Terceira Parte

 

1 — Do estado de natureza — As alterações ocorridas na natureza, mesmo aquelas nas quais somos afetados de uma forma a acreditar em mudanças repentinas e criações assombrosas, não se dão tão rápidas como muitas vezes costumamos imaginar. Sempre que olhamos para um grande salseiro, parece que por vezes esquecemos da quantidade de horas, dias, meses ou mesmo anos e séculos que o causador de uma violenta torrente leva para se formar, e passamos a acreditar, muitas vezes despojados de qualquer espécie de pudor intelectual, em determinações aleatórias e mágicas, na criação racional, repentina e consciente de algo. As coisas na natureza nunca transcorrem dessa forma: revolteemos os nossos olhares e poderemos perceber que ao nosso redor ocorre uma infinidade de coisas em diferentes modos distintos e semelhantes, onde nossa percepção mostra-se impenetrável; todas essas pequeninas coisas fazem parte do todo e dependem do todo: não existe independência na natureza, mas tudo é determinado por tudo e tudo determina tudo. Mantenhamos essa ideia e pensemos por um instante no estado de natureza da raça humana proposto pelos contratualistas. Só uma doce, frágil e comandada ilusão pode levar-nos a acreditar em uma distinção ou separação entre o estado social e um tal estado de natureza. Jamais houve um consentimento entre homens para determinarem a criação de um estado político, assim também como a ação individual não logrou êxito na incumbência de se sair de um estado pretensamente natural, como se por algum motivo houvesse um estado de ser e estar que fugisse da natureza: tudo é natural, e conquanto muitos, com sua condescendência enganadora, tentam-nos exortar de que existem fatos estranhos ou ainda que não são naturais, mesmo assim, sem muita reflexão, não é difícil concluirmos que nada foge às leis da natureza, e mesmo os atos mais mesquinhos e estranhos estão nelas encaixados. As mudanças nas relações humanas que ocorreram ao longo dos tempos não foram senão imperceptíveis e naturais, mas muitos pensadores, ao tentarem analisá-las, olharam para o estado atual e para um outro imaginário, e além deste erro, esqueceram de considerar a continuidade temporal: fizeram como um pai que, devido a uma vida errante e impensada, largou a filha com a mãe numa idade tenra e passou anos andando pelo mundo sem sequer procurar notícias dela; quando então voltou para casa, anos depois, distinguiu completamente a filha que largara da filha que agora o despreza, “esquecendo-se” das transformações lentas e graduais que ocorrem com um ser humano; por outro lado, o pai que acompanha a filha, o pai que está sempre junto a ela e vê diariamente o seu crescimento, esse pai não percebe distinções: muito raramente, ele, em um dia qualquer, é que pensa assim: “Meu deus! Aquela coisinha pequena e delicada já se transformou em uma mulher! Como o tempo passa!”. As relações humanas gerais e específicas, a ética, a moral, as leis, etc. desenvolveram-se natural e automaticamente, sem a percepção nítida dos seres humanos e sem suas deliberações racionais e conscientes a respeito dos rumos que deveria tomar suas vidas. Assim como não escolhemos se seremos moralistas ou não, se seremos filósofos ou não, se sentiremos amor ou ódio pela humanidade, igualmente os homens não escolheram se queriam ou como queriam a organização das sociedades das quais faziam parte, pelo menos não por um livre decreto geral ou individual, sendo sujeitos às necessidades e vantagens que afetavam suas vidas, desta forma guiados por impulsos e instintos que com toda razão são dignos de serem considerados os mandatários das organizações sociais que passaram a ser “estabelecidas” entre os homens nos diversos lugares e nas diversas épocas.

2 — Receptividade para a dor, parte 1 — A natureza do ser humano dá-lhe a forma de um barco que precisa de ventos para percorrer os diversos caminhos que se lhe mostram, mesmo aqueles que ele tão-somente entreve por detrás dos nevoeiros e também aqueles que ele sequer conhece ou imaginou: tais ventos são constituídos, ou melhor, em sua maioria são a própria dor ou necessidade. O sofrimento é o combustível que nos faz andar, não propiciando-nos uma existência parada e fastidiosa: como seria triste termos que viver parados, sem necessidade, sem angústias e desejos portadores de grande força que arrebatam-nos da nossa humilde e enfraquecida serenidade natural. Vivamos a dor, pois assim como o pólo norte não existiria sem o pólo sul, assim também não teríamos alegria sem a dor. O sofrimento faz parte do esquema das coisas, e nós não temos a mínima capacidade para imaginar como seria viver sem derramar lágrimas por esse mundo: elas, as lágrimas, lavam nossos olhos, tirando-nos a neblina de nossa frente e fazendo com que o cintilar de todas as coisas afete-nos com mais violência: a maior de todas as tristezas é experimentada por aqueles que não mais sabem chorar. Choremos, pois assim como o sorriso, o choro é também uma expressão de vida. O próprio ser humano sabe, senão pelo raciocínio, mas pela intuição, que a dor é sempre necessária e que dela nunca poderemos ser livres: dê-se tudo a um ser humano: não tardará para que ele comece a sofrer com o tédio; facilite-se as coisas para alguém desde cedo: tornar-se-á uma pessoa mimada que com o mais insignificante e medíocre obstáculo logo fica entristecida; e isso ocorre justamente porque se as condições externas não propiciam muito sofrimento ao homem, a própria natureza humana se encarrega de fazê-lo. Admitindo que isso pudesse, de alguma forma, ocorrer, que haveria de suceder à humanidade se se inventassem uma droga qualquer que tornasse as pessoas ininterruptamente contentes? Em um estado desses, que é completamente contrário às leis da natureza, pois todo ser sofre à sua maneira, os homens agiriam livres da coerção universal e em desacordo com as leis da autopreservação individual e do grupo do qual é parte inerente, ficando à mercê da desordem e sucumbindo em seus atos impensados: justamente isso haveria de suceder porquanto a ordem e o esquema geral das coisas possui o sofrimento geral e individual como uma de suas engrenagens principais: retirando-a, o caos se instala.

3 — Receptividade para a dor, parte 2 — Mesmo na posse do saber que nos diz haver uma relação de dependência mútua entre a dor e a alegria, não seria pouco sensato ainda perguntarmos se a nossa natureza, a natureza humana, se sua receptividade para o prazer é maior do que sua receptividade para a dor. Um homem pode sofrer até chegar ao suicídio, isto é, o sofrimento pode atingir, num triste transcorrer paulatino, uma força descomunal até que se torne insuportável para o ser sofredor; o mesmo, no entanto, não ocorre com a alegria: quando somos afetados por um longo tempo pela alegria (e isso é raro), à não ocorrência de nenhum fato que nos venha a incutir infelicidades, então nos deparamos com o tédio, isto é, de forma natural, saímos sempre de um estado em que todas as nossas necessidades e desejos estão satisfeitos e vamos caminhando em direção da dor. Isso nos supõe que a receptividade para a dor é maior. Mas é possível ainda redarguirmos: o suicídio é uma espécie de remate repentino e prematuro com o qual um homem põe fim a um processo que ainda não chegou ao seu fim; qual garantia temos que os suplícios cruéis não chegariam ao fim, caminhando neles mesmos, se o homem continuasse a existir no seu próprio ser? Será que depois de vistosos e pungentes suplícios gradativos o ser humano não encontra alegria e paz, se não vier a suicidar-se? O “refletir” muitas vezes é também uma expressão da dor: não será por isso que muitos, em suas reflexões racionalmente adormecidas, atribuem um valor tão elevado à dor? Não estaria acontecendo isto conosco, neste momento? O homem tem uma grande capacidade de adaptação, e este precisamente foi o fator determinante para quase todos os progressos (adote-se uma perspectiva) da espécie, pelo menos no que tange à sobrevivência; entretanto, ter que se adaptar implica perigo, e perigo implica alguma espécie de privação ou sofrimento: quando um homem vai à guerra e mata o seu semelhante pela primeira vez, uma manifestação súbita de remorso ou dor pode fazer-se presente, mas quando ele já tiver tirado a vida de nove ou doze, é provável que já não sinta mais nada: adaptou-se! Quando uma mulher sensível e com uma tênue autonomia perde o seu bem-amado, mesmo apesar do aparecimento de uma dor não muito fácil de ser rechaçada, ela pode muito bem, aos poucos e lentamente, retomar sua vida e, mesmo carregando em algum lugar recolhido do coração tristes lembranças por durante toda a sua existência, voltar a levar uma vida satisfatória: adaptou-se! Somos animais adaptados e em constante estado de adaptação, porém adaptação é também sofrimento, e, portanto, uma grande capacidade de se adaptar é igualmente uma grande capacidade para receber e lidar com os diversos sofrimentos dos quais somos vítimas. No caso do suicida, a sua desolação vai crescendo e sua receptividade para a dor é tão grande que ela não pára de aumentar, atingindo um ponto crítico onde o homem pratica um ato que volta-se contra grande número de instintos e paixões. Em verdade, nossa receptividade para a dor não é maior do que a receptividade para o prazer, mas é bem maior; e assim deve ser: no universo, o “uno” só pode e só se refere ao todo: o que verdadeiramente nos atinge é o “diverso”, a aparentemente contraditória multiplicidade existencial.

4 — O silêncio — O ser quando fica a sós consigo próprio e desvencilha-se do contato próximo e imediato com os seus entes, passando a sentir e observar toda a grandeza do macrocosmo, em oposição à superfície nítida e enrugada que mediocremente invade e ocupa todo o ser do ser que não consegue se abstrair em pensamentos mais profundos e silenciosos, este ser faz do silêncio uma grande fonte de aprendizagem. Todos nós, mesmo nos mais vigorosos e altivos sentimentos, carregamos uma poética viril e sensível com a qual, conquanto muitos tentem escondê-la, contemplamos a natureza e a nós mesmos, fazendo-nos parte do todo e com o todo pintado numa pintura artística cuja beleza estética toca a essência do ser humano. Em momentos tais, de pura reflexão inconsciente, não difícil é termos o esclarecimento de dúvidas ou mesmo a emersão de ideias, como uma espécie de insight milagroso: mas o encanto aparece apenas por causa do desconhecimento, da falta de consciência que temos do mundo interno e de suas lutas e batalhas rumo a novos saberes. Enganam-se todos aqueles que imaginam ser o conhecimento um fruto de estudos ou de observações empíricas ou racionais: muito se aprende no sombrio silêncio do silêncio.

5 — O tempo — Muitos dos transtornos e sofrimentos que afligem as pessoas mantêm alguma relação com o tempo: é assim em praticamente todas as preocupações ou nos diversos tipos de ansiedades, onde o tempo martiriza as pessoas infligindo-lhes sentimentos irrequietos que transformam a existência presencial em um tormento temporal. Por outro lado, sempre que estamos felizes, quase não nos damos conta do tempo: é que a felicidade implica sintonia com o todo, e no todo o tempo não se faz presente.

6 — Homossexualismo — Em nosso belo tempo, onde cada vez mais presenciamos ultrajes contra preconceitos, não difícil é de percebermos que tais atitudes são superficiais, um jogo artístico e teatral com o qual se pretende angariar benefícios: os apresentadores de TV e os atores são doutores nessa mui bela “arte”. Andemos pelo mundo prestando sempre muita atenção às atitudes, gestos, olhares e falas das pessoas: uma vez mais, aqui, temos uma profundeza abissal entre o mundo dos contos de fada e o presumível mundo real: o preconceito ainda está radicado em muitas e muitas pessoas, pobres e ricos, homens e mulheres, ignorantes e intelectuais. Contra os homossexuais, existe uma manifestação de desdém ou ódio emanada de quase toda a sociedade: mesmo quando alguém mais “esclarecido” diz que acha compreensivo e aceita a questão do homossexualismo, faz questão de completar: “Mas vejam só: eu não tenho nenhum homossexual na família, hein!”; dizem isso querendo mostrar que sua visão sem preconceito não se origina do fato de que alguém de sua estima é homossexual: porém traem-se a si e aos outros, que se deixam enganar porque também são preconceituosos. Mas, contra os homossexuais, o que se sustenta? Qual o pseudo motivo com o qual tenta-se mascarar e até encouraçar uma mediocridade social na qual muitos figuram como opressores e causadores de frustrações e depressões diversas? Parece-me que o argumento mais eficaz contra o homossexualismo é este: o sexo foi criado por deus para a procriação; mulher com mulher ou homem com homem não procriam, logo: o homossexualismo é um distúrbio; também já ouvi falácias do tipo: pesquisas indicam que os homossexuais são mais dispostos a terem depressão. O segundo argumento, se é que podemos dar uma tal denominação a uma afirmação cuja integridade é sempre suspeitável e envolta por imensas dificuldades de aceitação, desfalece ao olharmos para todo o sistema complexo no qual vivemos: assim, pois, tal afirmação pode ser facilmente rebatida por aquela que diz que a propensão dos homossexuais para a depressão é oriunda do próprio sofrimento destes causado pela discriminação e pelo desprezo das pessoas, inclusive dos seus pais. O primeiro argumento constitui-se como um argumento firme, não tão fácil de ser rebatido. Sustenta-se no pressuposto de que o ato sexual é dirigido unicamente para a procriação: derrubando esse pressuposto, o argumento cai por terra. Então vejamos: é indubitável que a paixão e a atração sexual tenham como objetivo maior a procriação, mas é dubitável que este seja o único objetivo: as próprias pessoas nunca reconhecem que a paixão só serve para a procriação, e se se sustenta que o único objetivo do sexo é esse, então temos praticamente os mesmos motivos para acreditar que o da paixão também o é. A mais forte expressão da paixão é a alegria e o preenchimento (no caso de uma paixão positiva, claro), sentimentos que atingem o ser em toda completude arrebatando-o da temporalidade; o ato sexual é visto como algo mais isolado, provisório, e por isso mesmo é pensado como algo que se dirige para um fim, que tem uma finalidade específica: pergunte-se a algumas pessoas qual a finalidade da alegria e depois qual a finalidade do ato de almoçar: à primeira pergunta darão uma resposta frouxa, diversificada, talvez sem sentido mesmo; à segunda darão uma resposta certa, exata. Se o único objetivo do ato sexual é a procriação (e agora faço a mais alta questão de seguir a forma de pensar equivocada e ilusória daqueles que sustentam isso, isto é, pressuponho um mundo completamente ordenado e daí tiro minhas conclusões) seria de se imaginar que em toda relação sexual ocorresse a concepção, o que não ocorre: dependendo do caso, na grande maioria delas não ocorre. Com os dados que dispomos, portanto, é impossível concluirmos por meio de argumentações que o sexo tem como único fim a procriação, assim como não podemos concluir que também tenha outros fins além deste. E para aqueles estudiosos do eu interno que dizem ser o homossexualismo um distúrbio sexual, digo que por mais que se queira, não existem padrões ideais e inexoráveis, e usando a mesma medida que eles, posso dizer que todos temos distúrbios sexuais: tal distúrbio, consequentemente, não pode ser visto necessariamente como uma doença ou um empecilho para a felicidade: estar feliz é estar em harmonia com o seu próprio ser, é interagir adequadamente com o eu e com o mundo, isto é, estar em paz consigo mesmo, e talvez só os preconceituosos é que impedem os homossexuais, aqueles que sofrem, de desfrutarem de um tal estado.

7 — Esvaecendo — Pessoas hipersensíveis, não deixeis que a sombra dos outros vos desfaleçam, pesem sobre vossas almas, retirem a vossa tranquilidade: olhem para as pessoas, sintam-nas, mas abandoneis tudo de negativo que vier delas: não devemos carregar a dor do mundo em nosso espírito!

8 — O pacifista — Era uma criança carente, solitária, sofria com o desdém dos familiares, corria na chuva sozinha, com medo, com medo do escuro, com medo da luz, com medo sorria e gritava. Parava sempre para ver o quadro, admirava a música, percebia a calma ou o furor da cidade, com os colegas não brincava, fugia, fugia da realidade ao ver o pai pronto para bater-lhe. Sentia-se injustiçada e sozinha. Quando cresceu, viu-se nos outros, quis ajudar-se, quis retornar no tempo para fazer carícias e companhia àquela criança tão triste: levantou a bandeira da paz e fez dela um símbolo de sua luta contra as injustiças do mundo.

9 — Os discursos do poder — Determinados conceitos surgem da dualidade e devem coexistir sempre para manterem seus significados: assim, por exemplo, não tem sentido falar em pessoa alta sem ter a ideia de uma pessoa baixa. Todavia, não temos fatos dependentes aqui — pode-se conceber, de acordo com o sistema universal, pessoas de aproximadamente a mesma altura —, mas apenas ideias ou conceitos formados a partir de relações. Uma pedra não sente dor como nós, mas também não sorri, ou seja: existe uma relação de dependência entre a alegria e a dor, e já aqui não temos apenas ideias ou conceitos dependentes, mas fatos dependentes também — a alegria em si mesma depende da dor, e não podemos conceber um mundo alegre no qual inexiste a dor. Aplicando este último raciocínio numa situação incabível, muitos concluem que a pobreza e a riqueza devem sempre existir de qualquer maneira, pois, devem pensar eles, existe uma relação de dependência necessária entre ambas e que não se limita apenas às ideias, porém se estende aos fatos, isto é, não se trata apenas de uma relação existencial ideal, mas factual também — não existe pobre sem rico e vice-versa. Todavia, a despeito de não ser possível conceber um mundo sem sofrimentos, é possível conceber um sem pobreza. Aqueles que nos dizem que a pobreza é natural e sempre existiu, que devemos aceitar as coisas como são, pois não podem ser diferentes, têm uma visão distorcida ou estão se insinuando para os poderosos — ou são eles próprios.

10 — Perspectivismo — Seria prudente acreditarmos na tese de que todo conhecimento é relativo e depende das necessidades irracionais ou puramente instintivas do ser que conhece? Quem sustenta tal tese, não está o fazendo com a razão, isto é, com uma faculdade humana completamente controlada? Ao afirmarmos que as ideias de um homem, suas opiniões e concepções mais profundas, enfim, o que existe de consciente em seu intelecto, nada são senão um mero efeito, um resultado inevitável de operações, o que nos daria sustento e corroboraria conosco? Pois, se o intelecto é completamente controlado, então não podemos dar ouvidos ao perspectivismo, já que, como todas as outras doutrinas e concepções — mesmo a do livre-arbítrio — ela não é fundada em bases firmes, não passa de um efeito. “A verdade não existe”, dizem alguns; mas e se isso for verdade? E se não for verdade? Trata-se, portanto, de uma contradição gritante, imensamente povoada de dificuldades: de um determinado prisma, o perspectivismo nega-se a si próprio (o que é coerente segundo o seu ponto de vista: nenhum conhecimento expressa a verdade, logo a afirmação desta frase não é verdadeira, mas tal inverdade endossa e está acordando com que a frase nos diz, pois se ela fosse verdadeira, tornaria-se falsa). Entretanto, em que pese tudo isso, é sempre bom lembrar que a contradição também move o universo.

11 — O que não se demonstra — Na matemática, as demonstrações das proposições e dos teoremas exigem conhecimentos prévios e que não precisam de demonstração (axiomas), por serem, supõe-se, claramente evidentes e até, alguns, universalmente aceitos. Em qualquer outra ciência, ocorre o mesmo: é impossível retornarmos infinitamente no conhecimento — as deduções sucessivas são sempre limitadas —, e partindo-se de um único axioma falso, pode-se muito bem construir uma ciência completamente falsa.

12 — A espera — Qualquer estado conflitante interno, por ser conflitante, é também um estado de deliberações instintivas e de tomada de decisões, onde o indivíduo é arrastado para lá e para cá por forças que enfrentam-se entre si, num embate onde uma ou muitas delas começam a ser enfraquecidas pelas outras, até que enfim o equilíbrio começa a se restabelecer. Na consciência, em muitos casos, um estado desses manifesta-se como uma espécie de confusão: com inclinações múltiplas e divergentes, o indivíduo passa a não perceber o que realmente está querendo, ficando indeciso e pensativo; e isso tanto mais quanto mais intensa for a luta em seu coração. Em momentos assim, melhor é a espera do que o arrebatamento: enquanto este pode acarretar consequências em que há desastre, aquela, além de permitir um amadurecimento do sujeito, traz consigo a serenidade exigida para a tomada de grandes e sábias decisões.

13 — Visão materialista, parte 1 — Os estados chamados “espirituais” são na verdade estados da matéria, alterações da mesma cuja derivação se deve tão-somente a coisas físicas de um universo em permanente transformação, e cujo efeito são as alterações da alma ou espírito. Assim como não existem estados iguais de matéria, assim também não existem estados iguais de espírito: uma mesma ideia, por exemplo, a ideia do belo ou do amor, ou ainda outra mais simples, como a ideia de uma cor qualquer, não pode e não é igual nas pessoas: por mais semelhante que seja o expressar linguístico das pessoas, o sentido que elas colocam nas palavras possui dessemelhanças incríveis, e isso porque o estado material de cada uma possui consideráveis diferenças em relação às outras. Entendemos também, perfeitamente, a razão porque as grandes alterações do espírito ocorrem na idade mais tenra do ser humano: é nela, pois, que as alterações corporais se dão com maior intensidade. A própria adolescência caracteriza-se como uma época de conflitos internos e de busca de identidade: o corpo do adolescente passa por muitas e diversificadas alterações e está no seu estado final de transformação, isto é, depois da adolescência, o corpo humano atinge um certo equilíbrio; e então dizemos que ele atingiu a maturidade, ou seja, um estado de espírito equilibrado. Destrua-se o corpo de um homem, e o seu espírito não mais existirá. Só um sonhador, um daqueles cujo instinto domina e cuja falta de inteligência é sempre marcante, não consegue perceber a clareza dessa tese.

14 — Visão espiritual, parte 2 — O corpo não tem poder algum sobre o espírito: qualquer espaço extenso, delimitado ou não, possui matéria aqui e ali e espaços vazios por onde os corpos se movimentam: mesmo o chumbo, por mais denso que seja, possui espaços vazios em seu interior, pois, ao admitirmos o contrário, não poderemos conceber qualquer alteração em sua forma, o que é um visível absurdo (até com uma unha podemos modificar sua forma). A imaterialidade, por outro lado, abrange todas as coisas e não é fragmentada: as leis da natureza — a da gravitação universal, por exemplo, que está totalmente diluída na imaterialidade universal — estão e agem em todas as coisas: basta observarmos o movimento dos corpos celestes ou darmos uma olhadela na fórmula da gravitação universal e teremos a nítida convicção de que a imaterialidade abrange tudo, pois por mais longínquo que seja um lugar, existem forças de atração neste lugar — mesmo que imperceptíveis —, isto é, o imaterial está presente. Sendo o material algo limitado e o imaterial algo infinito, concluímos então que a matéria é alterada pela imaterialidade, pois aquela primeira, por ser limitada, não pode intervir no infinito, no ilimitado, naquilo que ultrapassa infinitamente a sua própria potência de agir. Portanto, à luz da razão, só podemos admitir que o espírito é que altera o corpo, e não este àquele. Podemos ver também que o espírito, além de comandar o corpo, não é destruído com este, porquanto o espírito do ser humano é uma das expressões da imaterialidade, que por sua vez é infinita, isto é, não pode ser destruída. Só um ser adoecido por uma triste falta de fé pode admitir alguma coisa de verossímil na visão materialista.

15 — A vida que perde a vida — A nossa força existencial é a alegria, e quantas vivências não podem trazê-la! Sentimentos belíssimos são despertos por um olhar, por um carinho, por um gesto de amizade. Mas um rosto cujo dono tem um coração com muitos motivos para reluzir com a alegria, pode apresentar-se com grande abatimento: bastando para isso que outros sentires expugnem a alegria de, por exemplo, um amor por uma mulher, transformando-o em uma irremediável e pungente dor. Entretanto, não devemos fazer confusão: a culpa não é do amor que se sente.

16 — Uma grande tristeza — Uma grande alegria só pode ser abatida por uma grande tristeza — mas o inverso não é válido.

17 — O medo de ser feliz — O que comumente se chama “medo de ser feliz” é na verdade um receio causado por frustrações e sofrimentos passados, que, por serem “pensados” como portadores de sofrimentos maiores do que uma presumível felicidade que viria de uma determinada coisa com a qual estão relacionados, tem-se o medo delas virem para sobrepujar a felicidade: medo de ser feliz é, portanto, medo de ser infeliz.

18 — A ideia de ordem: progênie — Nos primórdios do pensamento sistematizado, os seres humanos começaram a desenvolver o seu conceito de ordem a partir da própria observação, explícita ou implícita, da natureza, ou seja: eles não aplicaram a ideia de ordem à natureza, mas tiraram-na dela. Assim, ao verem a passagem do dia para a noite e depois da noite para o dia numa sucessão indefinida, mas percebendo intuitivamente que tais sucessões ocorriam aproximadamente ao mesmo tempo, foi-lhes sugerido pelos instintos que ali havia alguma coisa de diferente em relação, por exemplo, à queda-d’água de uma cachoeira. Muito provavelmente, depois de muito tempo, quando já algumas ideias se encontravam em um estado de desenvolvimento mais avançado, os humanos expandiram aquele conceito simples de ordem e passaram a observar, já com uma certa consciência, outros fenômenos da natureza, principalmente aqueles ligados diretamente a sua sobrevivência: a cicatrização de uma ferida, por exemplo, devia ser vista como algo que possuía ordem, isto é, repetição de um fenômeno ocorrente sempre em determinadas condições. A ideia de fim, ou coisas concorrentes dirigidas para determinados fins, deve ter se desenvolvido juntamente com a ideia de ordem: a partir do instante em que se observava que alguns fenômenos tinham certas particularidades ou alguma coisa que sugerisse ordenamento, procurava-se entender o porquê disso, e assim os nossos antepassados começaram a desenvolver, com a ajuda dos efeitos causados pelos fenômenos, a ideia de fim ou efeito proposital. Tal ideia, no início, só era respeitante aos efeitos entrelaçados com a sobrevivência dos indivíduos, como no caso da cicatrização, da alimentação ou do sono — que servia para descansar. Um pouco mais na frente, os seres humanos começaram a passar os olhos ao seu redor e a fazer ligações de um alcance mais longo: viram as plantas — das quais também se alimentavam — crescendo em determinadas épocas do ano e começaram a indagar se elas não cresciam para eles comerem. Depois, observaram que era em épocas de chuvas que as plantas realmente cresciam e floresciam, e então ligaram uma coisa à outra e a si mesmos: chovia para as plantas crescerem, e elas cresciam para serem comidas por eles, ou seja, começaram a imaginar que existia um grande sentido nos acontecimentos: a noite foi feita para descansarem, a chuva existe para dar os seus alimentos, etc. Como nem os mais sábios conseguem ver o quadro inteiro, muitos supuseram que todo o mundo era ordenado, até que os corações atormentados e as mentes mais perspicazes começaram a colocar tal suposição à prova.

19 — A ciência e suas crenças — Modernamente, a ciência não aceita a afirmação de que chove para que os alimentos cresçam para os animais se alimentarem, pois a chuva veio antes dos animais; no entanto, ao se tratar do corpo humano, ela admite um fim para quase tudo (ou tudo mesmo): os pêlos do nariz servem para filtrar o ar, o suor equilibra a temperatura do corpo, os glóbulos vermelhos do sangue auxiliam no processo respiratório, etc., etc., etc. Existe mesmo uma coerência lógica nessas crenças? Não estará ela sonhando? Não esqueçamos que ela não passa de uma mera criação humana.

20 — Antes que o sol nasça, parte 1 — Quando estiver na escuridão, na taciturnidade obscura e pouco insolente da noite silenciosa, mesmo em estado conflitante e com os olhos não muito desanuviados, olharei para o todo e para o ínfimo, perceberei o que há de ligação entre eles, quais suas relações comigo, porque eles também não deixam de me afligir e perturbar. O marejar de meus olhos e o arfar do meu coração darão um aspecto turvo às coisas em redor de mim, e elas se insinuarão para mim assombrosamente, como num imenso e interminável pesadelo; mas nem por isso meu olhar deixará de ser um olhar perscrutador e desafiador. À noite, os seres perdem a cor e o brilho, ou seja, aqueles mesmos que durante o dia ofuscam nosso olhar e enganam os nossos sentidos, impedindo-nos de senti-los com o coração e de caminharmos até próximo de suas essências. E quando o sol nascer, não esquecerei mais daquela escuridão e carregarei comigo todo o saber que pude adquirir daquele imenso céu escuro debaixo do qual todas as coisas estavam paradas — e eu as vi assim.

21 — Antes que o sol nasça, parte 2 — Só podemos vê-lo no escuro: a falta de luz faz com que ele brilhe. Muitos já o tomaram e partiram, e não deram mais notícias, esqueceram-se daqui. O motivo configura-se como um enigma indecifrável para muitos, mas ele existe, sempre existiu, por mais estranho que transcorram as coisas. E quem se arrisca em dizer que é um erro tomá-lo? Por vezes, ele nos parece tão fascinante e atraente na escuridão! Temos que nos apressar se quisermos tomá-lo, pois ele só é visto na noite, e da noite depende, é dela que tira a sua existência: assim que o sol nascer, ele desaparece sem deixar centelha.

22 — Depois que o sol nasce, parte 3 — Já na aurora, a nossa visão começa a ser afetada de uma maneira diversa pelos seres: enquanto na escuridão existia uma monotonia, uma insipidez exagerada e exalada pelas coisas, no amanhecer do dia um nobre encanto enaltece a aparência de todos os seres, tornando-os vistosos e agradáveis aos olhos: surpreendemo-nos com tamanhas transformações e uma descrença nos olhos aparece para nos perturbar; mas só por um instante: logo esquecemos a noite e passamos a viver o dia.

23 — Os outros — Certo dia, quando estava escutando e me deliciando com Bach, disseram-me: “O que é isso? Como é que você escuta uma porcaria dessas?”. Pergunto: fui rechaçado de um meio? Fui excluído? Não: eles é que foram.

24 — Os psiquiatras e seu ofício — Uma mulher desesperada leva sua linda e sofredora filha para um psiquiatra e lhe diz: “O que faço, meu senhor? Ela tem medo de sair de casa porque acha que as nuvens vão cair em cima dela”. O psiquiatra, já acostumado e desconsiderando o desespero da mãe, tenta acalmá-la dizendo que sua filha irá se recuperar. Depois de passar dois ou três tipos de remédios para a moça, marca o dia da volta: neste dia, a moça retorna ao lado da mãe e vai para junto do psiquiatra que lhe pergunta: “E então, ainda com medo das nuvens?”, “Não senhor”, responde a moça, quase mecanicamente e aparentando não possuir mais espírito — de tão dopada. O psiquiatra então fica satisfeito consigo mesmo e com seu trabalho: “Receitando bons remédios e com uma boa conversa, ajudei mais uma a eliminar seus sofrimentos”, pensa ele; mas o certo seria pensar assim: “Paralisei mais uma com minhas drogas e transformei-a numa espécie de zumbi, que não sente dor e nem alegria também. Infelizmente, porém, os piores efeitos só serão sentidos mais tarde”.

25 — Os problemas nossos de cada dia — A imensa maioria das pessoas agem como se fosse possível uma aplicabilidade dos problemas, em condições iguais, para todas as pessoas: para elas, é como se os problemas existissem em si mesmos, isto é, expressassem em si alguma espécie de realidade, que seria imutável e inalterável quando com o contato com as pessoas. Um erro semelhante manifesta-se quando imaginamos, devido a uma necessidade do ser, que uma música que nos agrada vai agradar também aos outros — a experiência é que nos ensina que não —; ou quando bons sentimentos são despertos por uma linda mulher, isto é, quando ela nos encanta, e creditamos a ela uma espécie de qualidade ou atributo imutável, a ponto de imaginarmos que o mesmo ocorrerá com os outros homens. No caso dos problemas, por eles só existirem nas mentes e nos corações das pessoas, isto é, por não possuírem realidade externa, não devemos jamais comparar os nossos problemas com os dos outros ou os deles com os nossos: por mais parecidos que sejam, cada um ganha uma impressão diferente em diferentes pessoas, e tanto mais diferente será tal impressão quanto mais diferentes forem as pessoas envolvidas. Os problemas ganham forma, gosto e textura com a nossa maneira singular de sentirmos a vida: o que é algo irrisório para você, pode ser um grande e doloroso problema para mim, e vice-versa.

26 — Os acusadores — Interessante é notar algumas cenas lamentáveis e jocosas: por exemplo, sentam-se para uma discussão uma psicóloga, dois homossexuais, um pastor que é contra o homossexualismo e a organizadora e coordenadora da discussão. O pastor, que mantém sempre o seu fixismo inabalável, é ridicularizado por todos, pois todos têm a mente “aberta”. Mas estes mesmos, que se supõem e vangloriam-se por serem “esclarecidos” (excetuando-se, especificamente neste caso, os homossexuais), nem imaginam que, na verdade, têm uma mente facilmente persuadível e cujas ideias foram inicialmente subjugadas e posteriormente substituídas por outras que foram trazidas e são sustentadas por uma execrável massa falsa e ridícula, que pela frente afirma, mas por trás nega e ainda cospe em cima. Numa época como a da Inquisição, em um lugar onde houvesse uma forte presença e domínio de uma de suas ideias, muitos desses que querem-nos parecer sem preconceito (como se isso fosse possível) seriam os primeiros a gritar e conclamar fogueira para os ciganos e feiticeiros.

27 — Véspera de Natal — Então chagamos a mais um final de ano. Época de festas e confraternizações, alegrias e abraços, reconciliações e pensamentos internos significativos sobre o significado de muitas e muitas coisas. Todavia, a paisagem não é tão bela quanto aparenta ser: para nós, pessoas solitárias, é sempre uma época de muitas tristezas e desesperanças. Ficamos tristes ou nos sentimos mais sozinhos porque a diferença entre nós e os outros torna-se maior e bem mais acentuada, em virtude do pouco parentesco que temos com o “compartilhar alegrias”: na vida diária, não nos achamos tão diferentes ou isolados, pois existe uma calmaria maior, um “mover-se parado” das pessoas, que nos tranquiliza e faz suscitar em nós o pensamento de que ou outros não possuem uma grande dessemelhança em relação a nós. Ficamos tristes também porque falta-nos algo, um alguém talvez: mesmo quando estamos em meio a muitas pessoas, e suas alegrias tangenciam nossos corações, costumamos olhar para o lado e sentir aquilo que todo solitário sente: está faltando alguma coisa. Ficamos tristes porque gostaríamos de estarmos felizes naqueles momentos para também dar, receber e desfrutar de toda aquela alegria emanada pelas pessoas “normais”. Ficamos tristes e choramos, enfim e em suma, porque sentimo-nos sozinhos, como se fôssemos o único representante de uma espécie em meio às demais: sentimos que falta-nos um ser para interagirmos, um alguém para abraçarmos, para chorarmos e rirmos em seus ombros. Reminiscências antigas aparecem, Natais passados, tristezas, frustrações: aqueles com menos experiências podem ser excetuados, mas nós perdemos a fé em um futuro melhor, em confraternizações felizes: pensamos no Natal do ano que vem, tentamos nos alegrar, mas a imagem de todos os Natais tristes que tivemos acaba com qualquer expectativa positiva: a desesperança é nutrida. Mas então não terei praticamente nada de positivo para dizer? Não. Por mais estranhos ou diferentes que possamos nos sentir, por mais sozinhos que estejamos, talvez tudo isso não passe de ilusões, confusões e interpretações equivocadas oriundas de uma sucessão de imagens cambiantes, que produz um efeito indistinto: talvez tudo isso não seja nada senão um pequeno desajuste em nossa personalidade, em nosso ser, algo que não desenvolveu, mas que pode ser desenvolvido! Quem sabe no Natal seguinte? Temos que lutar: a vida não seria vida sem batalhas ou guerras internas e externas. A esperança não é um mal que pretende fazer com que o homem, mesmo sofrendo tanto, não renuncie à vida, isto é, ela não é uma alargadora de suplícios, e sim uma alegria, tímida ou não, cuja incumbência é dar-nos força para que, mesmo numa batalha quase perdida, peguemos nas armas para lutarmos, para vencermos a batalha ou morrermos honradamente. Mesmo tristes e com desespero no coração, tentemos acreditar. Agora, se quiserem, feliz Natal para todos.

28 — Fantasia sobre Greensleave — Greensleave é um lago em um lugar frio e recolhido do nosso mundo. Em chegando lá, as pessoas logo ficam surpresas com um grande mistério: Greensleave só pode ser visto à noite. O lugar é frio, porém na beira do lago, todas as pessoas sentem-se confortáveis e aquecidas, com o coração tranquilo e em paz, destituído de conflitos. Quando todos estão juntos e os desejos ficam em uníssono, tem início a grande fantasia: as águas do lago ficam imóveis, paralisadas, enquanto algo aparece com um movimento suave e ziguezagueante em cima das águas; imediatamente depois, aquilo que era um lago sombrio e vazio, transforma-se num sonho, numa fantasia: muitas pessoas surpreendem-se e sorriem, com os olhos cheios de alegria e esperança; outras não conseguem perceber senão vultos indistinguíveis, como se estivessem olhando as imagens de um calidoscópio; por fim, um pequeno número de pessoas enxerga imagens lindas e felizes, ajoelha-se e desesperadamente começa a chorar: nas primeiras podemos perceber a necessidade e um desejo, nas segundas são percebíveis a sua felicidade e ausência de sonhos, e nas terceiras podemos ver o arrependimento e o sentimento de fracasso. O lago de Greensleave é distinto para todos; na verdade, ele é o reflexo do coração das pessoas, daquela parte onde residem a esperança e os sonhos. Nele, muitos sorriem, muitos se desesperam, e muitos morrem; trata-se de um lago triste e feliz ao mesmo tempo, audacioso e suave, um sonho e um pesadelo: é preciso de coragem para se chegar nele.

29 — Empatia — A interação social propicia-nos o sentimento da inclusão, do grupo, de que não estamos realmente sozinhos na caminhada. Pessoas que sonham demasiado, que criam protótipos de seres humanos com os quais deveriam manter uma semelhança, pessoas assim, não esporadicamente, são mais sofredoras: olham para sua natureza e não raro sentem desprezo de si mesmos, impondo limites inalcançáveis para o seu próprio ser — faltam-lhes interações sociais bem vivenciadas e mais profundas. Onde existe pouco contato social ou onde esse contato dá-se de forma superficial, inexiste uma empatia expressiva, ocasionando a criação imaginária de um mundo cujos critérios de criação podem ser instintos ou paixões de consequências negativas ou positivas para o ser. Aquele, todavia, que caminha junto com os outros percebe as necessidades deles e por isso mesmo vive em um mundo mais “real”, onde a diferença entre ele e os outros não mantém uma relação de grande distinção: isso é positivo, e por ser assim sempre procuramos estar próximo daqueles que possuem algum vínculo conosco, seja de afetividade ou de necessidade. O isolamento espiritual também pode trazer o sentimento de fracasso, pois ao não participarmos do processo de empatia, idealizamos um ser que deveríamos ser e que, por ser imaginário e ficcional, fruto de uma mente atormentada, não nos é palpável. Entretanto, tudo no seu lugar: o isolamento social quase sempre pode ser visto como um efeito, e a falta de empatia e de identificação juntamente com o sentimento de culpa ou fracasso, como um efeito do efeito.

30 — No momento certo — Acontecimentos monumentais precisam de campos cuidadosamente preparados para a sua efetivação, sendo a organização complexa e uma fantástica afluência de fatos aqui e li, e do outro lado também, os seus alicerces e toda a sua força produtora. A beatlemania, por exemplo, consolidou-se como um grande fenômeno mundial em virtude de vários fatores, dentre eles, e possivelmente o mais relevante, encontra-se uma potente vontade de mudança de paradigmas, que já nos anos cinquenta, ou talvez antes mesmo, começou a exercer poder nas pessoas, tendo atingido o seu ápice nos anos sessenta. Com os padrões reinantes em nossos dias, Os Beatles não teriam emplacado tantos sucessos como em outrora e tampouco seriam o fenômeno que foram — embora ainda seja uma das bandas que mais vende discos no mundo. Sem querer desmerecer os Beatles e sem insinuar qualquer espécie de demérito, mas o tempo mudou, o clima é outro, e isso futuramente será mais bem entendido, permanecendo dos Beatles apenas as suas canções universais.

31 — A falta do exemplo — Filhos cujos pais não servem de exemplo profissional têm comumente desperto em seus corações um sentimento que pode ser expresso pela seguinte composição: sem-vocação. Os pais exercem uma influência poderosa e tirânica nos filhos, mesmo sem estes ou aqueles perceberem, e aqueles pais que não servem de espelho para os filhos deixam-nos perdidos: se a sorte ou qualquer outra coisa que traga construção lhes alcançar, porém, toda esta situação pode ser revertida e até mesmo ter um papel positivo ao longo da história.

32 — A descoberta — Uma família sai para o trabalho todos os dias: pai, mão, filhos, todos partem em busca da sobrevivência nos trabalhos forçados do campo; eles, logo cedinho, com suas barrigas vazias, saem na aurora e trilham um pequeno caminho aberto há muito tempo por entre a grande e densa mata. Certo dia, porém, um dos filhos briga com seu irmão e foge, pois seus pais ameaçam-no. Passam-se vários dias, e quando a preocupação e desespero já começavam a tomar conta de toda a família, eis que o pequeno garoto aparece em casa e com grande entusiasmo diz: “Encontrei água doce e limpa para beber e terras boas para o cultivo: já não passaremos mais sede e não teremos que lidar mais com aquela terra tão infrutífera!”. Todos ficaram felizes, e surpreenderam-se quando souberam que o caminho que levara o filho para tais descobertas ficava bem próximo daquele que eles percorriam todos os dias: a mata era fechada e eles nunca quiseram mudar de direção.

33 — Destruindo para construir — Existem certos ciclos que precisam ser quebrados casualmente, propiciando a construção de outros que trazem mais saúde para o indivíduo e para a espécie: para tanto, muitas vezes, faz-se necessário a destruição — a natureza está em constante transformação, mas muitos ciclos funcionam como máquinas grandes e complexas, sendo constituídas por imensas engrenagens: a mudança ou retirada de uma peça pode causar a quebra da máquina inteira.

34 — Tudo muito obscuro — Uma grande valorização do próprio ser pode servir de arma para um indivíduo cujo ser lhe traz desgosto e cujo ser que ser mais: a grande desvalorização é combatida com a valorização que causa a desvalorização.

35 — Preconceitos oriundos de preconceitos — É sabido que uma sociedade despojada de qualquer preconceito não existe e nunca existirá: o agir de alguém pode ser um preconceito para mim, sem, contudo, ser para outra pessoa, isto é, trata-se apenas de pontos de vista. Entretanto, pontos de vista à parte, é tão curioso quanto ridículo o comportamento de certos grupos sociais que, supõem-se, são discriminados: os bissexuais ou os homossexuais, por exemplo, partem para um embate contra preconceitos munidos de preconceitos: discriminam os discriminadores, e mesmo àqueles que baixaram as armas são dirigidos ataques baixos e vis. De tanto lutarem contra preconceitos usando-se preconceitos, o hábito se instala e muitos passam a agir preconceituosamente mesmo depois da batalha ter terminado. A supressão de um preconceito quase que inevitavelmente origina outro, e isto só as mentes alegres e pouco perspicazes não conseguem perceber.

36 — A necessidade e a opinião — Muitos ainda pretendem dificultar e dificultam as pesquisas científicas que podem dar um novo andar para pessoas deficientes: alegam que nenhum homem, não sendo o criador ou o detentor dos direitos sobre a vida, pode tirá-la a um ser; outros, os deficientes, os necessitados, aparecem sempre minando tal argumentação: dizem que o ser ainda não sente, não tem consciência, não tem uma vida realmente, e que portanto não se constitui crime natural ou social a eliminação de tais seres: se eles não fossem deficientes, se eles não fossem os possíveis beneficiados com tais pesquisas, será que teriam esta mesma opinião? No caso dos homossexuais, muitos vêem com absoluta naturalidade a sua condição e mesmo reformulam muitas ideias e conceitos que têm em relação a questões atinentes com a homossexualidade — dogmas religiosos, etc. —: teriam eles tão visão e fariam tal reformulação se não fossem homossexuais? Outros ainda criticam veementemente o aborto, justificando suas “convicções” com mil e um argumentos: se por ventura o aborto chegar-lhes à porta, manterão suas “convicções”? O mais interessante disso tudo é que estes mesmos vivem a falar do tal “livre-arbítrio”.

37 — O nosso ser e o conselho — Certa vez, uma moça em cujo coração habitava um grande vazio existencial chegou para uma senhora e pediu-lhe um conselho: “Vivo tão sem alegria, tão triste, sem vontade e sem objetivos, não sei o que acontece, não quero mais viver; ajude-me, por favor, dê-me um conselho”; “Minha filha”, começou a senhora, “procure ser mais útil às pessoas, ajude-as e esse vazio que está presente em seu coração arrumará suas malas e partirá para bem longe, nunca mais voltando”; a moça então perguntou: “Como? Como hei de ajudar as pessoas?”; “Ora! Existem muitas maneiras: você tem mãe?”, a mocinha respondeu: “Sim, tenho mãe: ela é doméstica”; “Então por que você não faz uma surpresa para ela: ajude-a em casa”. Provavelmente, se não fosse uma senhora e sim um senhor, ele teria dito: “Ajude seu pai no serviço”.

38 — Situação difícil — Muitos alcoólatras já não encontram mais razão de viver, e por isso não param de beber: suas vidas estão destruídas, eles não têm objetivos. Para um combate forte ao vício é preciso, antes de tudo, que o viciado tenha um bom motivo para viver: mas se acaso ele não tem, é possível forjar um para, pelo menos, dar-lhe um pequeno ânimo. De qualquer forma, é sempre uma situação difícil.

39 — Injustiça social? — “Por que você rouba?”, perguntou uma repórter a um delinquente que havia pouco foi preso; “Eu roubo porque não tem emprego, porque a sociedade é injusta”. Olharam o histórico dele: largou a escola na quinta série, depois de três reprovações seguidas por falta; a partir de então nunca mais pisou em um estabelecimento de ensino, nunca fez um curso, mal sabe pegar em um lápis, não sabe fazer contas, não consegue ler direito. Pergunta-se: qual o emprego que ele quer? Existe muito comodismo e muitas desculpas em certos indivíduos.

40 — O que nos prova nossos sentimentos — Sentimo-nos eternos! Mas mesmo que isso fosse um sentimento comum e partilhado por todos os indivíduos — não estou negando —, ele provaria algo? Sentimos também que o sol está bem perto; sentimos, muitas vezes, que somos o ser mais importante do mundo; sentimos que vamos fracassar ou vencer, e isso não ocorre em muitos casos; sentimos que estamos sendo traídos, quando não estamos; muitos gregos de outros tempos sentiam que seus deuses existiam. O sentimento não se constitui como uma prova: a única coisa que ele nos prova é que sentimos — e mesmo disso ainda é possível duvidar.

41 — Reformulações — Ao imaginarmos que um determinado pensador desconhecia os pontos contraditórios e falhos de sua teoria, podemos estar cometendo um erro: muitos sabiam; porém, em virtude de sentimentos e observações e de uma multiplicidade de teorias que se entrelaçavam formando uma espécie de rede constituída por fios completamente dependentes, eles não quiseram desfazer a rede e atropelar os sentimentos e as experiências para corrigir uma tese ou um pensamento qualquer.

42 — Os cientistas e seu materialismo — Sempre foi corrente, desde que surgiram os homens da ciência, aqueles que supostamente baseiam seus conhecimentos em métodos experimentais, uma visão materialista de mundo: suas cabeças materiais são sempre um envoltório de uma mente superficial e inepta; a falta de espiritualismo e de uma visão menos superficial revelam-nos o quão pouco especial é a maioria das mentes dos cientistas. Por outro lado, os verdadeiros grandes cientistas sempre foram preocupados com as questões fundamentais — Newton, Einstein. Os cientistas materialistas de hoje são como crianças: fazem isso e aquilo, procuram aqui e ali, desejam tal e qual coisa, mas não têm consciência do seu estado — fazem, procuram e desejam, mas não sabem quais as razões: estão presos em um mundo no qual são escravos.

43 — Os médicos e seu autoconhecimento — Os médicos, por receberem todos os dias em seus consultórios pessoas leigas, no início de suas carreiras fazem assim: falam mansamente, como que aconselhando uma pessoa enraivecida, que precisa de conselhos e que os detesta; depois, ao se darem conta de que as pessoas tomam o que eles dizem como verdades, eles mesmos começam a se convencer disso — se já não o eram. Nenhuma outra raiz tem a arrogância dos médicos senão esta: um nível intelectual baixo de seus pacientes. Muitos médicos devem detestar as naturezas questionadoras, desdenhando-as ou tratando-as com pouca paciência: precisamente elas, duvidam dos médicos e atacam o seu posto de dono da verdade — para muitos, uma das grandes alegrias de se ser médico.

44 — Os médicos e suas qualidades — Então as pessoas não procuram a medicina por causa do prazer de se salvar vida?  Não, claro que não: o dinheiro é o ímã; então os médicos não são pessoas especiais e altruístas, que sempre procuram o bem do próximo? Não: procuram a fama e sempre “estar por cima”. Mesmo as qualidades mais elogiáveis dos médicos podem se pulverizar frente a uma análise rígida e vigorosa.

45 — Determinismo: um olhar para as bases, parte 1 — A crença no condicionamento completo dos fenômenos ajuda muitas pessoas a superar conflitos e sofrimentos dos mais diversos. Desta maneira, pode-se imaginar que o determinismo granjeou muita força com aqueles pensadores cujo coração se mostrava sempre em conflito: a culpa, por exemplo, é muito bem mitigada ao pensarmos que tudo ocorre por necessidade, e passamos a ostentar um olhar arrefecido e despojado de muitos males. É possível suspeitar, já dessa perspectiva, portanto, da integridade de uma tal teoria, e sem grande descontentamento dirigir-lhe um olhar desconfiado. Abandonando essa perspectiva, ponhamo-nos a ponderar sobre as coisas e sobre o nosso sentimento. O que vemos? Vemos que somos livres. Não teria sentido a existência do sentimento de culpa, do remorso, do mal-estar sentido após uma atitude que é reprovada pela consciência — numa linguagem psicanalítica, o superego não só poderia ser dispensado como deveria necessariamente sê-lo —, enfim, se não houvesse liberdade, é evidente que nada disso existiria em nosso mundo, porquanto tudo ocorreria por necessidade, não existiria liberdade, as coisas estão como deveriam estar e serão como deverão ser. Ora, sendo a liberdade uma ficção, os seres humanos não precisariam de mecanismos que lhes coagissem para agir dessa ou daquela maneira; de onde concluímos que, se num dado momento qualquer, uma mulher pára, olha para trás, medita e conclui que poderia ter agido melhor, então é porque a liberdade existia e existe. Não conheço absurdo maior do que essa ideia do fatalismo, e muitos homens “geniais”, ao admiti-la, se deixaram levar ou por uma empolgação infantil, surgida de um grande contentamento e fé em uma nova ideia ou numa maneira diferente de enxergar a vida — este foi o caso de Laplace —; ou por vivências externas conturbadas, que obrigaram o indivíduo a se resignar por causa de imensas impossibilidades de obtenção de coisas — temos Spinoza —; ou, enfim, por sentimentos de culpa e fracassos, os quais são sempre aliviados pela ideia do determinismo — enxergo Schopenhauer e Nietzsche. O sentimento de liberdade é inato e assim que ganhamos consciência — isto é, capacidade de visualizar sem vislumbres o eu interno e o mundo externo —, tocamos na liberdade com o espírito: aqui, só mesmo as mentes atormentadas, doentias ou fanáticas podem ignorar tal sentimento.

46 — Determinismo: um olhar para as bases, parte 2 — Embora os suplícios estejam sempre presentes na espécie humana e uma insatisfação geral se insinue, eventualmente, com uma força titânica, a vida da grande maioria das pessoas é sempre muito bem suportável: mesmo aqueles espíritos mais atormentados, os que constituem valiosa exceção em relação ao todo, têm satisfação a maior parte do tempo em estarem vivos. Sendo a alegria a atividade, a ação, o lugar onde não existe reflexão ou pensamento, então a maior parte das pessoas passará pela vida desconhecendo-a quase que completamente: nessas pessoas, a crença em quaisquer sentimentos que apareçam será imediata, pois onde não existe ponderação, existe o reino das paixões e instintos. Dessa forma, como poderemos supor que o determinismo seria aceito pelas pessoas se elas sequer pensam onde estão e para onde vão? A origem das coisas é ignorada e sequer pensada pelas massas. Elas acreditam em suas mais falsas percepções, como, por exemplo, a da livre escolha. Ademais, para as pessoas, muitas alegrias têm sua raiz na consideração do seu eu, isto é, na contemplação de si mesmas como agentes importantes e causadores de efeitos nos outros — ter uma auto-estima elevada é, na verdade, sentir-se a pessoa mais importante do mundo —; porém, essa alegria será consideravelmente reduzida pela ideia de que ninguém age por liberdade, pois, adotando essa perspectiva e usando-a como óculos, não perceberemos méritos em ninguém e, consequentemente, aquelas nossas atitudes que nos dão orgulho e alegria serão vistas como coisas necessárias e das quais não fomos causas diretas, ou seja, não teremos porque nos alegrar com elas. Há quem sustente que nós temos liberdade justamente porque temos consciência e percepção do mundo interno e externo; mas a consciência, olhando-a somente para onde ela mantém uma relação com nosso caso, não passa da capacidade de perceber, muito limitadamente, o que se sente: capacidade de perceber, não de mudar ou controlar o que se sente. Além disso, sendo a consciência essa capacidade de percepção, é evidente que ela só irá perceber, isto é, terá percepções diferentes e variadas dependendo do que o indivíduo sente e não será jamais a causa desses sentimentos ou instintos: é como um espectador numa peça teatral: ele olha e percebe a história, porém não tem o poder para mudá-la. E os pensamentos? Os pensamentos não surgem de livres deliberações, eles simplesmente aparecem, emergem; imaginem o seguinte: você está com outra pessoa e pede para que ela levante o braço; ela pergunta o porquê do pedido e você diz que só depois irá dizer; ela então pensa: “O que será que ele quer? Vamos ver”; depois, como você pediu, ela levanta o braço: houve livre escolha aqui? Claro que não. Primeiro, o seu pedido produziu alterações no corpo dela e no seu espírito; segundo, ela não foi a causa dessas alterações — mesmo o pensamento “O que será que ele quer...” não foi tido por ela por um simples querer, ele apareceu, não foi porque ela quis, e coagiu sua atitude; e finalmente, em terceiro, ela não teria condições de mover o braço se não houvesse um complexo mecanismo que lhe permitisse isso, ou seja, em termos grossos, o braço não seria movido se não tivesse essa capacidade. A vontade humana só seria livre se fosse causa de si mesma, e mesmo aqueles que colocam a vontade como substância do universo, não estão se referindo à vontade humana.

47 — A necessidade e as filosofias — Tornou-se comum frases do tipo: “Não existe uma filosofia ou religião melhor do que a outra, mas cada pessoa deve procurar uma em que se encaixe”. Ou, interpretando corretamente: as necessidades de uma pessoa, suas paixões, medos, ansiedades, angústias, esperanças, etc. é que determinam o modo como uma pessoa pensa, suas crenças, ideologias, religiões e filosofias. Contudo, as pessoas escutam frases desse tipo, ficam satisfeitas — pois não é uma crítica às suas crenças —, porém não a interpretam corretamente: querem convencer a tudo e a todos a respeito da veracidade de suas crenças; ou seja, aqui também a necessidade se faz presente.

48 — A ciência e uma capa — Qualquer ser humano que interaja com pessoas diversas e que precise dessas pessoas, isto é, psicólogos, jornalistas, psiquiatras, dentistas, médicos particulares, vendedores, comerciantes, etc., demonstram um grau de sabedoria mínima ao cerrarem a boca sobre assuntos tais como religião ou filosofia se a pessoa a quem ele fala não partilhar de crenças parecidas com as suas; ao contrário, ganha-se facilmente a simpatia de uma pessoa concordando com ela e ainda corroborando com seus pensamentos, mesmo não estando realmente de acordo com eles. Essa espécie de tática é muito usada principalmente pelos artistas, pois eles precisam ser simpáticos: ao serem perguntados sobre suas crenças em relação a deus, excetuando-se algumas exceções — em geral, aqueles de carreira consagrada — dizem pensativos: “ah, eu acredito em deus, em um deus universal”. Os políticos também se utilizam de tais expedientes, falando em deus o tempo todo, mas sendo ateus em seus âmagos. A ciência também deve tomar cuidado, principalmente devido à sua base materialista: os seus representantes devem falar o mínimo possível sobre questões metafísicas com a população: estas podem, se a necessidade apertar, revoltarem-se contra aquela facilmente, o que, diga-se, já acontece muito nos nossos dias — muitas pessoas, por exemplo, deixam de tomar remédios e procuram tratamentos alternativos dos mais diversos tipos e que, muitas vezes, possuem uma única ligação: uma base pouco científica. Neste caso, a ciência deve rever a sua postura pública e os cientistas devem omitir suas opiniões: ela precisa de uma capa.

49 — O conhecimento dos outros — Imagina-se que quando passamos a conhecer mais as pessoas, existe uma natural redução de seu encanto e os seus atos deixam de nos enlevar tão fortemente: identificamos, em muitos casos, os reais motivos que regem o seu comportamento e o nosso também — “Aquele que mais se conhece a si mesmo é o que menos se admira”. Todavia, esse desencanto não é realmente provocado apenas por uma visão “real” das coisas, pois, além dessa visão “real” não ser real mesmo — não existem pessimistas, otimistas e realistas, mas tão-somente os dois primeiros —, já existe um certo negativismo no nosso olhar quando imaginamos captar os motivos verdadeiros do comportamento das pessoas. Em outros termos, um olhar arrefecido dirigido para as pessoas, por ser arrefecido, já filtra os dados e passamos a distorcemos as coisas. Aquelas pessoas mais felizes geralmente sempre identificam motivos bons nas atitudes das pessoas; outros, os menos felizes e negativistas, por outro lado, avistam motivos negativos nas ações: aqui, eles pensam estar acima dos outros, pois supõem estar vendo melhor; porém, se suas concepções de egoísmo, de atos dissimulados, etc. não estivessem associados a coisas, que para eles, são negativas, mas, ao contrário, se estas estivessem associadas a coisas positivas e os atos altruístas estivessem associados a coisas negativas, a maioria deles só perceberia atos altruístas nas pessoas, porquanto suas visões não estão postas de maneira tal que avistem os objetos tais como são, mas elas vêem o que querem, e neste caso, querem ver o que é negação, o que desencanta.

50 — Perdendo o tempo — Muitos religiosos, ou filósofos, nos nossos dias, tentam provar a eternidade da alma humana e sua distinção em relação ao corpo. Com o advento e dominação da ciência, no entanto, muitíssimas concepções mudaram, mas os fixistas permanecem nas mesmas: para conseguirem o seu intento, primeiro devem atacar o evolucionismo, pois, segundo suas convicções, só o ser humano tem isso de alma eterna, e portanto não pode ter uma raiz comum com os animais; depois, por motivos óbvios, devem destruir as diversas concepções materialistas; finalmente, têm que demonstrar de alguma forma que o ser humano tem liberdade, pois se não a tiver, então agimos por instinto e não nos diferenciamos dos outros animais. E toda essa perca de tempo — pois eles não vão conseguir o que querem — para quê? Para continuarem acreditando que deus criou tudo para eles e que eles têm vida eterna, uma vida que será melhor do que esta.

51 — Sendo chato — Às vezes, alguma pessoa nos diz o quão belo é o ser humano: “Estás a escutar? Vês que música bonita? Só um ser magnífico como nós, e nenhum outro, pode produzir algo assim”. Mas a música só é bonita aos nossos ouvidos, aos ouvidos humanos: criamos e achamos bonito, e não: criamos e é bonito.

52 — Vendo mais adiante — “Está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças... Um papel altamente formador”. São belas essas palavras, educador: tu só dizes isso, porém, porque era carregado de raiva — é preciso levar isso em consideração na análise de certas ideias.

53 — A previsão do tempo — Quando a meteorologia erra a previsão do tempo, o que temos? Temos a lógica! E quando ela acerta? Temos uma coincidência!

54 — Falando a sério — Ao olharmos, de longe, para uma paisagem, com um pouco de reflexão percebemos que ali naquela paisagem está acontecendo uma infinidade de coisas em infinitos modos diferentes. Da mesma maneira, quando estamos numa sala conversando com alguém, existem infinitas coisas ocorrendo nesta sala — mesmo em um mero quadro, por exemplo, o mesmo acontece. Segue-se daí que a meteorologia nunca conseguirá prever o tempo com precisão matemática, pois ela teria que trabalhar com infinitas variáveis, o que é absurdo: quanto mais ela aumentar suas variáveis e aperfeiçoar seus métodos e instrumentos, porém, menos motivos nos dará para sorrirmos ou ficarmos chateados.

55 — O adulto e o eu criança — Pessoas que, por motivos diversos, não conseguiram viver plenamente a sua fase de criança, quando adultos, não pouco eventualmente, carregam uma criança em seus corações que costuma gritar com muita força. Isso nos insinua, consequentemente, que a infância é uma fase cuja vivência é imprescindível: a natureza impõe-se se por acaso alguém renunciar à infância; e ai desse alguém se ousa contrariar tal imposição: é preciso deixar a criança sair, para que viva o que não viveu, para que desfrute do que não desfrutou.

56 — Adultos afáveis — Adultos que gostam muito de crianças, que se regozijam à sua presença e não se chateiam com suas diabruras, em geral têm uma sintonia harmoniosa com elas: a sua criança interna é bastante presente, e elas ficam muito contentes por terem com quem brincar.

57 — A falta de gratidão — As crianças, por mais que façamos favores para elas, por mais que lhes presenteemos e sejamos amáveis, por si só não demonstram o menor sinal de gratidão: é a natureza em um estado puro. A gratidão não é um sentimento, ela é aprendida durante a vida, e isso principalmente devido a convenções sociais ou interesses egoístas: do adestramento, na maioria dos casos, é do adestramento que vem a gratidão. Nem por isso, porém, o trato agradável que recebe uma criança deixa de ser recompensado por bons sentimentos: amizade e amor já existem nas crianças, são coisas inatas.

58 — A psicologia e seu método “experimental” — Um dos métodos mais utilizados e mais passivos de erros da psicologia são as pesquisas: poucos são os que sabem interpretar.

59 — As regras da felicidade — Existem livros que pretendem nos ensinar a sermos felizes: apresentam-nos maneiras ou regras para alcançarmos a tão sonhada e cantada felicidade. Porém, são construídos assim: faz-se uma pesquisa com pessoas supostamente felizes, recolhem características comuns delas e as apresentam como sendo o caminho para atingir a felicidade. Assim, por exemplo, a maioria das pessoas pesquisadas costuma vivenciar mais intensamente o presente e a apreciar as coisas simples: concluem daí que é preciso vivenciar mais o presente e apreciar mais as coisas simples para que se seja mais feliz. O erro é evidente: estão tomando efeitos como causas. Cada ser humano é único (muitos dizem isso, mas não compreendem), ou seja, cada um sente à sua maneira a vida e tem os seus gostos, amores, desamores, ódios, etc. de maneira inteiramente singular — não obstante, não estou dizendo que certas atitudes ou conhecimentos sejam completamente dispensáveis. Não existem regras ou fórmulas para a felicidade, porquanto regras e fórmulas exigem naturezas iguais, o que só pode existir em um mundo idealizado.

60 — A solidão e o querer — Talvez, e apenas talvez, existam casos em que a solidão física de um ser humano seja completamente forçada, pois entre um estilo de vida solitário e um “normal” existe uma discrepância considerável, que diz respeito menos a uma possível conciliação entre os dois estilos de vida do que a ambos sendo considerados como modos de vida que envolvem toda a natureza de uma pessoa; além disso, um estado tão amplo e que envolve imensamente a natureza de uma pessoa não poderia sofrer uma completa oposição por parte dessa pessoa: ela não teria condições de viver assim, não suportaria, pereceria em si mesma e poria um termo na própria vida. A solidão é necessária e salutar para muitas pessoas, e não se imagine que, por ela não despertar contentamento na maioria das pessoas, ela deve ser repudiada por todos: todos formam um corpo, mas cada parte desse corpo é distinta, tem sua própria característica, virtude e necessidade.

61 — Coisas imaginadas e coisas físicas — Para as pessoas, é bem mais fácil descrever coisas tangíveis fisicamente do que coisas tangíveis apenas espiritualmente: quando nos perguntam o que é uma maçã, ou uma cadeira, logo mexemos a língua e começamos o badalo; quando nos perguntam, porém, o que é o amor, ou a simpatia, então a resposta é bem mais difícil: na primeira pergunta, malgrado muitas respostas serem expressadas aparentemente com as mesmas palavras, existe uma pequena diferença nas mesmas e no significado imposto pelas pessoas; na segunda, as respostas vão diferir muitíssimo, e isso tanto no que concerne às palavras quanto ao sentido ou significado que nelas são impressos.

62 — Respostas inacessíveis? — Para conhecermos algo é preciso vermos esse algo, seja com os olhos ou com o espírito. Estamos no universo física e espiritualmente, e por mais que nossa humilde imaginação insinue-se com toda a sua presunção, querendo parecer que ela pode nos dar uma visão ampla e afastada das coisas, sabemos bem que todos nós fazemos parte da natureza, e de suas regras e leis não estamos eximidos, ou seja: é realmente impossível podermos efetivamente ver a natureza. Portanto, será que merecem confiança respostas para perguntas do tipo: que é a vida? Que é o ser? Quem é deus? O que é o universo ou a natureza?

63 — Sem desanimar — Mesmo os muros sendo altos demais, mesmo os caminhos sendo árduos, devemos sempre prosseguir: apesar de provavelmente nunca conseguirmos tocar no arco-íris, são sempre bem-aventurados aqueles que nunca perdem a esperança e prosseguem.

64 — O vazio existencial e a busca — Desesperadamente e com grande arrebatamento, muitas pessoas levam suas vidas: parecem ter pressa em experimentar um número maior de coisas e com mais intensidade. Ilusão! Trata-se de uma ilusão de quem enxerga de fora. Essas pessoas que vivem assim carregam consigo um grande vazio existencial: procuram, dessa forma, preencher tal vazio, buscando aventuras incessantes, praticando sexo em demasia, intoxicando-se com drogas. São sempre presentes nessas pessoas atos compulsivos e um desejo forte, e por vezes inconsciente, de serem preenchidas: vivem sempre buscando novas coisas, pois não estão contentes com suas vidas. Sejam em atos extremamente repetitivos (comer demais, por exemplo) ou em prazeres efêmeros da vida diária (pessoas que compram demais) ou ainda na procura ininterrupta de novas coisas ou crenças, quem comanda é o vazio existencial: suspeito, inclusive, que ele é o principal ingrediente na criação do fanático religioso, e ainda lanço olhares de desconfiança para alpinistas, pára-quedistas e quaisquer outros praticantes de esportes perigosos. Por outro lado, o desejo e a procura são diminutos em pessoas preenchidas, que encontram grande satisfação com a existência: olhemos, por exemplo, para um homem nobre: Jesus. Na pessoa de Jesus, não temos abstenções: em geral, dizemos que alguém se abstém de algo quando, de certa forma, ele precisa desse algo; mas isso não ocorreu com Jesus: ele não precisava de riquezas, de amigos, de mulheres ou de reconhecimento: ele era um homem preenchido, e por isso mesmo pôde ser o que foi — se realmente ele existiu.

65 — A alegria antes do suicídio — Não é incomum a família e os amigos de um suicida afirmarem que ele, antes de ir embora, estava até contente: isso é bastante provável, e por duas razões: em primeiro lugar, ao saber que vai se livrar da vida, isto é, da suposta causa de todo o seu sofrimento e desespero, é natural que ele se alegre; em segundo lugar, às vezes lutamos tanto contra determinada coisa que, quando parece que estamos quase vencendo e ela reaparece com toda a sua temível e terrível força, então céus muito sombrios invadem nossa alma, trazendo-nos um desespero nunca sentido: neste caso, caímos e, porque estávamos alegres, a queda foi bem maior. Evidentemente, essas duas razões nunca estarão presentes num mesmo suicida, pois da segunda razão tiramos que ele deveria necessariamente estar possuído de alegria, mas não da alegria oriunda de se saber que vai morrer.

66 — Contrariando a natureza — As crianças caminham juntas e animadamente para a escola; suas naturezas são ativas, e suas energias grandiosas; porém, quando chegam na escola, são obrigadas a se sentarem caladas em lugares desconfortáveis, não podem desfrutar do prazer da conversa ou da brincadeira com seus semelhantes, e ainda por cima os conteúdos ministrados pelos professores são chatos. Qual o resultado disso? O ódio contra a escola sentido por quase todas as crianças!

67 — Devaneios: o ciclo vital — O dito milagre da vida repete-se: a criança nasce. Nos primeiros anos, não possui consciência: os instintos comandam e dirigem todo o seu comportamento — fato que, malgrado a falsa percepção de todos, perdura pelo resto da vida —, pois a consciência humana não é confiável: se o nosso comportamento dependesse dela, não estaríamos mais vivos. Na juventude, no ápice de sua saúde, os instintos sexuais tiranizam o seu ser: é chegado o momento da procriação, e é necessário estar saudável para tanto, pois a saúde do seu filho é que realmente importa: se estiver com problemas físicos, será repelido; se estiver com problemas espirituais, igualmente será repelido, e a espécie o abandonará. Na idade mais avançada, devido às dores que acumulou ao longo da vida, a alegria de viver vai diminuindo: a natureza prepara-o para a morte. Depois de sua morte, e de algumas lágrimas aqui e outras ali, outro ser nasce para cumprir o mesmo ciclo.

68 — Tomada da consciência, parte 1 — Percebemos claramente a fragilidade da consciência quando contemplamos o apaixonado: a sua paixão domina sua consciência, e a ela é destinada a tarefa de fundamentar os “conceitos” da paixão: se a pessoa amada tem apenas qualidades muito fracas, elas tornam-se grandiosas aos olhos do apaixonado, e isso com o aval da consciência; se, no entanto, ela não possui qualidades visíveis, a consciência se encarrega de criá-las e justificá-las racionalmente; quanto aos defeitos, a paixão obriga a consciência a tapar os olhos para os tais. Quem ama enxerga muito mal o ser amado, mas este “mal” é bom: a paixão, quando não é desregrada, é sempre algo positivo e que dá novas cores à existência.

69 — Tomada da consciência, parte 2 — Quando a paixão vai diminuindo, a cortina também gradativamente vai se levantando: os defeitos da pessoa amada passam a serem vistos. Porém, não sem muita recorrência, o apaixonado pensa que sua paixão enfraqueceu porque passou a enxergar melhor o objeto amado; quando na verdade ocorre o contrário: porque a paixão diminuiu, foi que sua vista limpou-se.

70 — O equilíbrio universal, parte 1 — Temos duas pessoas em situações distintas. A primeira, sempre tem água a sua disposição para beber com ou sem vontade: acostumou-se a sempre tomar água, e a toma mesmo sem sede. A segunda, esta não tem em seu poder água abundante: só consegue tomar um copo d’água quando está com muita sede. Entre ambas, existe uma diferença notável: a primeira nunca sofrerá com a sede, por outro lado, ao contrário da segunda, nunca sentirá o prazer de se beber água quando se está com uma sede desconcertante — assim a natureza quer.

71 — O equilíbrio universal, parte 2 — Os difamadores da moral moderna, aqueles que negam o atual, isto é, os religiosos ou os que são assombrados pelas questões morais e éticas, esses descontentes que comumente contradizem-se em seus palavreados desviados, desconexos e inseguros, estão tendo alguma influência sobre um tipo especial de pessoa: aquela que está descontente com a moral ou com os costumes éticos do nosso mundo atual. Todavia, a verdadeira causa desse descontentamento não são realmente as leis morais que regem as nações, mas algo mais profundo e menos perceptivo: é um equilíbrio. Trata-se de um descontentamento natural que está impresso em muitos, e que não mantém relações estreitas com as leis éticas. Algumas pessoas, tendo abandonado certos costumes ou normas de conduta (as atuais), voltam-se para o passado e com uma esperança quase infantil ficam procurando uma existência mais feliz, pois imaginam que o defeito está no mundo, e não nelas. Elas se portam como um cavalo livre que, devido a uma existência vazia, olham para os cavalos presos e passam a suspirar por uma rédea firme e forte, imaginando que ali, presos assim como os seus companheiros, encontra-se a alegria de viver que tanto buscam: os seus companheiros, porém, olham-nos e imaginam a mesma coisa. O homem de antigamente, aquele que vivia carregado de culpa por causa da terrível e austera educação religiosa, deu lugar a um outro homem, este que vive em um mundo “menos” preconceituoso, onde a “igualdade” é mais notória e onde as paixões são “menos” reprimidas; todavia, um visionário que vivesse em épocas passadas, em épocas mais duras para com as pessoas e cujos costumes fossem radicais e estúpidos até ao extremo, e que sonhasse com costumes mais brandos e que permitisse mais liberdade para as pessoas, acreditando que elas seriam mais felizes assim, esse visionário se decepcionaria com a “felicidade” desfrutada pelas pessoas do mundo de hoje: eliminou-se uns problemas, imediatamente depois surgiram outros — assim a natureza quer.

72 — O equilíbrio universal, parte 3 — A nossa época testemunha coisas interessantes: enquanto antigamente existiam muitos transtornos, sofrimentos e frustrações provocados pela grande reclusão do ato sexual, nos nossos dias existe uma procura, que por vezes chega a ser intensa, de acessórios ou de maneiras que possam tornar o ato sexual mais prazeroso, ou seja, interpretando o que os fatos nos dizem: existe uma decepção com o sexo e com a liberdade sexual vigente — assim a natureza quer.

73 — O equilíbrio universal, parte 4 — Muitos de nossos pais sofreram implacáveis perseguições de seus pais, a tal ponto que eles se tornaram ríspidos e, talvez, um tanto carentes de afetividade. Hoje, com as rédeas soltas, conquanto não recebam uma educação tão dura e que não traz diretamente grandes mágoas, muitos dos filhos perderam o respeito pelos pais, entraram no mundo das drogas por causa desse desrespeito, desfizeram suas famílias, viraram criminosos e assassinos — o que praticamente não ocorria antigamente —: assim que a mágoa saiu por uma das portas, outros sofrimentos entraram pela outra — assim a natureza quer.

74 — O equilíbrio universal, parte 5 — Todos nós temos os nossos momentos de indolência: vez ou outra, acordamos mal-humorados e impacientes com as coisas da vida. Uma progressão sequencial de ânimos positivos não tem vida longa, pois as coisas devem estar em equilíbrio: uma tristeza ou uma certa ira é sempre necessário, é o cultivo do terreno, um lembrete, um chamariz para a alegria — assim quer a natureza.

75 — O equilíbrio universal, parte 6 — Aqueles que usam drogas ou simplesmente são afeitos a uma bebida alcoólica, não raro, quando estão possuídos pela droga, experimentam um grande êxtase momentâneo; porém, como a “alegria” foi tão curta e intensa, além de repentina, um estado depressivo geralmente se segue em tais drogados — assim quis a natureza.

76 — A inexistência do progresso, parte 7 — Em tudo existe equilíbrio e transformação, mas não progresso: o progresso só poderia existir se tivéssemos tido um começo no tempo e se estivéssemos nos dirigindo para algum lugar, o que verdadeiramente não ocorre. Aqueles que falam em progresso ou evolução estão olhando para perto demais.

77 — Além do arco-íris — Assim como toda satisfação duradoura leva ao tédio e ao sofrimento, assim também, provavelmente, todo grande suplício e terror devem levar a um lugar maravilhoso: é pena que no meio do caminho se cometa suicídio.

78 — O lugar do desespero — É um lugar sombrio, ermo; o seu céu é sempre turvo e esquisito, apresentando uma certa anormalidade no vento e uma brisa gelada: é o sopro da morte. Ouvem-se vozes, choros, gritos, prantos, desespero: é um lugar portador de terríveis dores e angústias. Em um passado, a morte e sua foice assombrou a gente daquele lugar, espalhando o terror pelos lares, fazendo com que mães matassem os filhos enforcados, maridos traíssem as esposas e depois matassem as amantes e a família, crianças se suicidassem pulando de grandes penhascos — sim: lá existia abismos profundos e assustadores, os quais sempre nos dizem que um lugar é demoníaco, que não serve para viver. Sempre que estamos lá, sentimo-nos tristes, como se todos aqueles que se foram ainda estivessem lá, espreitando-nos, sorrindo-nos maldosamente e prontos para incutir-nos o desespero, todo o desespero que causou a grande renúncia de outrora, a desilusão, a perca, os pesadelos... Não chore, minha querida, não chore: o que aconteceu? Os seus pais se foram? Onde eles estão? Ah, caíram no mar... Por favor, enxugue essas lágrimas: mesmo que não consigamos perceber um sentido, mas existe algo maior... A sua dor passará, um dia ela lhe deixará em paz.

79 — Racionalidade feminina — Algumas mulheres preferem sempre um “bom” casamento, isto é, uma junção com um homem rico, do que se casarem por amor ou paixão; entretanto, não é que elas sejam mais racionais do que as demais: o que ocorre é que elas não menos impetuosas, não são tão facilmente arrebatadas por paixões. Como consequência da falta de encanto por um homem, provocada pela carência de amor, elas passam a considerar outros “dons” masculinos, os quais terão peso em suas escolhas.