso lado, o comportamento das pessoas pouco difere do descrito acima: elas vivem a competir umas com as outras, a derrotarem-se mutuamente em um laborioso teatro em que todos disfarçam suas dores e angústias para parecerem fortes uns aos outros, mas que quando ficam sozinhos, choram inserimoniosamente e colocam para fora todo o seu desespero, não raro pensando assim: “Como eu odeio tudo isso!”. Quem está por cima nas sociedades até consegue viver uma vida sem tantas lágrimas, pois possui poder e tudo o mais que as riquezas compram; mas engana-se quem imagina que sua felicidade origina-se diretamente de tais coisas: o seu verdadeiro contentamento vem do fato de que, enquanto ele tem tantas coisas, milhares de outros não têm nada e não são conscientes senão de sua fome atual — a de ontem foi tão forte que eles se esforçam para esquecer, e no dia de amanhã eles nem pensam, pois sabem que, até lá, poderão morrer de fome ou de outra miséria qualquer. Para um dito vencedor, temos centenas de milhares de derrotados: a estes últimos só resta um consolo: inventar religiões. Sim, a fé de uma pessoa é também a medida de sua dor, e onde existe muita fé existe muita dor, não sendo por acaso que as religiões que mais prosperaram, desde tempos longínquos, foram aquelas que pregavam a igualdade entre os homens — só possuem tantos adeptos porque estes sentem-se por baixo, sentem-se derrotados e inferiorizados. Mas a religião também tem um outro papel, o de justamente mascarar com uma máscara colorida uma realidade fria e sem cor: praticamente todos, mesmo aqueles que não têm religião, fazem isso: a vida não tem sentido e isso é algo que eles o sentem, e a partir disso inventam mil e uma mentiras para tentarem convencer a si mesmos e aos outros de que não estamos  aqui à-toa, de que isto a que se chama felicidade existe, bastando procurá-la. Portanto, a grande procura por religiões no nosso mundo só nos confirma o que a experiência e o sentir já haviam nos expressado claramente: a vida não tem sentido algum e é miserável, definitivamente ela não vale a pena ser vivida, é realmente sem significado quando vista exteriormente e melancólica e obscura quando sentida interiormente, e aqueles que acreditam na felicidade, procuram-na ininterruptamente durante toda a vida e ainda com esperanças partem para o leito derradeiro — procuraram um espectro.

19 — Um presente divino, segundo ponto de vista — É fora de dúvida que a vida é algo sagrado. Para onde olhamos sentimos, sem pouca razão, que uma infinita e bondosa inteligência preparou cuidadosamente todas as imensas e diversificadas coisas que constituem e são partes inerentes desse grandioso e magnífico universo. Olhem, vamos, olham para o balançar das águas nos açudes e no mar; dirijam-se para o litoral e lá, descalços, caminhem pela areia da praia à tardinha sob um esplendoroso pôr-do-sol; olhem para o menear das folhas das árvores: são portadoras de uma mensagem, uma mensagem de vida. Olhem para a alegria inocente das crianças, a sua simples existência já nos é motivo de alegria; lembrem-se dos momentos em que estavam apaixonados: mesmo os lugares mais sombrios e vazios dos vossos corações encheram-se de alegria. Façam isso e me digam se a vida não vale a pena ser vivida. Não obstante, alguns se referem a este mundo como sendo um mundo da miséria e da dor, um mundo em que vemos muitos deslizes da natureza e que na mesma não existe uma ordenação absoluta, aliás, dizem que não há sequer uma ordenação, que o que ocorreu, na verdade, aquilo que originou tudo, foi um acaso. Porém, com esmero, analisemos tais questões. Primeiramente, não há como negar a existência da dor e da miséria no nosso mundo; mas, pergunto eu: quando estais feliz, como sabeis que estais feliz? Respondo: por comparação — sabeis que estais feliz pela observação e interação com terceiros e, acima de tudo, porque sabeis o que é estar triste e infeliz, ou, em outras palavras, referindo-me apenas ao último ponto, uma pessoa sabe que está feliz porque já experimentou a infelicidade; disso concluímos que a dor e a miséria são necessários, pois eles estão intrinsecamente ligados ao prazer e à felicidade, uns não existiriam sem os outros e imaginar um mundo sem tristeza equivale a despojá-lo de sua alegria. Quanto a não haver uma ordenação na natureza, não é difícil vermos que tal ordenação existe: a estrutura dos seres vivos em geral não deixa sequer um vestígio de sombra de dúvida a respeito da existência de tal ordenação, pois não é nada plausível supor que uma ordenação inexiste na natureza quando ela é a responsável pelo desenvolvimento de seres tão complexos e magnificamente perfeitos: os computadores, por exemplo, cuja complexidade e perfeição são insignificantes quando comparadas as das formigas, são produzidos por empresas super organizadas e ordenadas, e se para a produção de computadores é necessário uma grande ordem, planejamento e inteligência, como não pensar o mesmo de uma empresa cujo produto encanta-nos cada vez mais, dia após dia? Quanto a outras críticas que se possa fazer contra a natureza, com um pouco de reflexão podemos encontrar um significado para tais “falhas” — mas mesmo que não encontremos, podemos conjecturar ainda que uma ordem maior, uma ordem que transcende a nossa percepção imediata, existe, e que, na verdade, nós só podemos perceber superficialmente a sua estrutura. Enfim, de um jeito ou de outro, pergunto àqueles que maldizem a vida: teria alguma graça viver em um mundo sem dificuldades e sem enigmas, onde tudo já estivesse pronto e acabado? As dificuldades fazem-se necessárias, a vida tem sentido, a maior parte das pessoas são felizes em grande parte de suas vidas (a própria vontade de viver das pessoas, o eterno cair e levantar, indica-nos isso) e quem não está feliz agora pode ficar seguro de que daqui a alguns instantes a felicidade baterá na sua porta e entrará, mesmo sem pedir licença, pois existe uma essência única, verdadeira e infinitamente boa e perfeita que abrange todas as coisas e que perpassa essa realidade, por vezes, aparentemente contraditória que nós percebemos.

20 — O mundo como nós o sentimos, terceiro ponto de vista — Um de nós põe-se a caminhar e, repentinamente, pára, olha com seus olhos contemplativos para o crepúsculo e pensa: “Mas... O que... Por que... Como neste mundo existe sofrimento! Até suas paisagens nunca abstêm-se de nos causar tristeza!”; algum outro, sempre com os dentes à mostra, chegando para ver algum lugar belo, pára, e com os seus olhos não contemplativos pensa: “Que dia bonito! Como é bom e feliz este mundo!”. Ambos os pensamentos são e não são verdadeiros. O mundo em si mesmo não é bom, nunca foi bom e jamais será bom; porém ele não é, não foi e jamais será mau; de modo parecido, a alegria e a tristeza não fazem parte da sua natureza, mas da nossa. Àquele contemplativo digo que seu pensamento foi verdadeiro à medida que expressou a sua forma de sentir a vida e o mundo, porém não foi verdadeiro à medida em que dirigiu-se ao mundo em si mesmo; o mesmo posso dizer ao não contemplativo. Todos aqueles que tentaram ou que ainda tentam descrever a vida dirigindo-se a ela mesma, cometeram e cometem sempre o mesmo erro, porquanto sempre descrevem a vida como ela é para si mesmos, ou ainda, descrevem a vida de acordo com o sentir, o qual, por sua vez, subjuga o intelecto: o que nos habilita a pensar que os motivos e justificativas sempre aparecem depois, isto é, o intelecto pode ser comparado a um escravo inteligente que, devido ao seu senhor ter se metido em alguma confusão, diz-lhe: “Vais à justiça e dizes o que estiver na posse do teu desejo; eu, por meu lado, justificar-te-ei dizendo coisas e dando motivos que darão plausibilidade a tuas palavras”. Daqui concluímos que nenhuma descrição da vida (lembremos que a vida não é algo tangível) é destituída de um lado falso, enganoso, justamente porque se falou genericamente de algo conceitualmente relativo, justamente porque faltou um “eu acho que” antes do início da descrição de tão afamada, ultrajada e glorificada vida. Pergunte-se a dez pessoas, ou melhor, a cem pessoas o que é a vida; depois, peque-se as dez melhores respostas e ver-se-á que existe distinção entre todas elas, pois elas não descreveram a vida, mas tão-somente a forma como cada uma a sente, e cada uma a sente distintamente — não descreveram a vida, mas a si mesmas. Olhando por esse prisma, é tão absurdo dizer que a vida vale a pena ser vivida quanto dizer que ela não vale.

21 — Uma análise dos motivos, quarto ponto de vista — Uma análise não muito pormenorizada do sentir já mostra-nos que ele é uma das bases de sustentação da mente filosófica: o sentir incumbe o intelecto de encontrar as respostas para as perguntas que estão no seu âmago. Semelhantemente, o sentir legisla o intelecto fazendo-o ter, em relação a algo, uma opinião além ou aquém da aparentemente mais justa: só um intelecto muito forte e “rebelde” pode manifestar algum tipo de relutância contra a imposição do sentir, e mesmo nestes casos dificilmente ele se sustenta em pé por um longo tempo. Quando uma pessoa tem uma opinião negativa a respeito de algo, observe-se o seu sentir em toda a sua amplitude no que diz respeito a esse algo, que encontra-se facilmente a resposta para tal opinião; com o caso contrário, isto é, quando uma opinião vantajosa emerge de alguém, faça-se o mesmo e encontra-se, também sem dificuldades, a resposta justificativa de tal opinião. Todavia, existe um caso em que o intelecto aparentemente adquire uma certa liberdade em relação ao sentir, e isso ocorre precisamente quando o sentir emite ordens divergentes, que se opõem entre si, para o intelecto. Como exemplo, veja-se o caso de um alguém que ama um outro: por causa desse amor, ele não terá uma opinião plausível a respeito do seu amado, e se porventura colocássemos o ódio e retirássemos o amor, ocorreria o mesmo; mas se ele amou, depois odiou, e agora esses sentimentos adquiriram um equilíbrio entre si, então o intelecto pôde ver um mesmo algo de diferentes ângulos e portanto poderá fazer uma análise mais precisa desse algo — porém, não nos animemos em demasia: esta liberdade do intelecto é apenas aparente, pois, como nos outros casos, o sentir é que determina.

22 — Diferentes modos — Usemos todo o nosso poder de argumentação, evoquemos a lógica, os dados mais aceitáveis e até a ciência que possui bases mais fortes e rígidas para tentarmos convencer as pessoas de que deus não existe: poderemos convencer “todas” elas, excetuando-se duas: a que necessita da fé e que diz sentir a presença de deus. Deixo a primeira de lado, e quanto à segunda, bom, a nossa argumentação não vai ser ouvida, a lógica será desacreditada e a ciência e quaisquer outros recursos de que nos utilizarmos serão destruídos sem o menor pudor e com a maior das sinceridades — isso, entretanto, nem sempre ocorre assim: Kant, por exemplo, desenvolveu um gigantesco sistema de pensamento para tentar mostrar que todos têm razão e que deus existe.

23 — Do talento — A diversidade das estruturas e nas estruturas do nosso atual mundo permite-nos identificar inumeráveis e infindáveis tipos de talentos presentes na multidão, embora o sistema competitivo proposto e imposto pelo capitalismo ofusque, por vezes, tão bela diversidade. Por onde andamos podemos encontrar pessoas que visivelmente transpiram talentos nas diversas atividades humanas; contudo, lamentavelmente, muitas delas desconhecem as suas próprias capacidades, porquanto são induzidas, de uma certa forma, a raciocinar e a formar os seus conceitos por falsos paradigmas e por pessoas imaginárias — reavaliemos os nossos conceitos e esforcemo-nos para observar melhor: eis o meu conselho. Muitos não admitem por orgulho, outros, por inveja, mas possivelmente todas as pessoas têm talentos, mesmo aquelas que se nos parecem, em todas as situações e em todos os momentos, imprestáveis, devem ter algum talento, mesmo que este não se encaixe no nosso mundo: um talentoso negociante dos nossos dias, se for colocado numa época ou em um lugar onde é presente a inexistência de negócios, ele simplesmente não terá o seu talento reconhecido, e é até prescindível dizer que talvez ele mesmo se considere um inútil ou um “sem talento” numa tal situação.

24 — Sócrates moderno — Sócrates está a vaguear pelas ruas quando avista, pelo canto do olho, dois colegas seus que estão a dialogar com um certo ímpeto; Sócrates, então, sem perder um segundo, dirige-se rapidamente para junto dos dois.

— ...Mas, Vlauco, não se pode negar...
— Como não pode, Transímato? Pode e eu o faço!
— Olhe — insistiu Transímato — Olhe para aquela escada pela qual aquele senhor vai subindo para consertar a afiação: ela lhe é útil pois ajuda-o na realização de uma tarefa que não lhe é dispensável; mas a tua Filosofia, Vlauco, nada trás para o homem, ela é, por assim dizer, absolutamente inútil!
— Você está distorcendo as coisas! — disse Vlauco com voz austera e já irritado — Darei-lhe um exemplo da utilidade da Filosofia.
— Dê-me, estou a escutar.
— Concordas que os filósofos ao longo dos tempos sempre se preocuparam com o coração do homem?
— Sim, concordo.
— E que ao longo dos séculos emergiram da Filosofia diversificados conhecimentos concernentes à natureza do homem? Concordas ou não?
— Sim, isto também é certo.
— Pois bem! Grande parte desses conhecimentos desaguaram na Psicologia que, indubitavelmente, é útil ao homem. Está de acordo?
— Já é forçoso e, se quiserdes concluir daí que a Filosofia é útil, teu raciocínio é pouco, muito pouco plausível.
— Por quê, Transímato?
— É forçoso porque tenho lá minhas dúvidas a respeito da utilidade disso que se chama Psicologia: Skinner, por exemplo, com sua psicologia, queria transformar a raça humana em um bando de bonecos obedientes, mas realmente sem ter a menor preocupação com suas felicidades.
— Mas, Transímato, e Rogers e Freud? Não se pode negar que suas teorias ajudaram as pessoas, pode-se?
— Não sou simpatizante dessa ideia, Vlauco. Acredito que a natureza é que realmente ajuda: o tratamento psicológico não passa de uma distração. Ademais, mesmo que a Psicologia fosse útil, as contribuições que ela recebeu da Filosofia foram poucas, não foi o suficiente para dizer com isso que a Filosofia é útil; ela pode até ter sido, mas já não é mais.
— Eu não acredito...
— E então, senhores, como estão a passar? — atalhou-os Sócrates.
— Oi Sócrates, como estais? — disse Transímato.
— Tudo bem! E você, Vlauco, que cara é essa?
— A de sempre, Sócrates.
— Nossa! Que voz áspera! Que sucedeu aqui?
— Nós estávamos discutindo, Sócrates, a respeito da utilidade da Filosofia; Vlauco diz que ela é útil, mas eu nego.
— Que achas disso, Sócrates? — disse Vlauco, melancolicamente.
— Filosofia não é algo que me desperta grandes interesses.
— Ah, vamos, dê-nos sua opinião — disse sarcasticamente Transímato, esperando que a opinião de Sócrates não destoasse da sua.
— Tudo bem — assentiu Sócrates.
— Tudo bem? Vamos, continue, diga-nos se a Filosofia é útil ou não. — disse-lhe Transímato, ostentando uma estranha animação.
— O que você entende por utilidade, Transímato? Ou melhor, o que é algo útil para vocês?
— Algo é útil quando nos ajuda de alguma maneira — respondeu Vlauco, recobrando o ânimo depois que Sócrates não respondeu diretamente.
— Concordo com o que Vlauco disse — respondeu Transímato.
— Então aquela escada que está sendo utilizada para consertar os fios do poste é útil ao seu usuário porque lhe ajuda a atingir um objetivo, isto é, desenvolver perfeitamente o seu trabalho?
— Sim — responderam ambos.
— Mas para que se trabalha, Transímato?
— Para se ter como viver, Sócrates.
— Só para isso? — insistiu Sócrates.
— Esse é o objetivo maior, contudo não é o único: trabalhamos também para usufruirmos dos prazeres da vida.
— E esses prazeres são necessários?
— Claro que sim! Sem eles a vida não teria sentido.
— Concordas, Vlauco?
— Concordo, Sócrates.
— Agora — prosseguiu Sócrates — o que vocês dizem de algo que nos ajuda a conseguir uma coisa necessária, isto é, esse algo é ou não é útil?
— De acordo com o que dissemos, esse algo é útil — respondeu Vlauco apressadamente, com os olhos cintilantes: parece que uma alegria resplendorosa se lhe mostrou toda requintada; alguma coisa desanuviou-se bem na sua frente.
— Transímato, sois músico, certo?
— Certo.
— Olhe ao nosso redor: enxergas muitas pessoas?
— Ora! Sim, Sócrates: estamos bem no centro da cidade.
— E todas elas são músicos?
— Claro que não, Sócrates.
— Por quê?
— Porque elas possuem gostos diversificados, ou seja, nem todas encontram prazer na música e nem todas têm talento para a mesma.
— Então concordas comigo se eu disser que as pessoas são isso ou aquilo, ou fazem isso ou aquilo, salvo os casos em que a necessidade exige, porque encontram prazer e satisfação no ser ou no fazer?
— Concordo.
— Então, pelo mesmo raciocínio, posso afirmar que, em geral, um homem estuda Filosofia porque gosta, isto é, a Filosofia lhe dá prazer e alegria?
— Isso é certo — respondeu Vlauco, enquanto Transímato apenas balançava afirmativamente a cabeça.
— Mas, meus amigos, de acordo com que dissemos, se alguma coisa nos ajuda a conseguirmos algo necessário, então essa alguma coisa não pode ser considerada senão como algo útil, certo?
— Sim — anuíram ambos.
— E a alegria é algo necessário?
— É.
— E a Filosofia pode trazer alegria para um homem?
— Pode.
— De onde se segue que a Filosofia deve ser vista não como algo inútil, mas como algo útil, concordam?
— Concordamos, Sócrates!!! — explodiu de alegria Vlauco.
— Eu não concordo com o teu raciocínio, Sócrates — gritou-lhe Transímato, exasperado. Mas Sócrates disse-lhes que seu tempo expirou, pois já não dispunha de tanto tempo como em outrora, e partiu...

25 — A antifilosofia — Vejo, em certos momentos, vestígios de uma exaltação filosófica inútil, que tem a pretensão de salvaguardar a Filosofia e, outrossim, atacar todos aqueles ou toda e qualquer situação que mostrem-se ameaçador para a Filosofia. O nosso mundo é regido (ou quase regido) por isto que é chamado ciência e, como efeito, muitos alegam a superficialidade espiritual, cujo campo de visão não ultrapassa o material, e acusam o mundo de uma ineficaz e desesperançosa prática existencial, que incute no espírito máculas de difícil remoção e que, devagarzinho, passa a ofuscar o seu brilho até que sua luz expire completamente. Contudo, não vejo procedência em tais críticas: vida material e vida espiritual se confundem, não existe separação entre ambas, e toda vida material é também espiritual; demais, não devemos confundir necessidade com escolha, isto é, as pessoas não escolheram tapar os olhos e absterem-se da procura de respostas para as questões perenes, mas a própria natureza sempre quis assim (transfira-se as pessoas de uma época em que a “vida espiritual” estava em evidência para a nossa época, e elas comportar-se-ão não muito diferente de nós). Por outro lado, alguns avanços científicos despertaram um verdadeiro assombro nas pessoas, junte-se a isso o fracasso de muitos pensamentos filosóficos para termos como resultado essa descrença das pessoas numa tentativa racionalizada de pensar e uma forte confiança no experimento — um simples comprimido diário pode dar mais ânimo do que centenas de reflexões: isso exerce uma influência poderosa nas pessoas. Por minha parte, não defenderia a Filosofia tampouco a ciência, pois não os vejo como instituições ou entidades, porém como duas espécies de saberes que, em muitos casos, entrelaçam-se. Escrutemos, escrevamos, reflitamos, mas sempre com suave esmero e despidos de preconceitos rasteiros: deixemos estes instalados nos outros, naqueles que nos criticam...

26 — Os doentes — Os conceitos de saúde e doença são determinados por padrões: muitos dizem, por exemplo, e erradamente, diga-se, que um sociopata é um ser doente, e isso justamente porque ele foge do padrão que é estabelecido para se identificar uma pessoa saudável. Mas os padrões não são estáveis ou perfeitamente visíveis, quero dizer, não existe um estado ideal de saúde, de onde inferimos que, olhando de um determinado ponto, todos nós somos saudáveis e, olhando de outro, todos somos doentes. Todavia, quero que se note o seguinte: da mesma maneira que um psicopata foge dos padrões e por isso chamam-no de doente, pessoas que ostentam um formidável altruísmo também fogem dos padrões: Madre Tereza de Calcutá e Buda devem sua fama a uma doença!

27 — O universo em evolução?! — Mas como? Então o universo está em evolução? Expandiram o pensamento de Darwin? O que isso significa, afinal? O espanto não foi destituído de motivos. Imagina-se que o universo como se nos apresenta tenha cerca de quatorze bilhões de anos, já a Terra deve ter, segundo pesquisas realizadas, aproximadamente 4,6 bilhões de anos; na posse desses dados, podemos perceber que a Terra não existiu como planeta por cerca de nove bilhões de anos, contados a partir da origem do universo como nós o conhecemos. A Terra, então, em um dado momento, passou a existir; todavia, suas condições primitivas, imagina-se, não eram em nada agradáveis: o clima era muito quente, a atividade vulcânica era incessante... Com o passar dos bilhões de anos, a Terra foi se transformando até chegar ao que é hoje; entremeio agora uma pergunta: é-nos possível concluir por meio dessas informações que o universo está em evolução? Evidentemente, o universo em si mesmo não existe a apenas quatorze bilhões de anos: aqui, nada se perde e nada se cria... E evolução implica fim, o que destoa explicitamente da natureza de algo atemporal.

28 — Duas espécies de amizade — Observe-se as relações entre as pessoas e notar-se-á dois tipos distintos de amizade. O primeiro é singelo e os laços que unem as pessoas que nele estão englobadas não possuem máculas e são resistentes, muito resistentes, prontos para suportarem grandes tempestades e mudanças climáticas bruscas, bem com contrastantes situações diárias: a alegria mútua é o elo de ligação entre as pessoas que desfrutam desse tipo de amizade, elas estão juntas porque acrescentam-se umas às outras, é a chamada amizade desinteressada. O segundo tipo de amizade possui estruturas precárias, envelhecidas pela ação contínua do tempo que, antes mesmo das estruturas serem erguidas, já maltratava a sua matéria-prima, condenando-a também para outras construções: a necessidade mútua é o que une as pessoas nesse tipo de amizade, elas estão juntas porque satisfazem-se umas às outras, o laço que as une é frágil: tão logo a necessidade cesse, a amizade é imediatamente desfeita.

29 — O que causa desgosto — Em determinadas situações, simpatizamos com uma pessoa: o seu comportamento voluptuoso e afável alegra-nos o espírito; mas, de repente, percebemos que não era nada daquilo: aquele comportamento foi supernutrido ou mesmo criado pela situação — o seu verdadeiro comportamento para conosco não pode ser classificado senão como indiferente, frio e seco: por quê, por que tanto teatrinho? Por que tanta superficialidade? Por que tanto interesse e falsidade? Será a grande competição no nosso mundo que gera tais “habilidades” nas pessoas?

30 — Suicídio e sentimento de culpa, parte 1 — Dúvida não pode haver de que o suicídio não leva uma semana ou um mês para se formar: um ato dessa linhagem necessita de um campo fértil e de condições climáticas favoráveis para a sua nutrição e ulterior desenvolvimento, e para tais condições fazerem-se presentes em um ser humano, é necessário, no mínimo, uns nove meses — vejam que não estou apenas a falar daquele suicídio causado por crises existenciais ou depressivas, mas também dos outros tipos de suicídios, aqueles cujas causas estão circunscritas impositivamente por questões de honra e outras ainda; entretanto, detenhamo-nos no primeiro caso. A notícia de um suicídio sempre causa uma certa comoção nas pessoas, mesmo que aquele que se destruiu a si mesmo não passe de um desconhecido aos olhos gerais, pois as pessoas sabem, ou, se não sabem, sentem que aquele ato é um ato anormal, que vai de encontro e parte para um embate violento contra questões poderosíssimas que a nós são impostas pela natureza: praticamente tudo na nossa essência e no nosso ser implica vida: os sofisticados mecanismos de defesa corporal e psicológico, os batimentos contínuos do coração que empurram o sangue, fazendo-o circular por todo o corpo, a falsa percepção que temos quando nos percebemos como seres eternos (sim, foi isso mesmo que disse, por mais profundo que seja esse “sentir-se” eterno, ele não passa de um sentir falso, que manifesta-se conscientemente numa percepção equivocada e cuja função maior parece-me ser a de apoiar o ser humano emocionalmente). Contudo, a nossa natureza inteira não é direcionada para a vida, pois existe em nós algo destrutivo, que é direcionado para a morte e que, por apresentar-se, em geral, sempre tão timidamente e às ocultas, não é percebido pela maioria das pessoas, e é também dessa impercepção que advém o espanto delas em relação ao suicídio. Não sei precisar exatamente o porquê da existência dessa nossa parte que muitas vezes promove ataques devastadores contra nós mesmos e contra tudo aquilo que a nós se assemelha (não negarei a identidade: aquele ser imperioso e aniquilador presente em alguns sociopatas e aquele outro cujo comportamento furtivo torna-o praticamente imperceptível são, na verdade, um mesmo ser, isto é, trata-se da nossa essência auto-destrutiva), mas provavelmente a necessidade da morte, que inegavelmente faz parte da vida e é desejada pela natureza, tenha alguma participação nisso: talvez seja um grande contra-senso a existência de seres que, mesmo que a morte faça-se sempre presente nos seus destinos, possuíssem naturezas inteiramente direcionadas para a vida.

31 — Suicídio e sentimento de culpa, parte 2 — Em muitos suicidas, malgrado o suicídio ser, muitas vezes, um pedido de socorro, isto é (que curioso!), o suicídio em muitos momentos nada mais é do que a expressão do desejo de viver, porém em muitos suicidas podemos perceber um forte desejo de auto-aniquilamento, oriundo de sofrimentos e de um sentir cujas causas repousam em um desequilíbrio espiritual e corporal; o problema é que tal desejo, nele, sofreu uma hipertrofia, ele apresenta-se alterado em relação ao normal, e isso devido a uma constituição alterada em relação à normal.

32 — Suicídio e sentimento de culpa, parte 3 — Não é difícil encontrarmos relatos que nos permitem concluir que a maioria dos suicidas (talvez todos) experimentavam um forte sentimento de culpa antes de darem adeus à vida, mas seria um grave erro atribuir a esse sentimento uma participação direta no suicídio: assim como outros sentimentos ditos negativos, ele é apenas uma expressão exteriorizada de uma infelicidade muito profunda e interiorizada — ocorre algo parecido quando, em muitas pessoas, depois de satisfações sexuais diversas, aparecem sentimentos como de arrependimento ou de culpa, e isso se dá porque, muitas vezes, depois da satisfação sexual, como ela vem a ocorrer rápido e intensamente, dá-se um certo desequilíbrio corporal e espiritual: uma certa tristeza então aparece representando um desequilíbrio suscitado por um estado muito intenso e curto de, digamos, “alegria”; o mesmo ocorre em muitos alcoólatras ou usuários de outras drogas que, devido a um estado de intensa “alegria” e “satisfação” provocado pelas drogas, mergulham seguintemente em estados depressivos. Dessa forma, quando essa tristeza aparece, ela traz consigo sentimentos negativos, como os supracitados, mas que não são a causa da tristeza, antes é preferível vê-los como a própria tristeza ou como expressão da tristeza sentida pelo espírito. Fazendo uma analogia, sentimentos de culpa e afins que ostentam aqueles propensos ao suicídio não são outra coisa senão uma consequência das suas tristezas, ou ainda, são a própria tristeza, e não a sua causa.

33 — A colheita — “Pai, por que a colheita só nos trouxe frutos azedos e sem sabor neste ano?”; o pai lhe responde: “Culpa nossa, filho: nossas sementes não eram boas e colhemos o que plantamos”. O filho, insatisfeito, retorquiu: “Mas como é nossa culpa, se não tínhamos dinheiro para escolher e comprar as sementes e se as que plantamos nos foram dadas pelo governo, sem a menor possibilidade de nossa deliberação?”.

34 — O que nos faz sorrir — Um dos alicerces do comportamentalismo era a crença de que, se tudo estiver bem, então todos estarão bem. Antes do behaviorismo, o positivismo de Comte já havia esbanjado uma crença semelhante (o cientificismo, a crença de que tudo pode ser resolvido, ordenado, e de que todos podem ganhar com isso, etc.). Contudo, um homem altruísta, que propicia a alegria dos outros, muitas vezes pode ser um homem extremamente infeliz consigo próprio. A alegria de um homem não pode ser fruto de um desprezível e insípido adestramento nem tampouco um efeito de causas externas.

35 — Devaneios: o papel de cada um — O gênio louco tem a função de contribuir intelectualmente com a espécie; as pessoas felizes e intelectualmente pobres devem apenas trabalhar para o sistema e procriar; mas e aqueles que nascem sem forma, sem saúde e sem mente, qual o papel deles? Talvez seja fazer com que os outros se sintam superiores.

36 — Do preconceito, parte 1 — O (pre)conceito é mais natural e comum do que se imagina, e na verdade ele já acompanha o ser humano a partir do momento em que este começa a formar os seus primeiros conceitos e ideias — o uso do termo “preconceito” para designar sempre discriminação, exclusão, estupidez e afins provocou um desfalecimento completo em todos os seus aspectos positivos (saber que não sabe, necessidade de progredir no conhecimento) e fez com que o termo, aos ouvidos de quase todos, passasse a ser sinônimo de algo podre, um daqueles lixos sociais onde todos são causas com as suas contribuições, mas que derramam o suor para protegerem-se da acusação. O preconceito é um conceito formado antes de se ter bases firmes para tal, e sua necessidade existencial é natural e necessária: os conceitos são formados automaticamente e é sempre inútil tentarmos impedir a sua vinda. Sendo a falta de conhecimento um dos requisitos para a instalação dos preconceitos, é-nos evidente a manifestação dos mesmos em todos nós. Mas nisso tudo existe um grande problema: não existe sequer uma idealização de um estado em que os conhecimentos possuídos por um homem sejam ideais para a formação deste ou daquele conceito, ou ainda, o preconceito existirá ou deixará de existir, em qualquer situação e com quaisquer pessoas, dependendo do ponto de vista adotado; de onde se segue que qualquer tentativa de vulgarizar a questão afirmando, por exemplo, que o preconceito diz respeito antes àquelas pessoas que ostentam visivelmente rupturas intelectuais graves e intensas, tais tentativas caem por terra e morrem antes de nascerem (são preconceituosos os que assim agem!). A despeito de tais coisas, é quase sempre acertado um outro uso que se faz do termo “preconceito”: naqueles casos em que é utilizado para revogar uma superstição ou uma mera crença absurda e ridícula, tão presentes no nosso mui culto povo; porém, mesmo nesse caso, podemos ainda suspeitar e duvidar de sua validade, tendo, em muitos momentos, que reconhecer a relatividade oriunda e justificada pelos diferentes pontos de vista (duas pessoas que sustentam crenças absurdas, uma para outra não será preconceituosa, conquanto para nós o seja). O uso mais acertado do termo e que permite menos objeções são naqueles casos em que o utilizamos quando fazemos referências a pessoas que manifestamente expressam ódio por uma determinada religião, raça ou país: neste caso, o preconceito nada mais é do que o corpo do sentimento, ou seja, a sua parte visível, ou melhor, a exteriorização de um sentimento, e como tal a sua invalidação não é possível, porquanto concerne a algo primitivo.

37 — Do preconceito, parte 2 — É indubitável que na pessoa e nos atos de Hitler vemos uma das manifestações mais preconceituosas de que se tem notícia ao longo da história da humanidade. O seu preconceito, que era o próprio ódio, e embora ele não tenha percebido, pois certamente o seu sentimento era tão titânico e tirânico que subjugou toda e qualquer percepção racional, empurrando-a e forçando-a a imergir nos mais profundos abismos de sua consciência fragilizada e atônita, perpassou completamente as fronteiras do salutar, do racional e do coerente, transformando-se em uma espécie de loucura insensata. Não é difícil compreendermos como pode um ser humano agir de uma forma tão fria e cruel para com os seus semelhantes, pois, como já foi tratado, basta apenas que ele veja os outros humanos como objetos ou como criaturas completa ou parcialmente distintas dele, assim como nós fazemos com um rato ou com uma barata; contudo, não é fácil chegarmos à compreensão do porquê de algumas pessoas olharem dessa maneira para os seus iguais. Já procurei, escrutei, perscrutei, revirei e nunca encontrei um argumento firme com o qual pudesse sustentar a afirmação de que é impossível o nascimento de uma pessoa que trouxesse consigo, de forma inata, alguma espécie de sociopatismo, e não estou a falar de uma constituição favorável para o desenvolvimento do mesmo, porém falo do sociopatismo não como um desvio mas como uma característica natural de um homem qualquer. Por outro lado, devo considerar que, se tais casos existem, eles são raros, o que nos conduz ao caminho no qual pensamos que o meio e a constituição orgânica das pessoas são os fatores determinantes para o surgimento de seres tais como Hitler, um autêntico criador e pregador de preconceitos. Pessoas da linhagem de Hitler não são tão raras como comumente se pensa: encontramo-las na política, nos exércitos, na polícia, na igreja; a grande diferença entre estas e aquele nazista é esta: Hitler teve o poder nas mãos — ele foi apenas um representante famoso da categoria, que com sua retórica envolvente conseguiu persuadir uma multidão de imbecis (a fraqueza dos alemães fez deles imbecis) (lembre-se que Hitler não fez nada sozinho). Um olhar não muito demorado, mesmo que por uma velha fechadura, para todo aquele preconceito sofrido pelos judeus, mostra-nos que o que ali existia era tão-só uma situação ou um conjunto de situações favoráveis para o desenvolvimento, em pessoas propensas, de um ódio contra a humanidade (sede de poder em demasia é sinônimo de ódio contra o mundo), um ódio que extravasou-se desumanamente e do qual um outro ódio nunca deixou de ser conjugado: o ódio do algoz contra o algoz, o ódio dirigido para o interior, o ódio de si mesmo...

38 — Do preconceito, parte 3 — O preconceito racial assenta nas diferenças entre os outros e o ser preconceituoso, ou melhor, é fundado em atritos de identidades grupais ou individuais que supostamente existem de fato, mas que para darem origem a preconceitos só precisam ser imaginados ou percebidos como coisas reais. Diante de um ser muito diferente de nós, um cavalo por exemplo, nós seres humanos poderemos até ponderar sobre a vida, sobre os seres vivos, sobre o cavalo, e por conseguinte manifestarmos um comportamento um pouco diferente do que o normal em relação a um cavalo; contudo, eis que geralmente não é isto que sucede: devido ao adestramento, as pessoas já estão tão imbuídas das enormes diferenças existentes entre um homem e um cavalo que se forem solicitadas para descreverem algumas delas terão uma imensa dificuldade para apresentarem uma visão aceitável da questão, com os seus conceitos e argumentos sendo passivos de ataques simples e energicamente fracos e, porém, muito poderosos e violentos. Como consequência, tais pessoas não tratam um cavalo ou outros animais como um ser idêntico a elas, isto é, não terão a menor compaixão pelos mesmos e tratá-los-á como meros objetos do qual devem fazer uso para benefício próprio. Algo parecido ocorre na formação dos preconceitos raciais: o contato entre raças ou culturas muito diferentes umas das outras expõe os seus membros ao contato com pessoas razoavelmente distintas, propiciando em alguns a ideia ou a sensação de que o outro é menos ser humano do que ele próprio, justamente porque ele forma suas concepções de não-humano a partir de si mesmo e do que os outros vêem nele; como efeito, temos a aparição do preconceito, que neste caso não é outra coisa senão a ideia, consciente ou não, de que uma outra pessoa não deve ser tratada como tal, pois como tal ela não é vista. Existe uma outra forma de vermos isto: quanto mais empatia sentirmos por alguém, mais o trataremos dignamente e nos esforçaremos para agradar-lhe, porquanto à imagem daquele alguém veremos o nosso próprio eu, e os interesses do eu sempre estão dirigidos para o eu; inversamente, quanto mais uma pessoa for diferente de nós, mais nos comportaremos desdenhosamente em relação a ela, salvando-se apenas os casos em que ela pode-nos ser útil de alguma forma. Entretanto, o preconceito daí apenas não é originado: a nossa incrível e pouco inócua capacidade de rechaçar tudo aquilo que é suspeito ou diferente aos olhos sociais também tem o seu papel na formação do preconceito, e somos suscetíveis a essa coerção porque possuímos uma ânsia profunda e irrequieta, que incansavelmente pretende atender aos apelos da sociedade para que não soframos isolamento — neste caso, o bem-estar que emana do não destoamento de opiniões e comportamentos é apenas um fruto da sensação de preenchimento e segurança advindos do “sentir-se” no grupo. O preconceito assim é duplamente alimentado e a sua negação é também uma negação parcial da sociedade: eis porque preconceitos deste tipo são tão difíceis de serem destruídos: a barreira que deve ser sobrepujada é formada pela própria sociedade.

39 — Do preconceito, parte 4 — Infindável é o número de preconceitos existentes em todos os diversos setores sociais. Os portadores do H.I.V. sofrem uma série de privações e agressões morais provocadas, aqui sim, por uma falta de conhecimento inicial que, auxiliado pelo medo da morte e pelo egoísmo, propiciou um caminho não muito íngreme para que o preconceito pudesse desenvolver-se e tomar descomunais e amplas proporções. Todavia, penso eu, esse tipo específico de preconceito sofrerá ataques muito violentos em suas bases e o seu desfalecimento será quase inevitável; porém, um longo tempo será necessário para que ele realmente seja fortemente amenizado. As pessoas obesas outrossim são alvo de muitas discriminações, o mesmo sucedendo com aquelas portadoras de deficiências físicas ou mesmo deformações ou diferenciações inatas. Entretanto, motivados por uma generalização de termos ou mesmo preconceitos, muitos se enganam ao pensarem que os obesos sofrem com o preconceito: no caso deles, não existe preconceito (com raríssimas exceções), eles sofrem por serem vistos como pessoas diferentes e que não atendem a certos padrões sociais. Veja-se bem: um preconceito pode ser a expressão de um sentimento a partir do momento em que este impede a ação de um discernimento mais apurado dando origem àquele; ele também pode ser a nítida falta de conhecimento, como no caso dos aidéticos; e também pode ser originado pelas diferenças, como acontece nos preconceitos culturais; todavia, conquanto os deficientes físicos e possuidores de deformações sofram com o preconceito causado pelas diferenças, a agressão sofrida pelos obesos não é causada por nada disso, ou seja, não é originada de preconceitos, sejam os tratados aqui ou outros. Que estou a dizer? Todos os atos sarcásticos, agressivos ou discriminatórios dirigidos aos obesos devem sua origem a basicamente duas coisas: os padrões sociais e as práticas mercantilistas. Os padrões sociais são a causa de muitos incômodos insensatos, como os sofridos pelos baixinhos, e fixa os seus alicerces no desejo inerente aos seres humanos de estarem por cima uns dos outros, de serem mais bem vistos; isto é, os obesos sofrem porque as pessoas têm um desejo irreprimível de sentirem-se superiores, e a existência desse “sentir-se” por cima é condicionada por padrões sociais, como os padrões de beleza, por exemplo. Poder-se-ia indagar, não obstante, se tais padrões ou conceitos não são também meros preconceitos, ao que responderia dizendo que, embora não negue a relatividade desses padrões e conceitos, não vejo como se poderia tornar possível uma admissão dessa espécie, pois os conceitos de beleza não são derivados de outros, ou seja, são primários, e os preconceitos tomam a sua forma de outros conceitos já existentes. As práticas mercantilistas também dão a sua contribuição para o sofrimento de muitos e intensificam a sensação de que a sociedade é preconceituosa. Assim, muitos pensam que, quando um negro é recusado em um emprego porque tinha um branco competindo com ele, ou quando um obeso ou aidético não conseguem prosperar profissionalmente por causa da doença ou da aparência, é porque eles sofreram preconceitos; nestes casos, porém, geralmente não existe preconceito algum: forças externas, por exemplo, clientes, é que impedem, por exemplo, um gerente de hotel de contratar um negro para ser balconista, pois neste caso ele poderia desagradar a muitos e até perder clientes (o capitalismo é desumano: o capital é o centro das atenções), ou seja, no máximo podemos sustentar que o gerente foi coagido por preconceitos, mas não que ele tenha agido preconceituosamente. No caso dos gordinhos, esta situação é um pouco diferente: quando eles não conseguem ser modelos ou atendentes, não é por causa de preconceitos, porém tão-só por causa de exigências da profissão, as quais, neste caso, como já deve ter ficado claro, na grande maioria das vezes, tiram suas origens de conceitos.

40 — Do preconceito, parte 5 — A cultura ou o saber podem abrandar os preconceitos de uma sociedade, porém sua ação prática é extremamente restrita: o saber consciente dificilmente introduz-se nos abismos profundos dos quais o comportamento é fruto. Os preconceitos de uma sociedade culta, em relação a uma pouco erudita, são bem menores; todavia, se tomarmos isso como parâmetro, a distinção comportamental entre ambas praticamente inexiste: um homem pode olhar para uma mulher ou para um negro e pensar que eles são seres inferiores; ele pode discriminar ferozmente um homossexual, mas nem por isso ele deve ser considerado um homem preconceituoso: se ele ponderou bem sobre tais questões e é inteligente e possuidor de bons conhecimentos, no máximo podemos acusá-lo de ter desenvolvido conceitos equivocados e distorcidos...

41 — Do preconceito, parte 6 — O pensamento consciente é apenas uma pequena parte de um grande todo e neste caso aparece apenas como um justificador, um caçador de motivos, não sendo, portanto, o verdadeiro causador de ações preconceituosas, sejam elas positivas (existem preconceitos positivos para a sociedade e para o próprio indivíduo) ou negativas. Os preconceitos se referem menos a saberes do que a instintos e paixões, e aqueles que quiserem realmente combatê-los terão que se ver com estes e não com aqueles.

42 — Nossas diferenças — Pergunte a qualquer um transeunte ou alguma pessoa do teu conhecimento qual a diferença entre os seres humanos e os demais animais; responder-te-ão, em um coro desarmônico, que o homem é um animal racional, e que tal racionalidade não se faz presente em todos os demais animais. No entanto, ao admitirem que os seres humanos são superiores aos outros seres vivos (eles o fazem) e que tal superioridade advém da racionalidade, precisamente isto nos faz pensar que o que diferencia um homem superior de um inferior é a racionalidade ou capacidade de refletir: os pensadores, portanto, estão por cima de todo o inepto rebanho restante, aqueles que outra coisa não fazem senão curvar-se e obedecer, tal como um escravo, todos os seus instintos tirânicos e poderosos (ganham poder ante sua fraqueza), aqueles que vivem embriagados nas festas e dançando aquelas músicas ridículas, aqueles que vivem para a prática esportiva, aquele professor humilde que tagarela repetidamente as mesmas coisas durante o ano inteiro, aqueles policiais ignóbeis que nunca deixam de estar imbuídos de serem melhores do que os outros, aquele vil juiz que pensa ser o detentor de poderes naturais quando na verdade todo o seu poder emana de meras convenções sociais... Porém, será isso mesmo verdade? E se estivermos sendo enganados por algum orgulho infantil? E se a nossa posição for a mais desprezível possível? E se os outros, aqueles cujo comportamento não muito é dessemelhante do dos outros animais, estiverem no cimo da espécie? Não, meus amigos, nada disso é assim: a diferença entre os homens e os animais não repousa no que foi dito.

43 — Espíritos errantes — Vejam só, vejam só: o seu corpo está ali mas... Cadê o seu espírito? Se perdeu do corpo? Não quis vir? Não quis mais ficar? O que aconteceu com ele? Por que ele resmunga tanto? Por que ele está tentando convencer a si mesmo de que pertence a este lugar? Ele realmente nasceu aqui? Ele é um erro? Existe solução para ele? Por que ele está tão só? Ele terá condições de encontrar novamente o seu espírito? Ou será que ele nunca o viu? Não estará sonhando de olhos abertos? Por que os seus pensamentos são tão desordenados? Não será culpa do espírito que está sempre a vagar?

44 — Aos nossos sonhos — então vós pensais que sois importantes e valiosos? Não! Basta que nos aproximemos de vós que logo tua opacidade começa a desfazer-se frente aos nossos olhos! Vós imaginais que sois o sentido e o significado da vida? Tolo engano: vossa imagem é mais frágil do que a do rio do deserto. Não, não, vós não sois nada disso: contrariando a crença que em vós está presente, não estais à nossa frente nem muito menos ao nosso lado, estais por detrás, sois o nosso humilde e servo escravo, estais sempre a nos servir: sem nós, vós não existiríeis, e tão logo usufruímos dos vossos préstimos, tão logo nos encontramos convosco, perdeis o teu valor, deprezamo-vos e ficamos até a lamentar por termos atribuído tanto valor a uma simples ilusão.